quarta-feira, 13 de maio de 2015
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Rajatendra Mukhopadhyay
Sobre a visita ao tigre
Os tigres gostam muito de se olhar a si próprios. Vêm à margem do rio ao entardecer. As suas sombras saltam na água brilhante. Para ver o rosto do tigre temos de agarrar o tigre por trás tocando no ombro do animal e pondo o rosto do visitante ao lado dele. Mas creio que ninguém o conseguiu fazer, à excepção de Tarzan.
Existem mais ou menos três formas de nos aproximarmos, na nossa vida selvática.
São:
1 Quando o tigre está dentro da jaula, tu estás fora (por exemplo no zoo)
2 Quando o tigre está fora da jaula, tu estás dentro (por exemplo na reserva natural)
3 Quando o tigre e tu estão fora (por exemplo o tigre no chão e tu no alto de uma grande árvore)
Mas nada importa a não ser o desejo de ver o tigre. Se este desejo não viajar no interior da cabeça como os cânticos místicos, não se pode tirar prazer da visita.Existe ainda uma forma de ver o tigre involuntariamente: comer 24 pães fritos de Bengala que se chamam Luchi com um prato de cordeiro com muitas especiarias que se chama Kalia.
Os tigres gostam muito de se olhar a si próprios. Vêm à margem do rio ao entardecer. As suas sombras saltam na água brilhante. Para ver o rosto do tigre temos de agarrar o tigre por trás tocando no ombro do animal e pondo o rosto do visitante ao lado dele. Mas creio que ninguém o conseguiu fazer, à excepção de Tarzan.
Existem mais ou menos três formas de nos aproximarmos, na nossa vida selvática.
São:
1 Quando o tigre está dentro da jaula, tu estás fora (por exemplo no zoo)
2 Quando o tigre está fora da jaula, tu estás dentro (por exemplo na reserva natural)
3 Quando o tigre e tu estão fora (por exemplo o tigre no chão e tu no alto de uma grande árvore)
Mas nada importa a não ser o desejo de ver o tigre. Se este desejo não viajar no interior da cabeça como os cânticos místicos, não se pode tirar prazer da visita.Existe ainda uma forma de ver o tigre involuntariamente: comer 24 pães fritos de Bengala que se chamam Luchi com um prato de cordeiro com muitas especiarias que se chama Kalia.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Subhro Bandopadhyay, com adaptação de Violeta Medina, reproduzida em La pared de agua -Antología de poesía bengali contemporánea; Olifante, Saragoça, 2011, p. 223).
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Desanka Maksimovic
Cobra
Sob a erva segada e seca
rastejava uma cobra.
À sua volta o prado vazio
(apenas uma flor).
Sobre ela duas, três nuvens,
o voo de um pássaro,
o sol que brilha.
Na curva da estrada, à distância,
alguém canta.
A melodia solitária emaranha-se
na erva.
Ela põe-se à escuta, atenta, a cabeça erguida
em pleno ar.
O sol brilha.
Este é o sítio onde mataram a sua mãe
com a lâmina de uma gadanha.
Ela terá a mesma sorte
quando rastejar para fora do matagal.
A sua roupagem apodrecerá
com os seus bordados
e a incandescência do orvalho.
Mesmo na eternidade
nunca mais esta cobra se aquecerá assim ao sol,
nem estes pássaros voarão assim,
nem esta flor germinará assim.
E o sol brilha.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic, incluída em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização e introdução do tradutor; Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 43).
Sob a erva segada e seca
rastejava uma cobra.
À sua volta o prado vazio
(apenas uma flor).
Sobre ela duas, três nuvens,
o voo de um pássaro,
o sol que brilha.
Na curva da estrada, à distância,
alguém canta.
A melodia solitária emaranha-se
na erva.
Ela põe-se à escuta, atenta, a cabeça erguida
em pleno ar.
O sol brilha.
Este é o sítio onde mataram a sua mãe
com a lâmina de uma gadanha.
Ela terá a mesma sorte
quando rastejar para fora do matagal.
A sua roupagem apodrecerá
com os seus bordados
e a incandescência do orvalho.
Mesmo na eternidade
nunca mais esta cobra se aquecerá assim ao sol,
nem estes pássaros voarão assim,
nem esta flor germinará assim.
E o sol brilha.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic, incluída em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização e introdução do tradutor; Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 43).
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Manuel Martínez de Navarrete (1768-1809)
Do amor
Que é prisão e enfermidade,
dizem, o amor; eu digo
que não quero, Fábio amigo,
nem saúde nem liberdade.
Que é prisão e enfermidade,
dizem, o amor; eu digo
que não quero, Fábio amigo,
nem saúde nem liberdade.
(Versão minha; original reproduzido em Dos siglos de poesía mexicana - Del XIX al fin del milenio: uma antología; seleção e prólogo de Juan Domingo Argüelles, Oceano, 2001, p. 26),
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Roberto Fernández Retamar
O outro
Nós, os sobreviventes,
A quem devemos a sobrevivência?
Quem morreu por mim na masmorra,
Quem recebeu a minha bala,
A que me foi destinada, no coração?
Sobre que morto estou eu vivo,
Os seus ossos tornando-se os meus,
Os olhos que lhe arrancaram vendo
Pelo olhar da minha cara,
E a mão que não é a sua mão,
E que também não é a minha,
Escrevendo palavras apodrecidas
Onde ele não está, na vida que sobrevive?
Nós, os sobreviventes,
A quem devemos a sobrevivência?
Quem morreu por mim na masmorra,
Quem recebeu a minha bala,
A que me foi destinada, no coração?
Sobre que morto estou eu vivo,
Os seus ossos tornando-se os meus,
Os olhos que lhe arrancaram vendo
Pelo olhar da minha cara,
E a mão que não é a sua mão,
E que também não é a minha,
Escrevendo palavras apodrecidas
Onde ele não está, na vida que sobrevive?
(Versão minha; original reproduzido em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 701).
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Karmelo C. Iribarren
Os dias normais
Chegam
e vão-se
sem deixar rasto,
e tu ficas a vê-los
a afastarem-se sobre os telhados
- e com eles, os anos -
e apenas sentes nada
ou sentes algo, vago,
que não sabes
decifrar.
São os dias
normais, os de sempre,
os que parece que passam
à distância,
os assassinos
do amor.
Chegam
e vão-se
sem deixar rasto,
e tu ficas a vê-los
a afastarem-se sobre os telhados
- e com eles, os anos -
e apenas sentes nada
ou sentes algo, vago,
que não sabes
decifrar.
São os dias
normais, os de sempre,
os que parece que passam
à distância,
os assassinos
do amor.
(Versão minha; original reproduzido em La piel de la vida, Baile del Sol, 2013, p. 27).
domingo, 30 de novembro de 2014
Marco Martos
Gonzalo Rojas e Braulio Arenas
Vindo de Chillán Gonzalo Rojas chegou a Santiago
para falar com o seu amigo Braulio Arenas.
"Perdi a minha juventude nos bordéis",
disse Rojas, "perdi a minha mocidade nos clubes de xadrez",
respondeu Arenas.
- Os bordéis provocam medo e alegria também.
- Os clubes de xadrez são um pânico na vida.
- Como se pode preferir a rainha
inventada do jogo de xadrez
à mulher verdadeira do prostíbulo?
- Não sei, as duas nunca se entregam.
- Mente aquele que diga que disfruta num clube de xadrez.
- Mente aquele que refocila com a puta num bordel.
- Mente aquele que acaricia o rosto da rainha.
- Mente aquele que joga xadrez no lupanar.
- Nós somos anjos e nunca mentimos.
Vindo de Chillán Gonzalo Rojas chegou a Santiago
para falar com o seu amigo Braulio Arenas.
"Perdi a minha juventude nos bordéis",
disse Rojas, "perdi a minha mocidade nos clubes de xadrez",
respondeu Arenas.
- Os bordéis provocam medo e alegria também.
- Os clubes de xadrez são um pânico na vida.
- Como se pode preferir a rainha
inventada do jogo de xadrez
à mulher verdadeira do prostíbulo?
- Não sei, as duas nunca se entregam.
- Mente aquele que diga que disfruta num clube de xadrez.
- Mente aquele que refocila com a puta num bordel.
- Mente aquele que acaricia o rosto da rainha.
- Mente aquele que joga xadrez no lupanar.
- Nós somos anjos e nunca mentimos.
(Versão minha; original reproduzido em Antología - La poesía del siglo XX en Perú; seleção de José Miguel Oviedo, Visor, Madrid, 2008, p. 562).
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Wislawa Szymborska
Consolo
Darwin.
Dizem que para descansar lia romances.
Mas tinha as suas exigências:
não podiam terminar de forma triste.
Se acontecia dar com algum assim,
furioso atirava-o ao fogo.
Verdade ou não,
acredito nisto com gosto.
Percorrendo com o pensamento tantas regiões e tempos
encontrou-se com tantas espécies mortas,
com tantos triunfos dos fortes sobre os mais débeis,
com tantas tentativas de sobrevivência,
mais tarde ou mais cedo inúteis,
que ao menos da ficção
e da sua microescala
tinha o direito de esperar um final feliz.
Pelo que, necessariamente: um raio de luz entre as nuvens,
amantes de novo juntos, linhagens que se reconciliam,
dúvidas resolvidas, fidelidades premiadas,
fortunas recuperadas, tesouros encontrados,
vizinhos arrependidos dos seus rancores,
a honra recuperada, a cobiça ridicularizada,
solteironas casadas com reverendos pastores,
intriguistas desterrados para o outro hemisfério,
falsificadores de documentos lançados pelas escadas abaixo,
sedutores de donzelas a caminho do altar,
órfãos acolhidos, viúvas reconfortadas,
soberbas humilhadas, feridas fechadas,
filhos pródigos chamados à mesa,
o cálice da amargura derramado no mar,
lenços húmidos de lágrimas de perdão,
cantos e música por todos os lados;
e Fido, o cão,
perdido logo no primeiro capítulo,
que corra de novo para casa
e ladre alegremente!
Darwin.
Dizem que para descansar lia romances.
Mas tinha as suas exigências:
não podiam terminar de forma triste.
Se acontecia dar com algum assim,
furioso atirava-o ao fogo.
Verdade ou não,
acredito nisto com gosto.
Percorrendo com o pensamento tantas regiões e tempos
encontrou-se com tantas espécies mortas,
com tantos triunfos dos fortes sobre os mais débeis,
com tantas tentativas de sobrevivência,
mais tarde ou mais cedo inúteis,
que ao menos da ficção
e da sua microescala
tinha o direito de esperar um final feliz.
Pelo que, necessariamente: um raio de luz entre as nuvens,
amantes de novo juntos, linhagens que se reconciliam,
dúvidas resolvidas, fidelidades premiadas,
fortunas recuperadas, tesouros encontrados,
vizinhos arrependidos dos seus rancores,
a honra recuperada, a cobiça ridicularizada,
solteironas casadas com reverendos pastores,
intriguistas desterrados para o outro hemisfério,
falsificadores de documentos lançados pelas escadas abaixo,
sedutores de donzelas a caminho do altar,
órfãos acolhidos, viúvas reconfortadas,
soberbas humilhadas, feridas fechadas,
filhos pródigos chamados à mesa,
o cálice da amargura derramado no mar,
lenços húmidos de lágrimas de perdão,
cantos e música por todos os lados;
e Fido, o cão,
perdido logo no primeiro capítulo,
que corra de novo para casa
e ladre alegremente!
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Gerardo Beltrán incluída em Dos puntos, Ediciones Igitur; prólogo de Ricardo Cano Gavíria; traduções de Abel A. Murcia Soriano e Gerardo Beltrán; Saragoça, 2007, pp. 42-44)
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Ishigaki Rin
Amêijoas
A meio da noite abri os olhos.
Tinha comprado amêijoas à tarde
e num canto da cozinha ali estavam
de bocas abertas e bem vivas.
"Quando vier o dia
vou comê-las
uma a uma".
Soltei uma gargalhada
de bruxa velha.
E mais nada: dormi
de boca semiaberta
toda a noite.
A meio da noite abri os olhos.
Tinha comprado amêijoas à tarde
e num canto da cozinha ali estavam
de bocas abertas e bem vivas.
"Quando vier o dia
vou comê-las
uma a uma".
Soltei uma gargalhada
de bruxa velha.
E mais nada: dormi
de boca semiaberta
toda a noite.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Aurelio Asiain reproduzida em Para otras mil generaciones más... Antología poética japonesa desde el Kojiki a nuestros días; organização, prólogo e apresesntação dos autores de Fernando Cid Lucas, Amargord Ediciones, Madrid, 2013, p. 101).
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Ooka Makoto
Canção da chama
Os que me tocam
dão um grito, aterrados.
Ignoro, no entanto,
se sou quente ou fria,
pois não estou um segundo em nenhum sítio,
nem é nada o que fui há um instante.
O meu modo de partir é o incêndio.
Luto contra o escuro,
mas não chego a lado nenhum:
só regresso ao obscuro.
Temem-me sempre porque,
por alguma razão desconhecida,
procuro o papel, a madeira e a carne,
roço-me por eles, acaricio-os, vou comendo-os
e eu mesma
pereço nas suas cinzas.
Sim, sou desprendida até à medula.
Os que me tocam dão um grito:
sei que para os homens
o meu amor é um escândalo.
Os que me tocam
dão um grito, aterrados.
Ignoro, no entanto,
se sou quente ou fria,
pois não estou um segundo em nenhum sítio,
nem é nada o que fui há um instante.
O meu modo de partir é o incêndio.
Luto contra o escuro,
mas não chego a lado nenhum:
só regresso ao obscuro.
Temem-me sempre porque,
por alguma razão desconhecida,
procuro o papel, a madeira e a carne,
roço-me por eles, acaricio-os, vou comendo-os
e eu mesma
pereço nas suas cinzas.
Sim, sou desprendida até à medula.
Os que me tocam dão um grito:
sei que para os homens
o meu amor é um escândalo.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Aurelio Asiain reproduzida em Para otras mil generaciones más... Antología poética japonesa desde el Kojiki a nuestros días; organização, prólogo e apresentação dos autores de Fernando Cid Lucas; Amargord Ediciones, Madrid, 2013, pp. 109-110).
sábado, 4 de outubro de 2014
Joaquín Morales
Boas maneiras
Não fales com a boca cheia
de palavras.
Não fales com a boca cheia
de palavras.
(Versão minha; original incluído em La poesía del siglo XX en Paraguay; organização de Mar Langa; Visor, Madrid, 2014, p. 583).
domingo, 28 de setembro de 2014
Marco Antonio Campos
Os poetas modernos
E o que ficou das experimentações,
da "grande estreia da modernidade",
do "confronto com a página em branco",
da pirueta rítmica e do
contra-ângulo da palavra,
de ultraístas e pássaros concretos,
de surrealizantes com sonhos de
náufrago em vez de terra firme,
quantos versos te revelaram um mundo,
quantos versos ficaram no teu coração,
diz-me, quantos versos ficaram no teu coração.
E o que ficou das experimentações,
da "grande estreia da modernidade",
do "confronto com a página em branco",
da pirueta rítmica e do
contra-ângulo da palavra,
de ultraístas e pássaros concretos,
de surrealizantes com sonhos de
náufrago em vez de terra firme,
quantos versos te revelaram um mundo,
quantos versos ficaram no teu coração,
diz-me, quantos versos ficaram no teu coração.
(Versão minha; original incluído em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana GAllego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 888).
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Jacobo Rauskin
A pastagem
Há poucas árvores,
a floresta foi vendida para o Brasil,
os macacos foram para Marselha
e os papagaios para Nápoles.
Resta-nos a pastagem
à direita e à esquerda
da utopia rodoviária sem valetas.
E resta-nos a chuva.
Ela, desde Noé, é nossa.
Há poucas árvores,
a floresta foi vendida para o Brasil,
os macacos foram para Marselha
e os papagaios para Nápoles.
Resta-nos a pastagem
à direita e à esquerda
da utopia rodoviária sem valetas.
E resta-nos a chuva.
Ela, desde Noé, é nossa.
(Versão minha; original incluído em La poesía del siglo XX en Paraguay; organização de Mar Langa, Visor, Madrid, 2014, p. 428).
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Wislawa Szymborska
Correntes
Um dia sufocante, a casota de um cão e o cão acorrentado.
Uns passos mais à frente um pequeno bebedouro cheio de água.
Porém a corrente é demasiado curta e o cão não chega lá.
Acrescentemos à imagem mais um detalhe:
as nossas muito mais compridas
e menos visíveis correntes
graças às quais podemos passar tranquilamente ao largo.
Um dia sufocante, a casota de um cão e o cão acorrentado.
Uns passos mais à frente um pequeno bebedouro cheio de água.
Porém a corrente é demasiado curta e o cão não chega lá.
Acrescentemos à imagem mais um detalhe:
as nossas muito mais compridas
e menos visíveis correntes
graças às quais podemos passar tranquilamente ao largo.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Abel A. Murcia Soriano e Gerardo Beltrán reproduzida em Hasta aquí, Bartleby Editores, Madrid, 2014, p. 21).
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Julia Hartwig
O manuscrito
Na casa onde nasceu Beethoven
pode ver-se, exposto numa vitrine, um texto do compositor escrito à mão
cheio de rasuras e correções.
É a carta em que pede a um poderoso príncipe que aceite
a sinfonia que acaba de concluir.
Nenhuma composição deste génio
mostra no papel marcas de um esforço idêntico ao que transparece nesta carta,
dirigida ao soberano de um pequeno Estado de que hoje já ninguém se lembra.
(Bona, junho de 2000)
Na casa onde nasceu Beethoven
pode ver-se, exposto numa vitrine, um texto do compositor escrito à mão
cheio de rasuras e correções.
É a carta em que pede a um poderoso príncipe que aceite
a sinfonia que acaba de concluir.
Nenhuma composição deste génio
mostra no papel marcas de um esforço idêntico ao que transparece nesta carta,
dirigida ao soberano de um pequeno Estado de que hoje já ninguém se lembra.
(Bona, junho de 2000)
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Antonio Benítez Burraco e Anna Sobieska, reproduzida em Dualidad - Antología poética, Vaso Roto Ediciones, Madrid, 2013, p. 65).
domingo, 31 de agosto de 2014
Roberto Fernández Retamar
Aqui
Aqui viveu Brecht.
Aqui está a máscara do mal
Sobre a qual fez aquele poema.
Aqui está o aquecedor que lhe deu calor.
Aqui estão os livros de Lenine intensamente anotados.
E os livros proíbidos.
Aqui está a mesa onde escrevia
E a partir da qual olhava o cemitério
Em que iria ser enterrado.
Aqui está a pintura chinesa do homem que duvida
Coroando o seu quarto de dormir.
Aqui recebia os amigos.
Aqui pensava.
Aqui discutia.
Aqui sorria.
Aqui projectava coisas melhores.
Aqui algures
Está a mensagem que me deixou
E que eu procuro e volto a procurar sem encontrar.
Ou talvez já a tenha recebido.
Aqui viveu Brecht.
Aqui viveu Brecht.
Aqui está a máscara do mal
Sobre a qual fez aquele poema.
Aqui está o aquecedor que lhe deu calor.
Aqui estão os livros de Lenine intensamente anotados.
E os livros proíbidos.
Aqui está a mesa onde escrevia
E a partir da qual olhava o cemitério
Em que iria ser enterrado.
Aqui está a pintura chinesa do homem que duvida
Coroando o seu quarto de dormir.
Aqui recebia os amigos.
Aqui pensava.
Aqui discutia.
Aqui sorria.
Aqui projectava coisas melhores.
Aqui algures
Está a mensagem que me deixou
E que eu procuro e volto a procurar sem encontrar.
Ou talvez já a tenha recebido.
Aqui viveu Brecht.
(Versão minha; Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 709).
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Tracy K. Smith
A vida boa
Quando algumas pessoas falam de dinheiro
Fazem-no como se este fosse um amante misterioso
Que saiu para comprar leite e nunca mais
Voltou, e isso torna-me nostálgica
Daqueles anos em que vivi de pão e café,
Sempre esfomeada, indo para o trabalho em dia de receber
Como uma mulher que vai à procura de água
A partir de uma aldeia sem poço, vivendo então
Uma ou duas noites como toda a gente
De frango assado e vinho tinto.
(Versão minha; original aqui).
Quando algumas pessoas falam de dinheiro
Fazem-no como se este fosse um amante misterioso
Que saiu para comprar leite e nunca mais
Voltou, e isso torna-me nostálgica
Daqueles anos em que vivi de pão e café,
Sempre esfomeada, indo para o trabalho em dia de receber
Como uma mulher que vai à procura de água
A partir de uma aldeia sem poço, vivendo então
Uma ou duas noites como toda a gente
De frango assado e vinho tinto.
(Versão minha; original aqui).
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Roberto Fernández Retamar
Direito e dever de escrever sobre tudo
Absurda a ideia de que só podes escrever sobre o que te aconteceu
(O pouco, o ínfimo que aconteceu a esse corpo, a essa vida medida nas suas datas),
Como se tudo não te tivesse acontecido, como se
Houvesse uma tarde que não tivesse nascido para ti,
Como se todos os impérios, batidos pelos ventos dos desertos, devorados pelas selvas,
Não tivessem conduzido a ti,
Como se o mais longínquo astro, extraviado até ao limite do universo,
E também os astros que hoje já não existem,
E as nebulosas pensativas,
Não tivessem trabalhado, sabendo-o ou sem o saberem,
Para ti, para este instante, para este poema
Que se escreve graças ao alento exalado por Miranda ou Xenofonte
Com restos que sobraram de Cassiopeia.
Absurda a ideia de que só podes escrever sobre o que te aconteceu
(O pouco, o ínfimo que aconteceu a esse corpo, a essa vida medida nas suas datas),
Como se tudo não te tivesse acontecido, como se
Houvesse uma tarde que não tivesse nascido para ti,
Como se todos os impérios, batidos pelos ventos dos desertos, devorados pelas selvas,
Não tivessem conduzido a ti,
Como se o mais longínquo astro, extraviado até ao limite do universo,
E também os astros que hoje já não existem,
E as nebulosas pensativas,
Não tivessem trabalhado, sabendo-o ou sem o saberem,
Para ti, para este instante, para este poema
Que se escreve graças ao alento exalado por Miranda ou Xenofonte
Com restos que sobraram de Cassiopeia.
(versão minha; original incluído em Juegos de Manos (Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX); organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 702)
sábado, 8 de fevereiro de 2014
sábado, 1 de fevereiro de 2014
A não perder: Wislawa Szymborska hoje à noite na RTP 2
"(...) A aproximação de Szymborska a essa célebre fotografia do homem que sabemos real e que se atira para o vazio, para escapar à morte pelo fogo que destruiu as Torres do World Trade Center, consiste explicitamente em descrever o voo (essa queda) e em escolher o silêncio perante o horror. Ou seja, em tomar a palavra e, em sentido inverso, optar também pela sua rasura final. Talvez este poema seja mesmo um dos exemplos mais poderosos da determinação ética e poética da autora polaca. Aqui, descrever é mais do que uma acção ecfrástica. É a afirmação de uma recusa de uma abordagem complacente ou sentimentalizante dominada pelo pathos. E é uma forma de sondar a realidade, mesmo que esta se apresente dominada pelo horror e pela morte. Neste sentido, contrariando radicalmente o ofensivo lugar-comum da imagem que vale por mil palavras (que implica a diminuição destas frente à suposta força daquela), Szymborska assume, sem levantar a voz, o imperativo de potenciar o valor insubstituível da linguagem verbal, fazendo de cada palavra uma palavra necessária. Não se trata, portanto, de embelezar ou de desfigurar o mundo. Trata-se, isso sim, de mostrá-lo por meio de imagens verbais que permitam a revelação de pequenos traços de humanidade, traços que afirmem a veemência da vida mesmo se ela é, ou sobretudo porque é, frágil e sublime nessa fragilidade.(...)
(Luís Filipe Parrado: excerto do parágrafo final da recensão publicada no número 4 da revista Cão Celeste da antologia Um Passo da Arte Eterna, de Wislawa Szymborska, organizada e traduzida por Teresa Fernandes Swiatkiewicz e editada pela Esfera do Caos em 2013).
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Cão Celeste nº 4
No quarto número do Cão
Celeste,
com direcção de Inês
Dias/Manuel de Freitas
e coordenação gráfica
de Luís Henriques,
colaboram Abel Neves,
Alberto Pimenta, Alexandre Sarrazola, Ana Menezes,
Ana Isabel Soares,
André Lemos, Bárbara Assis Pacheco, Cláudia Dias,
Daniela Gomes, Diniz
Conefrey, Fabiano Calixto, Gavarni/Estúdios & etc,
Inês Dias, Isabel
Baraona, Isabel Nogueira, Joana Matos Frias, Jorge Roque,
José Ángel Cilleruelo,
José Miguel Silva, Luís Filipe Parrado, Luís França,
Luís Henriques, Manuel
de Freitas, Manuel Diogo, Maria João Worm,
Maria da Conceição
Caleiro, Paulo da Costa Domingos, Rosa Maria Martelo,
Ricardo Castro e Rui Nunes.
domingo, 10 de novembro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Antón García
O nada e tu
(Pavese no Hotel Roma,
26 de agosto de 1950)
(Pavese no Hotel Roma,
26 de agosto de 1950)
A Pablo Antón Marín Estrada
Quando por ti vier a morte
chegará pela tua mão, cega
virá, conduzindo os seus passos
uma dor antiga e ténue.
Será como vestir em festa
um traje novo de domingo
que jamais poderás tirar.
Verás um rosto ao espelho,
a sombra obscura da morte,
e não saberás quem é.
Anuncia-te um tempo de derrota.
Para que perguntas, não chames,
que ninguém haverá que te responda.
Sairás de manhã tão cedo
que não escutarás a voz da alba
que grita, que te chama e suplica,
que chora por ti e te quer para si.
Nada haverá entre o nada e tu.
(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana do próprio autor reproduzidas em La mirada aliella / La mirada atenta - Antología 1983-2006; edição bilingue; introdução de Araceli Iravedra; Ediciones Trea, Gijón, 2011, pp. 104-105).
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Matija Beckovic
Ninguém voltará a escrever poesia
Ninguém voltará a escrever poesia nunca mais,
Os temas imortais abandonarão os poemas
Descontentes com a forma como foram entendidos e versificados.
Tudo o que alguma vez foi assunto da poesia
Rebelar-se-á contra ela e a sua cobardia.
Os objectos dirão eles mesmos aquilo que os poetas não tiveram a coragem de dizer.
O mar - esse tópico antigo dos poetas - abandonará para sempre a poesia
E regressará à sua sepultura onde poderá crescer de novo.
O sol - tornado ridículo,
O céu estrelado - tranformado num lugar-comum,
Renunciarão à poesia.
As rosas insistirão na sua cor
E não aceitarão a volubilidade dos poetas.
A palavra liberdade fugirá e recuperará o seu significado.
Os poetas não terão uma língua com a qual possam cantar.
Não haverá nenhuma relação entre a poesia e os poetas,
E por isso os poemas atacarão os poetas
Exigindo-lhes que cumpram as promessas que fizeram.
Os poetas negarão o que antes afirmaram,
Mas tudo o que imaginaram e profetizaram acabará por aprisioná-los.
A poesia exigirá as suas vidas
Para que as metáforas que criaram sejam verdadeiras e irrefutáveis.
Nas futuras gerações
Ninguém, seja a que preço for, quererá ser poeta.
Os poetas do porvir encontrarão maneiras melhores de passar o tempo.
Os homens livres não consentirão que se escrevam poemas para que se seja poeta -
E no entanto não existe outro modo de ser poeta.
Uma árvore - outrora símbolo poético -
Lamentará na praça o seu passado tenebroso
E ninguém alguma vez poderá igualar o seu lamento
Pois ela conhece-se melhor do que ninguém.
Os verdadeiros poetas lutarão contra a poesia
E por todo o lado defenderão a mesma ideia:
Em nome do respeito por si próprios enquanto verdadeiros poetas
Nenhum deles voltará a escrever poesia munca mais.
Ninguém voltará a escrever poesia nunca mais,
Os temas imortais abandonarão os poemas
Descontentes com a forma como foram entendidos e versificados.
Tudo o que alguma vez foi assunto da poesia
Rebelar-se-á contra ela e a sua cobardia.
Os objectos dirão eles mesmos aquilo que os poetas não tiveram a coragem de dizer.
O mar - esse tópico antigo dos poetas - abandonará para sempre a poesia
E regressará à sua sepultura onde poderá crescer de novo.
O sol - tornado ridículo,
O céu estrelado - tranformado num lugar-comum,
Renunciarão à poesia.
As rosas insistirão na sua cor
E não aceitarão a volubilidade dos poetas.
A palavra liberdade fugirá e recuperará o seu significado.
Os poetas não terão uma língua com a qual possam cantar.
Não haverá nenhuma relação entre a poesia e os poetas,
E por isso os poemas atacarão os poetas
Exigindo-lhes que cumpram as promessas que fizeram.
Os poetas negarão o que antes afirmaram,
Mas tudo o que imaginaram e profetizaram acabará por aprisioná-los.
A poesia exigirá as suas vidas
Para que as metáforas que criaram sejam verdadeiras e irrefutáveis.
Nas futuras gerações
Ninguém, seja a que preço for, quererá ser poeta.
Os poetas do porvir encontrarão maneiras melhores de passar o tempo.
Os homens livres não consentirão que se escrevam poemas para que se seja poeta -
E no entanto não existe outro modo de ser poeta.
Uma árvore - outrora símbolo poético -
Lamentará na praça o seu passado tenebroso
E ninguém alguma vez poderá igualar o seu lamento
Pois ela conhece-se melhor do que ninguém.
Os verdadeiros poetas lutarão contra a poesia
E por todo o lado defenderão a mesma ideia:
Em nome do respeito por si próprios enquanto verdadeiros poetas
Nenhum deles voltará a escrever poesia munca mais.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização e tradução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p 177.)
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