quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Mary Oliver

O que posso fazer



A televisão tem dois comandos que a controlam.
Fico confusa.
A máquina de lavar pergunta-me, lavagem normal ou delicada?
Honestamente, só quero roupa limpa.
É tudo assim.
E nem sequer vou falar de telemóveis.

Posso acender a luz da lâmpada ao lado da minha cadeira
onde um livro aguarda, e é tudo.

Oh sim, e posso riscar um fósforo e fazer lume.



(Versão minha; original reproduzido em Blue horses, Corsair, 2018, p. 3).

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Ron Padgett

O poeta como pássaro imortal



Há coisa de segundos o meu coração foi-se abaixo
e eu pensei, "Eis uma péssima altura
para se ter um ataque cardíaco e morrer, a
meio de um poema", depois senti-me confortado
pensando que nunca ninguém a quem eu tenha dado ouvidos
alguma vez morreu a meio da escrita
de um poema, tal como os pássaros nunca morrem em pleno voo.
Acho eu.



(Versão minha; original aqui).

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

John Foy

Bosque



Peguei no cão e fomos dar uma volta
pelo auditório do bosque,
mas não para fugir das coisas.
É um hábito nosso, só isso,
uma coisa que fazemos nos dias de verão
- e há tanto para escutar.
Uma brisa suave corria, agitava
três ramos de um vidoeiro sobre o lago.
Um corvo esforçava-se por subir
na vida negra que é a sua,
e um réptil castanho rastejou
metodicamente sobre um tronco castanho
sem que haja registo de que tal feito
tenha sido compreendido por alguém.
Um pica-pau trabalhava a sério
- um buraco bem fundo, a julgar pelo som -
numa área de árvores mortas, lá para o alto.
E um gaio, ainda mais para cima,
lamentava-se de alguma perfídia
que podia ou não ter suportado
pois, como se sabe, eles são quase todos mentirosos.
Quanto mais nos embrenhávamos, maior
o sossego, ao ponto de só o ranger de um ramo
quebrar o silêncio que nos envolvia.
O cão ficou quieto e olhou para mim,
o bosque dominado já então pela obscuridade.
Bastante mais tarde, no alpendre, à noite,
ouvi o mocho, uma coisa inquietante.
O cão, junto a mim, ouviu-o também,
um chamamento vindo dos lugares onde estivéramos,
onde não voltaríamos a estar.



(Versão minha; original aqui).

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Terri Kirby Erickson

Milton, o meu primo



Milton, o meu primo, trabalhou numa empresa de telecomunicações.
O rapaz que eu conheci quando éramos crianças

mostrava muitas vezes os punhos cerrados, o rosto com o aspecto
de um homem velho cuja vida foi tão dura

que o endureceu. Mas as mãos do homem abriram-se para acolher
mais mundo dentro de si. Ele enviava os cartões de Natal

mais divertidos para a família e os amigos, estendendo
cabos para que outros pudessem conectar-se. Porém,

viveu sozinho, isolando-se na maior parte do tempo, de tal forma
que, quando a sua irmã encontrou o seu corpo, já ele tinha

partido há muito. Morreu novo, aos cinquenta e sete, sem
espalhafato nem incómodo. Ninguém junto ao seu leito

ou dando-lhe sopa à boca. Limitou-se a ficar estendido como
um cabo que deixa o sinal passar através dele.



(Versão minha; original aqui).