domingo, 26 de abril de 2026

Francisca Aguirre

 Nunca vos direi que sim


Não me digam que não é possível.
Ao menos, não o digam.
Deixem-me 
como se deixa o louco na sua fantasia.
Deixem-me com a minha obstinação de bicho irracional
a quem a lógica não se aplica.
Não me digam que não.
Não me digam nada.
Já sei, já sei que tudo
pode ser explicado.
Eu sei, mas não importa.
Sei, mas é inútil.
Nunca vos direi que sim.
Nunca.
Gosto, simplesmente,
do meu coração antiquado,
da minha teimosa loucura.
Simplesmente.
Gosto de ser assim.


[En voz alta - Las poetas de las generaciones de los 50 y los 70 (antología); organização de Sharon Keefe Ugalde; Hiperión, Madrid, 2007, pp. 295-296]

terça-feira, 21 de abril de 2026

Besik Kharanauli

 A mãe


Já tínhamos saído,
mas esquecemo-nos de qualquer coisa e voltámos para trás,
e quando abrimos a porta e entrámos em casa
vimos que ela estava sozinha, sentada à mesa,
a descascar uma maçã.


[Poesía Georgiana Contemporánea; organização, selecção e tradução de Lana Kalandia e Rodolfo Häsler; Huerga & Fierro, Madrid, 2023, p. 30]

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Ben Clark

 Cidade Universitária


Algo funciona bem neste campus.
É a erva.
Não são os corpos macios, tão perdidos
na manhã obtusa do desejo.
Não são estas palavras; não é a água
desta fonte danificada e venenosa.

É a erva.

Cresce sem esperança e cresce verde,
constante, compassiva.
E há momentos em que se ergue
e viaja no meio de pastas e apontamentos inúteis
sobre matérias mortas. É a erva.
Dolorosa e paciente. O seu consulado e o seu leito.
A erva verde e triste.
Ode à juventude recém cortada.


[Armisticio (2008-2018); Sloper, Palma de Mallorca, 2019, p. 11).



sexta-feira, 17 de abril de 2026

Javier Rodríguez Marcos

 É assim, a beleza


É assim, a beleza
mede-se ao milímetro.
Tal como o gelo quer
ser só água corrente,
a beleza mede-se por milésimos
de segundo, por mícrones.
Não por eternidades.
Não em toneladas, grandes
cumes, espaços
que intimidam. Decide-se
sempre no photo
finish, não no sublime. Nunca.
No fim a beleza
afirma-se por uma diferença mínima.
Praticamente zero. Não há muito
a acrescentar. Quem nunca viu
a lua, distraída,
sobre os edifícios,
sobre a névoa tóxica,
a rasgar a sujidade do céu
numa segunda-feira às dez
da manhã?


[Original aqui]





quarta-feira, 15 de abril de 2026

Karin Boye

 O desejo de um pintor


Queria pintar um pedaço mínimo
do dia mais esforçado, lasso e triste,
com a luz do fogo que tornou possível
que do Criador surgisse o mundo inteiro.
Queria mostrar que o desprezado
é santo e profundo e véu do Espírito.
Queria pintar uma colher de pau
e que o homem intuísse aí o Divino.


[Karin Boye, Brotar duele; selecção e comentários de Theodor Kallifatides; tradução de Carmen Montes; Galaxia Gutenberg, Barcelona, 2025, p. 34]


domingo, 12 de abril de 2026

Bohumil Hrabal

 [Eu costumava pensar...]


Eu costumava pensar
que no amanhecer da primavera
os pássaros saudavam com o seu canto a chegada
do sol e da luz.
Hoje sei que nesses poucos minutos da manhã
gritam aterrorizados pela claridade.


[Asesinatos rituales; selecção e tradução de Monika Zgustova, Galaxia Gutenberg, Barcelona, 2024, p. 56]