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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Wendell Berry

A cobra



No fim de Outubro
encontrei no chão do bosque
uma pequena cobra cujo dorso
estava camuflado na negrura
das folhas mortas entre as quais se estendia.
O seu corpo engrossara com um rato
ou um pequeno pássaro. Estava fria,
tão entorpecida com a sua barriga cheia
e o ar outonal que nem se
dava ao trabalho de revoltear a língua.
Segurei-a durante muito tempo, pensando
na perfeição dos desenhos
negros no seu dorso, na morte
que a inchava, no seu frio bem vivo.
Agora esse frio permanece
na minha mão, e eu penso nela
deitada debaixo do gelo,
enorme com a morte a nutri-la
durante um longo sono.



(versão minha; original reproduzido em The generation of 2000 - contemporary american poets, prefácio e organização de William Heyer, Ontario Rewiew Press, Nova Iorque, 1984, p 16).

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Wendell Berry

A paz das coisas bravias 


Quando o desespero do mundo cresce em mim 
e acordo na noite ao mínimo som 
com medo do que a minha vida 
e a dos meus filhos possam vir a ser,
avanço e deito-me ao pé da água onde o pato dos bosques 
aconchega a sua beleza e a garça real se alimenta. 
Entro na paz das coisas bravias 
que não impõem tributos às suas existências preparando-se 
para a dor. Fico na presença da água serena. 
E sinto, acima de mim, as estrelas cegas de dia
 aguardando com a sua luz. Por um instante 
participo da graça do mundo, e sou livre. 



  (versão minha; original aqui)