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sábado, 19 de janeiro de 2013

Lisel Muller

Literatura americana



Poetas e escritores
movem-se para o interior do vazio
que Edward Hopper lhes deixou.
Instalam-se em espaços desprovidos
onde a luz foi purgada e descolorida até se tornar
numa espécie de branco-crânio, onde nada
cresce senão a ausência. Onde falta alguma coisa,
o homem pelo qual espera uma mulher,
ou a mobília num quarto
nu como uma cama de hospital
depois do doente ter morrido.
Estes interiores desolados
são aquilo que eles têm procurado,
os escritores, chegando aqui com a sua bagagem
feita de varas de vedores, os seus livros com badanas,
as suas difíceis fotografias de família,
as suas camas granulosas e a sua inclinação
para começar fogos em quartos vazios.



(Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 31).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Lisel Mueller

Famílias felizes e famílias infelizes I



Se todas as famílias felizes são iguais,
também o são todas as famílias infelizes,
cujas vidas celebramos
porque estão cheias de movimento e ardor,
porque elas são aquilo que pensamos que a vida é.
Alguém mente e alguém está a ser
vítima de mentira. Alguém é agredido
e alguém é o sujeito da agressão.
Alguém reza, ou chora
porque não sabe como rezar.
Alguém bebe durante a noite;
alguém se encolhe nos cantos;
alguém ameaça e alguém suplica.
Palavras azedas à mesa,
soluços amargos no quarto;
represálias surdas no espelho da casa de banho.
A casa estala com segredos;
todos preparam o seu plano de fuga.
Alguém se desmorona sem produzir um som.
Às vezes, alguém sai de casa
numa maca, num silêncio terrível.
Quanta energia gasta em sofrimento!
É como um fogo que arde sem parar
mas não consegue arder até ao ponto da sua extinção.
As famílias infelizes nunca são indolentes;
estão sempre em acção,
ao contrário das outras, as felizes,
aquelas em que nunca se levanta a voz
ou se cospe sangue, aquelas que nunca
fizeram nada para merecer a felicidade que têm.



(Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems; Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 34).

domingo, 14 de outubro de 2012

Lisel Mueller

A história



Contas uma história:
Como o Fogo faz da Água a sua mulher

É sempre assim, dizes tu,
os opostos atraem-se

Desejam penetrar um no outro,
ser um,
assim ele queima-a com todas as forças
e ela procura afogá-lo

É o chamado amor à primeira vista
e não dói

mas passado algum tempo ela chora
e diz que ele está a destruí-la,
ele grita que não consegue respirar
debaixo de água -

Agora criem vós o vosso próprio
fim, dizes tu às crianças,
e elas assim farão, assim farão



(Versão minha a partir do original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 145).

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Lisel Mueller

Triagem



Bertolt Brecht lamentava ter vivido numa época em que era quase um crime falar de árvores, porque isso significava ficar calado em relação a tanto mal existente. Caminhando numa zona cheia de olmos enormes, ainda saudáveis, junto ao lago de Chicago, penso no que Brecht disse. Eu quero celebrar estes olmos poupados às pragas, estes sobreviventes de uma tribo outrora florescente e comemorada por todas as Elm Streets* da América. Mas celebrá-los significa ficar em silêncio em relação às pessoas que se sentaram e dormiram debaixo deles, aos pobres sem-abrigo que foram arrastados para fora da cidade como lixo, com a diferença de que não havia sítio para os despejar. Pois falar de uma coisa implica omitir outra. Quando falo de mim própria não posso falar de ti. E tu apercebes-te disso enquanto me escutas, a desilusão estampada no rosto.
 
 
 
(*Rua(s) dos Olmos. Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 127).

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Lisel Mueller

Pombos



Como qualquer outro reino
o reino dos pássaros
também tem a sua multidão de pobres,
esses pobres públicos e urbanos
cujos excrementos branqueiam
telhas e calçadas,

que picam e picam
(mas raramente escolhem)
o que os seus bicos encontram:
os detritos diários
das ricas cidades italianas
ou aqui, em redor do edifício da Câmara -
sempre pelos passeios
ofendendo as pessoas enojadas
que se dirigem a um qualquer lugar.

Ninguém se lembra de como é que isto aconteceu,
o seu declínio, o voo
quase abandonado,
esses murmúrios queixosos,
as colheitas nos baldes dos lixos.
Em tempos foram elegantes e despreocupados;
chamavam uns pelos outros com as suas vozes ricas e profundas
e nós tratávamo-los como aves nobres e delicadas
e acolhíamo-los nos nossos jardins.



(Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 23. Com esta versão assinalo os quatro anos de existência deste blogue, que hoje se comemoram).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Lisel Mueller

Às vezes, quando a luz



Às vezes, quando a luz cria ângulos inesperados
e te empurra de novo para a infância

e tu passas perto de uma mansão decadente
escondida por completo por salgueiros centenários

ou junto de um convento abandonado e guardado por abetos
e uma linha de pinheiros gigantes alinhados

percebes mais uma vez que por trás desse muro,
debaixo da crespa cabeleira dos salgueiros,

continua a existir um segredo
tão maravilhoso e perigoso

que se rastejares e o descobrires
podes morrer, ou então ser feliz para todo o sempre.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Lisel Mueller

O amor como sal



Jaz nas nossas mãos na forma de cristais
demasiado intrincados para a decifração

Vai para dentro da caçarola
sem ter havido um segundo pensamento

Espalha-se tão finamente no chão
que o levamos nos pés para todo o lado

Carregamos uma pitada por detrás de cada globo ocular

Rebenta nas nossas frontes

Acumulamo-lo dentro dos nossos corpos
em odres secretos

Na sopa passamo-lo em volta da mesa
enquanto falamos de férias e do mar.



(versão minha)

segunda-feira, 31 de março de 2008

Lisel Mueller

Em Novembro



No interior da casa o vento uiva
e as árvores rangem de forma horrível.
Esta é uma velha história
com o seu velho começo,
enquanto me deito para adormecer.
Mas, quando acordo, a luz do sol
tomou conta de todo o quarto.
Tu já preparaste o café
e o rádio traz-nos música
vinda de uma época confiante. No jornal
as más notícias acontecem em lugares longínquos.
Fosse o que fosse que estivesse para acontecer
na minha história não aconteceu.
Mas sei que há regras que não podem ser quebradas.
Talvez um nome tenha mudado.
Um pequeno erro. Talvez
uma mulher que eu não conheço
enfrente agora o dia com o coração pesado
que, segundo todas as leis, deveria ser o meu.



(versão minha)