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terça-feira, 12 de outubro de 2021

Robert Bly

 Ao escutar um grilo por trás de um lambrim de madeira



O som que ele produz é como um barco de velas negras.
Ou como uma viúva debaixo de uma sequóia, a avisar
quem passa que a árvore está prestes a cair.
Ou como um sino de estanho preto numa aldeia mexicana.
Ou os pêlos na orelha de um homem com cem anos.



(Versão minha; original reproduzido em The invisible ladder; organização de Liz Rosenberg; Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p.25)

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Robert Bly

Coisas que eu e o meu irmão podíamos fazer


                                                          Para W. S.


Bem as coisas a fazer não têm fim.

Podíamos sair e apanhar esquilos.
Podíamos ler livros.
Podíamos remover a lama dos pneus do tractor.

Podíamos pensar num faisão a cair.
Podíamos pensar no Pai a cair.
Podíamos ver o sítio onde ele caiu.

Caiu numa noite, já tarde,
E bateu com a cabeça num raspador de botas -
Não morreu - enquanto se despedia dos outros.

Podíamos perguntar coisas sobre a Guerra.
Podíamos pensar na Bertha, que morreu.
Podíamos pensar na sua filha, que vivia connosco.

Podíamos pensar no motivo da sua cara ser tão magra.


(Versão minha; poema incluído em The invisible ladder; organização de Liz Rosenberg; Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 24).

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Robert Bly

Por que não morremos



Nos fins de setembro muitas vozes
Dizem-te que vais morrer.
Aquela folha diz-to, aquela frescura.
Todas têm razão.

As nossas inúmeras almas - que
Podem elas fazer acerca disso?
Nada. Elas são já
Parte do invisível.

A verdade é que as nossas almas
Têm estado ansiosas por voltar
A casa. "É tarde", dizem elas,
"Fecha a porta, vamos andando."

O corpo não concorda. E diz
"Enterrámos uma pequena bola
De ferro debaixo daquela árvore.
Vamos lá buscá-la."



(Versão minha. Original aqui).

sábado, 9 de abril de 2011

Robert Bly

É tarde e conduzo até à cidade para pôr uma carta no correio



A noite está fria e neva. A rua principal está deserta.
As únicas coisas que se mexem são remoinhos de neve.
Ao levantar a tampa da caixa do correio, sinto o seu metal gelado.
Há um isolamento que eu amo nesta noite nevada.
Andando às voltas poderei demorar-me um pouco mais.



(Versão minha; o original surge em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keillor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 253)