quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Heberto Padilla

Às vezes é necessário


Às vezes é necessário e obrigatório
que um homem morra por um povo,
mas jamais há-de morrer todo um povo
por um só homem.

Isto não o escreveu Heberto Padilla, cubano,
mas sim Salvador Espriu, catalão.
O que acontece é que Padilla sabe-o de cor,
gosta de repeti-lo,
juntou-lhe música
e agora cantam-no em coro os seus amigos.
E cantam-no a toda a hora,
tal como Malcolm Lowry toca ukelele.



(Versão minha; original reproduzido em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Madrid, 2008, p. 721).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

James Crews

Partículas de Deus



Hoje quase consegui ouvir as suas suaves colisões
em pleno ar frio, mas quando vim para dentro,

sem as camadas de roupa e sozinho frente à lareira,
senti-as a flutuar direitas a mim como sementes

vindas da sua fonte longínqua, tendo atravessado
milhas de oceanos e campos desconhecidos de quase todos

apenas para manter o meu corpo estabilizado no seu lugar
na terra. Chamem-lhes Deus se quiserem,

a estes mensageiros que trazem sólidas provas
daquilo que em tempos fui e onde estive -

preenchendo-me com pequenas porções de poeira estelar
e pele de baleia e penas do enchimento da almofada na qual

Einstein dormiu uma vez, aconchegado na sua vivenda
de New Jersey, sonhando com coisas que, sei, eu nunca verei.



(Versão minha; original aqui)

domingo, 30 de novembro de 2014

Marco Martos

Gonzalo Rojas e Braulio Arenas



Vindo de Chillán Gonzalo Rojas chegou a Santiago
para falar com o seu amigo Braulio Arenas.
"Perdi a minha juventude nos bordéis",
disse Rojas, "perdi a minha mocidade nos clubes de xadrez",
respondeu Arenas.
- Os bordéis provocam medo e alegria também.
- Os clubes de xadrez são um pânico na vida.
- Como se pode preferir a rainha
inventada do jogo de xadrez
à mulher verdadeira do prostíbulo?
- Não sei, as duas nunca se entregam.
- Mente aquele que diga que disfruta num clube de xadrez.
- Mente aquele que refocila com a puta num bordel.
- Mente aquele que acaricia o rosto da rainha.
- Mente aquele que joga xadrez no lupanar.
- Nós somos anjos e nunca mentimos.



(Versão minha; original reproduzido em Antología - La poesía del siglo XX en Perú; seleção de José Miguel Oviedo, Visor, Madrid, 2008, p. 562).

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Wislawa Szymborska

Consolo



Darwin.
Dizem que para descansar lia romances.
Mas tinha as suas exigências:
não podiam terminar de forma triste.
Se acontecia dar com algum assim,
furioso atirava-o ao fogo.

Verdade ou não,
acredito nisto com gosto.

Percorrendo com o pensamento tantas regiões e tempos
encontrou-se com tantas espécies mortas,
com tantos triunfos dos fortes sobre os mais débeis,
com tantas tentativas de sobrevivência,
mais tarde ou mais cedo inúteis,
que ao menos da ficção
e da sua microescala
tinha o direito de esperar um final feliz.

Pelo que, necessariamente: um raio de luz entre as nuvens,
amantes de novo juntos, linhagens que se reconciliam,
dúvidas resolvidas, fidelidades premiadas,
fortunas recuperadas, tesouros encontrados,
vizinhos arrependidos dos seus rancores,
a honra recuperada, a cobiça ridicularizada,
solteironas casadas com reverendos pastores,
intriguistas desterrados para o outro hemisfério,
falsificadores de documentos lançados pelas escadas abaixo,
sedutores de donzelas a caminho do altar,
órfãos acolhidos, viúvas reconfortadas,
soberbas humilhadas, feridas fechadas,
filhos pródigos chamados à mesa,
o cálice da amargura derramado no mar,
lenços húmidos de lágrimas de perdão,
cantos e música por todos os lados;
e Fido, o cão,
perdido logo no primeiro capítulo,
que corra de novo para casa
e ladre alegremente!



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Gerardo Beltrán incluída em Dos puntos, Ediciones Igitur; prólogo de Ricardo Cano Gavíria; traduções de Abel A. Murcia Soriano e Gerardo Beltrán; Saragoça, 2007, pp. 42-44)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

May Swenson

A verdade impõe-se



Incapaz de ser honesta como pessoa
quero ser honesta na poesia.
Ao falar contigo, olhos nos olhos, minto
porque não suporto a ideia
de expor a verdade.
Dizer - tudo - seria
como tirar a roupa.
Perderia os meus bens mais preciosos:
distância, segredo, intimidade.
Ficaria exposta. E tu acabarias
por possuir-me. Seria uma rendição
total (a ti, olhos nos olhos).
Irias observar-me demasiadamente de perto.
Dar-me-ias a tua mão.
Todos os teus olhos andariam à minha volta.
Depois disso andaria vestida
com as tuas abelhas cheias, irritantes, insaciáveis.
Que sejas um ou dois ou muitos
é igual. Na verdade, sinto-me como
se um par de olhos fosse um enxame inteiro.
Por isso minto (olhos nos olhos)
deixando sem voz o coração das coisas
ou oferecendo um espantalho
no meu lugar.

Temos de ser honestos em algum sítio. Eu quero
ser honesta na poesia.
Com a palavra escrita.
Onde possa dizer e riscar
e dizer de novo e dizer em torno de
e dizer por cima de e dizer entrelinhas
e dizer com símbolos, em enigmas,
com duplo sentido, debaixo das máscaras
de qualquer rosto, na pele
de todas as criaturas.
E na minha própria pele, nua.
Sinto-me feliz e desejo ficar de facto nua
ternamente na poesia,
impor a verdade
no poema
que, quando é escrito, se for real
e não um espantalho, diz-me
e depois diz-te (tudo ou nada, olhos nos olhos)
o meu ser inteiro,
a verdade.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Jeannette L. Clariond incluída em La escuela de Wallace Stevens - Un perfil de la poesía estadounidense contemporánea; organização de Harold Bloom, Vaso Roto, Madrid, 2011, pp. 154-157).

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ishigaki Rin

Amêijoas



A meio da noite abri os olhos.
Tinha comprado amêijoas à tarde
e num canto da cozinha ali estavam
de bocas abertas e bem vivas.

"Quando vier o dia
vou comê-las
uma a uma".

Soltei uma gargalhada
de bruxa velha.
E mais nada: dormi
de boca semiaberta
toda a noite.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Aurelio Asiain reproduzida em Para otras mil generaciones más... Antología poética japonesa desde el Kojiki a nuestros días; organização, prólogo e apresesntação dos autores de Fernando Cid Lucas, Amargord Ediciones, Madrid, 2013, p. 101).

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ooka Makoto

Canção da chama



Os que me tocam
dão um grito, aterrados.
Ignoro, no entanto,
se sou quente ou fria,
pois não estou um segundo em nenhum sítio,
nem é nada o que fui há um instante.
O meu modo de partir é o incêndio.
Luto contra o escuro,
mas não chego a lado nenhum:
só regresso ao obscuro.

Temem-me sempre porque,
por alguma razão desconhecida,
procuro o papel, a madeira e a carne,
roço-me por eles, acaricio-os, vou comendo-os
e eu mesma
pereço nas suas cinzas.
Sim, sou desprendida até à medula.
Os que me tocam dão um grito:
sei que para os homens
o meu amor é um escândalo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Aurelio Asiain reproduzida em Para otras mil generaciones más... Antología poética japonesa desde el Kojiki a nuestros días; organização, prólogo e apresentação dos autores de Fernando Cid Lucas; Amargord Ediciones, Madrid, 2013, pp. 109-110).

sábado, 4 de outubro de 2014

Joaquín Morales

Boas maneiras



Não fales com a boca cheia
de palavras.



(Versão minha; original incluído em La poesía del siglo XX en Paraguay; organização de Mar Langa; Visor, Madrid, 2014, p. 583).

domingo, 28 de setembro de 2014

Marco Antonio Campos

Os poetas modernos



E o que ficou das experimentações,
da "grande estreia da modernidade",
do "confronto com a página em branco",
da pirueta rítmica e do
contra-ângulo da palavra,
de ultraístas e pássaros concretos,
de surrealizantes com sonhos de
náufrago em vez de terra firme,
quantos versos te revelaram um mundo,
quantos versos ficaram no teu coração,
diz-me, quantos versos ficaram no teu coração.



(Versão minha; original incluído em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana GAllego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 888).

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Jacobo Rauskin

A pastagem



Há poucas árvores,
a floresta foi vendida para o Brasil,
os macacos foram para Marselha
e os papagaios para Nápoles.
Resta-nos a pastagem
à direita e à esquerda
da utopia rodoviária sem valetas.
E resta-nos a chuva.
Ela, desde Noé, é nossa.



(Versão minha; original incluído em La poesía del siglo XX en Paraguay; organização de Mar Langa, Visor, Madrid, 2014, p. 428).

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

José Emilio Pacheco

Crítica da poesia



Eis aqui a chuva igual e as suas ervas daninhas
O sal, o mar desfeito...
Apaga-se o anterior e logo se escreve:
Este mar convexo, os seus enraízados
e migratórios costumes,
já serviu algumas vezes para se fazer mil poemas.
(A cadela infecta, a sarnosa poesia,
variedade risível da neurose,
preço que alguns homens pagam
por não saber viver.
A doce, eterna, luminosa poesia.)

Talvez não seja agora o momento:
a nossa época
deixou-nos a falar sozinhos.



(Versão minha; original reproduzido em Juegos de manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX: organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 838).

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Wislawa Szymborska

Correntes



Um dia sufocante, a casota de um cão e o cão acorrentado.
Uns passos mais à frente um pequeno bebedouro cheio de água.
Porém a corrente é demasiado curta e o cão não chega lá.
Acrescentemos à imagem mais um detalhe:
as nossas muito mais compridas
e menos visíveis correntes
graças às quais podemos passar tranquilamente ao largo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Abel A. Murcia Soriano e Gerardo Beltrán reproduzida em Hasta aquí, Bartleby Editores, Madrid, 2014, p. 21).

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Julia Hartwig

O manuscrito



Na casa onde nasceu Beethoven
pode ver-se, exposto numa vitrine, um texto do compositor escrito à mão
cheio de rasuras e correções.
É a carta em que pede a um poderoso príncipe que aceite
a sinfonia que acaba de concluir.
Nenhuma composição deste génio
mostra no papel marcas de um esforço idêntico ao que transparece nesta carta,
dirigida ao soberano de um pequeno Estado de que hoje já ninguém se lembra.


(Bona, junho de 2000)



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Antonio Benítez Burraco e Anna Sobieska, reproduzida em Dualidad - Antología poética, Vaso Roto Ediciones, Madrid, 2013, p. 65).

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Heberto Padilla

Poética



Diz a verdade.
Diz, ao menos, a tua verdade.
E depois
deixa que aconteça qualquer coisa:
que te rasguem a página amada,
que te derrubem a porta à pedrada,
que as gentes
se amontoem diante do teu corpo
como se fosses
um prodígio ou um morto.



(Versão minha; poema incluído em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 720).

domingo, 31 de agosto de 2014

Roberto Fernández Retamar

Aqui



Aqui viveu Brecht.
Aqui está a máscara do mal
Sobre a qual fez aquele poema.
Aqui está o aquecedor que lhe deu calor.
Aqui estão os livros de Lenine intensamente anotados.
E os livros proíbidos.
Aqui está a mesa onde escrevia
E a partir da qual olhava o cemitério
Em que iria ser enterrado.
Aqui está a pintura chinesa do homem que duvida
Coroando o seu quarto de dormir.
Aqui recebia os amigos.
Aqui pensava.
Aqui discutia.
Aqui sorria.
Aqui projectava coisas melhores.
Aqui algures
Está a mensagem que me deixou
E que eu procuro e volto a procurar sem encontrar.
Ou talvez já a tenha recebido.
Aqui viveu Brecht.



(Versão minha; Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 709).

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Tracy K. Smith

A vida boa



Quando algumas pessoas falam de dinheiro
Fazem-no como se este fosse um amante misterioso
Que saiu para comprar leite e nunca mais
Voltou, e isso torna-me nostálgica
Daqueles anos em que vivi de pão e café,
Sempre esfomeada, indo para o trabalho em dia de receber
Como uma mulher que vai à procura de água
A partir de uma aldeia sem poço, vivendo então
Uma ou duas noites como toda a gente
De frango assado e vinho tinto.



(Versão minha; original aqui).

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Roberto Fernández Retamar

Direito e dever de escrever sobre tudo



Absurda a ideia de que só podes escrever sobre o que te aconteceu
(O pouco, o ínfimo que aconteceu a esse corpo, a essa vida medida nas suas datas),
Como se tudo não te tivesse acontecido, como se
Houvesse uma tarde que não tivesse nascido para ti,
Como se todos os impérios, batidos pelos ventos dos desertos, devorados pelas selvas,
Não tivessem conduzido a ti,
Como se o mais longínquo astro, extraviado até ao limite do universo,
E também os astros que hoje já não existem,
E as nebulosas pensativas,
Não tivessem trabalhado, sabendo-o ou sem o saberem,
Para ti, para este instante, para este poema
Que se escreve graças ao alento exalado por Miranda ou Xenofonte
Com restos que sobraram de Cassiopeia.



(versão minha; original incluído em Juegos de Manos (Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX); organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 702)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A não perder: Wislawa Szymborska hoje à noite na RTP 2






















"(...) A aproximação de Szymborska a essa célebre fotografia do homem que sabemos real e que se atira para o vazio, para escapar à morte pelo fogo que destruiu as Torres do World Trade Center, consiste explicitamente em descrever o voo (essa queda) e em escolher o silêncio perante o horror. Ou seja, em tomar a palavra e, em sentido inverso, optar também pela sua rasura final. Talvez este poema seja mesmo um dos exemplos mais poderosos da determinação ética e poética da autora polaca. Aqui, descrever é mais do que uma acção ecfrástica. É a afirmação de uma recusa de uma abordagem complacente ou sentimentalizante dominada pelo pathos. E é uma forma de sondar a realidade, mesmo que esta se apresente dominada pelo horror e pela morte. Neste sentido, contrariando radicalmente o ofensivo lugar-comum da imagem que vale por mil palavras (que implica a diminuição destas frente à suposta força daquela), Szymborska assume, sem levantar a voz, o imperativo de potenciar o valor insubstituível da linguagem verbal, fazendo de cada palavra uma palavra necessária. Não se trata, portanto, de embelezar ou de desfigurar o mundo. Trata-se, isso sim, de mostrá-lo por meio de imagens verbais que permitam a revelação de pequenos traços de humanidade, traços que afirmem a veemência da vida mesmo se ela é, ou sobretudo porque é, frágil e sublime nessa fragilidade.(...)

(Luís Filipe Parrado: excerto do parágrafo final da recensão publicada no número 4 da revista Cão Celeste da antologia Um Passo da Arte Eterna, de Wislawa Szymborska, organizada e traduzida por Teresa Fernandes Swiatkiewicz e editada pela Esfera do Caos em 2013).

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Roger Wolfe

Uma foto do poeta aqui:




















E a tradução de um poema aqui.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Piolho nº 12



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Quarto de Hóspedes



("Lista de hóspedes" aqui)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cão Celeste nº 4




No quarto número do Cão Celeste
com direcção de Inês Dias/Manuel de Freitas 
e coordenação gráfica de Luís Henriques, 
colaboram Abel Neves, Alberto Pimenta, Alexandre Sarrazola, Ana Menezes, 
Ana Isabel Soares, André Lemos, Bárbara Assis Pacheco, Cláudia Dias, 
Daniela Gomes, Diniz Conefrey, Fabiano Calixto, Gavarni/Estúdios & etc, 
Inês Dias, Isabel Baraona, Isabel Nogueira, Joana Matos Frias, Jorge Roque, 
José Ángel Cilleruelo, José Miguel Silva, Luís Filipe Parrado, Luís França, 
Luís Henriques, Manuel de Freitas, Manuel Diogo, Maria João Worm, 
Maria da Conceição Caleiro, Paulo da Costa Domingos, Rosa Maria Martelo, 
Ricardo Castro e Rui Nunes.




domingo, 10 de novembro de 2013

Ricardo Castro Ferreira



 
Oblivion (Carvão sobre papel, 2013)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mary Oliver

Tolice? Não, não é



Às vezes passo um dia inteiro a tentar contar as folhas de uma única árvore. Para o fazer tenho de trepar ramo após ramo e de tomar nota dos números num pequeno caderno. Pelo que, do ponto de vista deles, suponho que seja razoável que os meus amigos digam: que tolice! Lá está ela de novo com a cabeça nas nuvens.

Mas não é assim. Claro que há um momento em que tenho de desistir, mas nessa altura já eu estou meio enlouquecida com tal milagre - a abundância das folhas, a quietude dos ramos, o fracasso dos meus intentos. É quando dou por mim a rugir às gargalhadas, cheia de glória terrestre, neste lugar importante e delicioso.



(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 5).

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Mary Oliver

O jornal da manhã



Dedica-te à leitura de um jornal diário (a edição da manhã
          é a melhor
porque à noite ficas pelo menos com a certeza
          de que viveste mais um dia)
e deixa que os desastres, as inacreditáveis
          e no entanto aprovadas decisões,
se infiltrem.

Não preciso de nomear os países,
          o nosso entre eles.

O que nos impede de tombar, os nossos rostos
          por terra; cheios de vergonha, de vergonha?



(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 63).

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mary Oliver

O homem que tem muitas respostas



O homem que tem muitas respostas
é muitas vezes encontrado
nos teatros da informação
a oferecer, amavelmente,
as suas muito profundas descobertas.

Enquanto que o homem que só tem perguntas,
para se confortar a si mesmo, faz música.




(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 69)

Mary Oliver

Tomei a decisão



Tomei a decisão de arranjar uma casa para me instalar algures nas montanhas, lá em cima, onde se pode aprender a viver em paz no meio do frio e do silêncio. Diz-se que num sítio desses certas revelações podem acontecer. Que aquilo que o espírito procura pode eventualmente ser sentido, se não exactamente compreendido. Sem pressas, sem dúvida. E não falo de lazer.
 
Claro que ao mesmo tempo tenciono ficar exactamente onde estou.
 
Estão a ver aonde quero chegar?
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 45).