quinta-feira, 30 de julho de 2020

Karen Head

Proximidade



O jovem gambá que anda à procura de alimento
do lado de fora da janela do meu escritório
não parece nada preocupado com a minha presença -
afinal de contas, quem foi apanhado na ratoeira fui eu.
Petisco umas amêndoas, observo-o
a mordiscar tudo o que encontra
e, embora me sinta inclinada para partilhar,
sei que a simples abertura da janela
irá mudar o mundo.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Kabir (1440-1518)

"Colhe aqui aquilo de que precisas..."



Colhe aqui aquilo de que precisas.
Mais à frente os caminhos
estão impraticáveis.

Loucos, querem
ir ao céu fazer as suas compras.
Não sabem que no céu não há lojas
nem sequer vendedor.


***


"Tens, Amigo, a morte..."



Tens, Amigo, a morte
pousada na cabeça.
Desperta de vez!
Como podes dormir
de modo tão profundo
estando a tua casa
situada numa rua tão ruidosa?




(Versões minhas a partir das traduções castelhanas de Jesús Aguado incluídas em En qué estabas pensando? Antología de Poesía Devocional de la India, Siglos V-XIX; organização e tradução de Jesús Aguado, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 2019, p. 207 e pp. 210-211)



quinta-feira, 23 de julho de 2020

Lal Ded (ou Lalla) (Século XIV)

Não esbanjes a tua luz...



Não esbanjes a tua luz com um idiota.
Não partilhes o teu açúcar com um burro.
Não lances as tuas sementes
à areia de um rio.
Não deites o azeite no farelo
destinado às vacas.


***

Represar a inundação...



Represar a inundação.
Apagar um incêndio desbocado.
Caminhar pelo ar.
Ordenhar uma vaca de madeira.

Qualquer vigarista pode fazer isso.



(Versões minhas a partir das traduções castelhanas de Jesús Aguado incluídas em En qué estabas pensando? Antología de poesía devocional de la India, Siglos V-XIX; organização e tradução de Jesús Aguado, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 2017, p. 142).

terça-feira, 21 de julho de 2020

Jedara Dasimayya (Século X)

Apanha um pau, divide-o...



Apanha um pau, divide-o em duas partes.
Na de baixo talha uma mulher,
na de cima um homem.
E fricciona-as, fricciona-as
até acenderes um fogo.

Então, Ramanatha*,
esclarece-me esta dúvida:
é masculino ou feminino o fogo?



* Ramanatha: literalmente, "o Senhor de Rama". Shiva adorado por Rama, herói da epopeia mais importante da Índia, o Ramayana.

(Versão minha a partir da tradução castelhana de Jesús Aguado incluída em En qué estabas pensando? Antología de Poesía Devocional de la India, Siglos V-XIX; organização e tradução de Jesús Aguado, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 2017, p. 78).

sábado, 18 de julho de 2020

Kurt Brown

O beijo



Esse beijo que não fui capaz de te dar.
Como poderás perdoar-me?
O beijo que eu teria dissipado em ti ainda
Aí está, dentro de mim. Provavelmente morrerá aí.
Mas será a última parte de mim a morrer.


(Versão minha; original aqui).

domingo, 12 de julho de 2020

Marjorie Saiser

A impressão que as baleias fazem



Tu e eu apercebemo-nos no barco
da impressão que as baleias deixam,
o grande anel que os seus mergulhos desenham
durante algum tempo na superfície.
Será assim quando nos
perdermos um ao outro? Não sei
nem posso saber. Mas
quero acreditar que
quando não pudermos mais
atravessar uma sala
para um abraço, quando não pudermos
mais cair nos braços um do outro,
haverá sempre isto:
algum traço que se demora
enquanto o corpo enorme
permanece em baixo, sem se ver,
uma sombra escura e gigantesca,
um golpe de barbatana,
um corpo de deleite
a mergulhar para o fundo.



(Versão minha; original aqui)

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Robert Bly

Por que não morremos



Nos fins de setembro muitas vozes
Dizem-te que vais morrer.
Aquela folha diz-to, aquela frescura.
Todas têm razão.

As nossas inúmeras almas - que
Podem elas fazer acerca disso?
Nada. Elas são já
Parte do invisível.

A verdade é que as nossas almas
Têm estado ansiosas por voltar
A casa. "É tarde", dizem elas,
"Fecha a porta, vamos andando."

O corpo não concorda. E diz
"Enterrámos uma pequena bola
De ferro debaixo daquela árvore.
Vamos lá buscá-la."



(Versão minha. Original aqui).

sexta-feira, 3 de julho de 2020

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Manuel Vilas

A aula de língua



Abatimento em metade de uma turma de adolescentes.
Queria estar noutro sítio, mas onde.
Rico e célebre em longas viagens pelo mundo.
Também eles não cumprirão as suas ilusões.
Salta à vista: sem talento, sem inteligência,
sem família com posses, sem beleza,
sórdida classe média-baixa da democracia
a quem foi prometida uma educação intranscendente.
Ensina-lhes, ao menos, a desejar a vida
com força, com justiça, com dignidade,
com as palavras duras que a sós aprendeste.
Ajuda-os a imaginar a ruína nada discreta
em que acabarão convertidos.
Os tristes afazeres das suas vidas são já um escândalo.
Diz-lhes que só a verdade com palavras justas
defende da verdade abandonada à sua sombra.



(Versão minha; original reproduzido em Hacia la democracia. La nueva poesía (1968-2000); organização de Araceli Iravedra, Visor, 2016, p.694).