Longa distância II
Apesar da minha mãe já ter morrido há dois anos
o meu pai continua a colocar as suas pantufas junto do aquecedor,
põe botijas de água quente no seu lado vazio da cama
e continua a ir renovar-lhe o passe social.
Não podíamos aparecer de repente. Tínhamos de telefonar.
Durante uma hora mantinha-nos à distância para ter tempo
de esconder as coisas dela e parecer um homem só
como se o seu amor puro e silencioso fosse um crime.
Ele não podia expor-se à minha má influência de descrente
embora estivesse certo de que em breve iria ouvir a chave dela
a ranger na fechadura enferrujada e a encerrar o sofrimento dele.
Sabia que ela tinha saído precipitadamente para arranjar chá.
Eu creio que a vida termina com a morte, e é tudo.
Não fomos juntos às compras; tanto faz,
na minha agenda preta de cabedal aparece o teu nome
e o número que já ninguém atende e para o qual continuo a ligar.
(versão minha)
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terça-feira, 11 de março de 2008
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Tony Harrison
"Não existia nenhum artista na família e quando me perguntavam de onde me vinha o dom da poesia, respondia sempre que tinha dois tios, Joe e Harry, e um era gago, o outro mudo."
(Citação extraída de uma entrevista dada pelo poeta ao Público, publicada a 20 de Junho de 1998, e utilizada por Manuel Portela como epígrafe do seu posfácio ("Leitor versus poema") à tradução da sua responsabilidade de V., poema de Tony Harrison editado pela Antígona (Lisboa, 1999, p. 61-69).)
Tony Harrison
Hereditariedade
É um mistério como te tornaste poeta!
Onde é que foste buscar esse talento?
Eu disse: tive dois tios, Joe e Harry -
um era gago, o outro mudo.
(versão minha)
É um mistério como te tornaste poeta!
Onde é que foste buscar esse talento?
Eu disse: tive dois tios, Joe e Harry -
um era gago, o outro mudo.
(versão minha)
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