domingo, 26 de setembro de 2021

Mario Trejo

Gatsby blues 



Tenho amor e dou-o
Alguém sente a minha falta
Outros precisam de mim
Tenho recordações imortais
E esquecimentos de rodas que giram em sentido contrário

Penso toda a razão
E sinto como um místico
O meu Eu fez as pazes com o Outro

Só me faltam 900.000 dólares para ser feliz



(Versão minha; Poesía argentina - Antología esencial; selecção de Marta Ferrari; Visor, Madrid, 2010, p. 231).

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Karmelo C. Iribarren

 As coisas



Dizem que as coisas
não falam,
mas o armário range, a torneira goteja
e a escova dos dentes
pode fazer-te sangrar.
Não falemos das chaves
que se perdem,
do guarda-chuva que se esquece
ou da carteira que te roubam.
Quem nos garante que não o desejavam
há muito
tendo em conta a forma como as tratamos.
Andam por aí, as coisas, servindo-nos
e são felizes ao fazê-lo.
Mas também nos observam.
Algumas continuarão cá
quando não estivermos,
e falarão de nós.



(Versão minha; El escenario; Visor, Madrid, 2021, p. 49).

sábado, 18 de setembro de 2021

Jorge Calvetti

 Epitáfio da cidade de Esteco



Construída pelos homens
desgastada pelo vício
e desfeita por Deus,
eu fui Esteco.
Gentes de ouro e lascívia
e o orgulho púrpuro do pecado
apoderaram-se de mim.
Os pumas, o vento e o matagal crescem hoje
onde o prazer alçou o seu canto...!



(La poesía del siglo XX en Argentina - Antología esencial; selecção de Marta Ferrari; Visor, Madrid, 2010, p. 80.)

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Mohammed Achaâri

 Preocupações literárias



Qual é a forma menos dolorosa?
Quais são as palavras menos amargas?
Qual é o tempo menos frágil?
Qual é o lugar menos desolado?
Qual é o começo menos confuso?
Qual é o final menos horrível?
Qual é a fórmula menos cortante?
Qual é a pergunta menos estúpida?
Qual é a resposta menos falsa?
Qual é a despedida menos lacrimosa?
Qual é o silêncio menos pesado
e a marcha com a franquia mais baixa
para acabar com estas extravagâncias?



(Versão minha a partir da versão castelhana apresentada em La poesía marroqui - De la independencia a nuestros días (Antología); selecção de Abdellatif Laâbi, Idea, Tenerife, 2006, p. 55).

Sun Yün-Teng

 O caminho pela garganta de Wu



O caminho sobe em ziguezague até 
Lá acima, sobre os remoinhos
Vertiginosos. As águas dos rápidos quebram-se
Contra as rochas escarpadas. Com a 
Brisa vespertina chega o som da 
Flauta que um rapaz toca no
Regresso a casa com um boi. As últimas
Gotas de chuva misturam-se com
A nuvem que o hálito do meu cavalo gera.
A erva nova cresce sobre as
Antigas muralhas. Nos monumentos
Abandonados as inscrições
Antigas remontam a tempos remotos.
Condenada a uma viagem sem fim à vista,
Não consigo suportar o canto do cuco.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Carlos Manzano da tradução inglesa de Kenneth Rexroth e Ling Chung, incluída em El barco de orquídeas - Poetisas de China; Gadir, Madrid, 2007, p 89.



A Senhora Hua Jui (Século X)

O Imperador pergunta por que se rendeu o meu marido



O meu Senhor levantou a bandeira da rendição
por sobre a cidade do Imperador.
Recolhida no canto mais profundo dos aposentos
das mulheres, como posso entender
que cento e quarenta mil soldados tenham deposto
as armas? A única coisa que posso dizer
é que não havia entre eles um só homem.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Carlos Manzano da tradução inglesa de Kenneth Rexroth e Ling Chung, incluída em El barco de orquídeas - Poetisas de China; Gadir, Madrid, 2007, p. 43).

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Roque Dalton

 O descanso do guerreiro



A cada dia que passa os mortos estão mais indóceis.

Antes com eles era fácil:
dávamos-lhes um colarinho engomado com uma flor
louvávamos-lhes os nomes numa longa lista:
pois que os gabinetes da pátria
pois que as sombras notáveis
pois que o mármore monstruoso.

O cadáver assinava em nome da memória
punha-se de novo na fila
e marchava ao compasso da nossa velha música.

Mas algo aconteceu
os mortos
são outros desde então.

Agora mostram-se irónicos
perguntam

Parece-me que se deram conta
de que são cada vez mais a maioria!



(Versão minha; poema incluído em Nuestra poesía en el tiempo (uma antología); selecção e prólogo de Antonio Colinas; Siruela, Madrid, 2009, p.597).

domingo, 1 de agosto de 2021

Gerry Murphy

 A minha vida como estalinista



"Lacaio do capitalismo!",
gritei eu para o meu pai por cima da mesa do jantar,
durante uma discussão sobre a viabilidade
do Segundo Plano Quinquenal,
ou o regresso de Fianna Fáil ao governo,
ou o meu desgraçado relatório escolar
- ou, provavelmente, por causa de todos estes assuntos.
A conversa engasgou-se num impasse
e, por alguns momentos, fez-se silêncio.
A reacção do meu pai foi uma gargalhada,
própria de quem sabia muito bem que eu só em parte
alcançava o significado do mal direcionado insulto.
"Tens jeito para os "slogans", meu rapaz,
mas tens de aprofundar um pouco mais
as leituras que os sustentam."
"Melhor ainda, volta ao teu amado Estaline
e estuda os seus volumosos ensaios
sobre estas questões e os seus métodos de lidar
com "reaccionários", "sabotadores" e "lacaios",
depois podes vir ter comigo
e chamar-me o que te apetecer".



(Versão minha; poema do livro My life as a stalinist; Southword, Cork, 2018, p. 24).



segunda-feira, 26 de julho de 2021

Huang O (1498-1569)

 Para a melodia "A queda de um pequeno ganso selvagem"



Noutros tempos eu era jovem e sedutora
E bamboleava-me por aqui
E por ali no nosso quarto perfumado
Com orquídeas. Tu e eu juntos
E embrenhados atrás das cortinas de
Gaze da nossa cama impregnada
De incenso. Estremeci nos teus braços.
Levavas-me no teu coração
Por onde quer que andasses. De súbito
Uma bala derrubou a fêmea
Do pato-mandarim. A música da
Cítara de jade foi esquecida.
As fénix tiveram de separar-se.

Estou só na minha casa
Repleta de primavera e
Tu estás longe, a fazer amor
Com outra, ambos felizes
Como dois peixes na água.
Aquela vaquinha insuportável
Com as suas artimanhas de coquete!
O melhor é que não se esqueça de que
Esta puta velha ainda é muito capaz
De lhe fazer uma bela cena, bem furiosa.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Carlos Manzano da tradução inglesa de Kenneth Rexroth e Ling Chung, incluída em El barco de orquídeas - Poetisas de China; Gadir, Madrid, 2007, pp. 73-74).

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Paul Morand

Recordação de Ístria



Sou um estrangeiro no meu país;
o meu país é estrangeiro para os outros países;
sou estrangeiro para os dois estrangeiros
que vivem dentro de mim como numa casa alugada.
Olha este mar e estes estaleiros;
azul e negro é uma harmonia
que os Persas, dizem, não desdenharam.

Aqui existia a reserva das feras do Circo Hagenbeck.
Todos os animais nascidos após
o domínio italiano parecem doentes.
Menos os macacos:
têm os olhos de quem já leu tudo,
nos seus ventres de tordilho
há um pirulito rosado
que faz rir as esposas dos armadores que apanham enguias.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Marie-Christine del Castillo, incluída em Oda a Marcel Proust y otros poemas; Renacimiento, Sevilha, 2007, p. 121).

sábado, 17 de julho de 2021

Francisco Villaespesa (1887 - 1936)

 Humildade



Mostra um pouco de amor pelas coisas:
pelo musgo que acalma a tua fadiga,
pela fonte que a tua sede mitiga,
pelas pedras e pelas rosas.
Em tudo encontrarás uma beleza
virginal, um prazer desconhecido...
Acerta o ritmo do batimento
do teu coração com o coração da Natureza.
Recebe como um santo sacramento
o perfume e a luz que te dá o vento...
Quem sabe se o seu amor nele te envia
aquela que a vida transformou...!
E sê humilde, e lembra-te que um dia
te há-de cobrir a terra que pisaste!



(Versão minha; original incluído em Nuestra poesía en el tiempo (Una antología); selecção e prólogo de Antonio Colinas; Siruela, Madrid, 2009, p. 381).

terça-feira, 13 de julho de 2021

Ernesto Mejía Sánchez

 Vita arsque poetica



Baptizo as palavras,
ponho nomes aos nomes. Digo
a noite e o significado é uma
pomba. Imagino o leopardo
e os teus olhos choram. Sofro a luz,
o dia, e ganho a impureza.
Desenho mais um rosto, Deus
meu!, sobre o teu. Escrever
um poema é como recordar
o futuro. É conceber um filho
no túmulo. Gravo o teu nome
e confunde-se com o meu.
Que pai repentino sou
nesse mesmo instante. Que
deus sobre este muro ando
a macular desde que nasço.
Este é o meu testamento, o meu
baptismo, à tua imagem e semelhança.



(Versão minha; poema incluído em Nuestra poesía en el tiempo (Una antología); selecção e prólogo de Antonio Colinas; Siruela,Madrid, 2009, pp. 498-499).

sábado, 10 de julho de 2021

Paul Morand

 [Para que tantas coisas más]



Para que tantas coisas más,
que ainda persistem, fossem destruídas,
era preciso devastar 
tantas coisas boas que nunca mais existirão?



(Versão minha, a partir da tradução castelhana de Marie-Christine del Castillo incluída em Oda a Marcel Proust y otros poemas; Renacimiento, Sevilha, 2007, p. 38).

terça-feira, 6 de julho de 2021

Gerry Murphy

 Canibal



A primeira vez 
que provei carne humana
tinha dez anos.
Deu-se durante uma discussão
com o meu irmão mais velho, de doze anos,
quando ele rebaixou
os meus adorados Beatles,
dizendo que eram exageradamente valorizados
e só para cretinos.
Perdi a cabeça,
fui-me a ele
e arranquei-lhe um pedaço considerável
de carne do ombro,
parte do qual
- cartilagem muito provavelmente -
ficou presa entre os dentes.
Seguiram-se uivos e rangidos
até que a minha mãe interveio.
Ficou tão chocada
com aquilo que eu acabara de fazer
que se esqueceu de me bater
e mandou-me directamente para a cama
sem jantar.
Mas, dah!, eu já tinha comido.



(Versão minha; original incluído em My life as a stalinist; Southword editions; Cork, 2018, p.17).

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Diana Der-Hovanessian

 O segredo da vida



Uma vez durante a guerra
no autocarro para Portsmouth
um operário das oficinas navais
revelou-me o segredo da vida.

O segredo da vida, disse ele,
nunca poderá ser transmitido
de uma geração para outra.

O segredo da vida, disse ele,
é a fome. Faz-te estender a mão.

O segredo da vida é o dinheiro.
Mas só as moedas pequenas.

O segredo da vida, disse ele,
é o amor. Tornas-te naquilo que perdes.

O segredo da vida, disse ele,
é a água. O mundo vai acabar
num dilúvio.

O segredo da vida, disse ele,
é a circunstância.

Se apanhares o autocarro certo
no momento certo
vais sentar-te ao lado
daquele que te vai revelar o segredo,

sussurrando-to
ao ouvido.



(Versão minha; original reproduzido em What have you lost?; poemas escolhidos por Naomi Shihab Nye; Greenwillow Books/Harper Collins, Nova Iorque, 2001, p. 160).

domingo, 27 de junho de 2021

Gerry Murphy

 Oh pelo amor de Deus



A fralda de pano
está fria, molhada, cheia.
Tenho três meses
e estou já a viver a minha primeira
- lanço os foguetes e apanho as canas -
crise existencial.

E só estamos em 1953!



(Versão minha; original incluído em My life as a stalinist; Southword editions, Cork, 2018, p.10)



domingo, 23 de maio de 2021

Manuel Vásquez Montalbán

 Verão e fumo



Já sabemos o que custa
vencer a resistência tenaz
de duas pernas unidas
                                    o sabor
de um certo hálito amargou de madrugada
o ar nas nossas fauces
e o corpo descobriu-se amolecido ao despertar
ou triste fez queixas devido a um frio caído no esquecimento

e no entanto
mais de uma vez as árvores tornam-nos outonais,
a rua brilha debaixo da chuva amarela,
damos lume a um solitário que erra
pelo molhe
                    e assobiamos uma melodia
vulgar, já tarde, quando os veleiros
mentem sobre os portos ansiados e o ar
salino não pergunta
                                quem
quem não teme perder o que não ama?



(Versão minha; poema incluído em Poesía completa - Memoria y deseo (1963-2003); Visor, Madrid, 2018, p. 75). 

sábado, 15 de maio de 2021

Lars Huldén

 [Dois sábios...]



Dois sábios enredavam-se numa disputa sobre
a idade da árvore sob cuja sombra
se haviam sentado. Solucionaram o conflito
à maneira clássica:
cortando a árvore.
Ao fazerem a contagem dos anéis anuais observaram
que um se havia aproximado um pouco mais da verdade
que o outro.



(Versão minha a partir da tradução espanhola incluída em Veintidós poetas finlandeses; tradução e selecção de Francisco J. Uriz e Juan Capel; prólogo de Lars Huldein, 2014, Saragoça, p. 89).

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Joseba Sarrionandia

 Voltar a casa



Com os mapas do tesouro debaixo do braço
                            deixei a minha casa e avancei
pelos esconderijos do medo em busca
                                                do canto das sereias.

Na encontrei na viagem mais do que lascas
                                                cinzentas de pederneira
e ninhos nojentos de melros no mais recôndito
                                                das selvas obscuras.

Quando o tempo esgotou o caminho
                                           e regressei a casa,
era nova a madeira da porta e
                                           a fechadura tinha sido mudada.



(Versão minha; poema incluído em La poesía está muerta; tradução do basco pelo autor; edição bilingue basco/espanhol; selecção de Eva Linazasoro; Pamiela, Arre, 2016, p. 29).

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Benjamín Prado

 Escrito em Lisboa



Dizia que se escreve porque existir não chega
e que passou incógnito pela sua vida;
que ser poeta era a sua forma de estar sozinho
e que se sentia sempre
"vencido como alguém que sabe a verdade".

Ao lado da sua estátua
contei a Maria que Pessoa sonhava
estar longe, apartado de quem era;
que construía ruínas
                                e que alguns o designavam
como o arquitecto do inacabado.

Acreditava que esconder-se significava ser livre
e que fechar os olhos o separava do medo:
"- Troca por vinho o doce amor que não terás."

Ontem vim a Lisboa
porque era a cidade desse homem triste
que só lutava para fugir ao combate;
que pensou que quem cala é dono do silêncio;
que não precisava de mais do que seis palavras
para contar a sua história:
"invejo todos porque não são eu";
e hoje parto seguro de que não trocaria
os seus versos negros pela marca branca
do teu anel na minha pele.

Prefiro estar contigo e que me esqueçam
a escrever uma obra prima na qual conte
que ainda não te encontrei
ou que já te perdi.



(Versão minha; Acuerdo verbal - Poesía completa (1986-2014); Visor, 2ª edição, 2018, pp.427-428).

sábado, 24 de abril de 2021

Blanca Varela

[Poemas. Objectos da morte. Eterna...]



Poemas. Objectos da morte. Eterna imortalidade
da morte. Algo como um gotejar febril e
nocturno. Poesia. Urina. Sangue.

Morte fluente e perfumada. Grande ouvido de
deus. Poesia. Silenciosa algaraviada do coração.



(Versão minha; original incluído em Antología La poesía del siglo XX en Perú; selecção de José Miguel Oviedo; Visor, Madrid, 2008, p. 420).

terça-feira, 20 de abril de 2021

Pranabendu Dasgupta

 Despida



Da palavra retiro a pulseira do tornozelo,
soará por si mesma.

A memória das pessoas está no interior da casa -
o que há lá fora? Os animais, mais gente, o jogo infinito.

A palavra acolhe tudo?

Se o interior é assim tão forte
para que será necessária
a música elaborada?

A língua bengali evolui a cada momento;
há que retirar-lhe então a pulseira acessória 
que lhe tilinta no pé,

deixar que soe o jogo do pé descalço.



(Versão minha a partir da tradução castelhana incluída em La pared de agua - Antología de poesía bengali contemporánea; organização e tradução de Subhro Bandopadhyay, adaptação de Violeta Medina; Olifante, Saragoça, 2011, p. 95).

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Rómulo Bustos Aguirre

 Nevermore



- Toc,toc, toc...
- Quem é?
- Orfeu
- O que desejas?
- Que me devolvam Eurídice
- O que ofereces em troca?
- Cantarei de modo que as pedras me sigam e as gazelas suspendidas detenham o seu voo
- Esse é um truque gasto, Orfeu. Já não satisfaz os Senhores da Morte.

Orfeu, penando em redor das portas do Hades, esgota todos os oferecimentos. Finalmente os deuses, num gesto entediado, transformam-no num corvo. 
É esse corvo que adeja incessante no poema de Poe.



(Versão minha; poema integrado no livro Casa en el aire; Pre-Textos, Valência, 2017, p. 59).

terça-feira, 6 de abril de 2021

Roma Não Perdoa a Traidores


(Mais informações aqui)

 



segunda-feira, 5 de abril de 2021

Hama Tuma

 Perseverança



Vivi acima das minhas possibilidades,
rasgando os limites da vida,
recusando-me a "pôr-me no meu lugar"
- ou a aceitar o meu destino.

A lua é andrajosa,
o meu firmamento está todo esburacado,
tenho fome e sede, e estou farto
de enterrar corpos debaixo do céu.

Mas pelo menos vivi
acima das minhas possibilidades,
recusando-me a pôr-me no meu lugar
- ou a dobrar-me diante do meu destino.




(Versão minha a partir da tradução inglesa incluída em Songs we learn from trees - An anthology of ethiopian amharic poetry; selecção/organização de Chris Beckett e Alemu Tebeje; Carcanet, Manchester, 2020, p. 247).


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Marvin Bell

Estar apaixonado



por alguém que não está apaixonado
por nós, estás a ver a minha situação.
Estar apaixonado por ti, que não estás
apaixonada por mim, percebes o meu dilema.
Estar apaixonado pela ideia de estares apaixonada
por mim, o que não acontece, compreendes

o problema. Estar apaixonado pelo teu 
modo de estar, podes imaginar como é duro.
Estar apaixonado pelo teu modo de seres tu,
mesmo que o teu modo de seres tu não seja o de estares
apaixonada por mim, podes julgar como é e compadeceres-te
por eu estar apaixonado por ti. Estar apaixonado

por alguém que não está apaixonado é ficar a saber
tudo sobre estar apaixonado quando estar apaixonado
é estar apaixonado por alguém que não está
apaixonado por ti, que é o que significa
estar apaixonado, o que tu sabes muito bem,
Minha Paixão, que é estar apaixonado pelo estar apaixonado.



(Versão minha; original incluído em The invisible ladder; organização de Liz Rosenberg; Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 8).

sábado, 27 de março de 2021

Hanadi Zarka

 Não há sítios maus para se dar um beijo



Ele disse-lhe que a rua
não era o seu lugar preferido para trocar beijos
mas ela insistiu

Não há sítios maus para nos beijarmos.



(Versão minha a partir da tradução francesa de Maram al-Masri incluída na Anthologie des femmes poètes du monde arabe; selecção de Maram al-Masri; Le Temps des Cerises, Montreuil, 2019, p. 30).

terça-feira, 23 de março de 2021

Dorianne Laux

 Em defesa dos estranhos



Seja qual for o peso, o desgosto,
o nosso dever é carregá-lo.
Erguemo-nos e seguimos em frente, força obtusa
que nos empurra através das multidões.
Eis o jovem que me indica a direção
tão avidamente. A mulher que segura a porta de vidro aberta
e aguarda com paciência que o meu corpo vazio passe.
E isto o tempo todo, cada gesto de bondade
desencadeando outro - um estranho
que canta para ninguém enquanto avanço, as árvores
que oferecem a sua floração, a criança
que levanta os olhos amendoados e sorri.
De algum modo vêm sempre ter comigo, parece
que estão apenas à espera, protegendo-me
de mim própria, daquilo que me impulsiona
tal como os deve ter impulsionado em algum momento -
esta tentação de darmos um passo atrás frente ao abismo
e cairmos sem peso, para longe do mundo.



(Versão minha; original aqui).

segunda-feira, 15 de março de 2021

Vojislav Karanovic

 O primeiro poema



"Toda a gente tem de ser alguma coisa" -
era o título do meu primeiro poema,
escrito aos sete anos.

O primeiro verso coincidia com esse título,
seguiam-se mais versos empolgados
sobre como toda a gente tem de ser alguma coisa:

"alguém tem de ser médico,
alguém tem de cortar a relva,
alguém tem de escrever poemas"

e outros do mesmo género
dos quais agora já não
me lembro.

O poema acabava com um verso
idêntico ao primeiro:
"Toda a gente tem de fazer alguma coisa".

Enquanto fazia as limpezas, o meu pai
atirou o poema fora, como um bocado de papel
que acumula pó.

Pensei nisto muitas vezes,
por vezes sentindo pena,
até que percebi:

o papel com as palavras do poema
pode ser rasgado, desprezado,
ou atirado ao fogo

que isso não afecta o poema. Ele é
como um ser humano: pode estar perdido,
vaguear por aí, morrer, mas não desaparecerá.



(Versão minha, a partir da tradução inglesa de Biljana D. Obradovic, incluída em Cat painters - An anthology of contemporary serbian poetry; organização de Biljana D. Obradovic e Dubravka Djuric, Diálogos Books, 2016, pp. 233-234).

domingo, 7 de março de 2021

Yassin Adnane

 Os poetas



São assim os poetas!
As mulheres que os desejam
são menos belas
que as amantes dos cantores
e das estrelas de futebol
As secretárias das administrações
não têm por eles qualquer consideração
e as locutoras do primeiro canal
mal os suportam
Até os empregados de mesa
das tabernas infames
servem-nos quase sempre de má vontade

Só os chicotes dos verdugos
os reconhecem
Só as balas dos cobardes



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Antonio Álvarez de la Rosa incluída em La poesía marroquí - De la independencia a nuestros días (Antología); selecção de Abdellatif Laâbi, Idea, Tenerife, 2006, p. 62).