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segunda-feira, 13 de abril de 2020

Pedro Sevilla

Burros na Medina de Fez



Quando pensava que já não voltaria a ver-vos,
que seríeis somente uma paisagem remota da infância,
haveis regressado aos meus olhos, sensatos carregadores
dum mundo fabuloso que pensava extinto.
Burros meus, confrades, sábios de olhos escuros,
julgava-vos mortos e era eu que faltava,
eu que, nos braços do tempo, saí do eterno.

Na velha Medina de uma cidade de um dia
voltei a ser o menino solitário de então,
que vos olhava com lágrimas vendo os vossos joelhos
dobrarem-se sob o peso de duras cargas.

Brutos irmãos meus, inocentes burricos,
hoje vi de novo o almocreve ruço
com o seu pregão cansado de cal branca,
o padeiro alegre e a sua burrinha elegante,
a dos laçarotes vermelhos gingando à sua frente
enquanto deixava um rasto de cheiro a pão e a mãe.

Nem sequer senti medo quando vos vi
carregados de peles mortas para os curtidores,
porque já sei de um sítio onde posso esconder-me
e ser, como vós, inocente de novo.



(Versão minha; Para cuando volvamos (Poesía completa, 1992-2018); Renacimiento, Sevilla, 2018, p. 149).

domingo, 12 de abril de 2020

Pedro Sevilla

Para José Mateos



Uma imagem antiga, da minha infância,
acompanha-me sempre como um símbolo
da amizade: o meu avô, numa feira
de São Miguel, bêbedo e abraçado a outro velho,
chora feliz, ri-se e pede mais meia garrafa.
Com os abraços, com a bebedeira,
têm os fatos sujos e as boinas torcidas,
as botas enlameadas por causa
da primeira chuva de setembro.

Esta imagem, José, não é nada edificante,
no entanto sempre que penso
neste sentimento que nos une,
diferente das tristes
misérias do amor e das suas crueldades,
recrio na minha memória aqueles velhos
aturdidos de vinho e de alegria
- há charcos de água azul
no barro pisado pelos animais -:
a amizade é um par homens
que volta da feira, ou da vida
(que volta da feira que é a vida),
irmanados, rindo-se, chorando
com os braços ao ombro
e os fatos sujos.



(Versão minha; poema incluído em Para cuando volvamos (Poesía completa, 1992-2018), Renacimiento, Sevilha, 2018, p. 112).

sábado, 11 de abril de 2020

Pedro Sevilla

Propósito



Portar-me, perante a dor, como essa amendoeira
que, ferida pelo machado, sente cair os ramos,
aos quais não voltarão mais os gorjeios.

Ser, como ela, taça de luz,
espera fecunda,
paciência milenar
que sabe que o sol de março há-de regressar
e florir-lhe a alma,
e encher de perfume as suas feridas.



(Versão minha; poema incluído em Para cuando volvamos (Poesía completa, 1992-2018); Renacimiento, Sevilha, 2018, p. 156).