terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Miguel d' Ors

 A cotovia de Shelley


                                      Traduzido de Thomas Hardy


Em algum lugar olvidado, longe daqui,
entregue a uma terra esquecida e cega,
jaz o que inspirou o canto de um poeta:
um montinho de pó ignorado e perdido;

o pó da cotovia que Shelley escutou
e que imortalizou sobre todos os tempos
- ainda que tenha vivido o mesmo que outro pássaro
qualquer e não tenha sabido da sua imortalidade -.

Viveu a sua leve vida, e caiu um dia
- apenas uma porção de penas e ossinhos -,
e como pereceu, quando cantou a sua despedida
ou onde se desfez são coisas ignoradas.

Talvez repouse neste barro que contemplo agora,
talvez palpite no verdor de alguma murta
ou durma na cor emergente de uma baga
das ladeiras de uma paisagem remota.

Ide procurá-la, fadas, e trazei
essa pisca de pó inestimável,
e fazei de prata um cofre guarnecido
com ouro e pedras preciosas engastadas,

e nele guardaremos, preservada,
e para sempre a veneraremos
porque permitiu que um bardo conquistasse,
com pensamento e música, as alturas do êxtase.



(Versão minha; poema incluído em La imgen de su cara, Editorial Comares, Granada, 1994, pp. 46-47).

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

José Agustín Goytisolo

 Agravo público



O General foi um homem odiado
e aqui continua ainda a sua estátua equestre:
é revoltante, e não pela sua crueldade,
antes porque nunca montou a cavalo.



(Poema incluído por José Luis García Martín em Poesís española: 1982-1983. Crítica y antología; Hiperión, Madrid, 1983, p. 168).


domingo, 3 de janeiro de 2021

Janet Frame

 Sou invisível


Sou invisível.
Sempre fui invisível
como a pobreza num país rico,
como os ricos nos seus quartos escondidos nas suas casas com muitos quartos,
como as pulgas, os piolhos, como o que cresce debaixo da terra,
os mundos para além do céu, o vento, o tempo, as ideias -
o catálogo da invisibilidade é inesgotável
e, dizem, não é boa poesia.

Como as decisões.
Como qualquer outro lugar.
Como as instituições afastadas da estrada que se chama Scenic Drive.

Chega de comparações. Sou invisível.
Num mundo cheio de gente com visão binocular feitas as contas faço parte da maioria
enquanto tu e eu caminhamos com a nossa pequena lua crescente visitando a nossa obscuridade pessoal
através de um mundo no qual as decisões de ser ou não ser
são controladas pela luz
assistidas pelas lágrimas e o sonho da desatenção ou a morte.

Sou invisível.
Os amantes atravessam a minha vida para se tocarem,
a chuva que cai sobre mim atravessa-me como sangue sobre a terra.
Nenhuma cabeça me concebe como conhecimento.
Para dizer a verdade,
outorgo liberdade àqueles que dançam.
Assim é. Não há ninguém aqui para observar nem escutar dissimuladamente,

e então aprendo mais do que tenho direito a saber.



(Versão minha a partir do original e da tradução espanhola de Irene Artigas incluída em Sueños de lirios - Antología de poetas locos; selecção de Óscar Ayla; introdução de María Castrejón, Huerga & Fierro, Madrid, 2018, pp. 199-200).

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Rafael Alberti

 [Os quadros dormem?...]



Os quadros dormem? Dormem? Se eu entrar
sigilosamente, esta noite, no museu,
dormirás tu, duquesa sem vestido?
E tu, Diana, a do seio descoberto ao ar,
fugirias comigo para os jardins?


***


[A estas horas em Roma...]


A estas horas em Roma e em uníssono
a cantar despertávamos sempre
um melro e eu.
Chegada já a luz ele lançava-se em voo
da escura laranjeira daquele pátio,
eu dos meus solitários lençóis,
para, os dois, nos perdermos,
cada um por si,
já no interior do dia.


***


[Chove no comboio]


Chove no comboio.
A chuva é uma viajante.
Vai viajando nos vidros, só.
De súbito, irrompe o sol.
E a chuva desce num qualquer povoado.


***


[A lua já se vai...]


A lua já se vai, pequena, só, triste,
por entre as nespereiras.



(Versões minhas; os poemas originais foram incluídos por José Luis García Martín em Poesía española: 1982-1983 - crítica y antología; Hiperión, 1983, Madrid, pp. 151-152).

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Danusha Laméris

 Insha' Allah



Não sei quando é que resvalou para dentro do meu discurso
esta suave expressão que significa "Se Deus quiser".
Insha' Allah vou estar contigo no próximo verão.
O bebé vai chegar na primavera, insha' Allah.
Insha' Allah este ano teremos chuva em quantidade suficiente.

Foram tantos os planos que fiz tão facilmente
desfeitos como tranças sob os dedos da minha mãe.

Todas as línguas deveriam ter uma expressão para isto. Uma expressão
que as nossas avós proferiam em voz baixa
enquanto levantavam a roupa branca, embebida em limão,
e a estendiam ao sol para secar, ou quando descascavam batatas
atirando as peles cortadas para uma tigela.

"Os nossos filhos hão-de regressar no mês que vem, insha' Allah.
Insha' Allah esta guerra vai acabar em breve. Insha' Allah
o arroz será suficiente para durar todo o inverno."

Com que ligeireza aprendemos a ter esperança,
como se ela fosse um animal disposto a virar-se
e a morder-nos a mão. E ainda assim carregamo-la
como fazem as mães, cuidadosamente,
levando-a de um dia para o seguinte.



(Versão minha; original aqui).


sábado, 12 de dezembro de 2020

Maran al Masri

[Tenho medo de morrer...]



Tenho medo de morrer
sem escrever um poema belo,
sem me reconciliar com quem me aflige,
tenho medo de morrer com a roupa interior suja.

Tenho medo de morrer sem oferecer os presentes que guardo no armário,
tenho medo de morrer sem dar todo o meu amor aos que amo
aos meus irmãos
aos meus filhos
aos meus netos
ao homem que ame verdadeiramente.

Tenho medo de morrer com um beijo na boca
tenho medo de morrer
sem ver a paz na Síria.



(Versão minha a partir da tradução de António Martínez Castro incluída na Antología de poesía femenina contemporánea, organização de Virginia Fernández Collado, Fondo Kati, 2ª ed., p. 221).



domingo, 6 de dezembro de 2020

Kayal Ahmad

 Não quero flores



Não quero flores,
nenhum tempo de união,
nenhum amanhecer de desunião.
Não quero flores
porque eu sou a mais bela flor.
Não quero beijos
se por uma boneca verdadeira
tenho de suportar um qualquer homem  -
nenhum tempo de casamento,
nenhum amanhecer de divórcio,
nenhuma febre de viúva.
Não quero beijos
se, ao longo do amor, me converto em mártir.
Não quero lágrimas
sobre o caixão ou sobre mim, o cadáver.
Não quero uma cerejeira de simpatia
agarrada às paredes do meu túmulo,
nem beijos, nem flores,
nem lágrimas ou desgraças.
Nada trazer.
Nada manter.
Morro como uma pátria sem bandeira, e sem voz.
Estou agradecida.
Não quero nada.
Não aceitarei nada.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Mohsen Emadi, incluída na Antología de poesía femenina contemporánea; organização de Virginia Fernández Collado, Fondo Kati, 2ª edição, p. 195).

domingo, 1 de novembro de 2020

Scott Wiggerman

 Johnsburg



No alto da colina, uma igreja
católica e a sua torre, com pináculos góticos,

mais abaixo, uma estação de serviço com uma bomba,
um belo salão com uma janela panorâmica,

na cidade um só sinal de stop para quatro vias,
uma loja de conveniência, a montra com bicicletas,

e três tascas encharcadas de fumo,
os seus balcões da mesma madeira sólida

de que são feitos os bancos duros da igreja,
só que mais gastos, mais polidos.



(Versão minha; original aqui).

domingo, 25 de outubro de 2020

Raúl Gómez Jattin

Daquilo que sou



Neste corpo
no qual a vida já anoitece
vivo eu
O ventre flácido e a cabeça calva
Poucos dentes
E eu cá dentro
como um condenado
Cá dentro e apaixonado
e velho
Decifro a minha dor com a minha poesia
e o resultado é especialmente doloroso
vozes que anunciam: aí vêm as tuas angústias
vozes quebradas: os teus dias já passaram

A poesia é a única companhia
habitua-te às suas facas
pois é a única



(Versão minha; original reproduzido em Sueños de lirios. Antología de poetas locos; organização de Óscar Ayala, introdução de María Castrejón; Huerga & Fierro, 2018, p. 222).


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Atukuri Molla (século XVI)

 [Tal como o mel...]



Tal como o mel
nos deleita no instante
em que o levamos à boca
um poema terá de se entender
à primeira.
Sons e sentidos pouco claros
não dizem muito mais do que um mudo
diz a um surdo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana incluída na antologia En qué estabas pensando? Antología de Poesía Devocional de la India, Siglos V-XIX; organização e tradução de Jesús Aguado, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 2017, p. 272).



sábado, 10 de outubro de 2020

Valeri Mikháilov

 O vinho



Homero era cego e bebia o que lhe ofereciam:
Vinho simples diluído com água,
As musas amaram-no firmemente
Pela sua moderação.

Sócrates era mais sábio que todos os outros,
Só sabia que nada sabia.
Bebia aos poucos, nunca ficava bêbado,
Só bebeu até ao fundo a sua cicuta.

Omar Khayyam era um bêbado famoso.
Mas só nos versos, não na realidade.
Pelo que Alá concedeu-lhe uma coroa digna
E encheu os seus dias de alegria.

Logo chegaram outros tempos:
Apareceu o álcool, serpente de olhos verdes,
Rimbaud e Verlaine beberam como loucos,
Baudelaire não parava e delirava com demónios.

A Europa sacudia a nossa barca,
E até a Rússia começou a beber.
Como um inimigo, Yesenin aniquilava a vodka,
O rei do vinho arrastou Blok.

E do nosso século o melhor é não falar.
Todos bebem até à morte,
Como se fosse a derradeira batalha.
Pelos vistos ninguém teme o Juízo Final,
Mas este já não está longe...


[2007]



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Alexandra Cheveleva Dergacheva e Iván Martín Cerezo incluída na Antología de la poesía moderna en Kazajstán, Visor, 2019, p. 127).


domingo, 4 de outubro de 2020

Olzhás Suleiménov

[Houve mulheres no meu ombro...]
 


Houve mulheres no meu ombro,
houve mulheres no meu peito.
Mas no meu coração
houve só uma.
No meu coração simplesmente, apenas uma.
Tudo lhe cai bem:
a tristeza nos olhos,
os cabelos sedosos,
a boca dura e caprichosa,
o gelo desnudo dos dentes,
o suave rumor dos dedos,
e a sua estatura adolescente,
os seus trinta e quatro anos de idade.
Tudo lhe cai bem.
Que bem que lhe cai tudo!...



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Joaquín Torquemada Sánchez incluída na Antología de la poesía moderna en Kazajstán; Visor, Madrid, 2019, p. 75)

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

F. Scott Fitzgerald

 Princeton, o último dia



A luz derradeira flutua e declina sobre a terra,
A terra ampla e rasa, a terra radiante dos pináculos.
Os fantasmas da noite afinam de novo as liras
E erram, cantando, numa melancólica banda
Ao longo dos extensos corredores de árvores. Fogos pálidos
Ecoam pela noite de torre em torre.
Oh sono que sonha e sonho que nunca se cansa,
Retirai das pétalas da flor de lótus
Alguma coisa de tudo isto, a essência de uma hora!

Já nada se pode esperar da luz crepuscular da lua
Neste vale sequestrado por estrelas e pináculos;
Para nós, a eterna manhã do desejo
Perde-se no tempo e na tarde terrena.
Aqui, Heráclito, construíste com fogo
E coisas mutáveis a tua profecia atirada para longe,
Para os anos desaparecidos; nesta meia-noite desejo
Ver, reflectidos nas brasas, enredados
Nas chamas, o esplendor e a tristeza do mundo.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Jesús Isaías Gómez López incluídos em Sueños de Lirios - Antología de poetas locos; selecção de Oscar Ayala; introdução de María Castrejón; Huerga & Fierro, Madrid, 2018).


sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Kadyr Myrzá Alí

Os nossos ancestrais



Dizem: os nossos antepassados, que viviam a vida
Como se caminhassem sobre as chamas,
Tinham coisas boas e más:
O que era mau, andavam sem cessar em transumância,
O que era bom, as estepes livres maravilhavam-nos.
O que era mau, deixavam-se levar pela má-língua,
O que era bom, a sua linguagem era rica e cheia de matizes.
O que era mau, não sabiam usar a enxada,
O que era bom, sendo bons atiradores,
Manejavam com perfeição as suas lanças.
O que era mau, aprenderam tarde a ler e a escrever,
O que era bom, criaram belas kuis*.
O que era mau, vendiam as filhas em troca de gado,
O que era bom, roubavam as suas amadas.
O que era mau, não eram bons comerciantes,
O que era bom, não enganavam ninguém.
O que era mau, casavam com as noras,
O que era bom, não abandonavam as viúvas.
Com os vizinhos conviviam em harmonia.
Juntos sobreviviam ao frio, suportavam penúrias.
O mau é que não construíam casas.
O bom é que não erigiam prisões!



(*Kuis: género musical tradicional casaque estreitamente vinculado às crenças e rituais religiosos).

(Versão minha a partir da tradução castelhana de Alexandra Dergacheva e Iván Martín Cerezo incluída na Antología de la poesía moderna en Kazajstán; Visor, Madrid, 2020, p.14).

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Philip K. Dick

 Uma serpente antiga



A filosofia é uma velha teia
Abandonada há muito; Os sonhos
Que a aranha teceu no seu interior
Brilham debilmente durante a noite
E sob o sol são só isto:
Fragmentos de folhas de pavor.



(Versão minha a partir do original da tradução castelhana não assinada incluída em Sueños de lirios - Antología de poetas locos; selecção de Oscar Ayala, introdução de María Castrejón, Huerga & Fierro, Madrid, 2018, p. 151)


terça-feira, 8 de setembro de 2020

Charles Dickens

 Canção das larvas de Gabriel



Maravilhosos aposentos, maravilhosos aposentos,
Uns palmos de terra fria quando a vida acabou;
Uma pedra à cabeça, outra pedra aos pés,
Um rico e suculento banquete para os vermes digerirem;
Dispõe erva por cima e argila húmida em volta,
Maravilhosos aposentos, estes, em terra santa!



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana reproduzida em Sueños de lirios - Antología de poetas locos; selecção de Oscar Ayala, introdução de María Castrejón, Huerga & Fierro, Madrid, 2018, p. 155)

sábado, 5 de setembro de 2020

Tumanbay Moldagalíev

 O cordeiro órfão


Levo os cordeiros todos juntos num punhado
E canto uma cantilena do avô pastor.
Parece que todo o pasto segue a melodia,
Oh, cânticos, cânticos, quantos havia.
Mas um cordeiro órfão mostra-se mais assustadiço que os restantes,
Colares de lágrimas congelaram-se-lhe nos olhos.
Também ele segue para a aldeia
Em correria com os outros.
Não o perdia de vista, dava-me pena.
Era espevitado, destro, rápido como todos.
Balem as ovelhas e os cordeiros ao encontrarem-se,
Como se não se vissem há um ano, não há um dia.
Ali mesmo vai o meu órfão infeliz,
Dá um gemido e com o focinho golpeia os úberes das ovelhas,
Corre para diante o pobre, bale timidamente,
Olha-me e continua a corrida.
O pobre orfãozinho corre e bale:
Será que nenhuma mãe alguma vez o mimou?
E neste mesmo instante eu gostaria de converter-me na sua mãe,
Alegrá-lo, abrir-lhe os braços.
O dia chegou ao fim e todos os cães pastores dormem,
As estrelas do céu iluminam tudo.
E só o balido de um órfão
Se ouve uma e outra vez sob a lua.
Eu não posso bater as asas livremente,
Pesados pensamentos rasgam-me ao longo da noite.
E como um cordeirinho branco dispus-me a procurar uma mãe,
Se for preciso corro o mundo inteiro.


(Versão minha a partir da tradução castelhana de Guillermo de la Puerta, incluída na Antología de la Poesía Moderna en Kazajstán; Visor, Madrid, 2020, p. 45).

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Kadyr Myrzá Alí

Primeiro canto lírico



O invejoso morre para
Não sentir mais a sua ansiedade.
Batyr* morre na batalha
Cumprindo o seu dever.

Os bandidos morrem quando
Não conseguem sacar o punhal.
As belas morrem nos enlaces,
Afogadas na emoção.

O corcel morre na estepe.
O pó estende-se atrás dele.
O poeta morre, maravilhado,
E o seu verso não o pode salvar.



*Batyr: guerreiro épico casaque.


(Versão minha a partir da tradução castelhana de Alexandra Cheveleva e Iván Martín Cerezo incluída na Antología de la poesía moderna en Kazajstán; Visor, Madrid, 2020, p. 15).

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Raúl Gómez Jattin

Exorcismo



Os habitantes da minha aldeia
dizem que sou um homem
desprezível e perigoso.
E não andam muito enganados.

Desprezível e perigoso.
Isso fizeram de mim a poesia e o amor.
Senhores habitantes
Tranquilos
que só a mim
costumo causar dano.



(Versão minha; original reproduzido em Sueños de lirios - Antología de poetas locos; selecção de Óscar Ayala, introdução de María Castrejón, Huerga & Fierro, Madrid, 2018, p. 223).

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Ivan Hobson

O nosso vizinho



Todas as famílias que viviam no nosso pátio
tinham uma carrinha de caixa aberta
com um autocolante do sindicato na traseira

e, em miúdo, eu admirava-as
tal como, julgava, os nossos soldados
deviam ter admirado Patton
e os tanques Sherman.

Uma vez disseste-me
que os russos não conseguiriam conquistar-nos,
não com cidades como as nossas,
cheias de ferro e de trabalhadores temperados
pelos fornos das fundições e das fábricas.

Não foram os russos que vieram;
foi o contrato, a greve,
as sucessivas dispensas que foram rebentando
até que chegou a tua vez.

Continuo a lembrar-me de ti
a carregares as coisas para partires,
o autocolante do sindicato raspado
com uma espátula,

as pontas da lona branca estendida
sobre a caixa da carrinha
a adejar enquanto te afastavas.



(Versão minha; original reproduzido aqui).

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Karen Head

Proximidade



O jovem gambá que anda à procura de alimento
do lado de fora da janela do meu escritório
não parece nada preocupado com a minha presença -
afinal de contas, quem foi apanhado na ratoeira fui eu.
Petisco umas amêndoas, observo-o
a mordiscar tudo o que encontra
e, embora me sinta inclinada para partilhar,
sei que a simples abertura da janela
irá mudar o mundo.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Kabir (1440-1518)

"Colhe aqui aquilo de que precisas..."



Colhe aqui aquilo de que precisas.
Mais à frente os caminhos
estão impraticáveis.

Loucos, querem
ir ao céu fazer as suas compras.
Não sabem que no céu não há lojas
nem sequer vendedor.


***


"Tens, Amigo, a morte..."



Tens, Amigo, a morte
pousada na cabeça.
Desperta de vez!
Como podes dormir
de modo tão profundo
estando a tua casa
situada numa rua tão ruidosa?




(Versões minhas a partir das traduções castelhanas de Jesús Aguado incluídas em En qué estabas pensando? Antología de Poesía Devocional de la India, Siglos V-XIX; organização e tradução de Jesús Aguado, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 2019, p. 207 e pp. 210-211)



quinta-feira, 23 de julho de 2020

Lal Ded (ou Lalla) (Século XIV)

Não esbanjes a tua luz...



Não esbanjes a tua luz com um idiota.
Não partilhes o teu açúcar com um burro.
Não lances as tuas sementes
à areia de um rio.
Não deites o azeite no farelo
destinado às vacas.


***

Represar a inundação...



Represar a inundação.
Apagar um incêndio desbocado.
Caminhar pelo ar.
Ordenhar uma vaca de madeira.

Qualquer vigarista pode fazer isso.



(Versões minhas a partir das traduções castelhanas de Jesús Aguado incluídas em En qué estabas pensando? Antología de poesía devocional de la India, Siglos V-XIX; organização e tradução de Jesús Aguado, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 2017, p. 142).

terça-feira, 21 de julho de 2020

Jedara Dasimayya (Século X)

Apanha um pau, divide-o...



Apanha um pau, divide-o em duas partes.
Na de baixo talha uma mulher,
na de cima um homem.
E fricciona-as, fricciona-as
até acenderes um fogo.

Então, Ramanatha*,
esclarece-me esta dúvida:
é masculino ou feminino o fogo?



* Ramanatha: literalmente, "o Senhor de Rama". Shiva adorado por Rama, herói da epopeia mais importante da Índia, o Ramayana.

(Versão minha a partir da tradução castelhana de Jesús Aguado incluída em En qué estabas pensando? Antología de Poesía Devocional de la India, Siglos V-XIX; organização e tradução de Jesús Aguado, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 2017, p. 78).

sábado, 18 de julho de 2020

Kurt Brown

O beijo



Esse beijo que não fui capaz de te dar.
Como poderás perdoar-me?
O beijo que eu teria dissipado em ti ainda
Aí está, dentro de mim. Provavelmente morrerá aí.
Mas será a última parte de mim a morrer.


(Versão minha; original aqui).

domingo, 12 de julho de 2020

Marjorie Saiser

A impressão que as baleias fazem



Tu e eu apercebemo-nos no barco
da impressão que as baleias deixam,
o grande anel que os seus mergulhos desenham
durante algum tempo na superfície.
Será assim quando nos
perdermos um ao outro? Não sei
nem posso saber. Mas
quero acreditar que
quando não pudermos mais
atravessar uma sala
para um abraço, quando não pudermos
mais cair nos braços um do outro,
haverá sempre isto:
algum traço que se demora
enquanto o corpo enorme
permanece em baixo, sem se ver,
uma sombra escura e gigantesca,
um golpe de barbatana,
um corpo de deleite
a mergulhar para o fundo.



(Versão minha; original aqui)

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Robert Bly

Por que não morremos



Nos fins de setembro muitas vozes
Dizem-te que vais morrer.
Aquela folha diz-to, aquela frescura.
Todas têm razão.

As nossas inúmeras almas - que
Podem elas fazer acerca disso?
Nada. Elas são já
Parte do invisível.

A verdade é que as nossas almas
Têm estado ansiosas por voltar
A casa. "É tarde", dizem elas,
"Fecha a porta, vamos andando."

O corpo não concorda. E diz
"Enterrámos uma pequena bola
De ferro debaixo daquela árvore.
Vamos lá buscá-la."



(Versão minha. Original aqui).

sexta-feira, 3 de julho de 2020

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Manuel Vilas

A aula de língua



Abatimento em metade de uma turma de adolescentes.
Queria estar noutro sítio, mas onde.
Rico e célebre em longas viagens pelo mundo.
Também eles não cumprirão as suas ilusões.
Salta à vista: sem talento, sem inteligência,
sem família com posses, sem beleza,
sórdida classe média-baixa da democracia
a quem foi prometida uma educação intranscendente.
Ensina-lhes, ao menos, a desejar a vida
com força, com justiça, com dignidade,
com as palavras duras que a sós aprendeste.
Ajuda-os a imaginar a ruína nada discreta
em que acabarão convertidos.
Os tristes afazeres das suas vidas são já um escândalo.
Diz-lhes que só a verdade com palavras justas
defende da verdade abandonada à sua sombra.



(Versão minha; original reproduzido em Hacia la democracia. La nueva poesía (1968-2000); organização de Araceli Iravedra, Visor, 2016, p.694).