sábado, 30 de dezembro de 2017

Claudio Damiani

César



César chega pela tarde e senta-se na rua.
Caminha mal porque coxeia,
tem uma pata entorpecida
porque levou uma paulada do seu dono.
Agora não tem dono,
vagueia por aqui e por ali no bairro,
creio que lhe dão de comer
porque não pede nada, senta-se ali
e fica sossegado,
tem uns olhos tão tristes
que, se os olhas, tens vontade de chorar.
Talvez tenha carraças, e assim não lhe tocamos,
mas queríamos acariciá-lo
e apertá-lo contra nós
de tão belo e bom que é,
e queríamos dizer-lhe: César,
não és o único a ter sido abandonado,
também nós o fomos, embora não pareça,
estamos assim todos nós,
e vagueamos por aqui e por ali no bairro,
e sentamo-nos no meio da rua
e quando passa um carro
levantamo-nos lentamente e afastamo-nos,
arrastando a nossa pata entorpecida,
sem protestar, sem dizer nada.



(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia, seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid, 2017, pp. 670-671).

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Giorgio Caproni

Condição



Um homem só,
fechado no seu quarto.
Com todas as suas razões.
Todos os seus erros.
Só num quarto vazio,
a falar. Aos seus mortos.



(versão minha a partir do original e da tradução castelhana publicada em La Poesía del Siglo XX en Italia, seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid, 2017, p. 43).

sábado, 23 de dezembro de 2017

Miren Agur Meabe

O código


Reivindico outro código:
um código diferente da palavra,
um idioma não verbal,
uma linguagem impossível de condenar na memória,
um dizer que desminta juramentos,
um falar mudo
sem livro de reclamações nem tabela de preços,
um fluir permanente de mensagens ambíguas,
a expressão daquilo que não se quer expressar.


(versão minha a partir da tradução castelhana apresentada em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco, Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 141).

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Harkaitz Cano

Súplicas atendidas


Deus ajuda os inconscientes.
Lamentavelmente, eles não se apercebem.


(versão minha a partir da tradução castelhana apresentada em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco, Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 249).

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Rikardo Arregi Diaz de Heredia

Fotografia de guerra



Essas bombas mataram gente. Falo de pessoas.
Prova irrefutável da fragilidade da carne,
rebentaram olhos, sangue foi derramado,
destroçaram-se fígados e demais vísceras
como se se tratasse de obra de nouvelle cuisine.

Revela-se, porém, surpreendente a integridade dos objetos:
os sapatos estão inteiros, não têm mais que pó,
e também se acham intactos os armários e as camas,
os lençóis tingidos de vermelho, quase sem rasgões,
e nem todos os vidros se partiram, só alguns,
e o espelho parece que acaba de ser comprado,
e os tapetes impecáveis, só pó, e de novo
sangue coagulado sobre a superfície de todas as coisas.

É verdade que as paredes foram deitadas abaixo
e que há um buraco no teto, por onde entrou
a bomba. O resto dos objetos potencialmente frágeis
continua de pé. Pó e sangue por todo o lado,
obviamente, não podia ser de outro modo, mas
os pedreiros poderiam reconstruir sem grande problemas
aquilo que já não podem reparar os médicos.


(versão minha a partir da tradução castelhana de Ángel Erro incluída em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco: Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 43).