Harvard, Yale, não têm problemas em arranjar corpos,
tal como outras prestigiadas faculdades de medicina, mas escolas
menos afortunadas por vezes têm uma evidente falta de cadáveres
para desenvolverem o seu trabalho vital e sombrio: não se pode
usar um mais do que uma vez. Quanto aos cadáveres haitianos,
são os melhores naquilo que os cadáveres fazem melhor:
ficam sossegados na mesa anatómica para que os futuros
cirurgiões os possam dissecar. Uma vez resolvidos
os problemas de importação (os práticos: câmaras frigoríficas
de navios de pesca fora de serviço; os legais: poucos
antecedentes), o negócio é bom,
é mesmo visionário: 50.000 dólares americanos por peça,
o abastecimento é garantido, nunca escasseia, e a mais valia
que torna tudo tão suave - um verdadeiro
e inultrapassável sonho - é o estado em que se encontram
os corpos: tão magros, todos tão magros
que os órgãos estão mesmo rente à pele, esses órgãos
feitos para a lâmina com assombrosa tranquilidade.
(Versão minha; original reproduzido em New and selected poems (1975-1995), Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 111).
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