sábado, 27 de março de 2010

Nizar Qabbani

Eu nunca fui rei



Eu nunca fui rei
Nem provenho de uma família real
Mas pensar que agora me pertences
Dá-me uma sensação
De poder sobre os cinco continentes,
De controlo da chuva
E dos carros triunfais do vento,
De posse de milhares de acres
Sobre o sol,
De domínio sobre povos
Que nunca antes foram dominados,
E de prazer de brincar com as estrelas do sistema solar
Como uma criança brinca com conchas.
Eu nunca fui rei
Nem quero ser;
Mas quando sinto que adormeces
Na palma da minha mão
Imagino
Que sou um Czar da Rússia,
Um Xá da Pérsia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown reproduzida em Arabian Love Poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, Londres, 1998, p.71).

sábado, 20 de março de 2010

Fabio Pusterla

Sábado em Sintra



O último pombo,
aquele que continua quando o resto do bando
já anda espalhado pelos telhados,
oculto entre muros,
o solitário em voo picado sobre as praças,
cego pelo sol,
talvez simplesmente mais silencioso do que os outros, indiferente
a esse estúpido cacarejar horizontal,
- enquanto desajeitadamente se perde,
grão a grão, o alimento oferecido -,
aquele que se atira para o vazio
de uma aventura imaginária, uma ameaça,
o medo de um assobio,
e extrai disso o voo e converte o perigo
num jogo de descidas e subidas bruscas,
a fuga para uma insensata corrida com a sombra
rápida da gaivota,
uma sombra que verdadeiramente voa e desaparece,
o pássaro que procura por todo o lado o vento das ruas
e das chaminés, que mergulha no trânsito e deixa
um monte repugnante de penas cinzentas
mesmo ao pé da tampa do esgoto,
não o olhes.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Chad Davidson reproduzida em New european poets, organização e introdução de Wayne Miller e Kevin Prufer, Graywolf Press, Saint Paul, Minnesota, 2008, p. 52).

quarta-feira, 17 de março de 2010

terça-feira, 16 de março de 2010

Nuala Ní Dhomhnail

O destino da linguagem



Disponho a minha esperança na água
neste pequeno barco
da linguagem, tal como alguém pode pôr
um menino

num cesto de folhas iridescentes
entrançadas
com o fundo calafetado
com betume e resina,

colocando depois o conjunto entre
as junças
e os juncos da margem
de um rio

apenas para que vá daqui para ali
sem saber onde pode acabar;
no colo, talvez,
de alguma filha do Faraó.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Paul Muldoon, reproduzida em New european poets, organização e introdução de Wayne Miller e Kevin Prufer, Graywolf Press, Saint Paul, Minnesota, 2008, p. 328).

terça-feira, 9 de março de 2010

Thomas Brown

Respiração



às vezes
conhecemos alguém
que nos deixa sem respiração
e
temos medo
de voltar a respirar
sabendo
que ao fazê-lo
tudo pode mudar
e
queremos ficar presos
para sempre
a esse momento
em que tudo
parece tão perfeito
e certo
mas
não temos alternativa
a não ser
respirar de novo
e fazê-lo outra vez
até
que chegue o dia em que
já não o conseguimos fazer
e
podemos ter a esperança de que
entre esses momentos
a pessoa
que em tempos nos roubou a respiração
volte a fazê-lo
uma e outra vez
prometendo
sempre devolver-no-la
embora
planeando sempre
roubá-la
mais uma vez .



(Versão minha, com a colaboração de C.; original reproduzido em Best Modern Voices: words for the millennium, Wordclay, 2008, pp. 11-12).

sábado, 6 de março de 2010

Spencer Schenk-Wasson

Onde o céu acaba



O ceú acaba onde as montanhas
Perfuram o nevoeiro do anoitecer

O céu acaba onde a pintura da natureza
Atravessa o laranja dourado do horizonte

O céu acaba algures entre
As luzes cintilantes da cidade e o vazio do espaço

O céu acaba num lugar onde a tua
Consciência oscila entre a realidade e a beleza

O céu acaba num lugar que é tão magnífico
Que pode ser só imaginação tua



(Versão minha; original reproduzido em Best Modern Voices: words for the new millennium, Wordclay, 2008, p. 8).

quarta-feira, 3 de março de 2010

Nizar Qabbani

Quando encontrares um homem



Quando encontrares um homem
Que transforme
Cada partícula tua
Em poesia,
Que faça de cada um dos teus cabelos
Um poema,
Quando encontrares um homem
Capaz,
Como eu,
De te lavar e adornar
Com poesia,
Hei-de implorar-te
Que o sigas sem hesitação
Pois o que importa
Não é que sejas minha ou dele
Mas sim da poesia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian Love Poems, A three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, Londres, 1998, p. 135).

segunda-feira, 1 de março de 2010

Nizar Qabbani

Eu conquisto o universo com palavras



Eu conquisto o universo com palavras.
Desonro a língua materna,
A sintaxe, a gramática,
Os verbos e os nomes,
Violo a virgindade das coisas
E crio uma língua nova
Que esconde o segredo do fogo
E o segredo da água.
Ilumino a nova era
E detenho o tempo nos teus olhos,
Apagando a linha que separa
Este instante da passagem dos anos.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian Love Poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, Londres, 1998, p. 223).

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Nizar Qabbani

Eu não sou professor



Eu não sou professor
Para te ensinar a amar,
Também os peixes não precisam de um professor
Que os ensine a nadar
E os pássaros de um professor
Que os ensine a voar.
Nada pelos teus próprios meios.
Voa pelos teus próprios meios.
O amor não tem manuais
E os maiores amantes da história
Não sabiam ler.



(versão minha a partir da tradução de A. Z. Foreman publicada aqui e da tradução de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown reproduzida em Nizar Kabbani, Arabian Love Poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, London, 1998, p. 99).

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ruth Buchman

Narrativa



Começa num pequeno quarto.
O vestido de cerimónia que a mãe dela lhe comprou, o seu cabelo
cuidadosamente penteado, as mãos rídiculas dele.

Despidos, a súbita distância dos seus corpos.
Ela podia fechar os olhos, vê-lo de novo
com aquelas calças, a camisa nova e direita,
como os lábios dele lhe pareceram húmidos antes de a beijar.

Pelo menos ele não é pesado.

Depois, não vão esquecer o estranho impulso
que os empurrou um para o outro. Nem como, quando os seus corpos se uniram, cada
um se encontrou sozinho na surpresa, desconhecendo-se.

Se pudessem dormir, teria havido o acordar, o toque
de um olhar entre os dois. Mas ela desejava um duche,
e ele gostava de ter aprendido a fumar, gostava de ter aprendido
mil coisas para se reconciliar com ela, e consigo próprio.

Passarão anos antes que ele descubra
uma doce recordação do corpo dela
vestido pelos lençóis, um braço sobre o cobertor,
à espera. Ela lembrará o seu riso excêntrico, o modo
como ele se cobriu a si mesmo com as mãos, cheio de vergonha.



(Versão minha; original reproduzido em Poetry from "Sojourner" - a feminist anthology, organização de Ruth Lepson e Lynne Yamaguchi, introdução de Mary Loeffelhoz, University of Illinois, Urbana e Chicago, 2004, p. 27).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Ana Pérez Cañamares

A trincheira



O mal da trincheira
não é a sua húmida estreiteza.
O barro e o sangue abrigam
somos muitos aqui
e as fotos que nos enviaram de casa
nunca se desgastam.

Há sempre tempo para uma partida de cartas.
Para o momento íntimo e brincalhão
de tirarmos piolhos uns aos outros.
Alguém que dança ao ritmo
de batuques distantes com pedaços de madeira
nas metralhadoras
ou um bom imitador de generais
que nos faz rir.

O mal da trincheira
é que não sabemos quando
seremos obrigados a abandoná-la.



(versão minha; original reproduzido em Resaca - Hank Over: un homenaje a Charles Bukowsi, organização de Paxti Irurzun e Vicente Muñoz Álvarez, Caballo de Troya, Madrid, 2008, pp. 180-181).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Pablo G. Bao

não são cães, são flores



chove

espreito pela janela
e vejo
esse cão da rua
que atravessa o passeio
debaixo de uma chuva forte

eu estou debaixo do meu tecto
em lugar seguro
e parece-me bem

e parece-me bem
que esse cão da rua
trema debaixo da chuva
como uma flor do asfalto.



(original reproduzido em Resaca - Hank Over: un homenaje a Charles Bukowski, organização de Patxi Irurzun e Vicente Muñoz Álvarez, Caballo de Troya, Madrid, 2008, p. 171).

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Karmelo C. Iribarren

A alba


Para Pablo G. Bao



Aquele lugar inóspito
fantasmático
frio
onde nunca
tinhas um cigarro
e os táxis
iam sempre
na direcção contrária.



(Versão minha; original reproduzido em Resaca - Hank Over: un homenaje a Charles Bukowski, organização de Patxi Irurzun e Vicente Muñoz Álvarez, Caballo de Troya, Madrid, 2008, p. 75).

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Kate Rushin

Respondendo à questão: alguma vez pensaste em suicídio



Suicídio?!?!
Chavala, tás doida?
Eu tenho é medo de não viver
o suficiente

Tenho um medo de morte de alturas
Carros na bisga
Doenças esquisitas
Crocodilos
Electricidade
E campónios

Olha agora o aspecto que dava
Eu atirar-me duma cena qualquer
Tenho é montes de coisas p'ra fazer
E não há tempo p'ra nada

Deixa-me dizer-te
Se alguma vez me ouviste
Falar em acabar com a minha fraca figura
Então morde aqui a ver se eu deixo
Senta-te comigo até que esta nóia passe
E se alguma vez me
Encontrarem caído em algum lado
Não deixes que te digam que foi suicídio
Porque não foi

Eu tenho medo de alturas
Camiões a alta velocidade
Crocodilos
Electricidade
Drogas
Campónios
E conservas caseiras de feijão-verde

Com isto tudo
A afligir-me
Que aspecto é que dava
Matar-me





(Versão minha, em colaboração com C.; original reproduzido em Poetry from "Sojourner" - a feminist anthology, organização de Ruth Lepson e Lynne Yamaguchi, introdução de Mary Loeffelhoz, University of Illinois Press, Urbana e Chicago, 2004, pp. 161-162).

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Rade Drainac

A minha fome...



A minha fome é infinita e sempre vazias as minhas mãos.

À noite descendo as ruas da cidade levo a lua nos meus dedos
e abandono a minha tristeza sob as janelas de mulheres infelizes.

Eu daria tudo e no entanto não tenho nada.
A minha fome é infinita e sempre vazias as minhas mãos.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The Horse Has Six Legs - An Anthology of Serbian Poetry, organização e tradução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, 33).

domingo, 31 de janeiro de 2010

Elaine Equi

Adoecer juntos



No mundo pós-moderno
a sequela é sempre superior

ao original
e assim é até possível

que alguém como Tony Perkins
conheça uma miúda simpática no Psico 3

uma ex-freira suicida
também ela atormentada

por fantasias sexuais
de modo que ele pode ensinar-lhe alguma coisa

tão fora de moda como dançar
o fox-trot

e ela pode oferecer-lhe
uma bebida no seu quarto.

No Bates Motel
a água jorra do mesmo chuveiro

no qual a famosa cena do duche começa
mas agora parece agradavelmente referescante.



(versão minha; original reproduzido em Illinois Voices - an anthology of twentieth-century poetry, organização de Kevin Stein e G.E. Murray, University of Illinois Press, Urbana e Chicago, 2001, pp. 273-274).

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Halfdan Rasmussen

Sobre a perfeição



Cada vez que vou escrever o poema perfeito,
coisa que tento uma e outra vez,
a mão põe-se a tremer e ataca-me o reumatismo
e a esferográfica produz borrões.

E quando estou tranquilo e se aplacou o reumatismo
e a minha esferográfica escreve persistentemente,
é a minha mulher que entra de dois em dois minutos
a peguntar se terminei o supracitado poema.

E quando por fim logro redimi-lo
mediante dores e aflições
faltam esse tremor, esse reumatismo, esses borrões
que o perfeito tem, se é que existe.



(versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesía nórdica, prólogo e selecção do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 122).

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Peter Sandelin

Nunca...



Nunca
podemos repousar apoiados no ar

- Mas isso é culpa do ar?



(versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de poesía nórdica, prólogo e selecção do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 108).

domingo, 24 de janeiro de 2010

Poema popular sérvio (Charles Simic)

Irmãs sem irmão



Duas irmãs sem irmão
Fizeram um de seda para o partilharem -
De seda branca e vermelha.
Para a cintura usaram videira de framboesa,
Os olhos negros, duas pedras preciosas.
Para as sobrancelhas sanguessugas.
Os dentes pequeninos um fio de pérolas.
Alimentaram-no com mel e açúcar
E disseram-lhe: primeiro comemos, depois falamos.



(versão minha da tradução inglesa de Charles Simic deste poema popular sérvio de autoria anónima; esta tradução surge em The Horse Has Six Legs - an anthology of serbian poetry, organização, tradução e introdução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 11)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Göran Palm

Quando a tormenta...



Quando a tormenta derrubou as árvores
altas e, ao que parece, sãs,
a erva voltou a erguer-se do chão

como se nada tivesse acontecido.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesia nórdica, prólogo e selecção do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 14).

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Ernst Orvil

Relatividade



Quando os canhões retumbam
lá em Rakke
muda-se a borboleta
para outra flor.

Ou visto a partir da perspectiva
da borboleta: Quando se muda
a borboleta para outra flor
retumbam os canhões em Rakke.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesia nórdica, prólogo do tradutor, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 93).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Bertolt Brecht

Fala a operários-actores dinamarqueses sobre a arte da observação
(3 excertos)


(...)

Não importa
A forma como olhas.
Mas aquilo que viste
E aquilo que revelas, isso importa.
Vale a pena saberes aquilo que sabes.
Observar-te-ão
Para ver quão bem observaste.
Mas aquele que apenas se observa a si mesmo
Nada ganha do conhecimento dos homens.
Demasiadamente de si esconde a si mesmo.
E nenhum homem é mais sábio do que ele próprio.
Logo, a tua aprendizagem deve começar no meio
Das vidas das outras pessoas. Transforma na tua primeira escola
O teu local de trabalho, a tua casa,
O lugar a que pertences,
A loja, a rua, o comboio.
Observa todos quantos o teu olhar alcance.
Observa os desconhecidos como se te fossem familiares
E aqueles que conheces como se te fossem estranhos.

(...)

Para observares deves aprender a comparar.
Para poderes comparar
Deves já ter observado.
Da observação nasce o conhecimento.
Mas é necessário conhecimento para observar.
Aquele que não sabe
O que fazer da sua observação
Observará erradamente.
O cultivador olhará para a macieira
Com um olhar mais apurado do que o transeunte errante.
Mas só quem sabe qual é o destino do homem
Pode com exactidão ver o homem.

(...)

Observa tudo isto atentamente.
Depois, a partir de todos os trabalhos suportados
Cria, então, no centro do teu espírito imagens
Desabrochando e crescendo como movimentos na história.



(tradução inédita de Ricardo Castro Ferreira a partir de uma versão inglesa reproduzida aqui e aqui; existe uma versão portuguesa integral do poema de Brecht, da autoria de Paulo Quintela, em Bertolt Brecht, Poemas, organização e prefácio de António Souza Ribeiro, Asa, Porto, 2007, pp. 281-285; é desta versão portuguesa que se retira o título desta nova tradução).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ko Un

Canguru



Quando os britânicos chegaram à Austrália
perguntaram a um aborígene
o que era aquilo que andava aos saltos
O nativo respondeu:
Canguru, eu não vos entendo

E o nome foi adoptado

Ah, não saber é melhor do que saber



(versão minha, a partir da tradução para espanhol de Joung Kwon Tae e Jorge Oredáin reproduzida em Cinco poetas contemporáneos de Corea, selecção dos tradutores, Editorial Aldus, Colonia Nápoles - México, 2006, p. 18).

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Pentti Saarikoski

O menino estava a brincar...


O menino estava a brincar na neve
Passei por ali com uma lâmina de gelo
na mão
escrevendo poemas no ar
O que estás a fazer? perguntou-me o menino
que brincava na neve
Escrevo poemas no ar
não vês?
Sim, vejo
mas isso vai gelar-te a mão
disse-me o menino que estava a brincar na neve



(versão minha a partir da tradução espanhola de Fernando J. Uriz, reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesia nórdica, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 91).

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Javier Salvago

Ano Novo



Como as coisas não podiam
piorar - escreveu Kafka,
no seu Diário -, melhoraram.

Como gostaria, diante deste negro
e inóspito horizonte que se abre
diante de mim - como um ano mais,
ou como um ano menos -,
de poder dizer o mesmo.
Sinto porém
que não toquei o fundo,
que há mais miséria, mais dor, mais tédio
mais à frente, que as coisas
podem piorar.
Que o pior, como alguém disse,
ainda está para chegar.


31, dezembro, 1996



(versão minha; o original pode ser lido algures por aqui).

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Inger Hagerup

A formiga



Pequena?
Eu?
Nem pensar.
Tenho o tamanho perfeito.
Encho-me completamente a mim mesma
ao comprido e em largura,
de cima a baixo.
Por acaso és tu maior
do que tu mesmo?



(versão minha, a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesía nórdica, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 93).

domingo, 27 de dezembro de 2009

Gagan Gill

Formigas



As formigas não encontram o seu caminho para casa.

Caminham, traçando linhas entre o nosso sono e os nossos corpos.
A sua farinha invisível continua espalhada na sua memória,
espalhada noutro espaço e tempo. Elas continuam a ir de um fim
da terra a outro em busca dela. Afundam os seus dentes
em todas as coisas vivas e mortas. As tristezas da terra crescem
de modo tão leve com a sua demanda que as direcções
começam a rodopiar em grande confusão. Os
pólos começam a mudar de lugar. Mas ninguém
conhece a tristeza das formigas.

Há muito tempo atrás talvez tenham sido mulheres.




(versão minha a partir da tradução inglesa de Jane Duran e Lucy Rosenstein que pode ser lida aqui).

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Jack Agüeros

Salmo pela paciência



Senhor,
Despacha-te e dá-me paciência!



(versão minha; original reproduzido em Lord, is this a psalm, Hanging Loose Press, Brooklyn Nova Iorque, 2002, p. 43).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Olav H. Hange

Tu eras o vento



Sou um barco
sem vento.
Tu eras o vento.
Era esse o rumo que eu devia seguir?
A quem importa o rumo
com um vento assim!



(versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 86).

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Petko Daveski

As chaves da saída



As chaves da porta secreta da única saída
e as da solução do enigma crucial
que cada esfinge recém-nascida conhece
talvez não estejam no mesmo chaveiro
que as chaves das masmorras da nossa vida,
da obscuridade e da luz da terra.
As chaves da nossa ignorância real são
de facto as chaves perdidas e as chaves que não podem
encontrar de novo os seus cadeados e as suas fechaduras.
Não diria que o mesmo artesão as fez,
parece que pisamos o caminho da dúvida
que cada chave sente junto à porta,
uma caixa de Pandora de posse inalienável:
existe uma gazua que ao mesmo tempo pode abrir
as fechaduras do bem e o cadeado do mal.
A dedicação é infinita, talvez desesperada,
uma busca no interior do bolso à procura de chaves não marcadas;
se não chamas, prepara-te para esperar
que o fechado se abra a seu tempo.
E se não o abres tu mesmo, vais chamar já depois de aberto.
Do que fica dito não deveria deduzir-se:
que se as chaves não existissem não necessitaríamos de portas
nem se poria o problema da saída.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Maria Krstevska, reproduzida em 4 poetas macedonios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 70).