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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

José Emilio Pacheco

Crítica da poesia



Eis aqui a chuva igual e as suas ervas daninhas
O sal, o mar desfeito...
Apaga-se o anterior e logo se escreve:
Este mar convexo, os seus enraízados
e migratórios costumes,
já serviu algumas vezes para se fazer mil poemas.
(A cadela infecta, a sarnosa poesia,
variedade risível da neurose,
preço que alguns homens pagam
por não saber viver.
A doce, eterna, luminosa poesia.)

Talvez não seja agora o momento:
a nossa época
deixou-nos a falar sozinhos.



(Versão minha; original reproduzido em Juegos de manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX: organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 838).

sábado, 25 de abril de 2009

José Emílio Pacheco

Alta traição



Não amo a minha pátria.
O seu fulgor abstracto
não se deixa agarrar.
Mas (ainda que soe mal)
daria a vida
por dez lugares seus,
certa gente,
portos, bosques, desertos, fortalezas,
uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
várias figuras da sua história,
montanhas
- e três ou quatro rios.



(versão minha, corrigida; a primeira versão que propus foi produzida a partir da forma como o poema original surge aqui; mas esta fonte pode ser problemática uma vez que, posteriormente, tomei conhecimento desta tradução, através da qual me dei conta de falhas na minha proposta, que agora rectifico; tomo agora como texto de partida o poema tal como surge em Tarde o temprano (poemas 1958-2000), Fondo de Cultura Económica, edição de Ana Clavel, 3ª edição, 2ª reimpressão, Picacho-Ajusco, 2004, p. 73; pela alta traição, ainda que involuntária, ao autor e aos leitores, as minhas desculpas).

sexta-feira, 28 de março de 2008

José Emílio Pacheco

Indesejável



Não me deixa passar o guarda.
Ultrapassei o limite de idade.
Provenho de um país que já não existe.
Os meus papéis não estão em ordem.
Falta-me um carimbo.
Preciso de outra assinatura.
Não falo a língua.
Não tenho conta no banco.
Reprovei no exame de admissão.
Extinguiram o meu posto na fábrica imensa.
Desempregaram-me hoje e para sempre.
Não tenho nenhuma cunha.
Levo aqui deste mundo vasto tempo.
E os nossos amos dizem que já é hora
de me calar e de me fundir com o lixo.



(versão minha)