terça-feira, 29 de maio de 2018

Gloria Fuertes

"... e em Castela vejo uma árvore"



... e em Castela vejo uma árvore
e parece que vejo alguém da minha família.



(Versão minha; poema incluído em Obras incompletas, Catedra, Madrid, 24ª edição, 2017, p. 295).

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Naomi Shihab Nye

As abelhas eram melhores



Na faculdade, as pessoas estavam sempre a acabar umas com as outras.
Nós acabámos em parques de estacionamento,
junto a fontes.
Duas pessoas acabaram a sua relação
mesmo à minha frente, do outro lado de uma
mesa da biblioteca.
Nunca mais fui capaz de me sentar a essa mesa,
apesar de não as conhecer.
Eu andava a estudar as abelhas, que conseguem
transmitir mensagens através dos seus voos dançantes
e de encontrar o caminho de regresso
a casa, às suas colmeias,
mesmo se lhes puserem à frente barreiras de lençóis
ou placas de madeira e arame.
As abelhas têm um radar nas asas e nos cérebros
que os seres humanos muito dificilmente compreenderão.
Eu escrevi um estudo defendendo
a sua genialidade e superioridade
e revi-o num pequeno café
decorado com colheres de mel em forma de colmeia
colocadas em potes de mel prateados
em cada uma das suas mesas.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui)

domingo, 13 de maio de 2018

Greg Kosmicki

Nunca conseguimos alguma coisa



Este caderno é tão velho que o papel amareleceu.
Pergunto-me onde terá crescido a árvore.

Parece que nunca conseguimos alguma coisa sem perder outra.
Há uma espécie de lei que regula isto
e que tem que ver com a finitude dos recursos.

Algures alguém calculou exactamente quanto
custou a minha vida à terra,
quantas pessoas tiveram de morrer para que eu possa existir.

A começar pelos meus pais, e os seus, e todos os que morreram
por causa deles. É como se nos desfizéssemos em sangue.
Quem poderá então acordar amanhã de manhã
e cumprir as suas obrigações, anteriormente preparadas,
como se isso fosse o seu trabalho e apenas o seu trabalho?
Quem terá a coragem de se virar de novo para leste
e olhar o sol que é dos outros?



(Versão minha; original aqui).

sábado, 28 de abril de 2018

Eduardo Chirinos

8



Uma formiga carrega com esforço
uma folha.
                  A folha é enorme
e multiplica o seu tamanho. Trata-se
de um dever inevitável, de uma
obediência atávica.
                               Atrás dela
formigas idênticas carregam folhas
idênticas. Amanhã repetirão o ritual,
a sua razão de ser que ignoro.

Em breve cumprirei cinquenta anos.
Penso na formiga.
Na sua dança cega até à morte.



(Versão minha; original reproduzido em Antología - La poesia del siglo XX en Perú; seleção de José Miguel Oviedo; Visor, Madrid, 2008, p. 678.)

domingo, 22 de abril de 2018

Miguel d' Ors

"À une passante"



Vê como é gorda e vulgar! E que saia!
De certeza que se chama Beta ou Xana
(não serás baço ao ponto de a imaginares Jénnifer).
De certeza que segue todas as novelas.
De certeza que diz tipo - e com a pastilha elástica
a assomar por entre cada parvoíce.
Cabeleireira ou caixa, muito sincera,
moderna com o seu piercing,
coscuvilheira, devota de Nossa Senhora de Fátima
e doida por "sair": todos os requisitos
da mulher com que sempre sonhaste
nos teus pesadelos mais negros.
                                                   E,
no entanto - confessa - por um instante, só
o tempo de um clarão,
algo dentro de ti sente inveja: essa
mão apoiada no seu ombro,
a mão desse namorado de bairro social,
também rasa e grosseira, habituada ao tijolo
e ao maçarico, essa mão que, apesar de tudo, tu
sabes que, à sua maneira, é o Amor.


28-IV-06


(Versão minha; poema do livro Sociedad limitada, Renacimiento, Sevilha, 2010, p. 55).

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Haydar Ergulen

Cerimónia do chá



Mais do que a outra coisa a morte parece-se
Com a cerimónia japonesa do chá,
O silêncio é parte do ouro, pureza e harmonia,
Pausadamente os convidados aproximam a morte dos seus lábios,
Um gole de vez em quando
Debaixo da luz do dia e no seu vulgar decurso
A todos calha sempre mais um trago,
Os criados entram, quebra-se a paz destes momentos
Com o movimento dos seus calcanhares brancos a caminhar.
Como um convidado invisível ou um hóspede inesperado
Regressa a esta cerimónia
O temor da morte com as suas mãos vazias,
O véu do orgulho não está estendido
E o hara-kiri silencioso da luz do dia
É bem vindo com o seu sabre.


(versão minha a partir da tradução castelhana de Jaime B. Rosa e Metin Cengiz integrada em Poesía Contemporánea de la República de Turquía, Vision Libros, Madrid, 2013, p. 70).

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Huseyín Ferad

A minha amante é uma loba da estepe (o nascimento da poesia)



A poesia é uma folha de erva
Eu sou um pastor.

O sopro da escuridão é Poesia
O inaudível grito de um morcego.

Uma estrela encostada ao meu coração
Chora quando desperta
Goteja resina oferecida pelas suas pestanas a arder.

A poesia é navegar pelos céus azuis
Eu sou um perdigão sinistro.

Impossível conhecer a cor das palavras
E a da minha língua.

A minha amante é um cisne
Cruzando o lago
Arrulha
E eu consumo-me com cio.

A poesia é a frescura do centeio
A rebeldia das formigas.

Desconheço a cor do meu rosto
A cor da minha língua.
A minha amante é uma loba da estepe.

Sou um corço
Os guarda-florestais perseguem-me
Quando ela uiva.

O sussurro da vida é poesia
O lamento da morte.



(versão minha a partir da tradução catelhana publicada em Poesía Contemporánea de la República de Turquía, tradução de Jaime B. Rosa e Metin Cengiz, Vision Libros, Madrid, 2013, pp. 61-62)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Eugenio Montejo

As árvores



Falam pouco as árvores, sabe-se.
Passam a vida inteira a meditar
e a agitar os seus ramos.
Basta observá-las no outono
quando se juntam nos parques:
só as mais velhas conversam,
as que partilham as nuvens e os pássaros,
mas a sua voz perde-se entre as folhas
e muito pouco nos chega, quase nada.

É difícil encher um pequeno livro
com reflexões de árvores.
Tudo nelas é vago, fragmentário.
Hoje, por exemplo, ao escutar o grito
de um tordo negro, já a caminho de casa,
grito final de quem não espera outro verão,
compreendi que na sua voz falava uma árvore,
uma de muitas,
mas não sei o que fazer com esse grito,
não sei como anotá-lo.



(versão minha; original incluído em La Poesía del Siglo XX en Venezuela; seleção de Rafael Arríz Lucca, Visor, Madrid, p. 208).

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Andrea di Consoli

"Pai, andamos de noite..."



Pai, andamos de noite pelo estábulo meio às escuras,
acabo de chegar de Roma,
falas pouco, está frio,
as cabras tentam compreender quem eu sou,
os coelhos assustam-se com a minha voz,
os perus incham o pescoço vermelho.
Depois a mãe chega com uma garrafa cheia de leite
e tu amamentas um cabrito
porque precisamente ontem,
tu que és um homem bom,
mataste a sua mãe para celebrar o meu regresso.



(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia, seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid, 2017, p. 779).

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Claudio Damiani

 "É uma guerra..."



É uma guerra onde não se combate,
caem bombas, e chega,
apanham-te na rua, na frutaria,
nos cinemas, nos supermercados, nos lugares de trabalho,
também em casa: entram pela janela
e explodem-te na cara.
Mesmo se construísses um bunker
cem metros debaixo da terra,
com paredes de aço, com portas de diamante,
mesmo assim as bombas haviam de te alcançar ali.
E as pessoas não vão para os os refúgios,
nem ficam em casa, nem procuram esconder-se,
na verdade fazem todas as coisas com se tudo fosse normal,
saem do trabalho vão ao bar divertem-se
como se tudo fosse normal,
como se tudo fosse como era dantes.



(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia, seleção de Emilo Coco, Visor, Madrid, 2017, p. 669).

domingo, 14 de janeiro de 2018

Margherita Guidacci

Não quero


Todos os vossos instrumentos têm nomes estranhos
e difíceis, mas eu vejo claramente
e sei que, no fundo, são só
fitas métricas e giz com os quais medis
e marcais - marcais e medis
sem vos cansardes.
Tirais alfinetes de entre os lábios, como os alfaiates:
espetais-mos na alma
e dizeis: "Aqui faremos uma bela bainha.
Assim vai ficar muito melhor."
Eu não quero que me corteis um bocado da alma!
Se tenho demasiada para entrar no vosso mundo,
pois bem, não quero entrar.
Sou uma poetisa:
uma borboleta, um ser
delicado, com asas.
Se mas arrancarem, vou retorcer-me na terra,
mas não será por isso que me converterei
numa alegre e disciplinada formiga.



(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia; seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid, 2017, p. 93)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Vivian Lamarque

"Caro doutor..."



Caro doutor
sem o seu amor
estou como na água de um dedal
um peixe do mar.



(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia; seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid,, 2017, p. 463).

sábado, 30 de dezembro de 2017

Claudio Damiani

César



César chega pela tarde e senta-se na rua.
Caminha mal porque coxeia,
tem uma pata entorpecida
porque levou uma paulada do seu dono.
Agora não tem dono,
vagueia por aqui e por ali no bairro,
creio que lhe dão de comer
porque não pede nada, senta-se ali
e fica sossegado,
tem uns olhos tão tristes
que, se os olhas, tens vontade de chorar.
Talvez tenha carraças, e assim não lhe tocamos,
mas queríamos acariciá-lo
e apertá-lo contra nós
de tão belo e bom que é,
e queríamos dizer-lhe: César,
não és o único a ter sido abandonado,
também nós o fomos, embora não pareça,
estamos assim todos nós,
e vagueamos por aqui e por ali no bairro,
e sentamo-nos no meio da rua
e quando passa um carro
levantamo-nos lentamente e afastamo-nos,
arrastando a nossa pata entorpecida,
sem protestar, sem dizer nada.



(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia, seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid, 2017, pp. 670-671).

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Giorgio Caproni

Condição



Um homem só,
fechado no seu quarto.
Com todas as suas razões.
Todos os seus erros.
Só num quarto vazio,
a falar. Aos seus mortos.



(versão minha a partir do original e da tradução castelhana publicada em La Poesía del Siglo XX en Italia, seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid, 2017, p. 43).

sábado, 23 de dezembro de 2017

Miren Agur Meabe

O código


Reivindico outro código:
um código diferente da palavra,
um idioma não verbal,
uma linguagem impossível de condenar na memória,
um dizer que desminta juramentos,
um falar mudo
sem livro de reclamações nem tabela de preços,
um fluir permanente de mensagens ambíguas,
a expressão daquilo que não se quer expressar.


(versão minha a partir da tradução castelhana apresentada em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco, Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 141).

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Harkaitz Cano

Súplicas atendidas


Deus ajuda os inconscientes.
Lamentavelmente, eles não se apercebem.


(versão minha a partir da tradução castelhana apresentada em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco, Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 249).

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Rikardo Arregi Diaz de Heredia

Fotografia de guerra



Essas bombas mataram gente. Falo de pessoas.
Prova irrefutável da fragilidade da carne,
rebentaram olhos, sangue foi derramado,
destroçaram-se fígados e demais vísceras
como se se tratasse de obra de nouvelle cuisine.

Revela-se, porém, surpreendente a integridade dos objetos:
os sapatos estão inteiros, não têm mais que pó,
e também se acham intactos os armários e as camas,
os lençóis tingidos de vermelho, quase sem rasgões,
e nem todos os vidros se partiram, só alguns,
e o espelho parece que acaba de ser comprado,
e os tapetes impecáveis, só pó, e de novo
sangue coagulado sobre a superfície de todas as coisas.

É verdade que as paredes foram deitadas abaixo
e que há um buraco no teto, por onde entrou
a bomba. O resto dos objetos potencialmente frágeis
continua de pé. Pó e sangue por todo o lado,
obviamente, não podia ser de outro modo, mas
os pedreiros poderiam reconstruir sem grande problemas
aquilo que já não podem reparar os médicos.


(versão minha a partir da tradução castelhana de Ángel Erro incluída em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco: Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 43).

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Hidra


































(Mais informações aqui e aqui).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Segunda edição


























(Mais informações aqui e aqui)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Rajatendra Mukhopadhyay

Sobre a visita ao tigre



Os tigres gostam muito de se olhar a si próprios. Vêm à margem do rio ao entardecer. As suas sombras saltam na água brilhante. Para ver o rosto do tigre temos de agarrar o tigre por trás tocando no ombro do animal e pondo o rosto do visitante ao lado dele. Mas creio que ninguém o conseguiu fazer, à excepção de Tarzan.
Existem mais ou menos três formas de nos aproximarmos, na nossa vida selvática.
São:

          1  Quando o tigre está dentro da jaula, tu estás fora (por exemplo no zoo)
          2  Quando o tigre está fora da jaula, tu estás dentro (por exemplo na reserva natural)
          3  Quando o tigre e tu estão fora (por exemplo o tigre no chão e tu no alto de uma grande árvore)

Mas nada importa a não ser o desejo de ver o tigre. Se este desejo não viajar no interior da cabeça como os cânticos místicos, não se pode tirar prazer da visita.Existe ainda uma forma de ver o tigre involuntariamente: comer 24 pães fritos de Bengala que se chamam Luchi com um prato de cordeiro com muitas especiarias que se chama Kalia.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Subhro Bandopadhyay, com adaptação de Violeta Medina, reproduzida em La pared de agua -Antología de poesía bengali contemporánea; Olifante, Saragoça, 2011, p. 223).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Desanka Maksimovic

Cobra



Sob a erva segada e seca
rastejava uma cobra.
À sua volta o prado vazio
(apenas uma flor).
Sobre ela duas, três nuvens,
o voo de um pássaro,
o sol que brilha.

Na curva da estrada, à distância,
alguém canta.
A melodia solitária emaranha-se
na erva.
Ela põe-se à escuta, atenta, a cabeça erguida
em pleno ar.
O sol brilha.

Este é o sítio onde mataram a sua mãe
com a lâmina de uma gadanha.
Ela terá a mesma sorte
quando rastejar para fora do matagal.
A sua roupagem apodrecerá
com os seus bordados
e a incandescência do orvalho.

Mesmo na eternidade
nunca mais esta cobra se aquecerá assim ao sol,
nem estes pássaros voarão assim,
nem esta flor germinará assim.
E o sol brilha.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic, incluída em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização e introdução do tradutor; Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 43).

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Manuel Martínez de Navarrete (1768-1809)

Do amor



Que é prisão e enfermidade,
dizem, o amor; eu digo
que não quero, Fábio amigo,
nem saúde nem liberdade.



(Versão minha; original reproduzido em Dos siglos de poesía mexicana - Del XIX al fin del milenio: uma antología; seleção e prólogo de Juan Domingo Argüelles, Oceano, 2001, p. 26),

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Roberto Fernández Retamar

O outro



Nós, os sobreviventes,
A quem devemos a sobrevivência?
Quem morreu por mim na masmorra,
Quem recebeu a minha bala,
A que me foi destinada, no coração?
Sobre que morto estou eu vivo,
Os seus ossos tornando-se os meus,
Os olhos que lhe arrancaram vendo
Pelo olhar da minha cara,
E a mão que não é a sua mão,
E que também não é a minha,
Escrevendo palavras apodrecidas
Onde ele não está, na vida que sobrevive?



(Versão minha; original reproduzido em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 701).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Karmelo C. Iribarren

Os dias normais



Chegam
e vão-se
sem deixar rasto,

                    e tu ficas a vê-los
a afastarem-se sobre os telhados
- e com eles, os anos -
e apenas sentes nada
ou sentes algo, vago,
que não sabes
decifrar.

                  São os dias
normais, os de sempre,
os que parece que passam
à distância,

os assassinos
do amor.



(Versão minha; original reproduzido em La piel de la vida, Baile del Sol, 2013, p. 27).

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Heberto Padilla

Às vezes é necessário


Às vezes é necessário e obrigatório
que um homem morra por um povo,
mas jamais há-de morrer todo um povo
por um só homem.

Isto não o escreveu Heberto Padilla, cubano,
mas sim Salvador Espriu, catalão.
O que acontece é que Padilla sabe-o de cor,
gosta de repeti-lo,
juntou-lhe música
e agora cantam-no em coro os seus amigos.
E cantam-no a toda a hora,
tal como Malcolm Lowry toca ukelele.



(Versão minha; original reproduzido em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Madrid, 2008, p. 721).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

James Crews

Partículas de Deus



Hoje quase consegui ouvir as suas suaves colisões
em pleno ar frio, mas quando vim para dentro,

sem as camadas de roupa e sozinho frente à lareira,
senti-as a flutuar direitas a mim como sementes

vindas da sua fonte longínqua, tendo atravessado
milhas de oceanos e campos desconhecidos de quase todos

apenas para manter o meu corpo estabilizado no seu lugar
na terra. Chamem-lhes Deus se quiserem,

a estes mensageiros que trazem sólidas provas
daquilo que em tempos fui e onde estive -

preenchendo-me com pequenas porções de poeira estelar
e pele de baleia e penas do enchimento da almofada na qual

Einstein dormiu uma vez, aconchegado na sua vivenda
de New Jersey, sonhando com coisas que, sei, eu nunca verei.



(Versão minha; original aqui)

domingo, 30 de novembro de 2014

Marco Martos

Gonzalo Rojas e Braulio Arenas



Vindo de Chillán Gonzalo Rojas chegou a Santiago
para falar com o seu amigo Braulio Arenas.
"Perdi a minha juventude nos bordéis",
disse Rojas, "perdi a minha mocidade nos clubes de xadrez",
respondeu Arenas.
- Os bordéis provocam medo e alegria também.
- Os clubes de xadrez são um pânico na vida.
- Como se pode preferir a rainha
inventada do jogo de xadrez
à mulher verdadeira do prostíbulo?
- Não sei, as duas nunca se entregam.
- Mente aquele que diga que disfruta num clube de xadrez.
- Mente aquele que refocila com a puta num bordel.
- Mente aquele que acaricia o rosto da rainha.
- Mente aquele que joga xadrez no lupanar.
- Nós somos anjos e nunca mentimos.



(Versão minha; original reproduzido em Antología - La poesía del siglo XX en Perú; seleção de José Miguel Oviedo, Visor, Madrid, 2008, p. 562).

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Wislawa Szymborska

Consolo



Darwin.
Dizem que para descansar lia romances.
Mas tinha as suas exigências:
não podiam terminar de forma triste.
Se acontecia dar com algum assim,
furioso atirava-o ao fogo.

Verdade ou não,
acredito nisto com gosto.

Percorrendo com o pensamento tantas regiões e tempos
encontrou-se com tantas espécies mortas,
com tantos triunfos dos fortes sobre os mais débeis,
com tantas tentativas de sobrevivência,
mais tarde ou mais cedo inúteis,
que ao menos da ficção
e da sua microescala
tinha o direito de esperar um final feliz.

Pelo que, necessariamente: um raio de luz entre as nuvens,
amantes de novo juntos, linhagens que se reconciliam,
dúvidas resolvidas, fidelidades premiadas,
fortunas recuperadas, tesouros encontrados,
vizinhos arrependidos dos seus rancores,
a honra recuperada, a cobiça ridicularizada,
solteironas casadas com reverendos pastores,
intriguistas desterrados para o outro hemisfério,
falsificadores de documentos lançados pelas escadas abaixo,
sedutores de donzelas a caminho do altar,
órfãos acolhidos, viúvas reconfortadas,
soberbas humilhadas, feridas fechadas,
filhos pródigos chamados à mesa,
o cálice da amargura derramado no mar,
lenços húmidos de lágrimas de perdão,
cantos e música por todos os lados;
e Fido, o cão,
perdido logo no primeiro capítulo,
que corra de novo para casa
e ladre alegremente!



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Gerardo Beltrán incluída em Dos puntos, Ediciones Igitur; prólogo de Ricardo Cano Gavíria; traduções de Abel A. Murcia Soriano e Gerardo Beltrán; Saragoça, 2007, pp. 42-44)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

May Swenson

A verdade impõe-se



Incapaz de ser honesta como pessoa
quero ser honesta na poesia.
Ao falar contigo, olhos nos olhos, minto
porque não suporto a ideia
de expor a verdade.
Dizer - tudo - seria
como tirar a roupa.
Perderia os meus bens mais preciosos:
distância, segredo, intimidade.
Ficaria exposta. E tu acabarias
por possuir-me. Seria uma rendição
total (a ti, olhos nos olhos).
Irias observar-me demasiadamente de perto.
Dar-me-ias a tua mão.
Todos os teus olhos andariam à minha volta.
Depois disso andaria vestida
com as tuas abelhas cheias, irritantes, insaciáveis.
Que sejas um ou dois ou muitos
é igual. Na verdade, sinto-me como
se um par de olhos fosse um enxame inteiro.
Por isso minto (olhos nos olhos)
deixando sem voz o coração das coisas
ou oferecendo um espantalho
no meu lugar.

Temos de ser honestos em algum sítio. Eu quero
ser honesta na poesia.
Com a palavra escrita.
Onde possa dizer e riscar
e dizer de novo e dizer em torno de
e dizer por cima de e dizer entrelinhas
e dizer com símbolos, em enigmas,
com duplo sentido, debaixo das máscaras
de qualquer rosto, na pele
de todas as criaturas.
E na minha própria pele, nua.
Sinto-me feliz e desejo ficar de facto nua
ternamente na poesia,
impor a verdade
no poema
que, quando é escrito, se for real
e não um espantalho, diz-me
e depois diz-te (tudo ou nada, olhos nos olhos)
o meu ser inteiro,
a verdade.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Jeannette L. Clariond incluída em La escuela de Wallace Stevens - Un perfil de la poesía estadounidense contemporánea; organização de Harold Bloom, Vaso Roto, Madrid, 2011, pp. 154-157).

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ishigaki Rin

Amêijoas



A meio da noite abri os olhos.
Tinha comprado amêijoas à tarde
e num canto da cozinha ali estavam
de bocas abertas e bem vivas.

"Quando vier o dia
vou comê-las
uma a uma".

Soltei uma gargalhada
de bruxa velha.
E mais nada: dormi
de boca semiaberta
toda a noite.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Aurelio Asiain reproduzida em Para otras mil generaciones más... Antología poética japonesa desde el Kojiki a nuestros días; organização, prólogo e apresesntação dos autores de Fernando Cid Lucas, Amargord Ediciones, Madrid, 2013, p. 101).