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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Primo Levi

Cantar



... Mas quando começámos a cantar
As nossas boas canções insensatas,
Então vimos que todas as coisas
Voltavam a ser o que haviam sido.

Um dia não é mais que um dia:
Sete fazem uma semana.
Matar parecia-nos uma coisa má;
Morrer, uma coisa longínqua.

E os meses passaram mais que velozes,
Mas tínhamos tantos pela frente!
De novo fomos apenas jovens:
Nem mártires, nem santos, nem infames.

Isto e outras coisas vinham à nossa mente
Enquanto continuávamos a cantar;
Mas eram coisas como as nuvens,
Difíceis de explicar.


3 Janeiro 1946


(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann reproduzida em Collected Poems, Faber and Faber, Londres, 2ª edição (?), 1992, p. 6, e da tradução espanhola de Jeannette L. Clariond reproduzida em A una hora incierta, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p. 27).

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Primo Levi

Segunda-feira



Há alguma coisa mais triste do que um combóio
Que parte à hora certa,
Que só tem uma voz,
Que só tem uma via?
Não há nada mais triste do que um combóio.

Só talvez um cavalo de tiro.
Debaixo do governo das rédeas
Nem sequer pode olhar para o lado.
A sua vida é caminhar.

E um homem? Não é triste um homem?
Se vive largo tempo na solidão,
Se pensa que chegou a sua hora,
Também um homem é uma coisa triste.


17 Janeiro 1946



(Versão minha, a partir da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann, reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, 2ª edição, Londres, 1992, p. 11, e da tradução espanhola de Jeannette L. Clariond, reproduzida em A una hora incierta, La poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p.37).

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Primo Levi

25 Fevereiro 1944



Quem me dera acreditar em alguma coisa,
Alguma coisa para além da morte que te desfez.
Quem me dera poder dizer a força
Com que desejávamos então,
Já submersos,
Poder voltar a caminhar por uma vez
Livres sob o sol.



(versão minha; original e tradução para inglês de Eleonora Chiavetta reproduzidos em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 243.)