terça-feira, 10 de agosto de 2021

Mohammed Achaâri

 Preocupações literárias



Qual é a forma menos dolorosa?
Quais são as palavras menos amargas?
Qual é o tempo menos frágil?
Qual é o lugar menos desolado?
Qual é o começo menos confuso?
Qual é o final menos horrível?
Qual é a fórmula menos cortante?
Qual é a pergunta menos estúpida?
Qual é a resposta menos falsa?
Qual é a despedida menos lacrimosa?
Qual é o silêncio menos pesado
e a marcha com a franquia mais baixa
para acabar com estas extravagâncias?



(Versão minha a partir da versão castelhana apresentada em La poesía marroqui - De la independencia a nuestros días (Antología); selecção de Abdellatif Laâbi, Idea, Tenerife, 2006, p. 55).

Sun Yün-Teng

 O caminho pela garganta de Wu



O caminho sobe em ziguezague até 
Lá acima, sobre os remoinhos
Vertiginosos. As águas dos rápidos quebram-se
Contra as rochas escarpadas. Com a 
Brisa vespertina chega o som da 
Flauta que um rapaz toca no
Regresso a casa com um boi. As últimas
Gotas de chuva misturam-se com
A nuvem que o hálito do meu cavalo gera.
A erva nova cresce sobre as
Antigas muralhas. Nos monumentos
Abandonados as inscrições
Antigas remontam a tempos remotos.
Condenada a uma viagem sem fim à vista,
Não consigo suportar o canto do cuco.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Carlos Manzano da tradução inglesa de Kenneth Rexroth e Ling Chung, incluída em El barco de orquídeas - Poetisas de China; Gadir, Madrid, 2007, p 89.



A Senhora Hua Jui (Século X)

O Imperador pergunta por que se rendeu o meu marido



O meu Senhor levantou a bandeira da rendição
por sobre a cidade do Imperador.
Recolhida no canto mais profundo dos aposentos
das mulheres, como posso entender
que cento e quarenta mil soldados tenham deposto
as armas? A única coisa que posso dizer
é que não havia entre eles um só homem.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Carlos Manzano da tradução inglesa de Kenneth Rexroth e Ling Chung, incluída em El barco de orquídeas - Poetisas de China; Gadir, Madrid, 2007, p. 43).

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Roque Dalton

 O descanso do guerreiro



A cada dia que passa os mortos estão mais indóceis.

Antes com eles era fácil:
dávamos-lhes um colarinho engomado com uma flor
louvávamos-lhes os nomes numa longa lista:
pois que os gabinetes da pátria
pois que as sombras notáveis
pois que o mármore monstruoso.

O cadáver assinava em nome da memória
punha-se de novo na fila
e marchava ao compasso da nossa velha música.

Mas algo aconteceu
os mortos
são outros desde então.

Agora mostram-se irónicos
perguntam

Parece-me que se deram conta
de que são cada vez mais a maioria!



(Versão minha; poema incluído em Nuestra poesía en el tiempo (uma antología); selecção e prólogo de Antonio Colinas; Siruela, Madrid, 2009, p.597).

domingo, 1 de agosto de 2021

Gerry Murphy

 A minha vida como estalinista



"Lacaio do capitalismo!",
gritei eu para o meu pai por cima da mesa do jantar,
durante uma discussão sobre a viabilidade
do Segundo Plano Quinquenal,
ou o regresso de Fianna Fáil ao governo,
ou o meu desgraçado relatório escolar
- ou, provavelmente, por causa de todos estes assuntos.
A conversa engasgou-se num impasse
e, por alguns momentos, fez-se silêncio.
A reacção do meu pai foi uma gargalhada,
própria de quem sabia muito bem que eu só em parte
alcançava o significado do mal direcionado insulto.
"Tens jeito para os "slogans", meu rapaz,
mas tens de aprofundar um pouco mais
as leituras que os sustentam."
"Melhor ainda, volta ao teu amado Estaline
e estuda os seus volumosos ensaios
sobre estas questões e os seus métodos de lidar
com "reaccionários", "sabotadores" e "lacaios",
depois podes vir ter comigo
e chamar-me o que te apetecer".



(Versão minha; poema do livro My life as a stalinist; Southword, Cork, 2018, p. 24).