quinta-feira, 28 de junho de 2012

Edward Hirsch

Eu nunca fui capaz de rezar



Guia-me até ao porto
onde o farol jaz abandonado
e a lua range nas vigas de madeira.

Deixa-me ouvir o vento chamar por entre as árvores
e ver as estrelas irromperem, uma a uma,
como os rostos esquecidos dos mortos.

Eu nunca fui capaz de rezar,
mas deixa-me gravar o meu nome
no livro das ondas

e depois olhar intensamente a cúpula
de um céu que não tem fim
e ver a minha voz navegar pela noite dentro.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 23 de junho de 2012

Wendy Videlock

Desarmada



Eu devia ser determinada e firme,
eu sei que devia, e mostrar uma cara feia;
mais uma vez falhaste na limpeza do teu quarto.
E não é só isso, também as provas
do saque da meia noite na tua cama -
cascas de amendoins partidas e m&m's
esmigalhados no sítio onde pousaste a cabeça
e, um pouco acima, o parapeito
está sobrelotado com uma girafa verde
(que espreita através do teu telescópio),
peças de dominó e um copo meio cheio
de sumo de laranja. Minha criança esfomeada,

como posso eu sentir-me desencantada com tudo isto,
este teu mundo secreto, esta tua maravilhosa desarrumação?



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Begoña Paz

A Branca de Neve envelhece



Nunca imaginei
cabelos brancos
no meu
púbis.



(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger; selecção de David González, prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby Editores, Madrid, 2010, p. 271).

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Vasyl Holoborodko

[Detestáveis sementes de erva...]



Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva

Depois de tudo morreremos uma vez,
não somos eternos nem imortais (a matéria não desaparece
em contrapartida nós sim: eu, tu, ela, a amante, o irmão, os outros),
e qualquer semente de erva: de tomilho, sinuosa como uma áspide,
espera a nossa morte (morreremos uma vez)
para se fundir com o nosso corpo alheio exangue
(no qual fomos nós: o meu, o teu, o dele, da amante, do irmão, dos outros)
e crescerá e florescerá e dará sementes
para aguardarem então a morte dos demais (não a nossa),
porque as sementes de erva são imortais, porque são sementes de erva.

Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una icinografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 174).

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Ester García Camps

Identidade



esta tarde,
enquanto a telefonista
soletra os meus dados pessoais
do outro lado
do auricular,
tenho de lhe lembrar
que ester
é ester

mas sem h.

que Camps é como Campos
mas em valenciano
e que, além disso,
esse é o meu segundo
apelido,
o primeiro é García

com acento no i.

é importante
não esquecer o meu nome

uma pessoa tem de poder dizer
quem é
mesmo que na realidade

não o saiba ainda.



(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generacíón blogger; selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 58).

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Xhevahir Spahiu

Acordar tarde



Acordar tarde significa
Encontrar as flores sem orvalho, as pétalas caídas.
Acordar tarde significa
Que o amor deixou para trás uma marca indistinta.
Acordar tarde significa
Que a morte assinou longamente os teus documentos.

Mas acorda ainda assim.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 213).

terça-feira, 5 de junho de 2012

Karmelo C. Iribarren

A condição urbana


                                           Para Roger Wolfe



Detesto autocarros. A boa
educação que nos obriga
a ceder os lugares sentados
a essas senhoras
que até que se sentem
pode dar-lhes
qualquer coisa fatal.
Os empurrões. Os cheiros. Que ninguém
fume e tenhamos de aguentar
todos os pormenores
do enfarte
que deu a não sei quem.
Os anúncios publicitários
nas partes laterais.
As travagens. E muitas
outras coisas que agora calo
porque desço aqui.



(Versão minha; original reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 37).

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Floridor Pérez

Para traduzir não é preciso saber línguas



Escreveu um lendário poeta chinês da dinastia Tang:
Abandona a tempo a tua poesia ou a tua mulher.

Um académico traduziu:
terminou o tempo da poesia amorosa.

E um psicanalista:
chega um tempo em que as pernas da mulher
deixam de ser um livro aberto.

Então vim eu
e abandonei-me o tempo todo
à minha poesia e à minha mulher.

Que era exactamente o que tinha querido dizer
o lendário poeta chinês
da dinastia de Li Po.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; prólogo de María Nieves Alonso; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodríguez, Diputación de Huelva, 2001, p. 130).

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Besnik Mustafaj

Poema profético



Se, em vez de Cristo e de Maomé,
A Bíblia e o Corão
Falassem do destino trágico de Tristão e Isolda,
Amantes exemplares,
Mortais neste pequeno planeta,
Seria muito mais difícil negar
O conceito de divino.



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 241).

sábado, 26 de maio de 2012

Pak Tujin (1916-1998)

Livro de poemas



Um livro de poemas aberto na areia
branco diante do mar azul.
O vento virava-lhe as páginas,
amarrotava-as uma após outra.
As palavras ardentes desse livro gravaram no seu interior
um coração belo e triste.
E essas palavras impressas transformaram-se em pássaros, começaram a voar.
Uma, depois outra;
cem, mil palavras,
alto, mais alto, cintilando, elevando-se até ao céu,
poemas brancos de pássaros, pássaros de poemas.
Trémulas pétalas de flores caíam do céu.
E esses pássaros que recitavam poemas no céu
esqueceram-se, incapazes de dizer os versos que sabiam
transformaram-se em flores a cair sobre o mar.
Então tornaram-se estrelas no céu distante.
Esses pássaros que recitavam poemas no céu
os mais belos e tristes
poemas do mundo
- recitavam os poemas do livro de modo tão fulgurante
que agora brilham, estrelas no mundo das estrelas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Edward W. Poitras reproduzida em The Columbia anthology of modern korean poetry, edição de David R. McCann, Columbia University Press, Nova Iorque, 2004, p. 126. Esta versão é dedicada a Amélia Pinto Pais).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Vasyl Holoborodko

[És como a areia...]



És como a areia
aperto com mais força os meus dedos.

És como um pequeno pássaro
construo para ti uma gaiola.

És como a água do rio
procuro para ti um cântaro.

Mas tu já és bosque
Mas tu já és campo
Mas tu já és caminho.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 180).

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Dmitry Prigov

Diálogo nº 5



Estaline     Não há felicidade na terra!
Prigov       Não há felicidade!
Estaline     O que é que há então?
Prigov       O que é que há?
Estaline     Há Estaline!
Prigov       Há Estaline!
Estaline     E o que é Estaline?
Prigov       E o que é?
Estaline     Estaline é a nossa glória militar!
Prigov       Glória militar!
Estaline     Estaline é a maior inspiração da nossa juventude!
Prigov       A maior inspiração da juventude!
Estaline     Cantando nas batalhas e nas vitórias!
Prigov       Vitórias!
Estaline     O nosso povo segue Estaline!
Prigov       Segue Estaline.
Estaline     E o que mais é Estaline?
Prigov       E o que mais?
Estaline     Os três princípios principais.
Prigov       Os três princípios principais.
Estaline     E o que mais é Estaline?
Prigov       E o que mais?
Estaline     As cinco grandes ideias!
Prigov       As cinco grandes ideias!
Estaline     As oito grande letras!
Prigov       E como seria se deixássemos cair uma letra?
Estaline     Como seria?
Prigov       Seria Staline!
Estaline     Staline!
Prigov        E se deixássemos cair outra?
Staline       Outra?
Prigov        Seria Taline!
Taline        Taline!
Prigov        E se deixássemos cair outra?
Taline        Outra?
Prigov       Seria Aline.
Aline         Seria Aline!
Prigov       E se deixássemos cair ainda outra?
Aline         Outra?
Prigov       Seria Line.
Line          Seria Line!
Prigov       E outra?
Line          Outra?
Prigov      Seria Ine.
Ine            Ine?
Prigov       E outra?
Ine            Outra?
Prigov       Seria Ne!
Ne             Seria Ne!
Prigov       E outra?
Ne             Outra?
Prigov       Seria E!
E               Seria E!
Prigov       E outra?



(Versão minha a partir da tradução inglesa de J. Kates reproduzida em In the grip of strange thoughts - Russian poetry en a new era, selecção e organização de J. Kates, Bloodaxe Books, Newcastle, 1999, pp. 261-263).

sábado, 19 de maio de 2012

Karel Bofill Bahamonde

(vendo desenhos animados soviéticos)



vejo de novo desenhos animados soviéticos
e escuto vozes que não posso compreender
vozes que me recordam a estranha tristeza
em que crescemos
comendo como soviéticos
vestindo como soviéticos
vendo desenhos animados soviéticos como crianças soviéticas
pensando que o mundo estava numa revista Misha(1)
sem saber que Koniec(2) era o fim
que se aproximava



(Versão minha; o original aparece reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos, selecção e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdova, 2011, p. 87. Notas: (1) Revista infantil soviética; (2) "Fim" em polaco).

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Xhevahir Spahiu

Tradução do rio



Sento-me e traduzo o rio,
É difícil reproduzir
Esta coisa líquida,
São precisas palavras raras,
Expressões firmes,
Ritmos eternos,
Uma centena de fontes em uníssono
A contar de novo um mito antigo.
Durante toda a noite traduzi o rio.
De manhã
A minha versão tinha desaparecido.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathier-Heck reproduzida em Lightning from the depts - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 213).

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Yunier Riquenes García

[Se vão continuar...]



Se vão continuar com os discursos que não seja com
palavras, que seja com a boca cosida, com as mãos
amarradas, com as pernas mutiladas, com os olhos
fechados. Se vão continuar com os discursos então
que arranquem o coração com a ponta de uma
pedra, que abram o peito. Se vão continuar com
os discursos, se por acaso os puderem continuar.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos; selecção e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 87).

terça-feira, 8 de maio de 2012

Teresa Fornaris

A porcelana partida



A porcelana partida
caiu outra vez
Recolho as partes
emendo-as
e volto a colocá-la à beira da mesa.



(Versão minha; original reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos; edição e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 33).

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Vasyl Simonenko (1935-1963)

Dedicado aos papagaios



Vós, que lançais palavras às multidões,
Como velhos alunos da primária,
Por que vos dedicais meramente a repetir?
Onde estão os vossos próprios pensamentos?
Por acaso escondei-los por insignificantes?
Ou careceis deles por completo?
As línguas tê-los-ão murchado?

Se secaram, estais livres de responsabilidades,
É algo que se pode perdoar, no entanto...
Com as vossas línguas - é possível afiar facas
Ou varrer estábulos!
Por que razão chorais com lágrimas alheias,
E saltais sobre ideias emprestadas? -
Isso era o que queríamos saber!



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Iuri Lech reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iuri Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 92).

domingo, 22 de abril de 2012

Entre a carne e o osso



























Luís Filipe Parrado, Entre a carne e o osso, Língua Morta, Lisboa.

[com capa de Inês Dias,
150 exemplares, 68pp., 9€]
pedidos: edlinguamorta@gmail.com

terça-feira, 17 de abril de 2012

Cristina Morano

Fabricante de armas

                                             (Transcrição de uma conversa real gravada com
                                              câmara oculta para uma reportagem da BBC)



E esta outra arma que aqui tenho,
dada a sua forma alongada e de fácil
manejo, pode ser utilizada
como um eficaz objecto contundente
para dispersar multidões.
Além do mais numa das pontas
incorpora uma bateria
que, accionada por este botão,
produz uma descarga feroz
de cada vez que se golpeia;
ou, se o desejar, o artefacto
pode introduzir-se na vagina
e, a partir daí, electrocutar,
sem as velhas complicações
dos instrumentos clássicos
similares no mercado.
                                   Não tenham
receio de perguntar o preço.



(Versão minha; o original aparece reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 219).

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ali Podrimja

Se



Se um povo
Não tem poetas
Nem poesia própria
Para uma Antologia Nacional
Então a traição e o ladrar
Hão-de servir.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 208).

terça-feira, 10 de abril de 2012

Girolamo de Rada (1814 -1903)

Pode um beijo ser mais doce?



Era uma manhã de domingo
E o filho da nobre senhora
Foi visitar a bela donzela
Para lhe pedir uma gota de água,
Pois morria de sede.
Encontrou-a sozinha à lareira
A entrançar o cabelo.
Amavam-se, mas nenhuma palavra de amor foi trocada,
A jovem tinha um sorriso nos lábios:
"Por que tens de te ir como o vento?"
"Aguardam-me para o lançamento do disco."
"Espera só um pouco, guardei
Duas maçãs maduras para ti."
Segurando o cabelo penteado
Com uma das mãos erguida
Sobre a pele pálida das orelhas,
Ela mergulhou a outra no seu corpete
E tirou as maçãs,
Colocando-as nas mãos dele,
Ruborizando de vergonha.
Dizei-me, ó apaixonados,
Pode um beijo ser mais doce?



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 71).

sábado, 7 de abril de 2012

Fabián Casas

Sem chaves e às escuras



Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais.

Então saí para o patamar para deitar o lixo fora
e, atrás de mim, com uma corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes dos meus vizinhos
através das suas portas.
É passageiro, disse para mim;
no entanto também a morte poderia ser assim:
um patamar escuro,
uma porta fechada com a chave do lado de dentro,
o lixo na mão.



(Versão minha, o original pode ser lido algures por aqui).

quinta-feira, 29 de março de 2012

Eeva-Liisa Manner

Nada



"Não se pode viver sem amar"
"Pode-se, sim", disse
e vesti-me de negro
para o último baile de máscaras.

E tinha a boca cheia de pó
como se tivesse secado de tanto chorar
(ainda que não tenha chorado em cinquenta anos).

Não quero o vosso céu, companheiros,
as falsas promessas, os amigos fingidos,
as ruas cheias de beijos,
as mentiras de espelhos fugidios.
Quero rasgar o último selo,
a lua que não dá luz,
a noite em que não brilha nada.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 93).

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Vanitas (a lição de Marlene Dumas)



(Óleo sobre papel; 2012).

quarta-feira, 21 de março de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Something for the weekend


(Óleo sobre papel; 2012)

domingo, 18 de março de 2012

Ana Pérez Cañamares

Meu filho



Que sou livre, dizem-me.
Porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
Passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.



(vesão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 195).

quinta-feira, 15 de março de 2012

Cristina Morano

Vergonha



O número de filhos da puta
aumenta cada dia, mas pior
é o número ainda maior dos tontos.
Eu conto-me entre os segundos,
às vezes o meu pai pergunta-me
se vou fazer alguma coisa a respeito disso;
não costumo, porém, responder-lhe,
limito-me a olhar a tv
sentada em frente da sua cara.
Deveria dizer-lhe que tem razão,
que as pessoas me dirigem o olhar
como se a uma espécie rara de animal,
como se se sentissem confortáveis
no papel do delator.
Gostaria de fazer alguma coisa para mudar,
ser mais inteligente, fumar com elegância...
esse tipo de coisas que te tornam respeitável.
Mas, no fundo, nunca seria suficiente,
os pratos continuam a cair-me das mãos.



(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 213).

terça-feira, 13 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Convite para uma decapitação


















(Óleo sobre papel; 2012)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Maris Salejs

[aqui estamos...]



aqui estamos

a morte não nos cobriu
completamente

por isso aqui estamos



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets, organização da tradutora, introdução de Juris Kronbergs, Arc, Todmorden, 2011, p. 133).