sábado, 22 de dezembro de 2012

Silja Walter

O meu pequeno cão branco e eu



O meu pequeno cão branco e eu -
entrámos e saímos em todas as portas.
Procuramos-te a ti. Procuramo-nos a mim.
Choramos e passamos frio.

A chuva dá grandes voltas no largo.
Faz círculos em crescendo.
Não sei aonde vou nem onde estou
com o meu pequeno cão.

O mundo é grande. E tu és grande.
Onde terminam o caminho e a viagem?
Escuto o aguaceiro,
o meu pequeno cão ladra docemente.

Não te encontro. Não me encontro.
Contigo me perdi.
O meu cão olha entristecido
e aperto a minha cara contra as suas orelhas.



(Versão minha a partir da tradução de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção e introdução do tradutor, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., p. p.71).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Nós, os desconhecidos




A.M. Pires Cabral - A. Maria de Jesus - Alexandre Sarrazola - David Teles Pereira - Diogo Vaz Pinto - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - João Almeida - José Carlos Soares - Luís Filipe Parrado - Luis Manuel Gaspar - Manuel de Freitas - Marta Chaves - Miguel Martins - Renata Correia Botelho - Ricardo Álvaro - Rosa Maria Martelo - Rui Caeiro - Rui Miguel Ribeiro - Rui Pires Cabral - Vítor Nogueira - organização de Daniela Gomes e Rui Pires Cabral - capa de Luís Manuel Gaspar - composição e paginação de Inês Mateus - Averno - Lisboa - 2012 - 97 páginas.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Óscar Cruz

Síndrome de Kafka




cinco meses depois da morte
do meu pai ainda encontramos
quem chore por ele. o meu pai,
porém, teria preferido ser
esquecido. creio que foi por isso
que o esquecemos.



(Versão minha; original reproduzido em Dejar atrás el agua. Nueve nuevos poetas cubanos; edição e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 78).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Marina Aoiz Monreal

Nós


Os nós
albergam segredos perigosos.
No seu interior
escondem-se punhais invisíveis
dardos envenenados
que trespassam a luz
em lentíssimas sequências
quando alguém escreve a palavra mão
ou a palavra vida. Os nós
não oferecem consolo. Não possuem
o brilho de um anel de casamento
nem a brancura
do primeiro dente debaixo da almofada.
Os nós
dobram as suas asas de morcego
sobre si mesmos
e escondem-se nos lentos resquícios
da geada nocturna.
Para os enfrentar
há que beber
os raios do sol da meia noite,
beijo a beijo,
e despojar-se de tudo o que se aprendeu.
Só às apalpadelas
se pode rasgar um nó
nos tenebrosos aposentos.
Só a sós,
entre o frio e o nada.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros; selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesus Munárriz; Hiperión, Madrid, 2012, pp. 50-51).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Joseba Sarrionandia

Quarenta nomes para fazer um soneto



William Faulkner. Alice Liddell. Buster Keaton.
James Joyce. Marilyn Monroe. Stephen Crane.
Ambroise Bierce. Marcel Duchamp. Júlio Verne.
Franz Kafka. Herman Melville. André Breton.

Humphrey Bogart. Paul Klee. François Villon.
Jacques Brel. Ezra Pound. Louis Ferdinand Céline.
Nicholas Ray. Dante Alighieri. John Wayne.
Samuel Beckett. Jonathan Swift. John Huston.

Nazim Hikmet. Juliette Greco. Boris Vian.
Edgar Allan Poe. Vladímir Nabokov.
Hieronimus Bosch. Bram Stocker. Paul Celan.

Johan Huizinga. Jean Genet. Marcel Schwob.
Edgar Spencer Dogson. Vladímir Holan.
Edward Lear. Joseph Conrad. Vincent Van Gogh.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana reproduzida em El otro medio siglo - Antología incompleta de poesía iberoamericana; organização de Antonio Domínguez Rey e outros, Espiral Maior, A Coruña, 2009, p.p. 539-540. Nota: na versão que aqui utilizo (e única que conheço) como fonte da transposição para português dos nomes citados pelo poeta alguns destes surgem grafados erradamente - por exemplo, "Marcel Sohwob" ou "Vincent Vang Gogh". Presumo que se trate de um conjunto de gralhas, alheias à vontade do autor; optei, assim, por corrigir esses "erros". De resto, o próprio nome do poeta aparece escrito, nesta obra, de forma ligeiramente diferente daquela que já conhecia: "Sarrionaindia" em vez de "Sarrionandia"; mantenho esta última).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Kwang-kiu Kim

O nascimento de uma pedra



Nessas fundas ravinas das montanhas
- pergunto-me -
existirão pedras
que nunca ninguém visitou?
Subi à montanha
em busca de uma pedra que ninguém tivesse visto
desde os tempos mais remotos.

Debaixo dos antigos pinheiros
em encostas íngremes e intransitáveis
havia uma pedra
há quanto tempo
- pergunto-me -
há quanto tempo
esta pedra coberta de musgo
está aqui?

Dois mil anos? Dois milhões? Dois biliões?
Não
De modo nenhum
Se até agora nunca ninguém viu realmente
esta pedra
ela apenas existe
aqui
a partir deste momento
Esta pedra
nasceu só
no momento em que a vi pela primeira vez



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em This Same Sky - a collection of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p.111).

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Fernando Luis Chivite

Apontamentos para um manifesto futuro, 9



Sabemos demasiadas coisas.

Sabemos tantas coisas que estamos presos
pelas coisas que sabemos.

Há armas que angustiam
quem as possui. A razão tem cárceres.

Sai daí, sê diurno. Não interrompas
a luz. Apaga a tua marca.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros. Selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesús Munárriz; Hiperión, Madrid, 2012, p. 98).

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Fernando Luís Chivite

Epitáfio sarcástico para si mesmo



Na verdade, ainda estava vivo
quando me enterraram.

Sempre consegui enganá-los
com certa facilidade.

No entanto nunca
me serviu de nada.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros; selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesús Munárriz, Hiperión, Madrid, 2012, p. 100).

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

III. O homem que matou Leopoldo María Panero
(The man who shot Leopoldo María Panero)



        O meu querido amigo Javier Barquín pensará sempre que foi ele que matou Leopoldo María Panero. Porém isso não corresponde à verdade. Ninguém tinha então valor para o fazer. O sujeito aterrorizava toda a cidade. Raptara várias mulheres e amaeaçava torturá-las. De tal maneira que me decidi nessa tarde, fui à loja de armas do Jim e comprei um revólver de calibre 45. No momento em que Leopoldo María Panero estava a tentar extorquir mais uma vez Javier Barquín, disparei à distância. Como Javier também tinha sacado uma pequena pistola, supôs ter sido ele que fizera justiça. Toda a vida acreditará que foi ele quem matou Leopoldo María Panero. Mas não foi esse o caso. Eu sou o homem que matou Leopoldo María Panero.



(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1979-2000); edição Túa Blesa, Visor, 4ª ed., Madrid, 2010, p. 269).

sábado, 24 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

II. O homem que acreditava ser Leopoldo María Panero



      Chovia e voltava a chover sobre a casa de De Kooning, célebre pelas suas aparições. Aí, o filho mais novo de De Kooning levantou-se, nervoso, da cama, vestiu um roupão e foi até ao quarto do pai para lhe dizer que era Leopoldo María Panero. Enquanto se demorava a enfatizar o seu desgosto relativamente a O Desencanto, o filme de Chávarri, não houve outro remédio senão o de se chamar um psiquiatra. Já no manicómio, persistia no seu delírio, imaginava cenas da infância, ruas em Astorga, badaladas, cacetadas do meu pai. Depois de um rápido electrochoque, passou a acreditar que era Eduardo Haro, uma ligeira variação da primeira figura. De seguida, pôs-se a coxear e a tossir e afirmou ser Vicente Aleixandre. Entretanto, em casa de De Kooning, entre barulhos de correntes, continuaram a multiplicar-se as aparições.
 


(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1970-2000), edição de Túa Blesa, Visor, 4ª edição, Madrid, p. 268).

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

I. A chegada do impostor que se fingia Leopoldo María Panero



       Ao amanhecer, quando as mulheres comiam morangos frescos, alguém bateu à minha porta dizendo ser e chamar-se Leopoldo María Panero. No entanto, a sua falta de firmeza na representação do papel, os seus abundantes silêncios, os seus enganos ao recordar frases célebres, o seu embaraço quando o obriguei a recitar Pound e, finalmente, o pouco encanto dos seus encantos, convenceram-me de que se tratava de um impostor. Imediatamente fiz vir os soldados: ao amanhecer do dia seguinte, quando os homens comiam peixe congelado, na presença de todo o regimento, foram-lhe arrancados os galões, os fechos de correr, e arrojado ao lixo o seu baton, para ser fuzilado pouco depois. Assim teve o seu fim o homem que se fingia Leopoldo María Panero.
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1970-2000); edição de Túa Blesa, Visor, Madrid, 4ª ed., p.267).

domingo, 18 de novembro de 2012

Cheryl Savageau

Por que é que eles fazem isso



O tio Jack bebe porque é índio.
A tia Rita
porque casou com um alemão.
O tio Raymond
porque as pequenas discussões passaram de moda.
O tio  Bébé
porque a Jeannie o encoraja a fazê-lo.
A tia Jeannie porque o tio Bébé o faz.
O Russel porque anda na faculdade.
O tio Jack
porque é um perfeccionista.
O Dave porque está desempregado.
A tia Rita
porque é música.
O Bert porque é casado com a tia Rita.
O Renny
porque gosta de se divertir.
O Gil porque sempre bebeu.
O Raymond
porque a Marie é demasiado esperta.
O Jack porque a Florence não o fará.
A Lucille e o Bob não bebem
porque todos os outros o fazem.
O Raymond por causa de todas as mulheres
que nunca terá.
E o Dick só porque quer esvaziar a pipa.



(Versão minha; original reproduzido em Poetry like bread; selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 5ª ed. (ampliada), Willimantic, 2000, p. 229).

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Kurt Marti

Contra a corrente



não existiu
                        já um
que andava sobre as águas?
mais ninguém
conseguiu fazer o mesmo

mas
                       que tu
uma não-nadadora
nades contra a corrente
não é um milagre menos significativo



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea, Los Libros de la Frontera, Barcelona, 1998, p.101).

sábado, 10 de novembro de 2012

Mohammed El Abdallah

Esta



Esta cabeça sem dúvida vai matar-me.
Não pára de pensar.
Expliquei-lhe mil vezes a inutilidade dos pensamentos,
demonstrei-lhe as razões para desesperar,
mas ela não pára de pensar.
Digo-lhe: está bem,
pensaremos até que o pensamento se esgote.
Então ela adormece por fim apesar de si mesma,
e acorda manhã cedo,
acende um cigarro, toma o café antes de mim
e recorda as histórias de ontem e os pensamentos de ontem.
Lavo-a, e continua a pensar.
Penteio-a, e continua a pensar.
Envio-a ao barbeiro, e continua a pensar.
Mas quando quero pensar num problema que me extenua
ou em alguma coisa que me interessa,
ela geme de dor como se lhe estivesse a bater com um machado.
Esta cabeça vai matar-me.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río de incendia - Antología libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, pp. 39-40).

sábado, 3 de novembro de 2012

Rainer Brambach

Vida quotidiana



Ir aonde tenha de ir
Plantar uma  árvore nova
Regar o jardim ainda que chova sem cessar
Engraxar os pneus
e testar os travões
Ler o jornal sem o desejo
de emigrar
Receber os amigos
Poder esquecer
Rosas ou galinhas?
Escrever poemas
e não fazer caso da música dos contrabaixos
do céu
que está azul ou encoberto.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporànea, Libros de la frontera, Barcelona, s/d., p 53.)

domingo, 28 de outubro de 2012

Mohammed Ali Chamseddin

Desordem fascinante



Nessa pequena casa, a minha, rodeiam-me vinte mil poetas, cantando em vinte mil idiomas, ao mesmo tempo, um canto mesclado. Que prazer: não compreendo nada...



(versão minha a partir da tradução espanhola de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río se incendia - Antología de la poesía libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, p. 31).

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nicolai Kantchev

Acreditem ou não



A Mãe assoma na planície lá fora.

E, acreditem ou não, a montanha é arrastada
para sul pela Mãe.

Anos e anos passaram desde então,
mas aos olhos da Mãe eu continuo a ser tão pequeno

como uma semente de mostarda.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Jasche Kessler e Alexander Shurbanov reproduzida em This same sky - a collection of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 72).



sábado, 20 de outubro de 2012

Quando eu soube da morte do poeta Manuel António Pina


O dia já estava escuro
quando eu soube da morte do poeta
Manuel António Pina.

"Então isso faz-se?", perguntei,
incrédulo, ao escuro.

E acrescentei:
"Agora quem vai lembrar o nome do cão,
tactear as sombras dos livros,
aflorar o escândalo das nuvens
no céu?

Eu sei, o coração é um logro,
a beleza pura ilusão;
mas sem estas
e outras palavras, escuro,

como iluminar
cada segundo, cada promessa
inseparável da nossa vida?"

Então, caiu a noite.
E, significativamente,
o escuro optou por não me responder.


Luís Filipe Parrado

(19/20 de outubro de 2012)

domingo, 14 de outubro de 2012

Lisel Mueller

A história



Contas uma história:
Como o Fogo faz da Água a sua mulher

É sempre assim, dizes tu,
os opostos atraem-se

Desejam penetrar um no outro,
ser um,
assim ele queima-a com todas as forças
e ela procura afogá-lo

É o chamado amor à primeira vista
e não dói

mas passado algum tempo ela chora
e diz que ele está a destruí-la,
ele grita que não consegue respirar
debaixo de água -

Agora criem vós o vosso próprio
fim, dizes tu às crianças,
e elas assim farão, assim farão



(Versão minha a partir do original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 145).

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ricardo Castro Ferreira


Retrato do artista enquanto jovem


domingo, 7 de outubro de 2012

Jaan Kaplinski

[Uma vez recebi...]



Uma vez recebi um postal das Ilhas Fidji
com uma fotografia da colheita da cana de açúcar. Percebi então
que nada é exótico por si mesmo.
Não há diferença nenhuma entre apanhar batatas no nosso jardim de Mutiku
e canas de açúcar em Viti Levu.
Tudo o que existe é realmente vulgar
ou, melhor dizendo, nem vulgar nem estranho.
Terras distantes e povos estrangeiros são um sonho,
uma divagação de olhos abertos
de que alguém não vai acordar.
É o que se passa com a poesia - vista à distância
parece qualquer coisa de especial, misteriosa, festiva.
Não, a poesia é ainda menos
especial do que uma plantação de cana de açúcar ou um campo de batatas.
A poesia é como a serradura produzida por uma serra
ou como o rasto fofo e amarelo de um avião.
A poesia é lavar as mãos à noite
ou esse lenço - limpo - que a minha tia (agora morta)
nunca se esquecia de pôr no meu bolso.



(Versão minha a partir da tradução inglesa do próprio autor, de Riina Tamn e Sam Hamill reproduzida em The same sky - a collection of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 9).

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Miron Bialoszewski (1922-1983)

Auto-retrato com alegria




Não pensem que sou infeliz.
Alegro-me por pensar.
Pensem que sou alegre.

A consciência é uma dança alegre.
A minha consciência dança
          diante da candeia da chuva
          diante das ruínas do muro
          diante do armazém de comida repleto de cabeças de couve
          diante das bocas dos meus amigos que falam
          diante da minha própria mão inesperada
          diante da escultura inacabada da realidade -
Na sumptuosidade do mais belo jogo
e da elevação do sacrifício religioso
idissoluvelmente
a minha consciência dança.

E quando a dança se interromper
como todos os flocos
irei para o céu -
onde nada se sente,
onde estava no princípio, antes de nascer,
onde estarei até ao fim, quando já não existir mais,
ali - que alegria indescritível.

...
É tudo.



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em Vingt-quatre poètes polonais; tradução de Georges Lisowski, Éditions dum Murmure, Neully-lès-Dijon, 2003, pp. 74-75).


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Abel Feu

Futebolista



Se soubesse o que sei hoje, futebolista.

Um desportivo foleiro e uma loira
ainda mais foleira à saída
dos treinos. Um brinco
na orelha esquerda e uma franja
tenaz que cai e volta a cair sobre os olhos
e que desvio - que pinta! - com esse gesto
que até os putos imitam...
                                         Enfim, vida
da boa, anúncios, golos, entrevistas,
uma vasta mansão, autógrafos e coisa e tal...

Juro-o: futebolista. Não estes versos
ordinários e prosaicos. Não estes anos
filhos da mãe. Nem as conjecturas. Nem esperar
que nunca nada aconteça...
                                           E não
poeta, não, não!, sobretudo nada de poeta,
antes outra coisa qualquer em vez deste tótó
que se põe a olhar para o que faz: a lamentar-se muito
de si mesmo, a exibir a roupa suja,
este striptease grotesco, que vergonha.



(Versão minha; original reproduzido em Feu de erratas, Renacimiento, Sevilha, 1997, pp. 49-50).

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Kurt Marti

O pão nosso de cada dia



O pão nosso de cada dia
nos dai hoje
para que não só
por pão
tenhamos de estilhaçar o peito
para que não tenhamos
de sofrer qualquer chantagem da parte dos patrões
que nos dão o pão
para que não tenhamos
de nos tornar dóceis
com medo de perdermos o nosso pão



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporànea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/., p. 99).

domingo, 23 de setembro de 2012

Salih Boat

O meu quinhão



toda a gente anda ocupada com alguma coisa
a avó a fiar lã
com as suas mãos secas e enrugadas como pepinos
deixados no campo
depois das sementes lhes terem sido extaídas,
está ocupada com alguma coisa;
o negociante que compra e vende terras
e o estudante que é avaliado
nas matérias que não lhe foram ensinadas
estão ocupados com alguma coisa;
o caixa do banco que se questiona sobre a relação
entre as suas mãos e o dinheiro que conta sem parar
e o adminsitrador que ontem casou a filha mais velha,
o piloto que se prepara para um novo voo
com a sua mala que já viu tantos países,
o bombeiro que passou um dia descansado
com as suas memórias de incêndios,
o trabalhador que acorda para fazer o turno da noite
e a sua raiva adormecida,
a galinha na capoeira anda ocupada com alguma coisa
preparando-se para os pintaínhos que parecem algodão-doce,

e o que sobrou para mim foi escrever poesia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Yusuf Eradam reproduzida em This same sky; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 180).

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Werner Bucher

Rogativa



Mörike, tu que estás
nos céus
roga por mim para que
escreva melhores poemas
do que tu
e não gire eternamente (como
tu tão maravilhosamente
giraste)
em torno do mesmo tema, sim,
Mörike,
roga por mim
para
que tenha mais sorte
no amor
do que tu
e para que não termine,
como tu,
a minha vida com o canto dos lábios descaído,
também te rogo
para que eu,
ao contrário de ti,
volte a acreditar em Deus
e que por detrás
do Papa actual
e dos milhares de movimentos de redenção
reconheça ainda o divino, roga
por mim, Mörike, para que
eu escreva
sem invejar os colegas
e as colegas mais célebres
e que todos os que
amo
cheguem aonde
querem chegar e que
os meus inimigos e adversários
não sejam atropelados
por carros, rogo-te ao mesmo tempo para que
a vida traga alegria
a todos quantos ofendi
e que o mau músico
que atropelaram
em Oberegg
ao sair do autocarro dos correios
aprenda agora
no céu de Elvis,
Bruckner e Beet-
hoven o que é boa música
e ao mesmo tempo rogo-te
que me protejas nas minhas viagens de scooter
pela região de Appenzell
e que o inesperado
se torne no esperado, também
te rogo para que preserves
o mundo dos déspotas,
feministas, políticos
e outros dirigentes, para que
suprimas a miséria
em todos os nossos mundos
arrancando os solitários
à sua solidão, os velhos
aos seus asilos
e centros de assistência,
para que cures as crianças
doentes de cancro e de sida e para
que ajas de forma a que
tu e Hölderlin, Pavese
e Alfonsina Storni, Gabriela
Mistral, Lenau e Van Gogh
se encontrem de imediato
sobre uma nuvem
na qual uma paz verdadeira
cubra as vossas almas,
sim, Mörike,
poupa-nos a Papas, arcebispos,
campos de entretenimento e a todos
esses políticos fariseus à maneira de
Helmut Kohl e Adolf Ogi,
e roga a Deus para que
ponha fim, por fim,
à ordem no mundo.
Pois então ondeará
(pelos ares) a fita azul
e todos nós saberemos
para que serve a dor, para que serve a alegria.
Roga por nós, Santo
Mörike, tal não
prejudicará a tua fama e
fará de ti um homem
que é mais do que apenas
um grande poeta.
Neste sentido, Mörike,
agora digo amén,
e louvo o Senhor.
Deus esteja contigo,
eternamente e para sempre.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; ed. bilingue; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi; Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., pp. 209-217).
 
 
 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Ewa Lipska

[Não fui salva...]



Não fui salva pela inundação
contudo mais de uma vez toquei o fundo

Não fui salva pelo incêndio
contudo ardi durante anos

Não fui salva pelas catástrofes
contudo comboios e automóveis passaram por cima de mim

Não fui salva pelos aviões
que explodiram no ar comigo a bordo

Os muros das grandes cidades
desmoronaram-se sobre mim

Não fui salva pelos cogumelos venenosos
nem pelas balas precisas dos pelotões de execução

Não fui salva pelo fim do mundo
que não teve tempo de se ocupar de mim

Nada me salvou

EU VIVO



(Versão minha a partir da tradução francesa de Georges Lisowski reproduzida em Vingt-quatre poètes polonais, Éditions du Murmure, Neuilly-lès-Dijon, 2003, pp. 128-129).

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Albert Ehrismann

[Ontem vi...]



Ontem vi um cavalo
a rezar.
Não me pergunte como e onde,
porque estou a mentir.
Mas eu queria sinceramente ver um cavalo
a rezar
e rezar com ele
por ti.
Porque te amo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi; edição bilingue; Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d, p 29).

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Günter Kunert

Inquietações



Aquele que decidiu viver
Tem de saber porque acordou
Na noite passada, para onde
Vai hoje rua após rua,
Com que propósito caiará amanhã
De branco o seu quarto.

Terá havido um grito?
Há uma finalidade?
O lugar será seguro?



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Christopher Middleton reproduzida em East Germany Poetry - an anthology; selecção de Michael Hamburguer, Carcanet Press, Oxford, 1972, p. 93).

domingo, 2 de setembro de 2012

Albert Ehrismann

Dura lição para escritores



Acredita que pode mudar o mundo?
Não.
Então por que escreve?
Porque não o posso mudar.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida como texto de abertura da Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi, edição bilingue alemão/castelhano, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., p. 5)