segunda-feira, 26 de julho de 2021

Huang O (1498-1569)

 Para a melodia "A queda de um pequeno ganso selvagem"



Noutros tempos eu era jovem e sedutora
E bamboleava-me por aqui
E por ali no nosso quarto perfumado
Com orquídeas. Tu e eu juntos
E embrenhados atrás das cortinas de
Gaze da nossa cama impregnada
De incenso. Estremeci nos teus braços.
Levavas-me no teu coração
Por onde quer que andasses. De súbito
Uma bala derrubou a fêmea
Do pato-mandarim. A música da
Cítara de jade foi esquecida.
As fénix tiveram de separar-se.

Estou só na minha casa
Repleta de primavera e
Tu estás longe, a fazer amor
Com outra, ambos felizes
Como dois peixes na água.
Aquela vaquinha insuportável
Com as suas artimanhas de coquete!
O melhor é que não se esqueça de que
Esta puta velha ainda é muito capaz
De lhe fazer uma bela cena, bem furiosa.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Carlos Manzano da tradução inglesa de Kenneth Rexroth e Ling Chung, incluída em El barco de orquídeas - Poetisas de China; Gadir, Madrid, 2007, pp. 73-74).

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Paul Morand

Recordação de Ístria



Sou um estrangeiro no meu país;
o meu país é estrangeiro para os outros países;
sou estrangeiro para os dois estrangeiros
que vivem dentro de mim como numa casa alugada.
Olha este mar e estes estaleiros;
azul e negro é uma harmonia
que os Persas, dizem, não desdenharam.

Aqui existia a reserva das feras do Circo Hagenbeck.
Todos os animais nascidos após
o domínio italiano parecem doentes.
Menos os macacos:
têm os olhos de quem já leu tudo,
nos seus ventres de tordilho
há um pirulito rosado
que faz rir as esposas dos armadores que apanham enguias.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Marie-Christine del Castillo, incluída em Oda a Marcel Proust y otros poemas; Renacimiento, Sevilha, 2007, p. 121).

sábado, 17 de julho de 2021

Francisco Villaespesa (1887 - 1936)

 Humildade



Mostra um pouco de amor pelas coisas:
pelo musgo que acalma a tua fadiga,
pela fonte que a tua sede mitiga,
pelas pedras e pelas rosas.
Em tudo encontrarás uma beleza
virginal, um prazer desconhecido...
Acerta o ritmo do batimento
do teu coração com o coração da Natureza.
Recebe como um santo sacramento
o perfume e a luz que te dá o vento...
Quem sabe se o seu amor nele te envia
aquela que a vida transformou...!
E sê humilde, e lembra-te que um dia
te há-de cobrir a terra que pisaste!



(Versão minha; original incluído em Nuestra poesía en el tiempo (Una antología); selecção e prólogo de Antonio Colinas; Siruela, Madrid, 2009, p. 381).

terça-feira, 13 de julho de 2021

Ernesto Mejía Sánchez

 Vita arsque poetica



Baptizo as palavras,
ponho nomes aos nomes. Digo
a noite e o significado é uma
pomba. Imagino o leopardo
e os teus olhos choram. Sofro a luz,
o dia, e ganho a impureza.
Desenho mais um rosto, Deus
meu!, sobre o teu. Escrever
um poema é como recordar
o futuro. É conceber um filho
no túmulo. Gravo o teu nome
e confunde-se com o meu.
Que pai repentino sou
nesse mesmo instante. Que
deus sobre este muro ando
a macular desde que nasço.
Este é o meu testamento, o meu
baptismo, à tua imagem e semelhança.



(Versão minha; poema incluído em Nuestra poesía en el tiempo (Una antología); selecção e prólogo de Antonio Colinas; Siruela,Madrid, 2009, pp. 498-499).

sábado, 10 de julho de 2021

Paul Morand

 [Para que tantas coisas más]



Para que tantas coisas más,
que ainda persistem, fossem destruídas,
era preciso devastar 
tantas coisas boas que nunca mais existirão?



(Versão minha, a partir da tradução castelhana de Marie-Christine del Castillo incluída em Oda a Marcel Proust y otros poemas; Renacimiento, Sevilha, 2007, p. 38).

terça-feira, 6 de julho de 2021

Gerry Murphy

 Canibal



A primeira vez 
que provei carne humana
tinha dez anos.
Deu-se durante uma discussão
com o meu irmão mais velho, de doze anos,
quando ele rebaixou
os meus adorados Beatles,
dizendo que eram exageradamente valorizados
e só para cretinos.
Perdi a cabeça,
fui-me a ele
e arranquei-lhe um pedaço considerável
de carne do ombro,
parte do qual
- cartilagem muito provavelmente -
ficou presa entre os dentes.
Seguiram-se uivos e rangidos
até que a minha mãe interveio.
Ficou tão chocada
com aquilo que eu acabara de fazer
que se esqueceu de me bater
e mandou-me directamente para a cama
sem jantar.
Mas, dah!, eu já tinha comido.



(Versão minha; original incluído em My life as a stalinist; Southword editions; Cork, 2018, p.17).