sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Ilya Kaminsky

 Durante a guerra fomos felizes



E quando as casas dos outros foram bombardeadas, nós

protestámos
mas não o suficiente, opusemo-nos mas não

o suficiente. Eu estava
na minha cama, em redor da minha cama a América

estava a desabar: casa invisível a seguir a casa invisível a seguir a casa invisível.

Pus uma cadeira cá fora e olhei o sol.

No sexto mês
do desastroso reinado na casa do dinheiro

na rua do dinheiro na cidade do dinheiro no país do dinheiro
o nosso grande país do dinheiro, nós (perdoem-nos)

fomos felizes durante a guerra.



(Versão minha; original aqui).

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Nicolás Guillén

 Digo que não sou um homem puro



Não vou dizer-te que sou um homem puro.
Entre outras coisas
falta saber se o puro existe.
Ou se, digamos, é necessário.
Ou possível.
Ou se sabe bem.
Por acaso já provaste a água quimicamente pura,
a água do laboratório,
sem um grão de terra ou de esterco,
sem o pequeno excremento de um pássaro,
a água feita apenas de oxigénio e hidrogénio?
Bah! que nojo.

Não te digo pois que sou um homem puro,
não te digo isso, pelo contrário.
Amo (as mulheres, naturalmente,
pois o meu amor pode dizer o seu nome)
e gosto de comer carne de porco com migas,
e grão-de-bico e enchidos, e
ovos, frangos, carneiros, perus,
peixe e marisco,
e bebo rum e cerveja e aguardente e vinho,
e fornico (mesmo de estômago cheio).
Sou impuro, que queres tu que te diga?
Completamente impuro.
No entanto,
penso que há muitas coisas puras no mundo
que não são mais que pura merda.
Por exemplo, a pureza do nonagenário virgem.
A pureza dos noivos que se masturbam
em vez de se deitarem juntos numa pousada.
A pureza dos colégios internos onde
a fauna pederasta
abre as suas flores de sémen transitório.
A pureza dos clérigos.
A pureza dos académicos.
A pureza dos linguistas.
A pureza dos que asseguram
que temos de ser puros, puros, puros.
A pureza dos que nunca tiveram blenorragia.
A pureza da mulher que nunca lambeu uma glande.
A pureza daquele que nunca sugou um clítoris.
A pureza da que nunca pariu.
A pureza do que nunca procriou.
A pureza do que golpeia o peito, e
diz santo, santo, santo,
quando é um diabo, diabo, diabo.
Enfim, a pureza
de quem não chegou a ser suficientemente impuro
para saber o que é a pureza.

Ponto final, data e assinatura.
Assim o deixo escrito.



(Versão minha. Fonte: Poesía cubana del siglo XX; selecção e notas de Jesús J. Barquet e Norberto Codina; prólogo de Jesús J. Barquet; Fondo de Cultura Económica, San Lorenzo (México), 2002, pp. 130-131).

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Kenneth Rexroth

 Veados



Os veados são gráceis e delicados
e têm olhos doces.
Não magoam ninguém para além de si,
os machos, e só por amor.
Os homens inventaram milhares
de maneiras de os matar.



(Versão minha. Fonte: aqui).

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Jorge Aulicino

 Coloristas



Há nesse bosque de Cézanne
a impressão de que esse bosque não está
nem esteve.
Não porque seja sonho, enredo de sonhos,
mas porque está pintado em parte
numa tela,
em parte no nada e - em grande parte -
no local onde vimos um bosque.



(Versão minha. Fonte: La doble sombra. Poesía argentina contemporánea; selecção de Antonio Tello e José Di Marco; Vaso Roto, Madrid, 2014, p. 47).

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Rafael Felipe Oteriño

 A partir desta idade



A partir desta idade vê-se tudo:
vê-se a margem impetuosa,
vê-se o fulgor das colinas,
vê-se o pátio onde tudo acontece,
vêem-se as portas que ninguém abre,
vêem-se os desertos que ninguém celebra;
vê-se o mar e vê-se a espuma do mar,
vê-se o rio que vem da infância,
vêem-se as nuvens correndo leves mais além,
vê-se a lua e o esplendor da caverna
- o cume como um pensamento inacabado - 
vê-se o centro do mundo sem se mudar de lugar,
vê-se por cima e por baixo, à direita e à esquerda, com os olhos fixos,
e vêem-se nítidos, feitos de espanto e liberdade,
os nossos pés desnudos no ar
sem encontrarem nunca a terra firme que procuram.



(Versão minha. Fonte: Nueva poesía argentina; selecção e introdução de Leopoldo Castilla, Hiperión, Madrid, 1987, p. 63).

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Ilyas Zhansuguirov (1894-1938)

 Nevão



Um nevão maciço tapa-nos com a sua neve.
O frio intenso revela-se bem duro.
Ao rés do vento as ovelhas avançam,
as suas cabeças protegem-se na direção das correntes de ar.
A neve vai aumentando, esconde-se em si mesma
e ressurge incessante.
Apoia-se no teu cajado junto às tuas ovelhas.
Taímas o indigente treme.
Tem uma pedra de afiar atada a uma corda.
O seu avental de feltro reluz enquanto se arrasta.
Entre as costas e o peito abre-se lentamente.
Os joelhos brilham debaixo das calças.
O seu corpo arrefece à medida que se move.
O vento silva, sopra asperamente.
A neve acumula-se congelando-lhe o pescoço.
Pingentes de gelo aparecem-lhe pendurados na barba.
Com o seu gorro de raposo e o sobretudo quente,
Duisek o rico está ao frio na colina
e grita: "Leva para longe esse rebanho das ovelhas!"
Fazendo-se passar por dono de Taímas,
vocifera em altas vozes:
"Que não te aproveite o que roubaste, cão!",
e prossegue, grasnando entre os corvos.



(versão minha. Fonte: Antología de la poesía kazaja contemporánea (Siglos XIX, XX y XXI); selecção de Justo Jorge Padrón; Ediciones Vitruvio, Madrid, 2017, p. 97).

domingo, 12 de dezembro de 2021

Jorge Aulicino

 O muro dos fuzilados



O problema do muro dos fuzilados
é que está em qualquer sítio.
Não se pode dizer: foi aqui,
aqui caiu Pancho, ali González,
mais além, com espuma sangrenta nos lábios,
Enrique gritou "viva a Revolução".
Não se pode dizer esta é a parede,
aqui, estes ladrilhos talvez estejam
salpicados de sangue.
Os fuzilados apostam que não é o momento
de morrer fuzilado.
Um caiu com os olhos abertos,
outro, duro como um tronco:
à força de disparos
só então a história se ilumina.
Só então, por um instante.
Mas esse não é o jogo.
O jogo prossegue, há outros dados,
não revelem a ninguém o muro
dos fuzilados.
Os fuzilados não querem monólitos
nem pedras nem o quadro dos fuzilados.
Os fuzilados queriam que se dissesse "não sei"
se alguém pergunta pelo muro dos fuzilados.
Não sei onde está o muro, não sei, é cedo,
não sei nada de González, ou de Pancho.



(Versão minha. La doble sombra - Poesía argentina contemporánea; selecção de Antonio Tello e José di Marco; Vaso Roto, Madrid, 2014, p. 50).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Gloria Fuertes

 Porque não me casei (Autobio)



Em 36 tive um noivo que me amava muito,
mas dedicava-se à política,
e entre o poder e a Gloria
escolheu o primeiro.
Depois tive outro,
na outra
banda,
mas mataram-no.
Por isso sou pacifista e
solteira.



(Versão minha. Ellas cuentan la guerra - Las poetas españolas y la guerra civil (Antología 1936-2013); selecção de Reyes Vila-Belda, Ranacimiento, Sevilha, 2021, p. 239).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Juan Carlos Moisés

 [Quem me viu?]



Quem me viu?
Na zona por onde andei ladraram.
A noite era demasiado negra
para que alguém - fosse quem fosse - pudesse dizer:
- Era ele. Vimos a sua cara.

Mas quem pode acreditar em cães cavalos galinhas pintos.



(Versão minha. Nueva poesía argentina; selecção e introdução de Leopoldo Castilla, Hiperión, Madrid, 1987, p. 101).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Juan Bonilla

 Os poetas malditos



oh essas raparigas que perdem a cabeça por Sylvia Plath
porque foi capaz de fazer o que elas nunca farão
(não me refiro às metáforas atropeladas que escrevem sobre o medo
de se amarem um pouco a si mesmas
mas sim a suicidarem-se)

e esses rapazes que imitam Bukowski
(não me refiro a escreverem poemas descosidos sobre a sua própria miséria
mas sim a embebedarem-se com a certeza de que um dia
alguém os vai tirar da miséria)

e os Rimbauds de bairro baixo
que já que não podem traficar armas e deixar de escrever poemas
escrevem poemas e masturbam-se sonhando
com um cirurgião do deserto que lhes amputa uma perna

e quantos Lautréamonts de bairro alto
que adorariam ter um assomo de energia
para tirar a seringa do braço
e escrever com o próprio sangue algum verso assassino

oh os Maiakovskis
dando murraças à esquerda e à direita abrindo sobrolhos
e socando bochechas e recebendo em algum momento uma cabeçada,
com os narizes partidos e felizes, erguidos de pé para dizer a revolução

e os ternos tristes jovens que eugenizam, senam, herbertam,
ou fazem tintilar as moedas musicais de Pessoa
e escrevem ironias sentenciosas sem terem ainda perdido nada
e do seu tédio fazem melancolia fugitiva
num mundo de selfies
e estão convencidos de que a comida mais importante do dia
é um livro de poemas

invejo-os a todos por terem 
aquilo que já perdi para sempre:
a cega confiança de que escrever
é um modo de engrandecer a vida

a confiança cega de que viver
não é nada
se depois não nos serve
para cair de bruços
num poema.



(Versão minha; Horizonte de sucesos; Renacimiento, Sevilha, 2021, pp.115-116).

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Hindol Bhattacharya

O leitor



À distância de uma mão a existência às vezes ainda estremece.
A mente dentro da mente,
a escada até às águas-furtadas, nada há depois,
os habitantes da casa limitam-se a contaminar a água.
Olhas a lonjura, não é verdade?:
estou aqui, porém não o podes sentir,
limpas a casa, arrumas os livros, moves as cadeiras como se alguém tivesse regressado.



(Versão minha a partir da tradução de Subhro Bandopadhyay, revista por Violeta Medina, incluída em La pared de agua - Antología de poesía bengali contemporánea; Olifante, Saragoça, 2011, p. 229).

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Esteban Peicovich

 Marca de água



- Profissão?
- Sou poeta. Suponho.
- Nada de suponhos aqui. Põe-te direito. Não te apoies na parede. Olha o tribunal. Tens uma profissão estável?
- Pensava que essa era uma profissão estável.
- Mas, em termos gerais, qual é a tua especialidade?
- Sou poeta, poeta tradutor.
- Quem te reconheceu como poeta? Quem te colocou nas fileiras dos poetas?
- Ninguém. Quem me colocou nas fileiras da espécie humana?
- Estudaste para sê-lo?
- Para ser o quê?
- Poeta. Não podias ter prosseguido os teus estudos no instituto, onde poderias preparar-te e aprender?
- Nunca pensei que isso fosse questão de ensino e aprendizagem.
- Então?
- Acho que isso... vem de Deus.


(Diálogo que teve lugar na manhã de 18 de fevereiro de 1964 no tribunal do distrito de Leninegrado entre a juíza Irina Savaleva e o "parasita social e rufia imprestável" de 24 anos Joseph Brodsky, que 23 anos depois - 1987. aos 47 - obteve o Prémio Nobel da Literatura).




(Versão minha; Poemas plagiados; Germania, 2ª edição, Valência, 2001, p. 66).

terça-feira, 9 de novembro de 2021

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Diego Vaya

 O poeta fala da sua circuncisão



Despede-te, prepúcio, deste pénis tão
Por ti oprimido, com rigor tão grande;
Quanto a ti, freio, diz adeus à glande:
Já não serás do seu erguer o travão.
 
Por fim conhecendo a liberdade, nada retém
O meu membro, cuja potência se expande;
Antes, pénis coitado; agora porém brande
A sua alegria, esta que glorioso sustém.
 
Oh pénis circuncidado, enfim libertado,
Feito para a diversão e para gozar
Para bem do colectivo, e do particular!
 
Ditoso pénis, pénis assim sorridente,
Como rei recentemente coroado
Sem temor levantando a augusta frente!



(Versão minha, corrigida com a colaboração de um leitor atento e generoso; original algures por aqui)

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Craig Santos Perez

O amor em tempos de alterações climáticas

Reciclando o "Soneto XVII" de Pablo Neruda 



Não te amo como se fosses um desses raros metais terrestres,
ou um diamante de sangue, ou uma reserva de crude 
que origina guerras. Amo-te como se ama as espécies mais
vulneráveis: com urgência, entre o espaço vital e a sua destruição.

Amo-te como se ama a última semente guardada
num cofre, a que gera a herança das nossas raízes
e, graças ao teu corpo, o sabor que amadurece
nos seus frutos continua vivo e doce na minha língua.

Amo-te sem saber como ou quando vai acabar 
este mundo. Amo-te organicamente, sem pesticidas.
Amo-te assim porque só poderemos sobreviver

no composto rico em nitrogénio do nosso enlace,
tão unidos que as tuas emissões de carbono são minhas,
tão juntos que o nível do teu mar subirá por causa do meu calor.



(Versão minha; original aqui).

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Juan Bonilla

 Fogueira



Fomos duas pedras
que um deus inimputável
batia uma e outra vez
à procura de uma chispa de fogo
que começasse uma fogueira
trouxesse calor
contra o frio do tempo,
o frio de estarmos sós,
o frio de não sermos mais que marionetas
de um deus inimputável.

Duas pedras
envoltas em pele
golpeando-se uma e outra vez
para ver se caía a gota
de fogo capaz de dar início
a uma fogueira
que incendiasse o mundo.



(Versão minha; poema incluído em Horizonte de sucesos; Renacimiento, Sevilha, 2021, p. 47).

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Robert Bly

 Ao escutar um grilo por trás de um lambrim de madeira



O som que ele produz é como um barco de velas negras.
Ou como uma viúva debaixo de uma sequóia, a avisar
quem passa que a árvore está prestes a cair.
Ou como um sino de estanho preto numa aldeia mexicana.
Ou os pêlos na orelha de um homem com cem anos.



(Versão minha; original reproduzido em The invisible ladder; organização de Liz Rosenberg; Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p.25)

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Jorge Boccanera

 Colher



Nasce do verbo dar,
como se o coração tivesse uma pega.
É feita daquilo que lhe falta. Nunca guarda nada para si.
Poderia medir o mundo, embalá-lo, transportar
o seu mistério, os seus campanários de água de uma margem à outra.
Mais humana que um cão.
Mais à mão que Deus.



(Versão minha; Poesía argentina - Antología esencial; selecção de Marta Ferrari; Visor, Madrid, 2010, p. 458).

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Miguel d' Ors

 Números grandes



Oh belas lançadoras nórdicas do martelo
- um metro e oitenta e quatro e noventa e seis quilos -,
com esses intrincados apelidos viquingues
e essas tranças albinas presas com lacinhos
cor de rosa que trazem um toque feminino
à vossa imensidade, na qual adivinho
um coração de menina, inocente e sensível,
empapado pelo romantismo mais doce.

Oh vénus XL, com que deleite vejo
como o martelo voa, acompanhado pelo vosso grito
de mulheres guerreiras de um velho tempo mítico;
e com que graça enorme vos retirais do círculo
de volta ao sorriso e ao sentimentalismo.

Que feliz há-de ser aquele a quem o destino
atribuiu a sorte de ser o vosso marido,
que prazer lhe dará, nos silêncios íntimos,
ser abraçado por esses braços, rendidos
à ternura, e (tenho a certeza de que agora
algum ou alguma imbecil me acusará de machismo)
ver noventa e seis quilos de mulher submetidos
à secreta força do amor.
                                        Invejo-o a ele
tanto como a vós, valquírias, vos admiro.
É a vossa formosa imagem o motivo principal
pelo qual, de quatro em quatro anos, fervoroso, sigo
todas as transmissões dos jogos olímpicos.

                                                                        
                                                                    24-X-2020


(Versão minha; Viaje de invierno; Renacimiento, Sevilha, 2021, pp. 27-28)

domingo, 26 de setembro de 2021

Mario Trejo

Gatsby blues 



Tenho amor e dou-o
Alguém sente a minha falta
Outros precisam de mim
Tenho recordações imortais
E esquecimentos de rodas que giram em sentido contrário

Penso toda a razão
E sinto como um místico
O meu Eu fez as pazes com o Outro

Só me faltam 900.000 dólares para ser feliz



(Versão minha; Poesía argentina - Antología esencial; selecção de Marta Ferrari; Visor, Madrid, 2010, p. 231).

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Karmelo C. Iribarren

 As coisas



Dizem que as coisas
não falam,
mas o armário range, a torneira goteja
e a escova dos dentes
pode fazer-te sangrar.
Não falemos das chaves
que se perdem,
do guarda-chuva que se esquece
ou da carteira que te roubam.
Quem nos garante que não o desejavam
há muito
tendo em conta a forma como as tratamos.
Andam por aí, as coisas, servindo-nos
e são felizes ao fazê-lo.
Mas também nos observam.
Algumas continuarão cá
quando não estivermos,
e falarão de nós.



(Versão minha; El escenario; Visor, Madrid, 2021, p. 49).

sábado, 18 de setembro de 2021

Jorge Calvetti

 Epitáfio da cidade de Esteco



Construída pelos homens
desgastada pelo vício
e desfeita por Deus,
eu fui Esteco.
Gentes de ouro e lascívia
e o orgulho púrpuro do pecado
apoderaram-se de mim.
Os pumas, o vento e o matagal crescem hoje
onde o prazer alçou o seu canto...!



(La poesía del siglo XX en Argentina - Antología esencial; selecção de Marta Ferrari; Visor, Madrid, 2010, p. 80.)

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Mohammed Achaâri

 Preocupações literárias



Qual é a forma menos dolorosa?
Quais são as palavras menos amargas?
Qual é o tempo menos frágil?
Qual é o lugar menos desolado?
Qual é o começo menos confuso?
Qual é o final menos horrível?
Qual é a fórmula menos cortante?
Qual é a pergunta menos estúpida?
Qual é a resposta menos falsa?
Qual é a despedida menos lacrimosa?
Qual é o silêncio menos pesado
e a marcha com a franquia mais baixa
para acabar com estas extravagâncias?



(Versão minha a partir da versão castelhana apresentada em La poesía marroqui - De la independencia a nuestros días (Antología); selecção de Abdellatif Laâbi, Idea, Tenerife, 2006, p. 55).

Sun Yün-Teng

 O caminho pela garganta de Wu



O caminho sobe em ziguezague até 
Lá acima, sobre os remoinhos
Vertiginosos. As águas dos rápidos quebram-se
Contra as rochas escarpadas. Com a 
Brisa vespertina chega o som da 
Flauta que um rapaz toca no
Regresso a casa com um boi. As últimas
Gotas de chuva misturam-se com
A nuvem que o hálito do meu cavalo gera.
A erva nova cresce sobre as
Antigas muralhas. Nos monumentos
Abandonados as inscrições
Antigas remontam a tempos remotos.
Condenada a uma viagem sem fim à vista,
Não consigo suportar o canto do cuco.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Carlos Manzano da tradução inglesa de Kenneth Rexroth e Ling Chung, incluída em El barco de orquídeas - Poetisas de China; Gadir, Madrid, 2007, p 89.



A Senhora Hua Jui (Século X)

O Imperador pergunta por que se rendeu o meu marido



O meu Senhor levantou a bandeira da rendição
por sobre a cidade do Imperador.
Recolhida no canto mais profundo dos aposentos
das mulheres, como posso entender
que cento e quarenta mil soldados tenham deposto
as armas? A única coisa que posso dizer
é que não havia entre eles um só homem.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Carlos Manzano da tradução inglesa de Kenneth Rexroth e Ling Chung, incluída em El barco de orquídeas - Poetisas de China; Gadir, Madrid, 2007, p. 43).

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Roque Dalton

 O descanso do guerreiro



A cada dia que passa os mortos estão mais indóceis.

Antes com eles era fácil:
dávamos-lhes um colarinho engomado com uma flor
louvávamos-lhes os nomes numa longa lista:
pois que os gabinetes da pátria
pois que as sombras notáveis
pois que o mármore monstruoso.

O cadáver assinava em nome da memória
punha-se de novo na fila
e marchava ao compasso da nossa velha música.

Mas algo aconteceu
os mortos
são outros desde então.

Agora mostram-se irónicos
perguntam

Parece-me que se deram conta
de que são cada vez mais a maioria!



(Versão minha; poema incluído em Nuestra poesía en el tiempo (uma antología); selecção e prólogo de Antonio Colinas; Siruela, Madrid, 2009, p.597).

domingo, 1 de agosto de 2021

Gerry Murphy

 A minha vida como estalinista



"Lacaio do capitalismo!",
gritei eu para o meu pai por cima da mesa do jantar,
durante uma discussão sobre a viabilidade
do Segundo Plano Quinquenal,
ou o regresso de Fianna Fáil ao governo,
ou o meu desgraçado relatório escolar
- ou, provavelmente, por causa de todos estes assuntos.
A conversa engasgou-se num impasse
e, por alguns momentos, fez-se silêncio.
A reacção do meu pai foi uma gargalhada,
própria de quem sabia muito bem que eu só em parte
alcançava o significado do mal direcionado insulto.
"Tens jeito para os "slogans", meu rapaz,
mas tens de aprofundar um pouco mais
as leituras que os sustentam."
"Melhor ainda, volta ao teu amado Estaline
e estuda os seus volumosos ensaios
sobre estas questões e os seus métodos de lidar
com "reaccionários", "sabotadores" e "lacaios",
depois podes vir ter comigo
e chamar-me o que te apetecer".



(Versão minha; poema do livro My life as a stalinist; Southword, Cork, 2018, p. 24).



segunda-feira, 26 de julho de 2021

Huang O (1498-1569)

 Para a melodia "A queda de um pequeno ganso selvagem"



Noutros tempos eu era jovem e sedutora
E bamboleava-me por aqui
E por ali no nosso quarto perfumado
Com orquídeas. Tu e eu juntos
E embrenhados atrás das cortinas de
Gaze da nossa cama impregnada
De incenso. Estremeci nos teus braços.
Levavas-me no teu coração
Por onde quer que andasses. De súbito
Uma bala derrubou a fêmea
Do pato-mandarim. A música da
Cítara de jade foi esquecida.
As fénix tiveram de separar-se.

Estou só na minha casa
Repleta de primavera e
Tu estás longe, a fazer amor
Com outra, ambos felizes
Como dois peixes na água.
Aquela vaquinha insuportável
Com as suas artimanhas de coquete!
O melhor é que não se esqueça de que
Esta puta velha ainda é muito capaz
De lhe fazer uma bela cena, bem furiosa.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Carlos Manzano da tradução inglesa de Kenneth Rexroth e Ling Chung, incluída em El barco de orquídeas - Poetisas de China; Gadir, Madrid, 2007, pp. 73-74).

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Paul Morand

Recordação de Ístria



Sou um estrangeiro no meu país;
o meu país é estrangeiro para os outros países;
sou estrangeiro para os dois estrangeiros
que vivem dentro de mim como numa casa alugada.
Olha este mar e estes estaleiros;
azul e negro é uma harmonia
que os Persas, dizem, não desdenharam.

Aqui existia a reserva das feras do Circo Hagenbeck.
Todos os animais nascidos após
o domínio italiano parecem doentes.
Menos os macacos:
têm os olhos de quem já leu tudo,
nos seus ventres de tordilho
há um pirulito rosado
que faz rir as esposas dos armadores que apanham enguias.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Marie-Christine del Castillo, incluída em Oda a Marcel Proust y otros poemas; Renacimiento, Sevilha, 2007, p. 121).

sábado, 17 de julho de 2021

Francisco Villaespesa (1887 - 1936)

 Humildade



Mostra um pouco de amor pelas coisas:
pelo musgo que acalma a tua fadiga,
pela fonte que a tua sede mitiga,
pelas pedras e pelas rosas.
Em tudo encontrarás uma beleza
virginal, um prazer desconhecido...
Acerta o ritmo do batimento
do teu coração com o coração da Natureza.
Recebe como um santo sacramento
o perfume e a luz que te dá o vento...
Quem sabe se o seu amor nele te envia
aquela que a vida transformou...!
E sê humilde, e lembra-te que um dia
te há-de cobrir a terra que pisaste!



(Versão minha; original incluído em Nuestra poesía en el tiempo (Una antología); selecção e prólogo de Antonio Colinas; Siruela, Madrid, 2009, p. 381).