segunda-feira, 6 de abril de 2009

Anna Swir

Vamos atirar directamente ao coração



Nós vamos matar o nosso amor.

Vamos estrangulá-lo
como se estrangula um bebé.
Vamos pontapeá-lo
como se pontapeia um cão fiel.

Vamos arrancar
as suas asas vivas
como se faz
com um pássaro.

Vamos disparar sobre o seu coração
como disparamos
sobre nós.



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 1993, pp. 69-70).

sábado, 4 de abril de 2009

Anna Swir

Uma conversa nocturna muito triste



"Devias ter muitos amantes."
"Eu sei, querido."
"Eu tive muitas mulheres."
"Eu tive homens, querido."
"Estou acabado."
"Sim, querido."
"Não confies em mim."
"Não confio, querido."
"Tenho medo da morte."
"Eu também, querido."
"Não me vais deixar."
"Não, querido."
"Estou só."
"Também eu, querido."
"Abraça-me."
"Boa noite, querido."



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição, 1993, p. 69).

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Gerald Fleming

Longo casamento



Estás preocupado, por isso acorda-la
e falas para o escuro:
Pensas que tenho um cancro, dizes,
ou Havia vermes
naquela carne, ou Achas
que o nosso filho está bem, e é
realmente maravilhoso - quase
sagrado o modo como sentes
a carga da tua preocupação passar
miraculosamente de ti para ela -
Ui, o som da chuva é tão belo,
dizes - Vou voltar a adormecer.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

segunda-feira, 30 de março de 2009

Daiva Cepauskaite

Poesia



Eu sou uma vaca chamada Poesia,
dou algum leite,
normalmente com 2,5% de gordura,
às vezes consigo mesmo
espremer cá para fora 3%,
sinto-me orgulhosa por tudo ser processado
com a mais avançada tecnologia
e por ver as embalagens tetrapack
chegarem aos consumidores pouco exigentes,
estou doente com todas as doenças
não conhecidas das coisas vivas
e exposta com cuidadosa minúcia
nos compêndios veterinários,
pasto em boa companhia
(o colectivo é amigável,
não há barreiras de línguas),
tenho medo dos moscardos e dos especialistas em zoologia,
e posso ser útil também de outras maneiras -
quando chega o frio, quando defeco,
se escalares o meu monte
vais sentir o calor
a subir desde os pés
até cima até à parte de trás da tua cabeça.



(versão minha, a partir da tradução do lituano para o inglês de Jonas Zdanys, reproduzida em A Fine Line - new poetry from Eastern & Central Europe, organização e selecção de Jean Boase-Beier, Alexandra Büchler & Fiona Sampson, Arc Publications, Todmorden /Lancs, 2004, p. 75).

sexta-feira, 27 de março de 2009

Roger McGough

Seja este outro poema



Eles não te fodem a vida, a mamã e o papá
(Apesar do que Larkin diz)
Isso é com outros, adultos ou rapazes
Que, cada um à sua maneira,

Morrem. E a sua morte espalha uma sombra
Que marca todos os nossos dias,
E nós tentamos escapar à loucura
De múltiplas maneiras.

E, graças a Deus, a maior parte de nós consegue,
Por isso se para cunhar uma expressão
Te sentes fodido não culpes a mamã e o papá
(Apesar do que Larkin diz).



(versão minha; original reproduzido em Collected poems, Peguin, Londres, 2004, 2ª ed. (?), p. 291).

quinta-feira, 26 de março de 2009

Miroslav Holub

Napoleão



Crianças, quando nasceu
Napoleão Bonaparte?
pergunta o professor.

Há mil anos, dizem as crianças.
Há cem anos, dizem as crianças.
Ninguém sabe.

Crianças, o que fez
Napoleão Bonaparte?
pergunta o professor.

Venceu uma guerra, dizem as crianças.
Perdeu uma guerra, dizem as crianças.
Ninguém sabe.

O homem do talho tinha um cão,
diz o Francisco,
e o seu nome era Napoleão,
e o homem do talho costumava bater-lhe,
e o cão morreu
de fome
há um ano.

E agora todas as crianças sentem pena
de Napoleão.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de K. Polácková, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 1991, p. 170).

terça-feira, 24 de março de 2009

Tess Gallagher

Deixo de escrever o poema



para dobrar a roupa. Não importa quem viva
ou morra, continuo a ser uma mulher.
Terei sempre muito que fazer.
Dobro as mangas da sua
camisa. Nada pode interomper
a nossa ternura. Voltarei
ao poema. Voltarei a ser
uma mulher. Mas por agora
há uma camisa, uma camisa gigantesca
nas minhas mãos e, algures, uma pequena rapariga
ao lado da sua mãe
observando-a para ver como se faz.



(versão minha, a partir do original e da tradução espanhola de Eduardo Moga, reproduzidos em El puente que cruza la luna, Bartleby Editores, Madrid, 2006, p. 88).

segunda-feira, 23 de março de 2009

Vorea Ujko

És muito bela



És muito bela, rapariga,
Mas o amor entre nós
É impossível
Porque, aqui entre nós,
Em tempos amei a tua mãe
Que, tal como tu, foi muito bela.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 60).

quarta-feira, 18 de março de 2009

Richard Jones

Toalhas brancas


Estive a estudar a diferença
entre a solidão e o estar só,
estive a contar a história da minha vida
às toalhas brancas e limpas, ainda quentes da máquina de secar.
Agora carrego-as pela casa
como se fossem minhas filhas
adormecidas nos meus braços.




(versão minha; original reproduzido em Poetry 180, a turning back to poetry, organização e introdução de Billy Collins, Random House, Nova Iorque, 2003, p. 42).

domingo, 15 de março de 2009

Bardhyl Londo

Crónica de um caso amoroso



Na segunda conhecemo-nos. Dissemos os nossos nomes
um ao outro.
Na terça tornámo-nos amigos. Sorrimos.
Na quarta fizemos amor. Perdemo-nos.
Na quinta tivemos uma discussão. Ficámos tristes.
Na sexta revimos os nossos últimos dias como se fossem um filme.
No sábado procurámos maneiras de nos reencontrarmos.
No domingo redescobrimos o nosso amor, como Colombo.

E depois era segunda outra vez.




(versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, 1993, p. 169).

terça-feira, 10 de março de 2009

Paul Muldoon

Por que se foi Brownlee



Por que se foi Brownlee e para onde
É, ainda hoje, um mistério.
Se havia homem que deveria estar satisfeito,
Seria ele; quase um hectare de cevada,
Meio de batatas, quatro novilhos,
Uma vaca leiteira, uma casa de xisto.
A última vez que foi visto ia lavrar,
Numa clara madrugada de Março.

Ao meio-dia Brownlee era famoso:
Tinham encontrado tudo abandonado,
O último sulco por abrir, a parelha de cavalos
Pretos, como marido e mulher,
Alternando o peso ora numa pata ora
Noutra, olhando fixamente o futuro.



(versão minha, a partir do original e da tradução para espanhol de Dámaso López Garcia, reproduzidos em Indecisiones, Visor Libros, Madrid, 2004, pp. 50-51).

sábado, 7 de março de 2009

Ted Kooser

Escolhendo uma leitora



Em primeiro lugar, gostaria que fosse bonita,
e chegasse à minha poesia de forma cuidadosa,
no momento mais solitário de uma tarde,
o cabelo ainda húmido junto ao pescoço
por o ter lavado. Deveria trazer vestida
uma velha gabardina, e suja
por não ter dinheiro para a mandar limpar.
Então tirará os óculos e, já
na livraria, manuseará
os meus poemas, depois recolocará o livro
na prateleira. Dirá a si mesma,
"Por esta quantia, vou mas é mandar
limpar a gabardina." E vai.



(versão minha; original reproduzido em Poetry 180, a turning back to poetry, organização e introdução de Billy Collins, Random House, Nova Iorque, 2003, p. 4; e aqui).

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ted Kooser

Um aniversário feliz



Ao entardecer sentei-me junto de um janela
aberta e li até que a luz se foi e o livro
já não era mais do que uma parte da escuridão.
Eu podia ter acendido facilmente um candeeiro,
mas quis conduzir este dia bem para dentro da noite,
sentar-me sozinho e sossegar a página ilegível
com o fantasma pálido e cinzento da minha mão.



(versão minha; o original pode ser lido aqui e relido aqui).

terça-feira, 3 de março de 2009

Azem Shkreli

Montão



Deixem a minha erva crescer sobre a minha cabeça
Sobre a minha cabeça deixem a minha erva crescer
A minha erva sobre a minha cabeça deixem-na crescer

Deixem-na crescer
Deixem crescer a minha erva sobre a minha cabeça



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, tradução e organização de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 99).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Javier Salvago

Tesouro divino



A juventude passou.
Bem está o que acabou.
Não voltaria a ser jovem
nem que mo pagassem.

Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?

Começar outra vez
as velhas batalhas
e as suas velhas feridas?
Voltar às caminhadas

pela noite, pelo inferno,
ao gosto pela má
vida? Fazer de tudo,
que é comédia, um drama?

Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e frenesim,
de palavras gastas?

Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?... Que disparate!

Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?

Ter toda a vida
pela frente - tão longa -,
e o que já passou
não ser nem metade?

A juventude foi-se.
Fica bem o que acaba.
Não voltarei a ser jovem,
graças a Deus.



(Outubro, 1996)



(versão minha; poema do livro Variaciones y reincidencias, de 1997, que pode ser lido algures aqui).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ismail Kadare

Horários de comboios



Gosto da companhia desses horários dos comboios nas pequenas estações
Enquanto espero na plataforma húmida e contemplo a infinitude dos carris.
O uivo distante de uma locomotiva. O quê, o quê?
(Ninguém compreende a nebulosa linguagem das máquinas
a vapor)

Comboios de passageiros. Cisternas. Vagões cheios de minério
Passam sem cessar.
Assim passam os dias da tua vida pela estação do teu ser,
Cheios de vozes, ruídos, sinais
E do pesado minério da memória.




(versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, p. 1993, p. 84).

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Fatos Arapi

A vida



A vida é uma estação de comboios feita de separações
e encontros.
Nós somos viajantes em constante movimento,
Transportando nas mãos a nossa inseparável bagagem,
Uma pequena mala
Cheia de contendas, fúrias e memórias.




(versão minha a partir da tradução de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, introdução e tradução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 40).

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Mark Strand

Manter as coisas intactas



Num campo
eu sou a ausência
de campo.
Este é
sempre o caso.
Onde quer que esteja
sou aquilo que falta.

Quando caminho
separo o ar
e o ar move-se
para ocupar os espaços
onde o meu corpo esteve.

Todos temos razões
para nos movermos.
Eu movo-me
para manter as coisas intactas.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Dritëro Agolli

Trabalho



Debaixo das suas unhas a sujidade era azul escura,
Sujidade vinda dos campos e dos prados,
Azul como as linhas no globo,
Como as cordas de um violino.
No banho não se pôde lavar
Com água e sabão.
Sujidade que penetrou nos sulcos dessas mãos silenciosamente
Como um arado rasgando a terra.
Eu conheço estes dedos tépidos,
Estes dedos bons.
As unhas do meu pai estavam azuis desta sujidade
Mesmo quando ele repousava no seu caixão.
Parecia não estar verdadeiramente morto,
Mas simplesmente a dormitar antes de ir para os campos
Por onde andaria até amanhecer,
Deitando-se de costas com a cabeça entre as palmas das suas mãos.




(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 56).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Dritëro Agolli

A pequena burguesia



Para quê tanta gritaria?
podemos sentar-nos na cozinha;
A comida cheira bem, não teremos fome;
Se tivermos sede,
podemos beber;
Se as nossas unhas crescerem demasiado,
podemos cortá-las!




(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 47).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Martin Camaj

A minha terra



Quando morrer possa eu tornar-me erva
Da primavera nas minhas montanhas,
No outono serei semente.

Quando morrer possa eu tornar-me água,
A minha nebulosa respiração
Cairá sobre os prados como chuva.

Quando morrer possa eu tornar-me pedra,
Nos limites da minha terra
Possa ser eu um ponto de referência.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Robert Elsie, reproduzida em An Elusive Eagle Soars - anthology of modern albanian poetry, organização, tradução e introdução de Robert Elsie, Forest Book/Unesco, Londres, 1993, p. 32).

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Gareth Owen

Sem empreghabilidade



"Eu eshtumava tabalhá no cicu",
Disse ele
Por entre as saraivadas de gafanhotos expelidos pela sua boca.
"Oh", disse eu, "e o que fazia?"
"Eu eshtumava apanhá balash cosh dentsh".



(versão minha; original reproduzido em Strictly private - an anthology of poetry, selecção e organização de Roger McGough, Peguin/Puffin Books, Harmondsworth, 5ª reimpressão, 1987, p. 157

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Mark Strand

Comendo poesia



A tinta escorre pelos cantos da minha boca.
Não há felicidade igual à minha.
Estive a comer poesia.

A bibliotecária não acredita no que vê.
Os seus olhos são tristes
e ela caminha com as mãos no vestido.

Os poemas desapareceram.
A luz é baça.
Os cães estão nas escadas da cave e sobem.

Os seus globos oculares reviram-se,
as suas pernas ruças ardem como lenha.
A pobre bibliotecária começa a bater os pés e a verter lágrimas.

Ela não compreende.
Quando me ajoelho e lhe lambo a mão
põe-se aos gritos.

Sou um homem novo.
Rosno-lhe e ladro.
E brinco alegremente no meio da escuridão livresca.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 24 de janeiro de 2009

Goran Simic

Uma história de amor



A história de Bosko e Amira -
fugindo de Sarajevo tentaram atravessar uma ponte
cheios de esperança de que do outro lado
o maldito passado aparecesse com novas formas
que tornassem possível a existência de um futuro para eles -
foi o acontecimento mediático da Primavera.
A morte estava à sua espera no meio da ponte.
O homem que puxou o gatilho usava uniforme
e nunca foi acusado de homicídio.
Toda a imprensa mundial escreveu sobre eles.
Artigos italianos falaram do Romeu e da Julieta da Bósnia.
Jornalistas franceses louvaram a inseparabilidade do amor
capaz de rasgar as fronteiras políticas.
Os americanos reconheceram neles o símbolo comum
de duas nações divididas por uma ponte.
Os britânicos viram os seus cadáveres como exemplo
do absurdo das guerras.
E os russos permaneceram em silêncio.
As fotografias dos dois amantes espalharam-se
na florescente Primavera.
Só o meu amigo bósnio Prsic
que protegia a ponte
foi forçado a ver como dia após dia
os vermes as falsas verdades e os corvos
devoraram os corpos inchados de Bosko e Amira.
Eu ouvi-o blasfemar
quando o vento primaveril trouxe do outro lado da ponte
o fedor nauseabundo da deterioração
e o obrigou a colocar uma máscara de gás.
Mas isto não o mencionou nenhum jornal.



(versão minha, a partir da tradução inglesa - em segunda mão - de C. Polony, que pode ser lida algures aqui).

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Sharon Olds

Topografia



Depois de termos voado e cruzado o país
chegámos juntos à cama e deitámos
delicadamente os nossos corpos, como mapas dobrados
face a face, o Leste com o Oeste, a minha
São Francisco contra a tua Nova Iorque, a tua
Fire Island contra a minha Sonoma, a minha
Nova Orleães bem dentro do teu Texas, o teu Idaho
a resplandecer nos meus Grandes Lagos, o meu Kansas
a arder contra o teu Kansas o teu Kansas
a arder contra o meu Kansas, o teu fuso
horário de Leste pressionando o meu
Tempo Pacífico, o meu Tempo da Montanha
embatendo contra o teu Tempo da Pradaria, o teu
sol nascendo velozmente vindo da direita o meu
sol nascendo velozmente a partir da esquerda a tua
lua surgindo lentamente vinda da esquerda a minha
lua surgindo lentamente a partir da direita até
que os quatro corpos celestes
se incendeiam sobre nós, fundindo-nos,
todas as nossas cidades geminadas,
todos os nossos estados unidos, uma
nação indivisível, com liberdade e justiça para todos.



(versão minha; o original pode ser lido aqui; da autora foi traduzido para português, por Margarida Vale de Gato, o seu primeiro livro Satan says: Satanás diz, Antígona, Lisboa, 2004).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Izet Sarajlic

Herança



Os nossos antepassados deixaram-nos como herança
Schönbrunns,
Palácios de Inverno,
Pontes Carlos,
Praças de São Marcos,
e nem vou mencionar
os gigantescos Palácios de Westminster
nem
os Dramas de Shakespeare,
os romances de Tolstoi,
a suite nº 3 de Bach,

mas que deixaremos nós
aos nossos descendentes
como herança?

Snack-bares,
bombas de gasolina,
garagens,

e um ou outro anti-romance.




(versão minha a partir da tradução inglesa de Frans Vincke-Germain Droogenbroodt que pode ser lida aqui.)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Izet Sarajlic

Desde há tempos



Desde há tempos
que não me interessa em absoluto a poesia.

Interessa-me a vida.

Os piores lugares em poesia são, na realidade, a poesia.

Assim que a vida irrompe na poesia,
os versos, quase sem a intervenção do autor,
convertem-se em poesia.



(versão minha, a partir da tradução do servo-croata para o espanhol de Juan Vicente Piqueras que pode ser lida aqui).

domingo, 11 de janeiro de 2009

Zozan Hawez

Auto-retrato



Nascido numa família segura
Mas em terra perigosa, o Iraque,
Ouvi o som das armas desde pequeno, tão pequeno
Que foi decidido que iríamos para lugar seguro
Então encaixotámos as nossas coisas
E fomos para bem longe.

Agora, na cidade da chuva,
Procuro esquecer o meu passado,
Mas as memórias não se apagam.

Esta é a minha vida,
Não é assim por acaso,
Não sou assim por acaso.



(versão minha; o original pode ser lido aqui, onde se pode ler também que Zozan Hawez é um jovem refugiado político iraquiano, que estuda numa escola secundária em Tukwila, Washington, EUA).

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Raymond Carver

O privilégio



Ou isto ou ir caçar linces
com o meu amigo Morris.
Tentar escrever um poema às seis
da manhã ou correr
atrás dos cães de caça com
uma espingarda nas mãos.
O coração dando saltos na sua jaula.
Tenho 45 anos. Não tenho ocupação.
Imagina o luxo desta vida.
Tenta imaginá-lo.
Pode ser que lhe faça companhia se for
amanhã. Mas pode ser que não.



(Versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Jaime Priede, reproduzidos em Todos nosotros, Bartleby Editores, Madrid, 4ª edição, 2007, pp. 102).

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Jay Ruzesky

Tiramos fotografias



Fazendo o meu melhor James Dean pela avenida.
Os ombros espetados,
o cigarro apertado ao canto da boca,
a gola levantada, as mãos nos bolsos do grande
e comprido casaco, franzindo
as sobrancelhas.
Caminhando sob os chuviscos.
Fotografamo-nos
ao espelho; compomos imagens na intimidade.
Aguardando pela Fúria de Viver
apanho-me
entre dois manequins nus
na montra de uma loja,
o fecho de correr aberto.
Clique.



(versão minha dedicada a jpb; original reproduzido em In the Clear, a contemporary canadian poetry anthology, selecção e organização de Allan Forrie, Patrick O'Rourke, Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd., 2ª impressão, Saskatoon, 2006, pp. 207-208).