terça-feira, 28 de julho de 2009

Jan Erik Vold

O mistério básico do capitalismo



O mistério básico
do capitalismo: como uma coroa, permanecendo imóvel

durante um certo período de tempo, faz nascer dez cêntimos
ao seu lado - por exemplo: Tu pões

como diz o anúncio
20.000 coroas numa conta de alta rentabilidade

num dos nossos grandes bancos. Passados seis anos
podes ir a esse banco e receber

35.532 coroas. Agora a questão é: A quem
tiraram as 15.532 coroas?



(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Francisco J. Uriz reproduzida em El poema nos recuerda el mundo, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2000, p. 104).

domingo, 26 de julho de 2009

Aaron Zeitlin

As crianças estão sempre a morrer



As crianças desaparecem.
Os adultos - espectros
de crianças mortas.

As crianças - sempre a morrer -
mesmo aquelas que continuam a brincar
no pátio da escola, na varanda
nas traseiras do armazém, atrás do sofá,
no canto do quarto.
As suas brincadeiras são breves -
acabam num instante.
Os adultos avisam-nas,
"Não se sujem."
"Despachem-se, vamos embora."

As crianças - criadoras. Travessas.
Agora aqui mesmo, desaparecidas logo a seguir.

As crianças desaparecem.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Richard J. Fein, reproduzida em With everything we've got - a personal anthologt of yiddish poetry, selecção e tradução de Richard J. Fein, Host, Austin, 2009, p. 128).

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Aaron Zeitlin

Texto



Todos nós -
pedras, pessoas, estilhaços de vidro ao sol,
embalagens de compota, gatos e árvores -
somos ilustrações de um texto.

Algures, ninguém precisa de nós.
Aí, só o texto é lido -
as imagens desfazem-se como folhas secas.

Quando o vento da morte sacode a erva alta
e todas as imagens criadas pelas nuvens
a ocidente são varridas para longe -
a noite chega e interpreta as estrelas.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Richard J. Fein, reproduzida em With everything we've got - a personal anthology of yiddish poetry, selecção e tradução de Richard J. Fein, Host, Austin, 2009, p. 126).

terça-feira, 21 de julho de 2009

Jean Nordhaus

Eu estava sempre de partida



Eu estava sempre de partida, sempre
prestes a levantar-me e a seguir, sempre
a caminho, sem saber para onde.
Para outro sítio. Aqui é que não.
Aqui nunca nada me bastava.

Teria de ser melhor lá, para onde
me dirigia. Sem saber como, nem porquê.
A cúpula debaixo da qual me encolhia
seria erguida, e eu haveria de ser lançado
para dentro da minha verdadeira vida. Nela

encontraria os que estava destinado a encontrar.
Receber-me-iam em festa,
com flautas e castanholas,
e seria levantado no ar. Que isto
pudessse ser uma espécie de morte

não me ocorreu. Só sei que
alguma coisa me reteve,
uma dúvida, uma dívida, um rosto que não pude
abandonar. Quando a porta
se abriu, não entrei.



(versão minha; original reproduzido aqui).

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Amir Gilboa

Sentai-vos, amigos...



Sentai-vos, amigos, senta-te também tu
pai eu sou
aqui o mais alto o mais velho
de vós.

Sentai-vos comigo amigos meus
também eu aqui
me calarei convosco.



(versão minha, a partir da tradução do espanhol de Teresa Martínez reproduzida em Poesía hebrea contemporânea, tradução e introdução de Teresa MArtínez, Hipérión, 2ª edição, Madrid, 2001, p. 37).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Marina Boroditskaya

Pobre compositor



Pobre compositor,
dispensável sem um piano,
pobre prosador,
desesperado sem uma secretária.
E pobre artista,
que precisa de cavalete, pincéis
e pequenos tubos de tinta.
Eu não seria capaz de lidar com isso.

Pobre, pobre escultor.
Pobre realizador.
Neste mundo só
o poeta é um ser afortunado.
Ele caminha pelo parque
com uma estrofe na cabeça.
(Isto desde que não lhe dês
- como a Pushkin - um tiro nas tripas).



(versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Fainlight, reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, organização e selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, p.21).

sábado, 4 de julho de 2009

Yusef Komunyakaa

Terra do Nunca



Quem me dera que esta noite
não fosses um dos Jackson Five
e apenas permanecesses

dentro de ti próprio,
intocado pelo vampiro
do luar. Tão ansioso

por representar O Outro,
terás esquecido que Drácula
foi escolhido pelo

seu cabelo negro, pela sua pele
cor-de-azeitona? Depois de
te teres tornado a tua própria capa

os títulos dos tablóides
enxertaram o teu nome
num rapazinho louro.

A tua vida íntima escorreu como sangue
pelo papel de jornal,
cruzou o teu rosto. Victor

Frankenstein sabia que é nosso dever
amarmos o que criamos. Talvez
agora a pele comece a rejuvenescer

sobre as mentiras & subtraia
tudo o que mina
nariz & ossos malares.

Tu podias dizer-nos se
é a solidão que faz
o pardal cantar.

Michael, não ligues
ao que a maquilhadora
diz, tu sabes

que o teu esperma nunca
reproduzirá esse rosto
no espelho oval.




(versão minha; original reproduzido em Real things - an anthology of popular culture in american poetry, selecção e organização de Jim Elledge e Susan Swartwout, Indiana University Press, Bloomington, 1999, pp. 150-151).

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Belén Reyes

Sou poeta



Sou poeta
E nunca levo escolta.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, p.249).

domingo, 21 de junho de 2009

José Manuel Arango

Os que têm por ofício lavar as ruas



Os que têm por ofício lavar as ruas
(madrugam, Deus ajuda-os)
encontram nas pedras, um dia após outro, rastos de sangue

E também os lavam: é o seu ofício
E depressa
não se dê o caso de os primeiros transeuntes os espezinharem



(versão minha; original reproduzido em La poesia del siglo XX em Colombia, edição de Ramón Cote Baraibar, Visor, Madrid, 2006, p. 276).

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Miroslav Holub

Cemitério judeu em Olsany, túmulo de Kafka, Abril, tempo solarengo



Ocultas sob os carvalhos
algumas pedras abandonadas
como palavras dispersas.
A solidão é tão compacta
que tem de ser feita de pedra.

O homem velho ao portão,
um Gregor Samsa
que não sofreu nenhuma metamorfose,
olha de esguelha
sob a nudez da luz,
respondendo a todas as perguntas:

Desculpe, mas não sei.
Não sou de Praga.



(versão minha, a partir da tradução do checo para o inglês de David Young e Dana Hábová reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), p. 184)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Leopold Staff

Fala



Não é necessário compreender o canto do rouxinol
Para o admirar.
Não é necessário compreender o coaxar das rãs
Para o considerar inebriante.
Eu compreendo a fala humana
Com todas as suas duplicidades e mentiras.
Se não a compreendesse
Seria o maior dos poetas.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Adam Czerniawski reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª (?) edição, 1993, p. 62).

domingo, 14 de junho de 2009

Brenda Ascoz

se sentes que não existes



se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca

se tu não existes,
a tua solidão muito menos.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 131).

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Roxana Popelka

Acerca da verdade, acerca da felicidade



Agora que
não estou contigo,
que não estarei
contigo nunca
mais,
é bom que
te diga várias coisas:

enganei-te
um montão de vezes
com alguns homens
muito mais jovens
do que tu
porque sabia que
isso era o que mais
te doía
e voltaria a fazê-lo
acredita
- asseguro-to -

que foram
os momentos
mais felizes da
minha vida.

Quando esses homens
me abriam a
porta e me
faziam entrar
nas suas casas.
E nos despíamos
com impaciência.

Então tirava
a camisola preta,
aquela, sim!
e o sutiã.

Alguns diziam-me:
"espera, fica um
instante com as cuecas
vestidas."

E beijávamo-nos
com paixão,
era autêntica a
paixão.

Lá fora
no pátio da
casa
ouvia-se uma mulher
a mexer os ovos perto do
televisor.

E voltávamos a beijar-nos
com ardor
esmagando
o que restava
dos nossos corpos
Alguns corpos
ossudos, outros
debilitados,
ou barbeados
tanto se me dava.

E entretanto
eu pensava tanto em como te
sentirias se tivesses
sabido
tudo isto.

Mas sempre
tive bons
álibis,
ainda te lembras?

Nunca suspeitaste
que tudo
aquilo era
mentira,
que o que fazia
verdadeiramente
era enganar-te com
homens muito
mais jovens
do que tu.

E essa
- asseguro-te -
foi a época
mais feliz da
minha vida.





(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, pp. 210-213).

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Carol Ann Duffy

Namorada



Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.

Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Promete luz
tal como o cuidadoso desnudamento do amor.

Aqui.
Vai cegar-te com lágrimas
tal como um amante.
Vai fazer do teu reflexo
uma fotografia tremida de dor.

Tento ser verdadeira.

Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.

Ofereço-te uma cebola.
Os seus beijos violentos permanecerão nos teus lábios,
possessivos e fiéis
como nós somos,
enquanto continuarmos a ser.

Aceita-a.
Se o desejares
os seus anéis de platina servem de alianças.

Letais.
O seu cheiro vai agarrar-se aos teus dedos,
agarrar-se à tua faca.



(versão minha; original reproduzido em Selected poems, Peguin, Londres, 2006, p. 11).

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Almudena Vidorreta Torres

Outro lugar



Noutro lugar deixou-se ficar nua
e deu o seu corpo ao lobo mais faminto da cidade.

Noutro lugar abriu a casa ao inimigo
e disse-lhe toma tudo quanto queiras.

Noutro lugar dançou com tanta água
que se lhe humedeceram as entranhas
e apodreceu por dentro.

Noutro lugar veio tanta gente vê-la
que o aplauso se transformou em tempestade de Verão
e a cabeça estalou-lhe de tanta névoa e tantos caracóis
e tanto Agosto e tanto fogo.

Noutro lugar rendeu-se
deixou-se levar pelo instinto noutro lugar
e deitou-se para sobreviver aos seus pés
e lamber as feridas do caminho...
e viveu noutro lugar a vida de rastos.

Noutro lugar,
não neste.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 21.)

sábado, 6 de junho de 2009

Kevin Griffith

Girando



Seguro o meu filho de dois anos
por debaixo dos braços e faço-o girar.
Os seus pés afastam-se de mim
e o dia desfaz-se numa mancha.
Tudo o que possuo voa pelos ares:
brinquedos de quintal, balde de areia, pá e ancinho,
garagem, casa,
e, por fim, os anos da minha vida.

Quando paramos, o meu filho é um adulto
e eu envelheci. Voltamos
a vacilar nos braços um do outro
uma última vez, dois amigos extraviados
cambaleando por causa da bebida,
recordando os bons velhos tempos.



(versão minha; original reproduzido aqui).

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Wendy Cope

Poema composto em Santa Bárbara



Os poetas falam. Falam muito.
Falam de T.S. Eliot.
Um é contra. Outro a favor.
Que pensamentos profundos, os seus! Quanta sabedoria!
São felizes. Uma cigarra canta.
Nós, mulheres, falamos de outras coisas.



(versão minha; original reproduzido aqui).

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Kevin Griffith

Dobrando os quarenta



De tempos a tempos parece que há um pequeno planeta
dentro de mim. E neste planeta
há uma imensidade de pequenas guerras, porém nenhuma
suficientemente grande para fazer uma verdadeira diferença.
As maiores potências - o espírito e o coração - declararam
tréguas por agora. Se houve um líder neste planeta
ninguém se lembra dele. Todas
as decisões são tomadas em conjunto.
No entanto há algumas imagens do velho ditador -
como parecia cheio de juventude no seu grande cavalo,
como brilhavam os seus olhos.
Estava preparado para conquistar o mundo.



(versão minha; original reproduzido aqui).

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Carmen Ruiz Fleta

A mulher mais feia do mundo



A mulher mais feia do mundo
falava-me dos tratamentos faciais gratuitos
enquanto punha na minha mão um folheto
com a mulher mais bela do mundo.
Foi às 10 horas da manhã.
A mulher mais feia do mundo
deve entregar 500 folhetos diários
da mulher mais bela do mundo
para ganhar 587 euros por mês.
Ninguém olha a cara da mulher mais feia do mundo.
Ninguém se atreve.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 87).

sábado, 30 de maio de 2009

Sofía Castañón

Chamo-me Sofía



Chamo-me Sofía
e desde pequena
tenho ouvido que é nome
de rainha.

Chamo-me Sofía
como os passos obscuros da minha avó
antes que um comboio me deixasse só
um nome
e um vazio
na memória.

Chamo-me Sofía
igual a conhecimento,
recordam-no aqueles que sabem três
palavras de grego e têm
muito pouco que contar.

Chamo-me Sofía
e nunca me dizem
como Coppola, como Marceau,
como a de Kill Bill
aquela a quem cortaram os dois braços.

E desculpo-me
por não ter um Jostein Gäarder
no meu mundo, por não
querer estar na ribalta, por não
ter da Bulgária mais do que um postal
que não era para mim.

Chamo-me Sofía
e desde pequena tenho ouvido
que é nome
de rainha e também
que por aqui chove muito
e que antes se lia mais
e que as crianças já não sabem brincar
e tantas outras
conversas de café. Por isso
para evitarmos
tanto tópico
e tanto discurso monárquico
queria chamar-me
de vez em quando
Dolores, Virgínia, Marguerite
e falar também
de revolução.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesia alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, pp. 37-38).

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Déborah Vukušić

chamo-me déborah vukušić



chamo-me déborah vukušić
sou duas metades
metade galega e metade croata
tenho 26 anos
23 de maio de 1979
saio para a luz

déborah em hebraico
'abelha'
vukušić em croata
uši: 'orelhas'
vuk: 'lobo'

abelha com orelhas de lobo




(versão minha, a partir do original em galego (?) e da sua versão castelhana (?), reproduzidos em 23 Pandoras - poesia alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 71; mais informação aqui e aqui).

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Steve Kowit

A lição de gramática



Um nome é uma coisa. Um verbo é a coisa que se faz.
Um adjectivo é o que descreve o nome.
Em "A vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim"

de e com são preposições. A é
um artigo, uma vasilha é um nome,
um nome é uma coisa. Um verbo é a coisa que se faz.

Uma vasilha pode ressoar - ou não. O que não é foi
ou pode ser, pode significando o ainda não conhecido.
"A nossa vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim"

é o presente do indicativo. Enquanto palavras como nossa e nós
são pronomes - isto é, isto é bolorento e eles são castanhos e repelentes.
Um nome é uma coisa; um verbo é a coisa que se faz.

Está é um verbo auxiliar. Auxilia porque
cheia não é uma forma verbal completa. A vasilha é o que é nosso
em "A nossa vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim".

Entendem? Não há muito mais a saber. É
só memorizar estas regras... ou escrevê-las no caderno!
Um nome é uma coisa, um verbo é a coisa que se faz.
A vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim.



(versão minha; original reproduzido aqui).

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Blaga Dimitrova





A árvore perdoa ao vento
que lhe saqueia as folhas
e abraça-o com os ramos.
A ave perdoa à nuvem
que engole o sol
e saúda-a com as asas.
A onda perdoa à pedra
que lhe impede o salto
e envolve-a em carícias.
Só o homem não perdoa
ao ar, à água, à pedra,
a nenhuma criatura terrestre.
Persegue tudo com crueldade.

E está só no universo.




1994



(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Zhivka Baltadzhieva, reproduzida em Espacios, tradução e prólogo de Z. Baltadzhieva, La Poesia, señor hidalgo, Barcelona, 2006, p. 113).

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Carol Ann Duffy

Educação para o ócio



Hoje vou matar alguma coisa. Qualquer coisa.
Estou farto de ser ignorado e hoje vou
representar o papel de Deus. É um dia vulgar,
uma mistura de cinzento e tédio arrebatador pelas ruas.

Esmago uma mosca contra a janela com o polegar.
Fizémo-lo na escola. Shakespeare. Foi noutra
língua e agora a mosca mudou-se para outra língua.
Expiro talento no vidro para escrever o meu nome.

Sou um génio. Poderia ser o que quisesse, com metade
da sorte. Mas hoje vou mudar o mundo.
O mundo de qualquer coisa. O gato evita-me. O gato
sabe que eu sou um génio, e escondeu-se.

Deito pela sanita os peixes dourados. Puxo o autoclismo.
Vejo como isto é bom. O periquito está aterrorizado.
De quinze em quinze dias, faço três quilómetros até à cidade
por causa de uma assinatura. Eles não gostam do meu autógrafo.

Não há nada para matar. Telefono para a rádio
e digo ao homem que está a falar com uma super-estrela.
Ele desliga. Pego na nossa faca do pão e saio.
O piso resplandece de súbito. Toco no teu braço.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

terça-feira, 5 de maio de 2009

William Stafford

Junto ao Monumento Não-Nacional ao longo da fronteira canadiana



Este é o campo onde a batalha não se deu,
onde o soldado desconhecido não morreu.
Este é o campo onde a erva encontra as mãos,
onde não há nenhum monumento
e a única coisa heróica é o céu.

Os pássaros voam aqui sem produzirem som,
abrindo as asas através do espaço aberto.
Ninguém matou - ou foi morto - sobre esta terra
sagrada pelo abandono, uma brisa tão doce
que as pessoas celebram esquecendo o seu nome.





(versão minha; o original pode ser lido aqui).

domingo, 3 de maio de 2009

Jorge Urrutia

(Porque sou só verbo)



Uma só Anne Frank comove-nos mais que as inumeráveis pessoas que sofreram o mesmo que ela. E assim talvez tenha que ser: se tivéssemos que e pudéssemos partilhar os sofrimentos de todas as pessoas, não poderíamos continuar a viver.


Primo Levi



Este parágrafo pode ter dois comentários que interessam
de um ponto de vista semiótico.
Não importa tanto, para comover, para convulsionar, para
reclamar a acção, o sofrimento como o signo do sofrimento.
Através do seu diário, a jovem Anne converteu-se
nisso, em signo da maldade, não já sofrida, antes exercida sobre
o ser humano. À ética não diz respeito a maldade pelo sofrimento,
antes pelo acto.
No entanto, para se converter em símbolo, Anne Frank precisou
da escrita. Sem esta não teria havido Anne, e sem Anne careceria
de expressão a dor sofrida e a injustiça cometida.
Logo, terrivelmente (e digo bem "terrivelmente"), só a
escrita importa. No fim, só a escrita é.





(versão minha; original reproduzido em Metalingüísticos y sentimentales, introdução, notas, selecção de poemas e organização de Marta Sanz Pastor, Biblioteca Nueva, Madrid, 2007, pp. 268-270).

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Bill Holm

Botão-de-ouvido



Botão-de-ouvido - uma pequena bolinha revestida de espuma
para usares como um brinco interior,
assim desfrutas de barulhos privados enquanto andas por aí
protegido de qualquer silêncio súbito.
Só tens de verificar a bateria e copiar
mil canções e histórias secretas
para esse pequeno casulo que trazes no bolso.
Agora estás a salvo dos outros barulhos produzidos
por outras pesssoas e máquinas, só por acaso
barulhos que não escolheste como teus.
Para ter a tua atenção, toco-te no braço -
para te revelar o tornado ou o urso polar.
Por vezes apanho-te a murmurar ou a falar para o ar
como se houvesse uma amante encolhida, à espera no teu ouvido.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 25 de abril de 2009

José Emílio Pacheco

Alta traição



Não amo a minha pátria.
O seu fulgor abstracto
não se deixa agarrar.
Mas (ainda que soe mal)
daria a vida
por dez lugares seus,
certa gente,
portos, bosques, desertos, fortalezas,
uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
várias figuras da sua história,
montanhas
- e três ou quatro rios.



(versão minha, corrigida; a primeira versão que propus foi produzida a partir da forma como o poema original surge aqui; mas esta fonte pode ser problemática uma vez que, posteriormente, tomei conhecimento desta tradução, através da qual me dei conta de falhas na minha proposta, que agora rectifico; tomo agora como texto de partida o poema tal como surge em Tarde o temprano (poemas 1958-2000), Fondo de Cultura Económica, edição de Ana Clavel, 3ª edição, 2ª reimpressão, Picacho-Ajusco, 2004, p. 73; pela alta traição, ainda que involuntária, ao autor e aos leitores, as minhas desculpas).

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Roger McGough

O Livro da Poesia Inglesa do Século Vinte da Oxford
(Recenseado por Georges Perec)



St psado volum rvla-s incontornávl para as pssoas qu gostam d posia.
Poma após poma, num glorioso fstim d posia.
Mmorávis comparaçõs, mtáforas, stão por toda a part
nquanto blas rimas, tanto como imagns, atravssam cada página.

Grands pomas de noms como Louis MacNic,
John Btjman, Hilair Blloc, T.S. Liot ou Td Hughs,
já para não falar do pota favorito de Larkin, Hardy, qu surg
com vint st pomas ao lado de apnas nov de W.B. Yats.

Sta antologia, apsar d duramnt criticada plos potas
nla não incluídos, acabará por afirmar-s como uma obra fundamntal
por muitos anos. A minha única qustão respita aos potas
d língua francsa qu foram xcluídos por razõs só conhcidas plo ditor.




Romancista francês, na fase da sua obra, Georges Perec publicou um romance com 50000 palavras, La Disparition, eliminando sistematicamente a letra "e".



(versão minha; original reproduzido em Collected poems, Peguin, 2ª edição, Londres, 2004, p. 303).

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Naomi Shihab Nye

Ombros



Um homem atravessa a rua à chuva,
caminhando suavemente, olhando duas vezes para norte
e para sul:
porque o seu filho dorme no seu ombro.

Nenhum carro deve salpicá-lo.
Nenhum carro pode aproximar-se demasiado da sua sombra.

Esta homem carrega a carga mais sensível do mundo
mas não há nenhuma marca disso.
Em nenhum lugar do seu blusão se diz FRÁGIL,
TRANSPORTAR COM CUIDADO.

O seu ouvido fica cheio com a respiração.
Ele ouve o murmúrio dos sonhos de um rapaz
bem dentro de si.

Não estaremos preparados
para viver neste mundo
se não tivermos o desejo de fazer a outro
o que este homem está a fazer.

A estrada será apenas imensa.
E a chuva não cessará nunca de cair.




(versão minha; original reproduzido em Tender spot - selected poems, Bloodaxe, Northumberland, 2008, p. 64).