domingo, 1 de novembro de 2020
Scott Wiggerman
domingo, 25 de outubro de 2020
Raúl Gómez Jattin
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
Atukuri Molla (século XVI)
sábado, 10 de outubro de 2020
Valeri Mikháilov
domingo, 4 de outubro de 2020
Olzhás Suleiménov
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
F. Scott Fitzgerald
sexta-feira, 25 de setembro de 2020
Kadyr Myrzá Alí
Dizem: os nossos antepassados, que viviam a vida
Como se caminhassem sobre as chamas,
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
Philip K. Dick
terça-feira, 8 de setembro de 2020
Charles Dickens
sábado, 5 de setembro de 2020
Tumanbay Moldagalíev
O cordeiro órfão
Levo os cordeiros todos juntos num punhado
E canto uma cantilena do avô pastor.
Parece que todo o pasto segue a melodia,
Oh, cânticos, cânticos, quantos havia.
Mas um cordeiro órfão mostra-se mais assustadiço que os restantes,
Colares de lágrimas congelaram-se-lhe nos olhos.
Também ele segue para a aldeia
Em correria com os outros.
Não o perdia de vista, dava-me pena.
Era espevitado, destro, rápido como todos.
Balem as ovelhas e os cordeiros ao encontrarem-se,
Como se não se vissem há um ano, não há um dia.
Ali mesmo vai o meu órfão infeliz,
Dá um gemido e com o focinho golpeia os úberes das ovelhas,
Corre para diante o pobre, bale timidamente,
Olha-me e continua a corrida.
O pobre orfãozinho corre e bale:
Será que nenhuma mãe alguma vez o mimou?
E neste mesmo instante eu gostaria de converter-me na sua mãe,
Alegrá-lo, abrir-lhe os braços.
O dia chegou ao fim e todos os cães pastores dormem,
As estrelas do céu iluminam tudo.
E só o balido de um órfão
Se ouve uma e outra vez sob a lua.
Eu não posso bater as asas livremente,
Pesados pensamentos rasgam-me ao longo da noite.
E como um cordeirinho branco dispus-me a procurar uma mãe,
Se for preciso corro o mundo inteiro.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Guillermo de la Puerta, incluída na Antología de la Poesía Moderna en Kazajstán; Visor, Madrid, 2020, p. 45).
segunda-feira, 31 de agosto de 2020
Kadyr Myrzá Alí
O invejoso morre para
Não sentir mais a sua ansiedade.
Batyr* morre na batalha
Cumprindo o seu dever.
Os bandidos morrem quando
Não conseguem sacar o punhal.
As belas morrem nos enlaces,
Afogadas na emoção.
O corcel morre na estepe.
O pó estende-se atrás dele.
O poeta morre, maravilhado,
E o seu verso não o pode salvar.
*Batyr: guerreiro épico casaque.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Alexandra Cheveleva e Iván Martín Cerezo incluída na Antología de la poesía moderna en Kazajstán; Visor, Madrid, 2020, p. 15).
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
Raúl Gómez Jattin
Os habitantes da minha aldeia
dizem que sou um homem
desprezível e perigoso.
E não andam muito enganados.
Desprezível e perigoso.
Isso fizeram de mim a poesia e o amor.
Senhores habitantes
Tranquilos
que só a mim
costumo causar dano.
sexta-feira, 21 de agosto de 2020
Ivan Hobson
Todas as famílias que viviam no nosso pátio
tinham uma carrinha de caixa aberta
com um autocolante do sindicato na traseira
e, em miúdo, eu admirava-as
tal como, julgava, os nossos soldados
deviam ter admirado Patton
e os tanques Sherman.
Uma vez disseste-me
que os russos não conseguiriam conquistar-nos,
não com cidades como as nossas,
cheias de ferro e de trabalhadores temperados
pelos fornos das fundições e das fábricas.
Não foram os russos que vieram;
foi o contrato, a greve,
as sucessivas dispensas que foram rebentando
até que chegou a tua vez.
Continuo a lembrar-me de ti
a carregares as coisas para partires,
o autocolante do sindicato raspado
com uma espátula,
as pontas da lona branca estendida
sobre a caixa da carrinha
a adejar enquanto te afastavas.
(Versão minha; original reproduzido aqui).
quinta-feira, 30 de julho de 2020
Karen Head
segunda-feira, 27 de julho de 2020
Kabir (1440-1518)
Colhe aqui aquilo de que precisas.
Mais à frente os caminhos
estão impraticáveis.
Loucos, querem
ir ao céu fazer as suas compras.
Não sabem que no céu não há lojas
nem sequer vendedor.
***
"Tens, Amigo, a morte..."
Tens, Amigo, a morte
pousada na cabeça.
Desperta de vez!
Como podes dormir
de modo tão profundo
estando a tua casa
situada numa rua tão ruidosa?
quinta-feira, 23 de julho de 2020
Lal Ded (ou Lalla) (Século XIV)
Não esbanjes a tua luz com um idiota.
Não partilhes o teu açúcar com um burro.
Não lances as tuas sementes
à areia de um rio.
Não deites o azeite no farelo
destinado às vacas.
***
Represar a inundação...
Represar a inundação.
Apagar um incêndio desbocado.
Caminhar pelo ar.
Ordenhar uma vaca de madeira.
Qualquer vigarista pode fazer isso.
sábado, 18 de julho de 2020
Kurt Brown
Esse beijo que não fui capaz de te dar.
Como poderás perdoar-me?
O beijo que eu teria dissipado em ti ainda
Aí está, dentro de mim. Provavelmente morrerá aí.
Mas será a última parte de mim a morrer.
(Versão minha; original aqui).
domingo, 12 de julho de 2020
Marjorie Saiser
Tu e eu apercebemo-nos no barco
da impressão que as baleias deixam,
o grande anel que os seus mergulhos desenham
durante algum tempo na superfície.
Será assim quando nos
perdermos um ao outro? Não sei
nem posso saber. Mas
quero acreditar que
quando não pudermos mais
atravessar uma sala
para um abraço, quando não pudermos
mais cair nos braços um do outro,
haverá sempre isto:
algum traço que se demora
enquanto o corpo enorme
permanece em baixo, sem se ver,
uma sombra escura e gigantesca,
um golpe de barbatana,
um corpo de deleite
a mergulhar para o fundo.
(Versão minha; original aqui)
quarta-feira, 8 de julho de 2020
Robert Bly
Nos fins de setembro muitas vozes
Dizem-te que vais morrer.
Aquela folha diz-to, aquela frescura.
Todas têm razão.
As nossas inúmeras almas - que
Podem elas fazer acerca disso?
Nada. Elas são já
Parte do invisível.
A verdade é que as nossas almas
Têm estado ansiosas por voltar
A casa. "É tarde", dizem elas,
"Fecha a porta, vamos andando."
O corpo não concorda. E diz
"Enterrámos uma pequena bola
De ferro debaixo daquela árvore.
Vamos lá buscá-la."
(Versão minha. Original aqui).
sexta-feira, 3 de julho de 2020
quarta-feira, 1 de julho de 2020
Manuel Vilas
Abatimento em metade de uma turma de adolescentes.
Queria estar noutro sítio, mas onde.
Rico e célebre em longas viagens pelo mundo.
Também eles não cumprirão as suas ilusões.
Salta à vista: sem talento, sem inteligência,
sem família com posses, sem beleza,
sórdida classe média-baixa da democracia
a quem foi prometida uma educação intranscendente.
Ensina-lhes, ao menos, a desejar a vida
com força, com justiça, com dignidade,
com as palavras duras que a sós aprendeste.
Ajuda-os a imaginar a ruína nada discreta
em que acabarão convertidos.
Os tristes afazeres das suas vidas são já um escândalo.
Diz-lhes que só a verdade com palavras justas
defende da verdade abandonada à sua sombra.
sábado, 27 de junho de 2020
terça-feira, 23 de junho de 2020
Hans Morgenthaler
Sou o extravagante poeta Hans Morgenthaler.
Exacto! O primo de Ernest, o conhecido pintor.
Tenho restos de sopa no casaco
E gotas nasais no colarinho da camisa;
Noutras circunstâncias, vida minha, oferecer-te-ia
O meu amor, mas na minha absoluta pobreza
Não me é lícito fazê-lo.
Vivo na Suíça italiana,
Onde algumas vezes faz muito calor no verão.
Encurralado entre um rabisco
E um piano eléctrico,
Numa casa ruidosa virada a sul, abrasada pelo sol.
Estou à espera na minha vida, com uma interminável e tensa paciência,
De uma mudança favorável
Que nunca chega.
De cada vez que, para lá da persiana,
Passa um dia quente
E abro a janela, feliz, ao ar fresco da tarde,
Para trabalhar um bocadinho na minha mesa,
Ou com um cansaço de morte dormir um pouco,
Aparece um desses: um paquete, um moço de fretes ou um aprendiz de barbeiro,
Enfia uma moeda na jukebox
E começa a ouvir a endemoninhada canção Valência...
Levo uma vida de cão!
Assim nunca me curarei!
Assim se vive na Suíça livre:
Na mais terrível estreiteza e sem vender um único livro!
Ando pelos quarenta
E cada dia que passa sou mais pobre
Como se possuísse o meu próprio tesouro!
Não comi nada esta noite
E assim posso economizar algum para um envelope e um selo.
Tenho de escrever à minha nova admiradora,
Uma senhora de setenta anos
Que, salvo os portes de envio, não me custa nada
E vive num lar.
domingo, 21 de junho de 2020
Adolfo Jenni
Os velhos, velhíssimos, professores
que foram brilhantes e autoritários,
agora, reformados,
arrastam pelas ruas
os corpos e os dias.
Resistem à morte
até não haver dúvidas
sobre como um ser humano pode ver deteriorados
o corpo e a mente.
Cada vez mais lentos e encurvados,
os velhos professores
quase afónicos e vacilantes,
surdos, com um sorriso pateta,
coléricos só de vez em quando,
cada vez mais desastrados dentro da roupa
com nódoas, desabotoados.
A dignidade que haviam encarnado
quando se sentavam na sua cátedra
a ensinar a juventude florescente
foi toda para o galheiro.
Não sabem já o que fazer
e procuram entreter-se com as pessoas,
com o primeiro que encontram,
ainda que seja o menos adequado
à sua condição e idade;
mas todos lhes viram as costas.
Os velhos, velhíssimos, professores
vagueiam como espantalhos do futuro
diante dos seus colegas mais jovens,
destinados a continuar, como vêem,
o caminho do ser humano.
Até eles deverão conseguir
a morte por um alto preço.
(Versão minha; poema incluído na Antología de la poesía suiza contemporánea; selecção e tradução de Manuel Jurado; Editorial Aguaclara, Alicante, 1992, pp. 62-63).
quarta-feira, 17 de junho de 2020
Jonathan Greene
Todos os anos
recuperamos o ânimo
quando as andorinhas do celeiro
regressam.
Reencontram os antigos ninhos,
e ensinam as mais novas a voar,
alinhadas no telhado do celeiro
para o seu primeiro voo.
Lembram-nos
que, por enquanto, certos rituais
desta terra generosa
perduram.
(Versão minha; original reproduzido aqui).
segunda-feira, 15 de junho de 2020
Mustafa Koz
Sobrevive comendo estrelas de noite,
O dia é para ele uma casinha sem números vermelhos
Ninguém pôde até agora escravizá-lo
A sua cabeça - esse céu - está coroada com espinhos escarlates,
Sigamos as nossas pegadas na margem lamacenta
Enquanto silenciosamente abandonamos a ilha
Para irmos limpar a lâmpada empoeirada.
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Alison Luterman
Andei a persegui-la
pelo mini-mercado: a sua coroa
de tranças imaculadas, presas na perfeição por um gancho prateado,
a sua postura direita, irradiando suavidade,
o modo como colocou os iogurtes e os abacates no cesto,
espalhando paz como a Estrela Polar.
Quis perguntar-lhe "Em que corredor encontraste
a tua serenidade, sabes como
se consegue estar casado durante cinquenta anos, ou como viver sozinho,
desculpa-me por estar a interromper, mas pareces ter
um grau de sabedoria que faz a terra arder e girar no seu eixo -",
só que nós não pedimos este tipo de informações a estranhos
nos nossos dias. Pelo que me limitei a dizer, "Adoro o seu cabelo."
domingo, 7 de junho de 2020
Jon Juaristi
A Luis García Montero
Não tenho carro
nem casa própria. Vivo só
e a minha conta corrente
está no vermelho.
Habito num frigorífico,
num frio promontório
varrido pelas turvas
ventanias do outono.
Passei a quarentena,
dobrei o meu Cabo Horn,
perdi todos os mastros
da alma nos escolhos.
Vivi em países
não especialmente exóticos,
mas do triste mundo
sei mais do que os geógrafos.
Nasci sob Saturno,
deus nocturno do chumbo.
Coube-me um tempo
inclinado para a tormenta.
A minha juventude entretém-se
com jogos perigosos.
Sigo sendo das esquerdas
embora pouco se note.
Não me lembro das vezes
que bati no fundo
por causa do despenhadeiro
das boas intenções,
nem quero publicitar
os meus lances mais gloriosos:
virar-me para trás
deixa-me melancólico.
Dê-se só um conselho
aos mais paranóicos:
a amnésia, se oportuna,
afasta o mal da vista.
No que respeita à memória,
melhor pecar por sóbrio:
a minha infância são recordações
de algum jardim zoológico
e deslizes pueris
de vate vaidoso
e megalomania
de calça curta.
Receio hoje os truques
dos poetas moços
e ponho-me a distinguir
as vozes dos buços.
Amo o meu povo basco,
um povo nobre e tosco
metido num atolamento
que assinaria El Bosch(o).
Deixar-lhe-ei em herança
o meu pó e os meus ossos
e quatro ou cinco livros
de versos rancorosos.
E se a poesia
me deu quase tudo
(ou seja, o belo punhado
de amigos que guardo),
brigar e apaixonar-me
são artes que melhor
conheço que a poesia:
agora julgai vós.
(Versão minha; poema incluído em Hacia da democracia. La nueva poesía (1968-2000); organização de Araceli Iravedra, Visor, 2016, pp. 446-448).
quinta-feira, 4 de junho de 2020
Manuel Vilas
O grande poeta, linhagem das enfermidades mentais,
cuja palavra, segundo os doutos e cabais académicos,
falou da Grécia e da Alemanha, que propôs aos mortais
um reino superior, lá nas alturas onde os deuses vivem,
foi no tempo da sua vida um pobre tonto que esqueceu
até o seu próprio nome. Teve razão Goethe, que viu nele
o que era na realidade: primeiro, um jovem exaltado,
com pouca experiência do mundo e demasiada filosofia,
depois mais um louco entre os que adubam os campos da terra.
(Versão minha; poema incluído em Hacia la democracia. La nueva poesía (1968-2000); organização de Araceli Iravedra; Visor, 2016, p. 694).
segunda-feira, 20 de abril de 2020
Barry Gifford
Adoro estas
miúdas
orgulhosas
dos
seus seios
Quando passamos
na rua
confessam
tudo
sabendo como
é fácil
para mim
perdoar-
-lhes

