segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sapardi Djoko Damonno

Quem és tu



Eu sou Adão
o que comeu a maçã;
Adão subitamente consciente de si mesmo,
assustado e envergonhado,
eu sou Adão, o que descobre
o bem e o mal, passando
de um pecado a outro;
Adão ininterruptamente desconfiado
de si mesmo,
escondendo o rosto.
Eu sou Adão espojando-me
na armadilha do espaço e do tempo
sem qualquer ajuda da realidade:
o paraíso perdido
por causa da minha suspeição
em relação à Presença.
Eu sou Adão
o que ouviu Deus dizer
adeus, Adão.



(versão minha a partir da tradução do indonésio para o inglês reproduzida em The poetry of our world, organização de Jeffery Payne, Perennial, New York, 2001, pp. 422-423).

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Chairil Anwar

Por mim



Quando a minha hora chegar
Ninguém vai chorar por mim,
E tu também não

Malditas sejam todas essas lágrimas!

Eu sou uma fera furiosa
Expulsa do rebanho

As balas podem furar-me a pele
Mas eu continuarei sem parar,

Arrastando para a frente as minhas chagas e a minha dor,
Atacando
Atacando
Até o sofrimento desaparecer

E não me vai custar nada

Eu quero viver mais mil anos



(versão minha, a partir da tradução do indonésio para o inglês de Burton Raffel reproduzida em The poetry of our world, organização de Jeffery Payne, Perennial, New York, 2001, p. 427).

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Eavan Boland

Neste momento



Um lugar algures.
Ao anoitecer.

Coisas estão à beira
de acontecer
longe dos olhares.

Estrelas e borboletas nocturnas.
E cascas enrolando-se em volta dos frutos.

Mas não ainda.

Uma árvore é negra.
Uma janela é amarela como manteiga.

Uma mulher baixa-se para receber uma criança
que correu para os seus braços
neste momento.

As estrelas irrompem.
As borboletas volteiam.
As maçãs amadurecem no escuro.



(versão minha; original reproduzido aqui).

sábado, 18 de outubro de 2008

Reiner Kunze

Com o som em baixo



Então vieram
doze anos
em que não estive autorizado a publicar
diz o homem na rádio

Eu penso em X
e começo a contar



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Ewald Osers reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 162).

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Volker Sielaff

Sem sono



A barulheira dos pássaros
nas árvores às três
e um quarto.

Cioran
queixou-se de insónias
a vida toda.

Atiro-me
às cegas
para os braços da manhã.

Nenhuma experiência
é comunicável.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Michael Hofmann reproduzida em The Faber Book of 20 th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, London, 2005, p. 203).

sábado, 11 de outubro de 2008

Inge Müller

Debaixo do entulho III



Quando fui buscar água
A casa desmoronou-se sobre mim
Nós amparámos a casa
Eu e o cão abandonado.
Não me perguntem como o conseguimos
Não me lembro.
Perguntem ao cão.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Michael Hofmann, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 203).

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Adonis

O deserto
(O Diário do Cerco de Beirute, 1982)

(...)


9
Ele fecha a porta
Não para aprisionar a sua alegria
... Mas para libertar o seu desgosto.



10
Um noticiário
Sobre uma mulher apaixonada
A ser morta,
Sobre um rapaz a ser raptado
E um polícia a crescer para dentro de um muro.



11
Venha o que vier acabará por envelhecer
Por isso leva tudo contigo menos esta loucura - prepara-te
Para continuares a ser um estranho...



12
Encontraram pessoas em sacas:
Uma sem a cabeça
Outra sem a língua ou as mãos
Outra esmagada
As restantes sem nomes.
Enlouqueceste? Por favor,
Não escrevas sobre estas coisas.


(...)


(mais quatro partes de um poema com trinta e cinco; versões minhas a partir da tradução para inglês de Abdullah al-Udhari, reproduzida em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2ª edição, 2005, pp. 141-143).

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Adonis

O deserto
(O Diário do Cerco de Beirute, 1982)



1
O meu tempo diz-me grosseiramente:
Tu não fazes parte.
Respondo grosseiramente:
Não faço parte,
Procuro compreender-te.
Agora sou uma sombra
Perdida na floresta
De um crânio.



2
Estou de pé, o muro é uma barreira -
A distância encurta-se, uma janela recua.
A luz do dia é fio
Cortado pelos meus pulmões para coser a noite.



3
Tudo o que eu disse sobre a minha vida e a minha morte
Retorna no silêncio
Da pedra debaixo da minha cabeça...



4
Estou cheio de contradições? É verdade.
Agora sou uma planta. Ontem, quando estava entre fogo e água
Era uma colheita.
Agora sou uma rosa e carvão vivo,
Agora sou o sol e a sombra
Não sou um deus.
Estou cheio de contradições? É verdade...



5
A lua usa sempre
Um elmo de pedra
Para combater as suas próprias sombras.



6
A porta da minha casa está fechada.
A escuridão é um cobertor:
Uma lua pálida chega com
Uma mão cheia de luz
As minhas palavras falham
Não traduzem a minha gratidão.



7
A matança mudou a forma da cidade - Esta pedra
É osso
Este fumo respiração de pessoas.



8
Nunca nos encontrámos,
Rejeição e exílio mantêm-nos separados.
As promessas morreram, o espaço morreu,
Morrermos sós tornou-se o nosso ponto de encontro.



(...)


(primeiras oito partes de um poema com trinta e cinco; versão minha, a partir da tradução inglesa de Abdullah al-Udhari, reproduzida em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2ª edição, 2005, pp. 135-139).

sábado, 4 de outubro de 2008

Thomas Lux

Um pequeno dente



À tua menina nasce um dente, depois o segundo,
e o quarto, e o quinto, depois ela quer carne
directamente do osso. Acaba

tudo: vai aprender certas palavras, apaixonar-se
por cretinos, imbecis, um qualquer falinhas
mansas a caminho da prisão. E tu,

a tua mulher, envelhecem, estão gastos,
e não se lastimam. Já viveste, amaste, os teus pés
doem. Anoitece. A tua filha está enorme.



(versão minha; original reproduzido aqui).

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Thomas Lux

Para ajudar o macaco a atravessar o rio,



o que ele tem
de fazer, nadando, para apanhar frutos e nozes,
para o ajudar
sento-me com a minha carabina numa plataforma
bem alta numa árvore, do mesmo lado do rio
em que se encontra o macaco esfomeado. Como é que isto o
ajuda? Quando ele se lança à água para chegar à outra margem
olho primeiro rio acima: os predadores movem-se mais depressa a favor
do que contra a corrente.
Se um crocodilo se prepara rio acima para comer o macaco
e uma anaconda rio abaixo arde
com a mesma ambição, elaboro
os cálculos, a álgebra necessária, os ângulos, as relações de velocidade
de macaco-crocodilo-e cobra, e se, se
se afigura provável que a anaconda ou o crocodilo
irão apanhar o macaco
antes de ele atingir a margem mais afastada do rio,
então aponto a minha carabina e disparo
uma, duas, três, talvez até quatro vezes para o rio,
mesmo a rasar as costas do macaco
para o apressar um pouco.
Deveria disparar sobre a cobra, o crocodilo?
Eles apenas desempenham os seus papéis na história,
mas o macaco, o macaco
tem duas mãozinhas que parecem as de uma criança,
e os mais espertos, numa jaula, podem ser ensinados a sorrir.



(versão minha; original e leitura do poeta aqui).

domingo, 28 de setembro de 2008

Carol Ann Duffy

Palavras, extensa noite



Algures do outro lado desta extensa noite
e da distância entre nós, estou a pensar em ti.
O meu espaço despede-se lentamente do espaço.

Isto é agradável. Ou devo riscar isto e dizer
que é triste? Numa certa linha do tempo canto
uma impossível canção de desejo que não podes escutar.

Lá lala lá. Entendes? Fecho os meus olhos e imagino
as montanhas negras que teria que atravessar
para te alcançar. Porque te amo e isto

é como é ou como é em palavras.



(versão minha; original reproduzido em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 141.)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Primo Levi

25 Fevereiro 1944



Quem me dera acreditar em alguma coisa,
Alguma coisa para além da morte que te desfez.
Quem me dera poder dizer a força
Com que desejávamos então,
Já submersos,
Poder voltar a caminhar por uma vez
Livres sob o sol.



(versão minha; original e tradução para inglês de Eleonora Chiavetta reproduzidos em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 243.)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Anna Swir

O mesmo interior



A caminho de tua casa para um festim de amor
vi na esquina de uma rua
uma velha pedinte.

Peguei na sua mão,
beijei a sua face delicada,
conversámos, ela tinha
o mesmo interior que eu,
do mesmo género,
senti-o instantaneamente
como um cão conhece pelo cheiro
outro cão.

Dei-lhe dinheiro,
não conseguia separar-me dela.
Afinal, todos precisamos
dos que nos são próximos.

E depois eu já não sabia
porque caminhava para tua casa.



****



Sandálias de praia



Nadei para longe de mim mesma.
Não me chames.
Nada também para longe de ti mesmo.

Nadaremos para longe, abandonando os nossos corpos
na margem
como um par de sandálias de praia.



****



Não é fácil



Ponho algemas
e grilhões de ferro
e agora
corro.



(versões minhas, a partir das traduções para inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzidas em Talking to my body, Copper Canyon Press, Washington, 1996, pp. 73, 131 e 125.)

sábado, 20 de setembro de 2008

Stuart Kestenbaum

Oração pelos mortos



A neve suave começou tarde a noite passada e continuou
a noite toda enquanto eu dormia e podia ouvi-la entrar
ocasionalmente no meu sono, no qual sonhei que o meu irmão
estava de novo vivo e possuía a beleza da juventude, consciente
de que ele partiria de novo em breve e de que essa é a lição
da neve a cair e das sementes de morte que existem em tudo
o que nasce: estamos aqui por um momento
numa história que é mais longa do que nós e poucos de nós
recordam, o vento nasce em sítios
que desconhecemos, e cada momento contém ritmos
dentro de ritmos, e se descobres restos antigos
da tua própria escrita, ou uma velha fotografia,
podes não ter a certeza de que foste tu mesmo que tenhas sido tu,
não és tu agora, nem este momento que une o fogo
e as tuas mãos movem-se para cobrir o teu rosto num gesto
de dor e recordação.



(versão minha; o original, com o irmão do poeta e o 11 de Setembro de 2001 em fundo, pode ser lido aqui).

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Vagn Steen

$capitalista$



$uma$sociedade$
$capitalista$transforma$tudo$
$em$dinheiro$e$capitaliza$todos$
$os$serviços$tudo$é$expresso$
$monetariamente$e$exactamente$contabilizado$
$tudo$tem$um$aspecto$
$monetário$tudo$tem$
$um$sorriso$monetário$
$tudo$


(versão minha a partir da tradução para inglês feita pelo poeta, reproduzida em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 249.)

domingo, 14 de setembro de 2008

Cicely Herbert

Tudo muda

depois de Brecht, "Alles wandelt sich"



Tudo muda. Plantamos
árvores em nome dos que vão nascer
mas o que aconteceu aconteceu,
e os venenos vazados nos mares
não mais serão drenados.

O que aconteceu aconteceu.
Os venenos vazados nos mares
não mais serão drenados, mas
tudo muda. Plantamos
árvores em nome dos que vão nascer.



(versão minha; original reproduzido em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 89.)

domingo, 7 de setembro de 2008

Samih al-Qasim

Como me transformei num artigo

 
Eles mataram-me uma vez 
Agora exibem o meu rosto infinitas vezes



 **** 


  Fim de um debate com um carcereiro 


Do postigo da minha estreita cela 
posso avistar árvores a sorrir-me, 
telhados repletos com a minha gente, 
janelas chorando e rezando por mim. 
Do postigo da minha estreita cela 
posso avistar a tua imensa cela. 



 **** 


  Eternidade 


 Folhas caem de quando em quando, 
No entanto o tronco do carvalho...    



**** 


Bilhetes de viagem 


No dia em que me matar 
O meu assassino encontrará no meu bolso 
Bilhetes de viagem 
Para a paz, 
Para os campos e a chuva, 
Para a consciência do povo. 

Peço-te: não os desperdices, por favor. 
Suplico-te, a ti que me mataste - Viaja.



(versões minhas a partir das traduções inglesas de Abdullah al-Udhari reproduzidas em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2005, pp. 71, 77, 79 e 59).

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Samih al-Qasim

Confissão ao meio-dia



Plantei uma árvore
Desprezei o fruto
Queimei o tronco como lenha
Fiz um alaúde
E toquei uma melodia

Quebrei o alaúde
Perdi o fruto
Perdi a melodia
Chorei sobre a árvore



(versão minha a partir da tradução inglesa de Abdullah al-Udhari reproduzida em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2005, p. 57).

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Javier Salvago

Último retrato da juventude



Faz quase três anos que não escrevo
poemas, abandono-me, apenas leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
dentro de mim uma espécie de vazio

que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, ontem tão vivo.

Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de extraordinário
espero doravante. Não disfruto

do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
me consentem os anos menos fantasias.



(versão minha; poema do livro Los mejores años, 1991; original aqui).

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Patrick Phillips

Piano



Tocado pela tua bondade, eu sou como
esse grande piano que encontrámos uma noite em Willoughby
e que alguém estragou e atirou
de qualquer maneira por uma janela aberta.

Podes pensar que com isto estou a dizer que sou uma ruína,
que fui abandonado, ou desamado. A verdade é que não
sei exactamente o que sou, pelo menos não mais
do que os destroços no beco sabem
que são um piano coberto de lixo e folhas amarelas.

Talvez eu seja tudo o que restou daquilo que fui.
Mas, tocando-me, eu sei, tu és a brisa
suave passando por entre as cordas enferrujadas.

Que nome vais dar a esse sentimento quando a madeira,
mesmo se a harpa foi quebrada, começa a cantar?



(versão minha; original aqui).

terça-feira, 29 de julho de 2008

Connie Bensley

Apologia



A minha vida é demasiado insípida e demasiado cautelosa -
até eu consigo ver isso:
a mesinha-de-cabeceira bem arrumada,
o gato estragado com mimo.

Sem dúvida que deveria ter sido mais ousada.
Que dirão de mim os biógrafos?
Levantou-se, comeu uma torrada e foi às compras
dia após dia?

O whisky e o gin são assustadores,
o ecstasy leva-nos à desgraça.
Os jovens amantes provocam estragos nas finanças
e na nossa metade da cama.

Emily Dickinson, ajuda-me.
Stevie, tira os olhos da tua Tia.
Há gente que aguenta a excitação,
há gente que não.



(versão minha; original reproduzido em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 8ª impressão, 2006, p. 112).

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Bill Knott

(Sem título)



o passado e o futuro
são os meus pais
a encontrarem-se pela primeira vez
no momento em que eu morro



****



(Sem título)



agora que morri
o meu passado tornou-se tão infinito
como o meu futuro costumava ser



****



Interruptus



Espera. O que és.
Sou um poeta. Redijo o conteúdo de notas suicidárias. Tais como:
Amo-te.
Está bem. Continua.



(versões minhas; originais algures aqui).

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Bill Knott

Fragmento



Porque há no mundo em todos os momentos
Algures pelo menos um casal a fazer amor,
Porque os dois estão sempre unidos de uma forma tão apertada
Que o ódio não consegue nunca passar por entre eles
Para nos vir destruir.



(versão minha; original, algures aqui).

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Dennis O'Driscoll

Experiências com animais
(depois de Miroslav Holub)



É muito mais simples quando chovem coelhos
em vez de gatos ou cães. Os animais a experimentar
não devem denunciar demasiada inteligência.
É enervante ver as suas acções a mimetizarem as tuas;
o terror e o horror com os quais te podes identificar.

Mas, para uma verdadeira dor de alma, atenta num porco
recém-nascido.
Fantasticamente feio; sem possuir nada
e sem desejar nada a não ser goles de leite;
as pernas arqueando-se debaixo de todo aquele peso
de inutilidade, estupidez e focinho.

Quando tenho de matar um leitão hesito por um instante.
Por cinco ou seis segundos.
Em nome de toda a beleza do mundo.
Em nome de toda a tristeza do mundo.
"O qu' é que t' está a demorar?", alguém interrompe então.

Ou interrompo-me eu a mim próprio.



(versão minha; original reproduzido em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 2006, 8ª impressão, pp. 218-219).

terça-feira, 15 de julho de 2008

Miroslav Holub

Experiências com animais



É mais fácil com coelhos do que com cães ou gatos. O
animal da experiência não deve ser demasiado inteligente. É
desconfortável quando as suas acções lembram as dos humanos,
é desconfortável quando conseguimos compreender o seu terror
e a sua tristeza.

Mas a coisa mais triste é trabalhar com porcos recém-nascidos.
São feios.

Não possuem nem desejam mais nada senão a sua fonte de leite.

As suas pernas ásperas e desastradas resvalam debaixo deles,
os seus focinhos e cascos minúsculos são extraordinariamente
inúteis.

São feios e estúpidos.

Quando tenho de matar um leitão paro sempre por um instante.
Mais ou menos cinco ou seis segundos.

Mais ou menos cinco ou seis segundos em nome de toda a beleza
e tristeza do mundo.

- Acaba lá com isso, - alguém diz então.

Ou então sou eu que o digo a mim próprio.




(versão minha a partir da tradução do checo para o inglês de Daniel Simko, reproduzida em Contemporary east european poetry, organização de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 1993, 2ª edição, aumentada, pp. 219-220).

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Christopher Logue

Não sejas demasiado duro



Não sejas demasiado duro pois a vida é curta
E nada é dado ao homem;
Não sejas demasiado duro quando ele se vende ou compra
Pois tem de arranjar-se o melhor que pode;
Não sejas demasiado duro quando ele morre feliz
Defendendo coisas que não lhe pertencem;
Não sejas demasiado duro quando ele mente
E se o coração é em certas ocasiões como uma pedra
Não sejas demasiado duro - pois vai morrer em breve,
Quantas vezes menos sábio do que quando começou.
Não sejas demasiado duro pois a vida é curta
E nada foi dado ao homem.



(versão minha; original reproduzido em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 2006, 8ª impressão, p. 98).

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Reiner Kunze

Hino a uma mulher sob interrogatório



Mau (disse ela) foi
o momento de
despir-se

Depois
exposta aos seus olhares fixos ela
descobriu tudo

sobre eles



(versão minha a partir da tradução do alemão para inglês de Ewald Osers, em Contemporary east european poetry, organização de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 2ª edição, aumentada, 1993, pp. 182-183).

terça-feira, 8 de julho de 2008

Reiner Kunze

Quase um poema primaveril



Pássaros, postilhões, quando
começares a cantar a carta
com o carimbo azul chegará, com selos
a desfazerem-se em flores com palavras
a serem lidas:

Nada
dura
para sempre



(versão minha a partir da tradução do alemão para inglês de Ewald Osers reproduzida em Contemporary east european poetry, organização de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 1993, 2ª edição, aumentada, p. 183).

domingo, 6 de julho de 2008

Reiner Kunze

Resposta



O meu pai, tu dizes,
o meu pai no fundo da mina
tem feridas nas costas,
cicatrizes,
rasgões de pedregulhos caídos,
enquanto eu, sim eu,
canto o amor.

Eu digo:
sim, é por isso mesmo.



(versão minha, a partir da tradução do alemão para inglês de Ewald Osers, reproduzida em Contemporary east european poetry, organização de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 2ª edição, aumentada, 1993, p. 182).

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Ángel González

Morte no esquecimento



Sei que existo
porque tu me imaginas.
Sou alto porque tu me vês
alto, e limpo porque tu me olhas
com olhos bons,
com o olhar limpo.
O teu pensamento faz-me
inteligente, e na tua simples
ternura eu sou também simples
e bondoso.
Mas se tu me esqueces
cairei morto sem que nada
o evite. Verão viva
a minha carne, mas será outro homem
- obscuro, torpe, mau - aquele que a habita.



(versão minha).