terça-feira, 27 de agosto de 2019

Joseba Sarrionandia

O escravo ferreiro

                              Imitando os poetas latinos



Subjugado nas selvas do ocidente,
               acorrentado trouxeram-te para Roma, escravo.
Ensinaram-te o ofício de ferreiro
               e fazes correntes obedientemente.
O ferro em brasa que retiras do forno
               poderias moldá-lo como quisesses.
Poderias fabricar enxadas, ou espadas,
               para se poder quebrar as correntes.
Mas tu, escravo, fazes correntes,
               mais correntes.



(Versão minha a partir da tradução do autor; poema incluído em La poesía está muerta?; edição bilingue basco/espanhol; selecção de Eva Linazasoro, Pamiela, Arre, 2016, p. 83).

sábado, 24 de agosto de 2019

Aurora Luque

Data de validade



Em trajes de junho
a vida mostrava-se quase dócil
entre toalhas verdes e amarelas,
a licra luminosa partilhando
fronteiras com a pele. O odor a mar sereno
e a preguiça cúmplice
de ondas e banhistas, um convite para nos afundarmos
nessas lantejoulas brilhantes da água
ou nas selvas pintadas nos fatos de banho,
para desfazermos o véu finíssimo do sal
duns ombros próximos
e adiarmos a noite e a sua aventura.
Parecia a vida um puro litoral
mas uma sombra avançou:
ao apagar com saliva o sal da manhã
pude ver a inscrição junto à omoplata:
FRUTA PERECÍVEL. Consumir
de preferência agora. O produto altera-se facilmente,
antes dos desejos. Não se admitem
reclamações.



(Versão minha; poema incluído em Fugitivos. Antología de la poesía española contemporánea, seleção e prólogo de Jesús Aguado, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 2016, p. 72.)