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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Karmelo C. Iribarren

 As coisas



Dizem que as coisas
não falam,
mas o armário range, a torneira goteja
e a escova dos dentes
pode fazer-te sangrar.
Não falemos das chaves
que se perdem,
do guarda-chuva que se esquece
ou da carteira que te roubam.
Quem nos garante que não o desejavam
há muito
tendo em conta a forma como as tratamos.
Andam por aí, as coisas, servindo-nos
e são felizes ao fazê-lo.
Mas também nos observam.
Algumas continuarão cá
quando não estivermos,
e falarão de nós.



(Versão minha; El escenario; Visor, Madrid, 2021, p. 49).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Karmelo C. Iribarren

Os dias normais



Chegam
e vão-se
sem deixar rasto,

                    e tu ficas a vê-los
a afastarem-se sobre os telhados
- e com eles, os anos -
e apenas sentes nada
ou sentes algo, vago,
que não sabes
decifrar.

                  São os dias
normais, os de sempre,
os que parece que passam
à distância,

os assassinos
do amor.



(Versão minha; original reproduzido em La piel de la vida, Baile del Sol, 2013, p. 27).

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Karmelo C. Iribarren

Ainda ontem



Parece que foi
ontem
que ainda sonhávamos
com a revolução,

e hoje estamos assim:
                                  balofos,
meio carecas, cínicos,
e com problemas
de colestrol.



(Versão minha; original reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 215).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Karmelo C. Iribarren

O resto é conversa

Para os Legorburu Arzamendi



A minha mulher e a minha filha,
estas paredes e estes livros,
um punhado de amigos
que me querem bem
- e dos quais gosto de verdade -,
as ondas do cantábrico
em setembro,
três bares, quatro
contando com o clandestino da praia.
Ainda que saiba que deixo
algumas coisas, posso dizer
que, a ser algo, será esta a minha pátria.
O resto é conversa.



(Versão minha; poema reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilla, 2005, p. 185).

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Karmelo C. Iribarren

Por amor



Quis fazer-te mal
muitas vezes. Golpear-te,
enfurecer-me contigo,
fazer uso da famosa
crueldade mental
até te ver chorar, rir
como uma histérica.
Desejei-te muitas vezes o pior,
o mais baixo, o mais cruel,
o mais rasteiro e sujo
que um homem pode desejar
a uma mulher. E só por amor.



(Versão minha; poema incluído em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 147).

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Karmelo C. Iribarren

A alba


Para Pablo G. Bao



Aquele lugar inóspito
fantasmático
frio
onde nunca
tinhas um cigarro
e os táxis
iam sempre
na direcção contrária.



(Versão minha; original reproduzido em Resaca - Hank Over: un homenaje a Charles Bukowski, organização de Patxi Irurzun e Vicente Muñoz Álvarez, Caballo de Troya, Madrid, 2008, p. 75).