quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Charles Simic

Charles Simic



Charles Simic é uma frase.
Uma frase tem um princípio e um fim.

Ele é uma frase simples ou composta?
Isso depende das condições do tempo,
Depende das estrelas que estão por cima.

Qual é o assunto da frase?
O assunto é o vosso querido Charles Simic.

Quantos verbos há na frase?
Comer, dormir e foder são alguns dos seus verbos.

Qual é o sentido(1) da frase?
O sentido, meus lindos,
Não se vê ainda qual seja.

E quem está a escrever esta frase desajeitada?
Um chantagista, uma rapariga apaixonada
E um candidato a um emprego.

Terminarão com um ponto final ou um ponto de interrogação?
Terminarão com um ponto de exclamação e um borrão de tinta.



(Versão minha; original reproduzido algures por aqui; (1) Traduzo "object" por sentido, visto que a palavra inglesa pode significar "objecto", ou seja, "coisa", "matéria", mas também "objectivo", "fim", "intenção", bem como, num contexto gramatical (que é explicitamente o do poema), "complemento" (por exemplo, "direct object" será "complemento directo").

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Charles Simic

Guerra



O dedo trémulo de uma mulher
Corre a lista das baixas
Na noite do primeiro nevão.

A casa é fria e a lista é longa.

Todos os nossos nomes estão incluídos.



(Versão minha; original reproduzido algures por aqui).

terça-feira, 25 de junho de 2013

Jack Gilbert

Algumas palavras em defesa



Dor em todo o lado. Mortandade em todo o lado. Se bebés
não morrem de fome algures, morrem de fome
noutro lugar qualquer. Com moscas rondando-lhes as narinas.
Mas nós apreciamos as nossas vidas porque Deus assim o quer.
Se assim não fosse, as madrugadas de Verão não teriam sido
feitas de tal beleza. O tigre de Bengala não teria sido
concebido com tão miraculosa perfeição. As mulheres pobres
junto à fonte riem em comunhão no intervalo entre
o sofrimento por que passaram e o terror
que as espera no futuro, sorrindo e dando gargalhadas enquanto alguém
na aldeia está muito doente. O riso acontece
todos os dias nas horrendas ruas de Calcutá,
e as mulheres riem nas prisões de Bombay.
Se negarmos a nossa felicidade, se resistirmos à nossa satisfação,
diminuímos a importância das suas privações.
Devemos arriscar a alegria. Podemos prescindir do prazer,
mas não da alegria. Não da satisfação. Temos de ter
a teimosia de aceitar o nosso contentamento no impiedoso
forno deste mundo. Fazer da injustiça a única
medida da nossa atenção é louvar o Demónio.
Se a locomotiva do Senhor nos abater,
devemos agradecer porque no nosso fim houve magnitude.
Admitamos que haverá música apesar de tudo.
Cá estamos, de novo na proa de um pequeno navio estreito,
olhando para a ilha que dorme: a beira-mar
são três cafés fechados e uma luz nua que ainda arde.
Ouvir o débil som de remos quebrando o silêncio enquanto um barquinho
sai do porto e depois regressa vale realmente a pena
todos os anos de dor que estão por vir.



(Tradução inédita de Andreia C. Faria; o original pode ser consultado aqui).

domingo, 19 de maio de 2013

Vicent Andrès Estellès

Crónica especial



A morte de Manolete (1) nas folhas de um diário,
enquanto eu te esperava em Benimaclet.
Ou as execuções num pátio de Nuremberga
enquanto te via passar pela Rua das Barcas.
Um amor num tempo, que tempo!, oh que amor!
Um amor inscrito para sempre na história.
O "Mosteiro de Santa Clara" levantava-se no ar.
O Tyris (2) cheio de gente, o cheiro das gentes.
Os casais saíam, traziam as faces vermelhas.
As mães não sabiam o que fazer para o jantar.
Os pais ouviam rádios estrangeiras.
E todos pensavam que era coisa de quatro dias.
Ou, o mais tardar, de quatro semanas, quem sabe.
Os filhos faziam amor no vão das escadas.
O pai conversava com a mãe na cozinha.
A mãe envelhecia sobre grandes panelas absurdas,
branqueavam os cabelos sobre o osso da fronte.
Coisa de quatro dias ou de quatro semanas.
E passavam os dias, as semanas, os anos.
E a marcha de Mao pelo continente chinês.
Depois veio a Coreia. Depois veio o Vietname.
O pai morreu, morreu a mãe.
A filha casou-se com outro, anos depois.
Por vezes encontra-se com aquele primeiro amor.
Coisa de quatro dias ou de quatro semanas.
Como se entre eles não tivesse havido intimidade
no vão das escadas, falam dos filhos.
"O meu vai para o Liceu", "A minha tem sarampo".
Ganharam uma suja e triste civilidade.
De pé na rua, falam quando se encontram.
E cada um segue depois o seu caminho.
Oh o amor inscrito, que coisa, na história!



(Notas - (1) Toureiro espanhol, considerado por muitos como o maior de todos os tempos, morreu devido a uma cornada na coxa direita, a 29 de agosto de 1947. Franco ordenou três dias de luto nacional em Espanha. (2) Rio Túria (Valência).
 
 
(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor, reproduzida em Antología; selecção de Jaume Perez Montaner e Vicent Salvador, Madrid, 2ª edição, 2003, pp. 58-59).

terça-feira, 14 de maio de 2013

Vicent Andrès Estellès

Os amantes

                                                                            "A carne quer carne"
                                                                                         Ausías Marc



"Em Valência não havia dois amantes como nós".
Amávamo-nos ferozmente de manhã à noite.
Recordo tudo enquanto vais estendendo a roupa.
Passaram anos, muitos anos; aconteceram muitas coisas.
De súbito ainda me colhe aquele vento ou o amor
e rodamos sobre a terra entre abraços e beijos.
Não concebemos o amor como um costume pacífico,
um costume amigável de troca de cumprimentos e galanteios
(e que nos perdoe o casto senhor López Picó).
Como um velho furação, ele acorda repentinamente
e atira-nos aos dois ao chão, junta-nos, empurra-nos.
Eu desejava, às vezes, um amor educado,
com música de fundo, beijando-te negligentemente
agora um ombro, depois a ponta de uma orelha.
O nosso amor é um amor brusco e selvagem
e nós temos a nostalgia amarga da terra
e de ir aos trambolhões entre beijos e arranhões.
Que querem que faça? É assim, já o sei.
Ignoramos Petrarca e muitas outras coisas.
As Estâncias de Riba e as Rimas de Bécquer.
Depois, tombados na terra, de qualquer maneira,
compreendemos que somos bárbaros, e que isso não pode ser,
que já não temos idade, e tudo isto e aquilo.

Que já não temos idade, e tudo isto e aquilo.
Não havia em Valência dois amantes como nós,
porque amantes como nós são paridos muito poucos.



(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor reproduzida em Antología; selecção de Jaume Perez Montaner e Vicent Salvador; Visor, Madrid, 2ª edição, 2003, p. 57).

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Vicent Andrès Estellès

Gozo da rua

                                                                            Para Isabel



A pura alegria da rua
encheu-nos as mãos de ternos punhados de água,
e ríamo-nos, ríamo-nos como tolos,
e em todos os nossos músculos estava a água viva do gozo
vinda por entre as ervas e as lebres.
Íamos sem motivo,
desejando boa noite ao velho matrimónio
e oprimindo silenciosamente os nossos corpos ao vermos
aquela jovem mãe
dando mama ao filho...
Viver era para nós uma oferenda,
um pintassilgo de barro com duas penas pintadas de cores vivas,
um cavalgar em corcéis de cartão, verdes e amarelos,
como um carrossel,
acenando uns aos outros, dizendo: "Adeus, adeus, amor! Nunca te esquecerei!"
A vida era para nós uma surpresa,
uma rã viva no bolso,
uma enorme cúpula de cristal,
um silêncio, um desejo súbito, um estupor,
um relógio parado que Alguém nos tinha
dado para que no fim o pudéssemos abrir
como desde pequenos queríamos
e afinal nada havia de interessante lá dentro.
E voltámos a rir!
O tempo estava no ar. E estendemos as mãos
à procura de punhados de tempo. Mas o tempo também não estava ali!
Nada mais era a alegria da rua.
E os gritos
                 - "Golo!" -
dos miúdos que jogavam
futebol assim que saíam da escola...



(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor reproduzida em Antología; selecção de Jaume Perez Montaner e Vincent Salvador; Visor, 2ª edição, Madrid, 2003, pp. 35-36):

sábado, 27 de abril de 2013

Helen Farish em Paredes de Coura 2011



(Agradeço a Albano Ribeiro por me ter feito chegar este registo de uma leitura pública que incluiu um poema traduzido neste blogue).

sábado, 20 de abril de 2013

Mihály Ladányi (1934 - 1986)

Eu podia ter vivido alegremente



Eu podia ter vivdo alegremente
porque para isso tinha aptidão,
tinha a noite serena
e passava horas inteiras sem chorar.
Agora as noites lançam-me um nó corredio
e as minhas artérias apertam-me a garganta.

Se sou amargo, quem me faz amargo?
Vivo a minha vida,
tenho sempre pão e amante
e o vinho nunca escasseia no meu copo.

Já não estou só e abandonado, como os que gesticulam e suam,
os das palmas das mãos feitas de lata,
os que dormem em colchões húmidos.
Quando sigo pelas estradas
e numa taberna -onde se juntam camponeses-
me abeiro do balcão,
não há leis que digam
que para sempre ali devo ficar
ou chegando a manhã
de novo devo tomar a direcção da estrada.

Podia ter vivido alegremente
mas os pássaros aninham as suas crias
nas palmas da minhas mãos
e alguém atou aos meus pés
os caminhos.
Podia ter vivido alegremente
mas agora as casas constroem-se em mim
e retumbam em mim na sua destruição.
Sou de alguma coisa o instrumento,
sinto sempre sobre mim o grande olho ardente
e vou por aqui e por ali, à deriva, embora
pudesse ter vivido alegremente.



(Versão minha a partir da versão castelhana de Yolanda Ulloa reproduzida em Cincuenta poemas de quince poetas húngaros del siglo XX; selecção de András Simor, Izana Editores, Madrid, 2012, pp. 141-142).

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Miklós Radnóti (1909 -1944)

Como o touro



Até hoje vivi a minha vida como um jovem touro
que se aborrece entre vacas prenhes no calor do meio-dia
e corre em círculos para exibir a sua força;
e desdobra o estandarte espumoso do seu jogo
a partir da baba; e sacode a cabeça - denso, o ar corta-se
entre os cornos - enquanto os seus coices espalham
erva martirizada e terra no prado espantado.

Assim vivo como o touro, mas como um touro que de súbito
pára no meio de um campo constelado de grilos
e fareja o ar. E sente que na espessura do monte
estacou uma corça, alerta, e que de repente corre com o vento
que no seu silvo arrasta o cheiro da matilha.
O touro fareja o ar mas não foge como a corça
e pensa que, chegada a hora, lutará e cairá
e na paisagem a matilha dispersará os seus ossos.
Entretanto, triste, brama lentamente no ar denso.

Assim também eu luto, assim cairei e, para exemplo
de eras distantes, a paisagem conservará os meus ossos.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Fayad Jamís reproduzida em Cincuenta poemas de quince poetas húngaros del siglo XX, selecção de András Simor, Izana Editores, Madrid, 2012, pp. 74-75).

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Maxim Rilsky (1895 - 1964)

A arte de traduzir



A flecha avança por planícies desconhecidas.
Onde paira a ave? Hoje será um dia de sorte?
O disparo será preciso? Num precipitado turbilhão
As cercetas levantam voo instalando na alma a agitação.

Assim o livro imagina o seu horizonte
E nessas linhas, configuradas sobre o papel,
Tens de capturar com a destreza de um caçador,
Oferecendo-a aos teus congéneres, a essência do real.

Não é necessário matar! Cada analogia possui
O seu próprio limite: procura que as palavras
Não transformem a sua riqueza em ausência de sentido,

Que nelas permaneça vivo o pensamento
E que o espírito poético se manifeste sobre nós
Como algo íntimo, num sopro que vem do que é único.


(1940)



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Iury Lech reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo e selecção do tradutor; Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993. Com este poema assinalam-se cinco anos de Do trapézio, sem rede. Foi um imenso prazer. Vemo-nos por aí).

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Wolf Biermann

Um pouco de paz



Crianças que acordam
Mulheres que lavam roupa de manhã
Homens que escrevem poemas s  o  b  r  e:

Crianças
              que acordam

Mulheres
               que lavam roupa de manhã

Homens
             que escrevem poemas



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Michael Hamburguer reproduzida em East Germany Poetry - an anthology; selecção do tradutor; Carcanet Press, Oxford, 1972, p. 177).

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Reiner Kunze

O fim das fábulas



Era uma vez uma raposa...
o galo começou
a compor uma fábula

Mas percebeu
que não o podia fazer
se a raposa a ouvisse
viria ter com ele e apanhá-lo-ia

Era uma vez um lavrador...
o galo começou
a compor uma fábula

Mas percebeu
que não o podia fazer
se o lavrador a ouvisse
viria torcer-lhe o pescoço

Era uma vez...

Procurem-nas por aqui procurem-nas por ali
Descobrirão que não há fábulas em lado nenhum



(Versão minha minha a partir da tradução inglesa de Michael Hamburguer reproduzida em East Germany Poetry - an anthology; selecção do tradutor; Carcanet Press, Oxford, 1972, p. 123).

sábado, 26 de janeiro de 2013

Kurt Marti

Depois do desaparecimento da cidade de Berna



onde tranquilamente
a erva daninha
pode brotar

labirintos
de pedestais de cotos
sobre línguas rochosas
cheias de fetos e selva virgem

ainda assim às vezes
turistas procedentes de
áfrica ou da ásia
tropeçam nos lugares em ruínas

a guia revela-lhes
que em tempos aqui
existiu uma cidade
- BÖRN ou coisa parecida -

e a gente de cor inclina a cabeça
olha rapidamente em redor
tira também algumas fotos dos destroços
e mordisca biscoitos feitos em nairobi



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Hans Leopold Davi reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção e introdução do tradutor, Los Libros de la Frontera, s/d., pp. 97-99).

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Antoine Douaihy

Um átomo de vazio



Estou repleto de ti desde um extremo ao outro extremo do meu corpo, e o teu corpo afoga-se em mim sem deixar um só átomo para a razão, a memória, o sentimento consciente, a alma visionária. É possível que te tenha tragado? Ergue a tua mão para mim para que eu saiba que estás viva.
 
 
 
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río se incendia - Antología de la poesía libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, p. 35).

sábado, 19 de janeiro de 2013

Lisel Muller

Literatura americana



Poetas e escritores
movem-se para o interior do vazio
que Edward Hopper lhes deixou.
Instalam-se em espaços desprovidos
onde a luz foi purgada e descolorida até se tornar
numa espécie de branco-crânio, onde nada
cresce senão a ausência. Onde falta alguma coisa,
o homem pelo qual espera uma mulher,
ou a mobília num quarto
nu como uma cama de hospital
depois do doente ter morrido.
Estes interiores desolados
são aquilo que eles têm procurado,
os escritores, chegando aqui com a sua bagagem
feita de varas de vedores, os seus livros com badanas,
as suas difíceis fotografias de família,
as suas camas granulosas e a sua inclinação
para começar fogos em quartos vazios.



(Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 31).

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Jon Benito

[Pela terceira vez...]



Pela terceira vez
saio à tua procura.

Procuro-te
nos sítios onde te encontrei até ontem:
nos bares do costume, nos terraços, dando um passeio de bicicleta.

Hoje é dia de festa,
chove pela primeira vez no verão.

Não encontro abrigo para a minha solidão.
Queria encontrar-te debaixo de todos os guarda-chuvas.
Queria abraçar-te debaixo das arcadas.

Tenho vertigens só de pensar que
estás em algum sítio onde não estou.



(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos; edição bilingue: basco/castelhano; selecção/organização de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea, Madrid, 2005, p. 147).

domingo, 13 de janeiro de 2013

Marts Pujats

[Não é difícil...]



Não é difícil chegar a um qualquer lugar do mundo,
Avança até à água - olha, olha fixamente, depois nada.

Naquele tempo sentado numa rocha ardente eu disse-te:
A água é um músculo.

A água contrai-se sempre que tu dás as tuas braçadas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets; organização da tradutora, introdução de Juris Krombergs, Arca, Todmordem, 2011, p. 119).

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Matei Visniec

Uma manhã no parque



Durante as manhãs silenciosas impecáveis
costumo passear com o trompete debaixo do braço
pelo parque municipal

ponho-me de pé em cima de um dos bancos molhados
e sonhador começo a tocar
um homem e uma mulher detêm-se à minha frente
escutam perturbados, abraçam-se logo de seguida
e ele diz-lhe emocionado a partir de amanhã,
sim, a partir de amanhã, mudaremos o nosso modo de vida
trataremos de ser felizes iremos ao
cinema discutiremos arte
coleccionaremos postais pensaremos nas grandes verdades
dia após dia ao entardecer
apertaremos as mãos olhar-nos-emos olhos nos olhos
e a cada vinte e quatro horas
faremos uma boa acção
e no verão
oh, no verão
visitaremos de autocarro a Bulgária



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Angelica Lambru reproduzida em El muro del silencio - Antología de poesía rumana contemporánea, selecção e organização da tradutora, Huerga & Fierro, 2007, p. 162).

domingo, 6 de janeiro de 2013

Dorin Popa

Confissão em dezembro



pedi sempre ao outro, com dureza,
que olhasse as coisas de frente,
mas eu não as olhei

todas as minhas condenações
conservaram-se durante anos à minha frente
mas eu não soube segui-las
não soube segui-las
não soube compreendê-las
não pude decifrá-las
até ao fim

nunca
soube levar nada
até ao fim

só a juventude passa,
só a alegria passa,
só a vida passa,
só ela, a minha culpa inteira, perdura

nunca
soube levar nada
até ao fim

sempre pedi com dureza ao outro
que olhasse as coisas de frente,
mas eu voltei o rosto

e agora que nada espero
a minha esperança
é mais forte do que nunca



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Angelica Lambru reproduzida em El muro del silencio - Antología de poesía rumana contemporánea; selecção e organização da tradutora; Huerga & Fierro, 2007, pp. 150-151).

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Liviu Antonesei

Romance


                                                              Recordação de E. A. Poe



A flor da sua carne não voltarei a ver,
não voltarei a ver, não voltarei a ver
nunca mais
e ela a minha boca não quebrantará
não quebrantará, não quebrantará,
como tantas vezes,
inteira.

Os seus seios nus sobre a minha pele não voltarão,
não voltarão, não voltarão
jamais
e o meu coração para sempre errará
para sempre errará, para sempre errará
no deserto de pedra
áspero.

Na sua gruta não penetrarei mais,
não penetrarei mais, não penetrarei
jamais
e a minha carne morta será, morta será,
morta será,
despedaçada.

A flor da sua carne não voltarei a ver,
não voltarei a ver, não voltarei a ver
recostada
e o botão de rosa não me sorrirá,
não me sorrirá, não me sorrirá
nunca mais.

Nunca mais.
Nunca mais.
Assim grasnou o corvo feroz.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Angelica Lambru reproduzida em El muro del silencio - Antología de poesía rumana comtemporánea; selecção e organização da tradutora; Huerga & Fierro, 2007, pp. 35-36).

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Dieter Fringeli

Hoje



nada
nada mais
ainda nada mais
só tu
só eu
e nada no meio



(Versão minha a partir da tradução de Hans Leopold Davi reproduzida na Antología de la poesía suiza contemporánea, Los libros de la frontera, Barcelona, s/d., p. 245).

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Abu - L - Qasim al - Shabbi

A estranha narrativa



Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Lena Jayyuri e Naomi Shihab Nye reproduzida em The flag of childhood - peoms from the middle east; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, 2002, p. 32).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Merry Little Christmas

 

Alexandre Sarrazola - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - Luís Filipe Parrado - Manuel de Freitas - Miguel Martins - Renata correia Botelho - Vítor Nogueira - fotografia da sobrecapa de Bert Hardy - composição e paginação de Inês Mateus - Averno - Lisboa - 2012 - 23 páginas

sábado, 22 de dezembro de 2012

Silja Walter

O meu pequeno cão branco e eu



O meu pequeno cão branco e eu -
entrámos e saímos em todas as portas.
Procuramos-te a ti. Procuramo-nos a mim.
Choramos e passamos frio.

A chuva dá grandes voltas no largo.
Faz círculos em crescendo.
Não sei aonde vou nem onde estou
com o meu pequeno cão.

O mundo é grande. E tu és grande.
Onde terminam o caminho e a viagem?
Escuto o aguaceiro,
o meu pequeno cão ladra docemente.

Não te encontro. Não me encontro.
Contigo me perdi.
O meu cão olha entristecido
e aperto a minha cara contra as suas orelhas.



(Versão minha a partir da tradução de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção e introdução do tradutor, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., p. p.71).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Nós, os desconhecidos




A.M. Pires Cabral - A. Maria de Jesus - Alexandre Sarrazola - David Teles Pereira - Diogo Vaz Pinto - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - João Almeida - José Carlos Soares - Luís Filipe Parrado - Luis Manuel Gaspar - Manuel de Freitas - Marta Chaves - Miguel Martins - Renata Correia Botelho - Ricardo Álvaro - Rosa Maria Martelo - Rui Caeiro - Rui Miguel Ribeiro - Rui Pires Cabral - Vítor Nogueira - organização de Daniela Gomes e Rui Pires Cabral - capa de Luís Manuel Gaspar - composição e paginação de Inês Mateus - Averno - Lisboa - 2012 - 97 páginas.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Óscar Cruz

Síndrome de Kafka




cinco meses depois da morte
do meu pai ainda encontramos
quem chore por ele. o meu pai,
porém, teria preferido ser
esquecido. creio que foi por isso
que o esquecemos.



(Versão minha; original reproduzido em Dejar atrás el agua. Nueve nuevos poetas cubanos; edição e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 78).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Marina Aoiz Monreal

Nós


Os nós
albergam segredos perigosos.
No seu interior
escondem-se punhais invisíveis
dardos envenenados
que trespassam a luz
em lentíssimas sequências
quando alguém escreve a palavra mão
ou a palavra vida. Os nós
não oferecem consolo. Não possuem
o brilho de um anel de casamento
nem a brancura
do primeiro dente debaixo da almofada.
Os nós
dobram as suas asas de morcego
sobre si mesmos
e escondem-se nos lentos resquícios
da geada nocturna.
Para os enfrentar
há que beber
os raios do sol da meia noite,
beijo a beijo,
e despojar-se de tudo o que se aprendeu.
Só às apalpadelas
se pode rasgar um nó
nos tenebrosos aposentos.
Só a sós,
entre o frio e o nada.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros; selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesus Munárriz; Hiperión, Madrid, 2012, pp. 50-51).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Joseba Sarrionandia

Quarenta nomes para fazer um soneto



William Faulkner. Alice Liddell. Buster Keaton.
James Joyce. Marilyn Monroe. Stephen Crane.
Ambroise Bierce. Marcel Duchamp. Júlio Verne.
Franz Kafka. Herman Melville. André Breton.

Humphrey Bogart. Paul Klee. François Villon.
Jacques Brel. Ezra Pound. Louis Ferdinand Céline.
Nicholas Ray. Dante Alighieri. John Wayne.
Samuel Beckett. Jonathan Swift. John Huston.

Nazim Hikmet. Juliette Greco. Boris Vian.
Edgar Allan Poe. Vladímir Nabokov.
Hieronimus Bosch. Bram Stocker. Paul Celan.

Johan Huizinga. Jean Genet. Marcel Schwob.
Edgar Spencer Dogson. Vladímir Holan.
Edward Lear. Joseph Conrad. Vincent Van Gogh.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana reproduzida em El otro medio siglo - Antología incompleta de poesía iberoamericana; organização de Antonio Domínguez Rey e outros, Espiral Maior, A Coruña, 2009, p.p. 539-540. Nota: na versão que aqui utilizo (e única que conheço) como fonte da transposição para português dos nomes citados pelo poeta alguns destes surgem grafados erradamente - por exemplo, "Marcel Sohwob" ou "Vincent Vang Gogh". Presumo que se trate de um conjunto de gralhas, alheias à vontade do autor; optei, assim, por corrigir esses "erros". De resto, o próprio nome do poeta aparece escrito, nesta obra, de forma ligeiramente diferente daquela que já conhecia: "Sarrionaindia" em vez de "Sarrionandia"; mantenho esta última).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Kwang-kiu Kim

O nascimento de uma pedra



Nessas fundas ravinas das montanhas
- pergunto-me -
existirão pedras
que nunca ninguém visitou?
Subi à montanha
em busca de uma pedra que ninguém tivesse visto
desde os tempos mais remotos.

Debaixo dos antigos pinheiros
em encostas íngremes e intransitáveis
havia uma pedra
há quanto tempo
- pergunto-me -
há quanto tempo
esta pedra coberta de musgo
está aqui?

Dois mil anos? Dois milhões? Dois biliões?
Não
De modo nenhum
Se até agora nunca ninguém viu realmente
esta pedra
ela apenas existe
aqui
a partir deste momento
Esta pedra
nasceu só
no momento em que a vi pela primeira vez



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em This Same Sky - a collection of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p.111).

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Fernando Luis Chivite

Apontamentos para um manifesto futuro, 9



Sabemos demasiadas coisas.

Sabemos tantas coisas que estamos presos
pelas coisas que sabemos.

Há armas que angustiam
quem as possui. A razão tem cárceres.

Sai daí, sê diurno. Não interrompas
a luz. Apaga a tua marca.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros. Selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesús Munárriz; Hiperión, Madrid, 2012, p. 98).