
quarta-feira, 9 de março de 2011
sexta-feira, 4 de março de 2011
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Ricardo Castro Ferreira
sábado, 26 de fevereiro de 2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
sábado, 23 de outubro de 2010
Marlene Dumas
Eu sou a mulher que já não sabe
onde quer ser sepultada.
Quando era pequena, queria um anjo enorme no meu túmulo
com asas como num quadro de Caravaggio.
Mais tarde achei isso demasiado pomposo.
E então pensei que preferia uma cruz.
Depois pensei - uma árvore.
Eu sou a mulher que já não sabe
se quero ser sepultada.
Se já ninguém vai a cemitérios
se vocês já não me visitam lá
também sou capaz de deixar as minhas cinzas num frasco de compota
e ser mais transportável.
Mas voltemos à minha exposição aqui.
Disseram-me que as pessoas querem saber
porquê um título tão sóbrio para uma mostra?
Trata-se de algo sobre artistas a meio da sua carreira,
ou é sobre mulheres depois dos cinquenta danos?
Não. Quero deixar isto claro:
É a melhor definição que consigo encontrar
para aquilo que um artista faz quando se trata de arte
e para o modo como uma figura deixa a sua marca num quadro.
Para o tipo de retratista como eu
isto é tão longe quanto consigo alcançar.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Charles Baudelaire
Muitas vezes, por pura diversão, os marinheiros
Apanham albatrozes, enormes pássaros marítimos,
Que acompanham, de viagem indolentes companheiros,
O navio vogando sobre os amargos abismos.
A custo eles são largados sobre as pranchas,
Esses reis do azul, tímidos e desajeitados,
Humildemente deixando cair suas enormes asas brancas
Como soltos remos pelo chão arrastados.
Esse viajante alado, como anda desajeitado num limbo!
Ele, outrora tão belo, como é cómico e desleixado!
Um espicaça-lhe o bico com o seu cachimbo,
Outro, coxeando, imita o que voava, agora aleijado.
O poeta é como o príncipe das nuvens
A rir-se do arqueiro e a tempestade a afrontar;
Exilado na terra e na algazarra dos homens,
As suas asas de gigante impedem-no de andar.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Peter Meinke
O homem que inventou as rosas de plástico morreu.
Reparem na sua importância:
as suas flores imperecíveis e imaculadas nunca murcham
mas resolutamente velam o seu túmulo através da escuridão.
Ele não compreendeu a beleza nem as flores,
que enredam os nossos corações em redes suaves como o céu
e nos prendem com um fio de horas efémeras:
as flores são belas porque morrem.
A beleza sem o seu lado perecível
torna-se seca e estéril, um palco abandonado
com uma floresta de enganos. Mas a realidade
dá razão à invenção deste homem; ele conhecia a sua época:
uma visão do nosso tempo impiedoso revela-nos
homens artificiais cheirando rosas de plástico.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Charles Baudelaire
Um te acende, Natura, com ardor,
Outro em ti depõe um luto banal.
Aquele que diz algo sepulcral
A outro gritará: vida e esplendor!
Hermes desconhecido, que me assistes
E que agora e p'ra sempre me intimidas,
Tu que me vais tornando igual a Midas,
O mais triste dos alquimistas tristes.
Através de ti transmudo ouro em ferro
E o paraíso ponho a fogo e ferro;
Naquelas nuvens compondo um sudário
Descubro um cadáver onde amando erro,
E num celeste espaço portuário
Edifico amplo jardim mortuário.
Tradução de Ricardo Castro Ferreira.
***
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Juan Luis Panero
Provoca uma certa melancolia,
uma tristeza decadente – seguramente literária—
como certas canções de entre guerras
ou páginas soltas de Drieu La Rochelle,
ver um homem só, afastado e distante,
no balcão de um bar com uma decoração cosmopolita.
Nessa idade incerta, tão incerta como a luz ambiente,
em que já não é jovem e contudo ainda não é velho
mas traz nos seus olhos a marca da sua derrota
quando com um gesto estudado acende um cigarro.
Muitos copos e muitas camas,
uma indubitável barriga mal dissimulada pela camisa,
o tremor, não muito visível, da sua mão segurando um copo,
fazem parte do naufrágio, da ressaca da vida.
Um homem que espera sabe deus o quê
e, inspirando o fumo, olha com declarada indiferença
as garrafas à sua frente, os rostos reflectidos por um espelho,
tudo com a particular irrealidade de uma fotografia.
E causa, ainda mais triste, um fundo suspiro reprimido,
ver no fundo desse copo – mágico caleidoscópio –
que esse homem és irremediavelmente tu.
Não resta então senão um sorriso céptico e distante
– aprendido muito cedo e útil anos mais tarde –,
e acabares a bebida de um só trago,
pagares a conta enquanto chamas um táxi
e dizeres-te adeus com palavras banais.
...
(Versão inédita de Ricardo Castro Ferreira; deste poema existem, pelo menos, duas outras traduções para português: de Joaquim Manuel Magalhães - em Poemas, Relógio D' Água, 2003, p. 33 - e de António Cabrita e Teresa Noronha - em Antes que chegue a noite, Fenda, 2000, p. 35 -).
sexta-feira, 7 de maio de 2010
(Hors-série)
Mito reciclado de Orfeu e Eurídice
(...) no último instante,
Orfeu lembrou-se do seu canto,
o qual era para si bem mais valioso que mil Eurídices.
Olhando para trás,
fixou a beleza silenciosa da amada e decidiu imortalizá-la nos seus versos,
enquanto via,
serenamente,
a sombra de Eurídice desaparecer (...)
abraço"
(Ricardo Castro Ferreira colaborou anteriormente neste blogue com estes dois trabalhos de tradução).
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Bertolt Brecht
(3 excertos)
(...)
Não importa
A forma como olhas.
Mas aquilo que viste
E aquilo que revelas, isso importa.
Vale a pena saberes aquilo que sabes.
Observar-te-ão
Para ver quão bem observaste.
Mas aquele que apenas se observa a si mesmo
Nada ganha do conhecimento dos homens.
Demasiadamente de si esconde a si mesmo.
E nenhum homem é mais sábio do que ele próprio.
Logo, a tua aprendizagem deve começar no meio
Das vidas das outras pessoas. Transforma na tua primeira escola
O teu local de trabalho, a tua casa,
O lugar a que pertences,
A loja, a rua, o comboio.
Observa todos quantos o teu olhar alcance.
Observa os desconhecidos como se te fossem familiares
E aqueles que conheces como se te fossem estranhos.
(...)
Para observares deves aprender a comparar.
Para poderes comparar
Deves já ter observado.
Da observação nasce o conhecimento.
Mas é necessário conhecimento para observar.
Aquele que não sabe
O que fazer da sua observação
Observará erradamente.
O cultivador olhará para a macieira
Com um olhar mais apurado do que o transeunte errante.
Mas só quem sabe qual é o destino do homem
Pode com exactidão ver o homem.
(...)
Observa tudo isto atentamente.
Depois, a partir de todos os trabalhos suportados
Cria, então, no centro do teu espírito imagens
Desabrochando e crescendo como movimentos na história.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Harold Pinter
"Células cancerígenas são aquelas que se esqueceram de como morrer", enfermeira do Hospital Royal Marsden
Esqueceram-se de como morrer
E assim alastram sua vida assassina.
Eu e o meu tumor amavelmente lutamos.
Esperemos evitar uma morte dupla.
Preciso de ver morto o meu tumor
Um tumor que se esquece de morrer
Planeando ao invés o meu estertor.
Mas eu lembro-me de como morrer
Apesar de mortas minhas testemunhas.
Mas eu lembro-me do que disseram
De tumores capazes de as tornar
Tão cegas e tontas quanto tinham sido
Antes do nascer dessa doença
Que trouxe o tumor até à cena.
As negras células hão-de secar e morrer
Ou cantar alegremente e seguir o seu mister.
Noite e dia tão suave é o seu crescer,
Nunca se sabe, não o vão elas dizer.



