sábado, 31 de agosto de 2013

Ljiljana Djurdjic

["Conduzo a minha ovelha negra de volta ao rebanho..."]



Conduzo a minha ovelha negra de volta ao rebanho
Para que as ovelhas mais velhas a possam lamber e sugar, e lhe dêem
De beber e lhe tirem de cima a lama, os cardos, o bolor, a humidade,
E as areias do deserto e a fuligem dos seus olhos de ovelha
Para que assim possa olhar pasmada a verdura dourada
E os olhos carinhosos dos seus progenitores ovinos

Conduzo a minha ovelha negra de volta ao rebanho
Para que ela possa ser branca de novo, pura e infinitamente igual,
Com o seu pescoço pronto para o sacrifício ritual
Sobre a insaciável vasilha de barro
Cheia do alimento sangrento dos deuses

Conduzo a minha ovelha negra de volta ao rebanho
Para poder ver a sua cabeça voar,
Essa cabeça do velho testamento em cima do seu dobrado pescoço de ovelha,
Para ouvir o seu generoso bater de coração de ovelha
E contar o meu tempo, o teu tempo, o tempo sabe Deus de quem?
O tempo da matança universal!



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology os serbian poetry; organização, tradução e introdução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 196).

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Jovan Hristic

[Naquela noite juntaram-se todos na mais alta torre...]



Naquela noite juntaram-se todos na mais alta torre,
Astrónomos, matemáticos e um dos magos da Síria,
Para lerem nas estrelas a glória do Rei dos Reis
E demonstrar a sua imortalidade com a ajuda da geometria.

Antes do nascer do dia, menearam as cabeças em concordância
Com as suas interpretações. A resposta das estrelas
Foi positiva. As trombetas anunciaram
A glória do Rei dos Reis sob o sol nascente.

No pálacio, com a mesa posta para o banquete, eles são esperados
Por aqueles sobre os quais as estrelas se pronunciaram esta noite
E cujo futuro transborda agora como vinho novo
Guardado nos cálices dourados preparados para os brindes.

Só alguns jovens, recentemente especializados em geometria,
Não se mostraram totalmente convencidos com o que foi lido nas estrelas,
Pois as estrelas respondem sempre aos humanos,
Mas a que questão só elas mesmas sabem.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização, tradução e introdução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 43).

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Matija Beckovic

Se eu soubesse que me aguentaria orgulhosamente



Se eu soubesse que me aguentaria orgulhosamente
Na prisão e frente aos juízes,
Que caminho ardente traçaria e suportaria até ao fim,
Resistindo apenas com as minhas mãos nuas.

Se eu me soubesse capaz de pontapear a tábua
Sob os meus pés e passar a corda em volta da minha própria garganta,
Mereceria a minha alma a vida eterna
E o meu carrasco choraria depois de mim.

Mas temo que começasse logo a suplicar,
A soluçar, a cair de joelhos, a trair tudo e mais alguma coisa.
Só para salvar a minha pobre pele,
Haveria de cuspir em tudo e de concordar com o que quisessem.



(Versão minha a partir da tradução de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização, tradução e introdução de Charles Simic; Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 175).

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Jovan Hristic

Bárbaros



Finalmente os mensageiros chegaram e anunciaram:
Vêm aí os bárbaros.
Começaram logo os preparativos para os receberem na cidade.
Jovens exaltados aclamam já os seus nomes
E apressam-se a celebrar os novos deuses.
Não defenderam os poetas que eles eram uma espécie de solução?
Agora escrevem poemas que os glorificam
Esperando por esse dia em que os declamarão publicamente
Enquanto os bárbaros - fortemente armados - os admirarão
E aplaudirão e aprenderão de cor esses versos.
Os poetas: vêem já os seus poemas em grandes caracteres
Colocados nos pórticos dos templos,
De onde as deidades impotentes foram expulsas,
E as livrarias cheias com os seus livros,
Substituindo as histórias que já não dizem nada a ninguém.

E no entanto os poetas sabem que serão os primeiros a ser enforcados em público,
Juntamente com os jovens que correram para abrir os portões
Da cidade à entrada desses que foram ansiosamente esperados,
Pois os bárbaros são bárbaros e não são solução para coisa nenhuma.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização, tradução e introdução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 122).

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Vicent Andrés Estellès

Para mim seria um prazer escrever a Salvador Espriu



Mas
não
me
foi
possível
saber
se
estou
morto
ou
se
estou
vivo.
Em
tais
circunstâncias, que
cavalheiro pode escrever a Salvador Espriu?



(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor reproduzida em Antología; selecção de Jaume Perez Montaner e Vicent Salvador,Visor, 2ª edição, Madrid, 2003, p. 54).

sábado, 10 de agosto de 2013

Humberto Ak'Abal

Poesia



A poesia é fogo,
queima por dentro de um
e por dentro do outro.

Se não, será qualquer coisa,
não poesia.



(Versão minha; original reproduzido em Puertas abiertas - Antología de poesía centroamericana; selecção e prólogo de Sergio Ramírez, Fondo de Cultura Económica, Guadalajara, 2011, p. 80).

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Charles Simic

Charles Simic



Charles Simic é uma frase.
Uma frase tem um princípio e um fim.

Ele é uma frase simples ou composta?
Isso depende das condições do tempo,
Depende das estrelas que estão por cima.

Qual é o assunto da frase?
O assunto é o vosso querido Charles Simic.

Quantos verbos há na frase?
Comer, dormir e foder são alguns dos seus verbos.

Qual é o sentido(1) da frase?
O sentido, meus lindos,
Não se vê ainda qual seja.

E quem está a escrever esta frase desajeitada?
Um chantagista, uma rapariga apaixonada
E um candidato a um emprego.

Terminarão com um ponto final ou um ponto de interrogação?
Terminarão com um ponto de exclamação e um borrão de tinta.



(Versão minha; original reproduzido algures por aqui; (1) Traduzo "object" por sentido, visto que a palavra inglesa pode significar "objecto", ou seja, "coisa", "matéria", mas também "objectivo", "fim", "intenção", bem como, num contexto gramatical (que é explicitamente o do poema), "complemento" (por exemplo, "direct object" será "complemento directo").