quarta-feira, 19 de junho de 2019

Roger Wolfe

"A poesia que desde há séculos..."




     A poesia que desde há séculos se escreve e publica - em qualquer latitude ou época histórica, tanto faz -  não é mais do que, com muito poucas excepções, palha, verbo de encher, desperdício. É possível que boa parte dela esteja convencionalmente bem escrita e que atinja momentos de virtuosismo variável, beleza, pathos, mestria formal, fundo sentimento e intensidade. Nisso estamos de acordo, e há poesia para todos os gostos; poesia para dar e vender. Mas o problema é que, ainda que possa valer num momento de apuros ou numa tarde de chuva ocasional, trata-se de uma poesia fundamentalmente irrelevante. É ilegível porque não tem nada que ver com a vida real de ninguém; porque, em suma, não diz o que é preciso dizer. A poesia ficou reduzida, na imaginação popular, aos quatro tópicos irrisórios do costume, reservados para casamentos, baptizados, funerais e restantes funções sociais de maior ou menor solenidade.
     Ninguém, tirando os poetas que a escrevem e certos sectores do grémio académico, lê hoje poesia. Isto é um facto irrefutável. E ninguém o faz porque nem sequer lhe passa pela cabeça que a poesia esteja literalmente em todos os sítios. O homem vulgar, aquele a quem chamamos o ser humano comum, vive momentos de poesia em cada dia da sua vida; o que acontece é que não se dá conta disso, porque se em alguma ocasião improvável se detém a pensar na poesia é para a considerar pouco menos do que uma absurda piroseira para enfeminados, débeis mentais e gentes ociosas incapazes de viver. Os poetas, ao longo dos séculos, têm-se encarregado de confirmar precisamente esta opinião.
     O ser humano comum não suspeita que precisa da poesia para viver; que consegue de facto seguir em frente com esta batalha interminável da vida graças ao espírito da poesia, que é o que torna suportável em último caso a sua existência (o que são esses "doces momentos nescafé" dos célebres anúncios televisivos senão poesia?).
    O que faz falta é uma poesia relevante. Uma poesia intimamente relacionada com a vida real de cada ser humano; uma poesia que "crie dependência"; uma poesia tão necessária como um cigarro, o primeiro café, o jornal de cada manhã. As pessoas não querem paternalismo, nem divagações mentais, nem exibicionismo barato; querem ver a sua própria vida reflectida no que lêem. Se se lhes oferecesse uma poesia que cumprisse esse simples requisito, não só conseguiríamos que se formassem filas diante das livrarias como também algo mais, algo que tantos escritores afirmam desejar: a "humanização" dos nossos semelhantes através da literatura.




(Versão minha; excerto incluído em Escrito con la lengua, Huacanamo, Barcelona, 2012, pp. 167-168).

sábado, 15 de junho de 2019

Enrique García-Maíquez

Versão



Estas linhas traduzem um poema
de autor desconhecido.
Uma música antiga, ouvida um dia
no carro, a caminho do trabalho,
ou a conversa em que falavam
de noivos umas raparigas tão jovens
que espiei sem querer, transido de nostalgia.
Ou talvez traduzam o sorriso
que salva uma manhã, ou as vozes
que nos ferem nos sonhos, ou uma paisagem,
ou uma história esquecida... É um poema
incerto de autor desconhecido este que estas linhas
traduzem desajeitadamente com recurso
a um dicionário obscuro.
A sua língua original foi a do fogo
e nunca ninguém alcançou uma versão exacta.



(Versão minha; original reproduzido em Con el tiempo; Renacimiento, Sevilha, 2010, p. 41).

quarta-feira, 5 de junho de 2019







































(3ª edição, aumentada. Mais informações aqui).

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Andrea di Consoli

"O meu pai cheira..."



O meu pai cheira a palha e a peras,
apanha um tomate, limpa-o com a mão,
começa a comê-lo.
O meu pai, quando morrer,
cheirará a ervas e a flores.
A coberto da noite os animais da terra
hão-de levá-lo para um sítio secreto.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia, seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid, 2017, p. 781).

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Juan Manuel Bonet

Janelas sobre o Vltava



O vento arrasta o céu. A chuva
molha. Ao longe bate uma persiana esquecida.
O rádio dá notícias sobre as cinzas
da Europa. A água ferve sobre o fogo.
A rosa desfolha-se. O limpa-chaminés
não veio. Tenho de comprar um disco
de blues. Escreveram-me uma carta
anunciando-me que morreu, ultramarino,
Vicente Huidobro. Os meus antigos amigos
ameaçam expulsar-me desta casa fria. Oxalá
possa escrever alguns versos menos maus, que digam
todo o horror e toda a doçura
de viver nesta cidade, neste tempo
de suspeitas, de mentiras,
de forcas levantadas por aqueles
que quisemos ver no Castelo.
Oxalá um dia se editem,
nesta cidade, estes versos, e se tornem
incompreensíveis.


[por volta de 1949]



(Versão minha; original reproduzido em Via Labirinto - Poesía (1978-2015), La Veleta, Granada, 2015, p. 130).

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Ron Padgett

Estruturas sintácticas



Foi como se
enquanto conduzia por uma estrada poeirenta de uma só faixa
com altos pinheiros dos dois lados
a paisagem tivesse uma sintaxe
idêntica à da nossa língua
e à medida que me movia
uma longa frase estivesse a ser dita
do lado direito e outra do lado esquerdo
então pensei
Talvez a paisagem
possa compreender também aquilo que eu digo.
Mais à frente havia uma casa numa quinta
com crianças a brincar à beira da estrada
pelo que abrandei
e acenei-lhes.
Elas eram ainda suficientemente pequenas
para sorrirem e devolverem o aceno.



(Versão minha; original reproduzido em Alone and not alone, Coffee House Press, Minneapolis, 2015, p. 64).

quarta-feira, 8 de maio de 2019

James Schuyler

Quinta-feira



Uma madrugada estival irrompe pela cidade.
Irrompe? Não, é mais como se a noite
- a "escuridão", dizemos nós - escorresse
pelos canos e deixasse surgir a transparência.
Podes ver: edifícios, cães, pessoas,
cimento, etc. A cidade de verão onde,
suponho, alguém será feliz. Alguém.

Noutra tarde cheia de luz indo de táxi
pela Quinta Avenida, passando o parque vi
todas as folhas de todas as árvores
e contei-as: não uma a uma, mas
aos montes. Não me lembro exactamente de quantas
eram: sei que eram bastantes. Oh sim, mais
do que as que se podem contar. Mas não eu.
Eu contei-as, monte por monte.

Como já disse, é verão: não
é a minha estação preferida. Gosto mais da primavera,
quando as folhas brotam e se desfraldam,
ou do outono, quando mudam de cor
e caem. Ou do inverno quando
os carregadores das folhas se descobrem nus,
flectindo os bíceps como culturalistas
a exibir os seus encantos.

Depois há uma quinta estação,
chamada - bem, esse é o meu segredo.
Sim, o meu segredo, e vou
guardá-lo para mim. Sim, o meu segredo.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Collected poems, Farrar Straus Giroux, Nova Iorque, 1993, pp. 311-312).

sexta-feira, 3 de maio de 2019

José Luis Parra

A barricada do Temple (Paris, 1848)



Nos primeiros
dias da insurreição
resplandecia o sol de junho.
Na rua do Temple
levantava-se, fúnebre, com febre de simetria,
numa insólita fusão de ciência e trevas,
uma alta barricada de paralelepípedos.
Vários cadáveres jaziam
espalhados por aqui e por ali sobre o empedrado
e, à entrada dos portões, amontoavam-se os feridos.
Foi então que a vi: uma borboleta branca,
a esvoaçar, indiferente,
de um lado para o outro da rua.

Nem na revolução,
nem nos momentos mas críticos da história -
o verão nunca abdica.


                                  Os miseráveis, 5ª parte, Livro I (Victor Hugo)


(Versão minha; original reproduzido em Cimas y abismos - Antología poética; Renacimiento, Sevilha, 2012, pp. 173-174).

sábado, 27 de abril de 2019

Ron Padgett

Os números romanos



Multiplicar deve ter sido
bem complicado para os Romanos
- não me refiro à acção de se reproduzirem
mas ao campo da computação.

Pensa num número romano
por um instante, um dos grandes
como MDCCLIX. Repara
nas colunas, nas arcadas
e nas arquitraves: não podes movê-las,
mas são tão belas e
majestosas! Tenta, no entanto, multiplicar
MDCCCLXIV por MCCLVIII.

Como é que eles faziam?

Pus esta questão há uns anos
e nunca encontrei uma resposta
pois nunca a procurei,
mas é agradável
viver com uma questão deste género.

Talvez os Romanos não fossem bons a matemática,
ao contrário dos Árabes, que chegaram
com carradas de números, suficientes
para toda a gente. Ainda hoje temos
mais do que aqueles de que precisamos.

Eu tenho um 6 e um 7 que,
postos lado a lado, formam a minha idade.

Pensando bem,
preferia ter LXVII.



(Versão minha a partir do original publicado em Alone and not alone, Coffee Houese Press, Minneapolis, 2015, pp. 2-3).

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Abbas Kiarostami

(...)

XL

As flores silvestres
ninguém as cheirou
ninguém as colheu
ninguém as vendeu
ninguém as comprou

(...)

LXIII

Por negligência
cruzaram-se
duas linhas paralelas

(...)

CX


o cavalo de bronze
não atira ao chão
o seu cavaleiro

(...)

CXL

Não sabia ler
nem escrever
mas dizia coisas
que eu nunca havia lido
nem ninguém havia escrito

(...)

CXLII

No dicionário
à frente da palavra "nada"
naturalmente
tem de estar escrito
"nada"

(...)

CLI

Reunião
de hortaliças
no mercado da fruta

(...)

CLVI

O glorioso dia do nascimento
o amargo dia da morte
entre ambos alguns dias

(...)

CCVI

Quando no meu bolso não tenho nada
tenho poemas
quando no frigorífico não tenho nada
tenho poemas
quando no coração não tenho nada
nada tenho

(...)



(Tradução minha a partir de El viento y la hoja, tradução castelhana de Ahmad Taherí e de Clara Janés; prólogo de Santos Zunzunegui; Salto de Página, 2015).

sábado, 20 de abril de 2019

Víctor Botas

"A fragrância desnuda..."



A fragrância desnuda
do íntimo crepúsculo, nas tardes
dolentes do jardim (nunca o esqueças),
deve-se, mais do que tudo,
ao facto de um homem vulgar
ter aqui posto, um dia,
o esterco necessário.



(Versão minha a partir do original castelhano incluído em Poesía completa, La Isla de Siltolá, Sevilha, 2012, p. 38).

sábado, 19 de janeiro de 2019

Mary Oliver

Cavalos azuis, de Franz Marc



Passo para dentro do quadro dos quatro cavalos azuis.
Não chego a espantar-me por conseguir fazê-lo.

Um dos cavalos avança na minha direção.
O seu nariz azul fareja-me levemente. Ponho o meu braço
em volta da sua crina azul, não para o prender, apenas para nos ligarmos.
Ele permite-me esse prazer.
Franz Marc morreu jovem, o cérebro rebentado pela metralha.
Eu havia de preferir morrer a ter de explicar o que é a guerra aos cavalos azuis.
Eles tombariam desfalecidos, tomados pelo horror, ou simplesmente não acreditariam nas minhas palavras.
Não sei como posso agradecer-lhe, Franz Marc.
Talvez o nosso mundo possa tornar-se um dia mais bondoso.
Talvez o desejo de criar algo de maravilhoso seja a semente de Deus que existe em cada um de nós.
Agora os quatro cavalos aproximam-se ainda mais, inclinam as cabeças sobre mim como se tivessem segredos a revelar.
Não espero que me falem, e eles não o fazem.
Se serem belos como são não é suficiente, o que poderiam eles dizer?



(versão minha; original reproduzido em Devotions, Peguin Press, Nova Iorque, 2017, p.21).

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Mary Oliver

O que posso fazer



A televisão tem dois comandos que a controlam.
Fico confusa.
A máquina de lavar pergunta-me, lavagem normal ou delicada?
Honestamente, só quero roupa limpa.
É tudo assim.
E nem sequer vou falar de telemóveis.

Posso acender a luz da lâmpada ao lado da minha cadeira
onde um livro aguarda, e é tudo.

Oh sim, e posso riscar um fósforo e fazer lume.



(Versão minha; original reproduzido em Blue horses, Corsair, 2018, p. 3).

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Ron Padgett

O poeta como pássaro imortal



Há coisa de segundos o meu coração foi-se abaixo
e eu pensei, "Eis uma péssima altura
para se ter um ataque cardíaco e morrer, a
meio de um poema", depois senti-me confortado
pensando que nunca ninguém a quem eu tenha dado ouvidos
alguma vez morreu a meio da escrita
de um poema, tal como os pássaros nunca morrem em pleno voo.
Acho eu.



(Versão minha; original aqui).

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

John Foy

Bosque



Peguei no cão e fomos dar uma volta
pelo auditório do bosque,
mas não para fugir das coisas.
É um hábito nosso, só isso,
uma coisa que fazemos nos dias de verão
- e há tanto para escutar.
Uma brisa suave corria, agitava
três ramos de um vidoeiro sobre o lago.
Um corvo esforçava-se por subir
na vida negra que é a sua,
e um réptil castanho rastejou
metodicamente sobre um tronco castanho
sem que haja registo de que tal feito
tenha sido compreendido por alguém.
Um pica-pau trabalhava a sério
- um buraco bem fundo, a julgar pelo som -
numa área de árvores mortas, lá para o alto.
E um gaio, ainda mais para cima,
lamentava-se de alguma perfídia
que podia ou não ter suportado
pois, como se sabe, eles são quase todos mentirosos.
Quanto mais nos embrenhávamos, maior
o sossego, ao ponto de só o ranger de um ramo
quebrar o silêncio que nos envolvia.
O cão ficou quieto e olhou para mim,
o bosque dominado já então pela obscuridade.
Bastante mais tarde, no alpendre, à noite,
ouvi o mocho, uma coisa inquietante.
O cão, junto a mim, ouviu-o também,
um chamamento vindo dos lugares onde estivéramos,
onde não voltaríamos a estar.



(Versão minha; original aqui).

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Terri Kirby Erickson

Milton, o meu primo



Milton, o meu primo, trabalhou numa empresa de telecomunicações.
O rapaz que eu conheci quando éramos crianças

mostrava muitas vezes os punhos cerrados, o rosto com o aspecto
de um homem velho cuja vida foi tão dura

que o endureceu. Mas as mãos do homem abriram-se para acolher
mais mundo dentro de si. Ele enviava os cartões de Natal

mais divertidos para a família e os amigos, estendendo
cabos para que outros pudessem conectar-se. Porém,

viveu sozinho, isolando-se na maior parte do tempo, de tal forma
que, quando a sua irmã encontrou o seu corpo, já ele tinha

partido há muito. Morreu novo, aos cinquenta e sete, sem
espalhafato nem incómodo. Ninguém junto ao seu leito

ou dando-lhe sopa à boca. Limitou-se a ficar estendido como
um cabo que deixa o sinal passar através dele.



(Versão minha; original aqui).

terça-feira, 31 de julho de 2018

Elmer Diktonius

Aforismos



(...)
Num homem a nacionalidade não é mais do que os restos de merda que pisou.
Homens, lavai os pés!

Aquele que não sente o odor da podridão hedionda desta sociedade já tem a podridão instalada no seu próprio nariz.

Não vêem que este neste mundo a verdade se converteu em luz artificial e a mentira em obscuridade natural.

Atirar borda fora tudo o que é velho não é ainda criar algo de novo. Mas significa estar no bom caminho.

Para que os críticos não esqueçam:
todas as verdades são verdades temporais: nascem, vivem e morrem.
Mas, apesar de tudo, há uma verdade eterna, uma lei eterna.
E diz assim: é a juventude que cria as verdades temporais.

Agarrei a força na minha mão.
Amei a força.
Nasceram aforismos.

Não sou um pensador, muito menos um filósofo (não quero apodos para um cavalo selvagem!).
Um homem: um coração e um cérebro.
Vivi e vi.



(Versão minha a partir da tradução castelhana Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses, Libros del Innombrable, Saragoça, 2014, pp. 60-64).

sábado, 21 de julho de 2018

Elmer Diktonius

Aforismos



(...)

A vós, artistas futuros, desejo-vos que tenhais um certo tipo de audácia: a revolucionária.
Aquela que vos faça preferir o salto mortal em busca de um sistema de valores desconhecido em vez de ficarem sentados na terra num lodo que fede a velho.

Não sei se é uma vergonha ou uma glória imperecível, mas é assim: são os escravos que criam as maiores canções de libertação.

Uma ferida que arde:
que a maioria dos artistas revolucionários em matéria de arte seja em relação às grandes questões do seu tempo conservadora; e que a maioria dos revolucionários nas questões do seu tempo seja conservadora na sua relação com a arte.

O mundo quer dormir.
Os artistas, os investigadores e os trabalhadores mantêm-no desperto.

Para que serve a filosofia se tudo gira em volta do estômago ou da parte inferior do ventre feminino!

Para os pequenos tudo é delírio de grandeza.

Só os pássaros domésticos têm ânsias. Os selvagens voam.

Escrevo porque sou débil.
Melhor seria arranjar um machado e avançar pelo mundo às cutiladas.

(...)


(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses, Libros del Innombrable, 2014, Saragoça, pp. 60-63).

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Elmer Diktonius

Aforismos



(…)

Eu não responsabilizo unicamente a sociedade actual pela humilhante situação em que se encontra a arte.
São os próprios artistas que têm a maior parte da culpa de todos os males da arte.

Por não derrubarem este manicómio.
Por não morderem - ainda que tenham dentes.

O público não entende bem a arte - e diz disparates ou sente-se mal.
Os estetas não a entendem - e escrevem livros sobre ela.
Portanto: muito mais perigosos.

Exigir a um artista que faça uma arte nacional é como exigir-lhe uma arte dourada ou acastanhada de acordo com a cor do seu cabelo.

Estilo, técnica - asas para voar.
Muitos dos que voam nas alturas são só asas.

Vós, artistas do futuro - vendei as asas e comprai antes umas boas botas, assim podereis caminhar com passo firme pela escabrosa superfície da terra.
Sede mais terrenos, assim os vossos cantos soarão mais celestiais!

Não é a arte que se deve popularizar.
É a necessidade da arte que se deve tornar popular.

(…)


(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses; Libros del Innombrable, 2014, saragoça, pp. 60-63).

terça-feira, 17 de julho de 2018

Elmer Diktonius

Aforismos



Não se deve procurar um substituto da vida na arte.
A arte não é um sucedâneo: é a vida viva.
Uma parte da vida.
Talvez a maior, a mais esplendorosa.
De qualquer modo: só uma parte.

Se o sentido da arte fosse o de nos adormecer, de nos fazer olvidar a vida, então a melhor obra de arte, a mais simples, seria uma martelada na cabeça.

Para estar viva, uma obra de arte não precisa de beleza; nem de fealdade.
Precisa de vida.

Chegar à arte pelo caminho dos estetas é contentar-se com ossos roídos. (E até que ponto roídos!)
Tu, homem, se tens dentes, morde!
(O grande não é para os desdentados.)

A única forma de falar de arte é falar com arte - criar.

Por que tem de vender o artista a sua arte?
Para poder viver.
Por que tem o público de comprá-la?
Para poder viver.

(...)


(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses, Libros del Innombrable, 2014, Saragoça, pp. 60-63).

domingo, 15 de julho de 2018

Henry Parland

"Tenho o costume de comer..."



Tenho o costume de comer.
Contra ele talvez
alguém objecte que todos os homens.
Mas é isso uma objecção?



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz inckuída em Cinco poetas finlandeses; Libros del Innombrable, 2014, Saragoça, p. 208).

terça-feira, 29 de maio de 2018

Gloria Fuertes

"... e em Castela vejo uma árvore"



... e em Castela vejo uma árvore
e parece que vejo alguém da minha família.



(Versão minha; poema incluído em Obras incompletas, Catedra, Madrid, 24ª edição, 2017, p. 295).

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Naomi Shihab Nye

As abelhas eram melhores



Na faculdade, as pessoas estavam sempre a acabar umas com as outras.
Nós acabámos em parques de estacionamento,
junto a fontes.
Duas pessoas acabaram a sua relação
mesmo à minha frente, do outro lado de uma
mesa da biblioteca.
Nunca mais fui capaz de me sentar a essa mesa,
apesar de não as conhecer.
Eu andava a estudar as abelhas, que conseguem
transmitir mensagens através dos seus voos dançantes
e de encontrar o caminho de regresso
a casa, às suas colmeias,
mesmo se lhes puserem à frente barreiras de lençóis
ou placas de madeira e arame.
As abelhas têm um radar nas asas e nos cérebros
que os seres humanos muito dificilmente compreenderão.
Eu escrevi um estudo defendendo
a sua genialidade e superioridade
e revi-o num pequeno café
decorado com colheres de mel em forma de colmeia
colocadas em potes de mel prateados
em cada uma das suas mesas.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui)

domingo, 13 de maio de 2018

Greg Kosmicki

Nunca conseguimos alguma coisa



Este caderno é tão velho que o papel amareleceu.
Pergunto-me onde terá crescido a árvore.

Parece que nunca conseguimos alguma coisa sem perder outra.
Há uma espécie de lei que regula isto
e que tem que ver com a finitude dos recursos.

Algures alguém calculou exactamente quanto
custou a minha vida à terra,
quantas pessoas tiveram de morrer para que eu possa existir.

A começar pelos meus pais, e os seus, e todos os que morreram
por causa deles. É como se nos desfizéssemos em sangue.
Quem poderá então acordar amanhã de manhã
e cumprir as suas obrigações, anteriormente preparadas,
como se isso fosse o seu trabalho e apenas o seu trabalho?
Quem terá a coragem de se virar de novo para leste
e olhar o sol que é dos outros?



(Versão minha; original aqui).

sábado, 28 de abril de 2018

Eduardo Chirinos

8



Uma formiga carrega com esforço
uma folha.
                  A folha é enorme
e multiplica o seu tamanho. Trata-se
de um dever inevitável, de uma
obediência atávica.
                               Atrás dela
formigas idênticas carregam folhas
idênticas. Amanhã repetirão o ritual,
a sua razão de ser que ignoro.

Em breve cumprirei cinquenta anos.
Penso na formiga.
Na sua dança cega até à morte.



(Versão minha; original reproduzido em Antología - La poesia del siglo XX en Perú; seleção de José Miguel Oviedo; Visor, Madrid, 2008, p. 678.)

domingo, 22 de abril de 2018

Miguel d' Ors

"À une passante"



Vê como é gorda e vulgar! E que saia!
De certeza que se chama Beta ou Xana
(não serás baço ao ponto de a imaginares Jénnifer).
De certeza que segue todas as novelas.
De certeza que diz tipo - e com a pastilha elástica
a assomar por entre cada parvoíce.
Cabeleireira ou caixa, muito sincera,
moderna com o seu piercing,
coscuvilheira, devota de Nossa Senhora de Fátima
e doida por "sair": todos os requisitos
da mulher com que sempre sonhaste
nos teus pesadelos mais negros.
                                                   E,
no entanto - confessa - por um instante, só
o tempo de um clarão,
algo dentro de ti sente inveja: essa
mão apoiada no seu ombro,
a mão desse namorado de bairro social,
também rasa e grosseira, habituada ao tijolo
e ao maçarico, essa mão que, apesar de tudo, tu
sabes que, à sua maneira, é o Amor.


28-IV-06


(Versão minha; poema do livro Sociedad limitada, Renacimiento, Sevilha, 2010, p. 55).

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Haydar Ergulen

Cerimónia do chá



Mais do que a outra coisa a morte parece-se
Com a cerimónia japonesa do chá,
O silêncio é parte do ouro, pureza e harmonia,
Pausadamente os convidados aproximam a morte dos seus lábios,
Um gole de vez em quando
Debaixo da luz do dia e no seu vulgar decurso
A todos calha sempre mais um trago,
Os criados entram, quebra-se a paz destes momentos
Com o movimento dos seus calcanhares brancos a caminhar.
Como um convidado invisível ou um hóspede inesperado
Regressa a esta cerimónia
O temor da morte com as suas mãos vazias,
O véu do orgulho não está estendido
E o hara-kiri silencioso da luz do dia
É bem vindo com o seu sabre.


(versão minha a partir da tradução castelhana de Jaime B. Rosa e Metin Cengiz integrada em Poesía Contemporánea de la República de Turquía, Vision Libros, Madrid, 2013, p. 70).

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Huseyín Ferad

A minha amante é uma loba da estepe (o nascimento da poesia)



A poesia é uma folha de erva
Eu sou um pastor.

O sopro da escuridão é Poesia
O inaudível grito de um morcego.

Uma estrela encostada ao meu coração
Chora quando desperta
Goteja resina oferecida pelas suas pestanas a arder.

A poesia é navegar pelos céus azuis
Eu sou um perdigão sinistro.

Impossível conhecer a cor das palavras
E a da minha língua.

A minha amante é um cisne
Cruzando o lago
Arrulha
E eu consumo-me com cio.

A poesia é a frescura do centeio
A rebeldia das formigas.

Desconheço a cor do meu rosto
A cor da minha língua.
A minha amante é uma loba da estepe.

Sou um corço
Os guarda-florestais perseguem-me
Quando ela uiva.

O sussurro da vida é poesia
O lamento da morte.



(versão minha a partir da tradução catelhana publicada em Poesía Contemporánea de la República de Turquía, tradução de Jaime B. Rosa e Metin Cengiz, Vision Libros, Madrid, 2013, pp. 61-62)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Eugenio Montejo

As árvores



Falam pouco as árvores, sabe-se.
Passam a vida inteira a meditar
e a agitar os seus ramos.
Basta observá-las no outono
quando se juntam nos parques:
só as mais velhas conversam,
as que partilham as nuvens e os pássaros,
mas a sua voz perde-se entre as folhas
e muito pouco nos chega, quase nada.

É difícil encher um pequeno livro
com reflexões de árvores.
Tudo nelas é vago, fragmentário.
Hoje, por exemplo, ao escutar o grito
de um tordo negro, já a caminho de casa,
grito final de quem não espera outro verão,
compreendi que na sua voz falava uma árvore,
uma de muitas,
mas não sei o que fazer com esse grito,
não sei como anotá-lo.



(versão minha; original incluído em La Poesía del Siglo XX en Venezuela; seleção de Rafael Arríz Lucca, Visor, Madrid, p. 208).

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Andrea di Consoli

"Pai, andamos de noite..."



Pai, andamos de noite pelo estábulo meio às escuras,
acabo de chegar de Roma,
falas pouco, está frio,
as cabras tentam compreender quem eu sou,
os coelhos assustam-se com a minha voz,
os perus incham o pescoço vermelho.
Depois a mãe chega com uma garrafa cheia de leite
e tu amamentas um cabrito
porque precisamente ontem,
tu que és um homem bom,
mataste a sua mãe para celebrar o meu regresso.



(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia, seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid, 2017, p. 779).