segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Piolho nº 12



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Quarto de Hóspedes



("Lista de hóspedes" aqui)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cão Celeste nº 4




No quarto número do Cão Celeste
com direcção de Inês Dias/Manuel de Freitas 
e coordenação gráfica de Luís Henriques, 
colaboram Abel Neves, Alberto Pimenta, Alexandre Sarrazola, Ana Menezes, 
Ana Isabel Soares, André Lemos, Bárbara Assis Pacheco, Cláudia Dias, 
Daniela Gomes, Diniz Conefrey, Fabiano Calixto, Gavarni/Estúdios & etc, 
Inês Dias, Isabel Baraona, Isabel Nogueira, Joana Matos Frias, Jorge Roque, 
José Ángel Cilleruelo, José Miguel Silva, Luís Filipe Parrado, Luís França, 
Luís Henriques, Manuel de Freitas, Manuel Diogo, Maria João Worm, 
Maria da Conceição Caleiro, Paulo da Costa Domingos, Rosa Maria Martelo, 
Ricardo Castro e Rui Nunes.




domingo, 10 de novembro de 2013

Ricardo Castro Ferreira



 
Oblivion (Carvão sobre papel, 2013)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mary Oliver

Tolice? Não, não é



Às vezes passo um dia inteiro a tentar contar as folhas de uma única árvore. Para o fazer tenho de trepar ramo após ramo e de tomar nota dos números num pequeno caderno. Pelo que, do ponto de vista deles, suponho que seja razoável que os meus amigos digam: que tolice! Lá está ela de novo com a cabeça nas nuvens.

Mas não é assim. Claro que há um momento em que tenho de desistir, mas nessa altura já eu estou meio enlouquecida com tal milagre - a abundância das folhas, a quietude dos ramos, o fracasso dos meus intentos. É quando dou por mim a rugir às gargalhadas, cheia de glória terrestre, neste lugar importante e delicioso.



(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 5).

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Mary Oliver

O jornal da manhã



Dedica-te à leitura de um jornal diário (a edição da manhã
          é a melhor
porque à noite ficas pelo menos com a certeza
          de que viveste mais um dia)
e deixa que os desastres, as inacreditáveis
          e no entanto aprovadas decisões,
se infiltrem.

Não preciso de nomear os países,
          o nosso entre eles.

O que nos impede de tombar, os nossos rostos
          por terra; cheios de vergonha, de vergonha?



(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 63).

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mary Oliver

O homem que tem muitas respostas



O homem que tem muitas respostas
é muitas vezes encontrado
nos teatros da informação
a oferecer, amavelmente,
as suas muito profundas descobertas.

Enquanto que o homem que só tem perguntas,
para se confortar a si mesmo, faz música.




(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 69)

Mary Oliver

Tomei a decisão



Tomei a decisão de arranjar uma casa para me instalar algures nas montanhas, lá em cima, onde se pode aprender a viver em paz no meio do frio e do silêncio. Diz-se que num sítio desses certas revelações podem acontecer. Que aquilo que o espírito procura pode eventualmente ser sentido, se não exactamente compreendido. Sem pressas, sem dúvida. E não falo de lazer.
 
Claro que ao mesmo tempo tenciono ficar exactamente onde estou.
 
Estão a ver aonde quero chegar?
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 45).
  

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Antón García

O nada e tu

(Pavese no Hotel Roma,
26 de agosto de 1950)

A Pablo Antón Marín Estrada
 
 
Quando por ti vier a morte
chegará pela tua mão, cega
virá, conduzindo os seus passos
uma dor antiga e ténue.
Será como vestir em festa
um traje novo de domingo
que jamais poderás tirar.
Verás um rosto ao espelho,
a sombra obscura da morte,
e não saberás quem é.
Anuncia-te um tempo de derrota.
Para que perguntas, não chames,
que ninguém haverá que te responda.
Sairás de manhã tão cedo
que não escutarás a voz da alba
que grita, que te chama e suplica,
que chora por ti e te quer para si.
 
Nada haverá entre o nada e tu.
 
 
 
(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana do próprio autor reproduzidas em La mirada aliella / La mirada atenta - Antología 1983-2006; edição bilingue; introdução de Araceli Iravedra; Ediciones Trea, Gijón, 2011, pp. 104-105).


domingo, 13 de outubro de 2013

Stanley Kunitz

Reflexos, reflexões



Há uns anos cheguei à compreensão de que a força mais pungente de todas as tensões líricas resiste à consciência de que enquanto vivemos já estamos a morrer. Aceitarmos este tipo de conhecimento e, apesar dele, sermos capazes de nos mantermos íntegros e dotados de compaixão - esta é a razão última do trabalho em arte.
 
 
No âmago da existência de cada um de nós existe um fundo de energia que nada tem a ver com a identidade pessoal, mas que deriva do ser e funde-se com a natureza e o universo. O homem desempenha apenas um pequeno papel em todo o maravilhoso espectáculo da criação.
 
 
Os poemas seriam fáceis se as nossas mentes não estivessem tão atafulhadas com o ruído dos dias. A tarefa é conseguir chegar à outra margem, onde podemos escutar os ritmos profundos que nos ligam às estrelas e às correntes.
 
 
Eu insisto nas minhas tentativas de dominar a linguagem, de modo a não ter de mentir. E continuo a ler os mestres, porque eles contaminam-me com as possibilidades do humano.
 
 
Os poemas que escrevemos nunca nos satisfazem, uma vez que, mesmo nos casos mais felizes, não passam de um eco enfraquecido de uma canção que talvez tenha sido ouvida uma ou duas vezes no tempo de uma vida e que continuamente tentamos relembrar.
 
 
Eu gosto de pensar que é o amor do poeta pelo particular, pelas coisas deste mundo, que o conduz ao universal.
 
 
Uma coisa mal feita desmorona-se. Uma obra de arte defeituosa não demora mais do que uns anos a perder a maior parte da sua energia. Para o dizer de maneira simples, a conservação da energia é a função da forma.
 
 
Fomos todos expulsos do Jardim, mas os que mais sofrem no exílio são aqueles a quem ainda é permitido sonhar com a perfeição.
 
 
Por vezes sinto-me envergonhado por ter escrito tão poucos poemas sobre temas políticos, sobre as causas que me interessam. Mas então lembro a mim próprio que decidir viver como poeta no contexto do moderno super-estado é em si mesma uma acção política.
 
 
Há sempre uma canção que subjaz sob a superfície dos meus poemas. A luta entre o encantamento e o sentido. O encantamento quer dominar. Ele não precisa realmente de uma língua: tudo o que precisa é de sons. O sentido tem de lutar para se afirmar a si mesmo, para se engastar no ritmo e tornar-se inseparável dele.
 
 
Aos oitenta e sete anos Miró disse a um entrevistador que se sentia mais próximo dos "jovens - de todas as novas gerações". Da infância à maturidade, meditou ele, "sempre vivi uma vida muito intensa, quase como um monge, uma vida austera. Foram-se soltando as pequenas folhas, flutuaram, dispersaram-se a si mesmas. Mas o tronco da árvore e os ramos mantiveram-se sólidos."
 
 
Sim, admitiu ele, o seu estilo mudou - mudou várias vezes, de facto, ao longo da sua vida. Mas estas mudanças não implicaram uma rejeição do que fizera antes.
 
 
Na minha idade, depois de ultrapassares - ou de deploravelmente julgares que ultrapassaste - as ansiedades e complicações impertinentes da juventude, com que te deves confrontar se não com as questões simples e essenciais? Eu nunca me canso do canto dos pássaros e do céu e das estações. Quero escrever poemas que sejam verdadeiros, luminosos, profundos, sóbrios. Sonho com uma arte tão transparente que possas olhar através dela e ver o mundo.



(Versão minha; original reproduzido em The collected poems; W.W. Norton & Company, Nova Iorque/Londres, 2002, pp. 13-14).

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Matija Beckovic

Ninguém voltará a escrever poesia



Ninguém voltará a escrever poesia nunca mais,
Os temas imortais abandonarão os poemas
Descontentes com a forma como foram entendidos e versificados.
Tudo o que alguma vez foi assunto da poesia
Rebelar-se-á contra ela e a sua cobardia.
Os objectos dirão eles mesmos aquilo que os poetas não tiveram a coragem de dizer.
O mar - esse  tópico antigo dos poetas - abandonará para sempre a poesia
E regressará à sua sepultura onde poderá crescer de novo.
O sol - tornado ridículo,
O céu estrelado - tranformado num lugar-comum,
Renunciarão à poesia.
As rosas insistirão na sua cor
E não aceitarão a volubilidade dos poetas.
A palavra liberdade fugirá e recuperará o seu significado.
Os poetas não terão uma língua com a qual possam cantar.
Não haverá nenhuma relação entre a poesia e os poetas,
E por isso os poemas atacarão os poetas
Exigindo-lhes que cumpram as promessas que fizeram.
Os poetas negarão o que antes afirmaram,
Mas tudo o que imaginaram e profetizaram acabará por aprisioná-los.
A poesia exigirá as suas vidas
Para que as metáforas que criaram sejam verdadeiras e irrefutáveis.
Nas futuras gerações
Ninguém, seja a que preço for, quererá ser poeta.
Os poetas do porvir encontrarão maneiras melhores de passar o tempo.
Os homens livres não consentirão que se escrevam poemas para que se seja poeta -
E no entanto não existe outro modo de ser poeta.
Uma árvore - outrora símbolo poético -
Lamentará na praça o seu passado tenebroso
E ninguém alguma vez poderá igualar o seu lamento
Pois ela conhece-se melhor do que ninguém.
Os verdadeiros poetas lutarão contra a poesia
E por todo o lado defenderão a mesma ideia:
Em nome do respeito por si próprios enquanto verdadeiros poetas
Nenhum deles voltará a escrever poesia munca mais.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização e tradução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p 177.)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Ricardo Castro Ferreira























(O regresso da forma, 2013)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Miodrag Pavlovic

Questionário da insónia



Quem esgaravata no buraco da fechadura?
Quem constrói campanários debaixo da minha janela?
Quem chora o destino fatal do herói?
Quem deixa as ovelhas fora do redil?
Quem conduz os anões às terras de pasto?
Quem atirou as bonecas do Rei para dentro do caixão?
Quem ofereceu o despertador ao morcego?
Responde!
Uma noite breve celebra a grande noite.
Inverno. Na pensão toda a gente tem pressa.
O mensageiro dentro da armadura tropeçou e caiu.
Quem me indicará o caminho amanhã?
Quem me fará o almoço e entregará uma carta?
Quem espanta-espíritos por cima da minha cama
e chama o médico?
Ou será que convoca os peregrinos como testemunhas?
Quem lança fogo à grande cerca de lenha?
A madrugada serpenteia já sob a minha cabeceira.
Quem enviou o convite urgente para o sofrimento?
E esse convite foi-me endereçado a mim porquê?



(Versão minha, revista por Ricardo Castro Ferreira, a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização e tradução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 79.)

sábado, 14 de setembro de 2013

Stanley Kunitz

Três pequenas parábolas para os meus amigos poetas



1
Certas espécies de sáurios, especialmente os lagartos, são capazes de largar as suas caudas como forma de auto-defesa quando se sentem ameaçadas. O apêndice separado, assumindo uma vida própria e remexendo-se furiosamente, desvia a atenção para si. Tão depressa como o gato-bravo lança as garras sobre a cauda que se agita, prendendo-a na areia para a abocanhar e esmagar, assim o lagarto livre escapa apressadamente. E uma nova cauda começa a crescer no lugar daquela que foi sacrificada.
 
 
2
A larva do escaravelho-tartaruga tem o excelente hábito de recolher os seus excrementos e restos de pele dentro de uma bolsa que carrega às costas quando avança em campo aberto. Se não fosse esse escudo fecal apareceria nu diante dos seus inimigos.
 
 
3
Entre os Beduínos, os poetas-pedintes do deserto são vistos com desprezo por causa da ganância, da habilidade para roubar e da sua venalidade. Nos diversos acampamentos toda a gente sabe que os poemas de louvor podem ser comprados, mesmo pelos piores canalhas, com comida ou dinheiro. Além disso, estes bardos vagabundos são conhecidos por roubarem ideias, versos e mesmo canções completas a outros. Muitas vezes a sua recitação é interrompida pelos gritos dos homens agachados em volta das fogueiras: "Farsantes. Roubastes isso deste e daquele!" Quando o poeta tenta defender-se, recorrendo a testemunhas que comprovem a sua honradez ou, em casos extremos, apelando a Alá, os seus ouvintes apupam-no, gritando, "Kassad, kaddad! Um poeta é um mentiroso."
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em The collected poems, W.W. Norton & Company, Nova Iorque/Londres, 2002, pp. 234-235).

domingo, 8 de setembro de 2013

Mark Strand

Manual da nova poesia

Para Greg Orr e Greg Simon
 
 
1    Se um homem compreende um poema
                    terá problemas.
 
2    Se um homem vive com um poema
                    morrerá sozinho.
 
3    Se um homem vive com dois poemas
                    será infiel a alguém.
 
4     Se um homem concebe um poema
                    terá menos um filho.
 
5    Se um homem concebe dois poemas
                    terá dois filhos a menos.
 
6    Se um homem tem uma coroa na cabeça quando escreve
                    será descoberto.
 
7    Se um homem não usar uma coroa na cabeça enquanto escreve
                    não enganará ninguém a não ser ele mesmo.
 
8    Se um homem fica furioso num poema
                    será desprezado pelos homens.
 
9    Se um homem continuar furioso num poema
                    será desprezado pelas mulheres.
 
10   Se um homem denunciar publicamente a poesia
                    os seus sapatos ficarão cheios de urina.
 
11   Se um homem desiste da poesia a favor do poder
                    terá muito poder.
 
12   Se um homem se envaidecer por causa dos seus poemas
                    será amado pelos tolos.
 
13   Se um homem se envaidecer por causa dos seus poemas e amar os tolos
                    não escreverá mais.
 
14   Se um homem pede atenção por causa dos seus poemas
                    será como um burro ao luar.
 
15   Se um homem escreve um poema e elogia o poema de um companheiro
                   terá uma amante esplendorosa.
 
16   Se um homem escreve um poema e elogia exageradamente um poema
                  de um companheiro
                  afugentará a sua amante.
 
17   Se um homem reivindica o poema de outro
                  o seu coração ficará com o dobro do tamanho.
 
18   Se um homem deixar os seus poemas ficarem nus
                 terá medo da morte.
 
19   Se um homem tem medo da morte
                 será salvo pelos seus poemas.
 
20   Se um homem não tem medo da morte
                poderá, ou não, ser salvo pelos seus poemas.
 
21   Se um homem termina um poema
                banhar-se-á na esteira vazia da sua paixão
                e será beijado pela página em branco.
 
 
 
(Versão minha a partir do original - reproduzido em New selected poems,Alfred A. Knopf, Nova Iorque, 2009, pp. 43-44 - e da tradução castelhana de Eduardo Chirinos reproduzida em Sólo uma canción, Pre-Textos, Valência, pp. 27-31).


sábado, 31 de agosto de 2013

Ljiljana Djurdjic

["Conduzo a minha ovelha negra de volta ao rebanho..."]



Conduzo a minha ovelha negra de volta ao rebanho
Para que as ovelhas mais velhas a possam lamber e sugar, e lhe dêem
De beber e lhe tirem de cima a lama, os cardos, o bolor, a humidade,
E as areias do deserto e a fuligem dos seus olhos de ovelha
Para que assim possa olhar pasmada a verdura dourada
E os olhos carinhosos dos seus progenitores ovinos

Conduzo a minha ovelha negra de volta ao rebanho
Para que ela possa ser branca de novo, pura e infinitamente igual,
Com o seu pescoço pronto para o sacrifício ritual
Sobre a insaciável vasilha de barro
Cheia do alimento sangrento dos deuses

Conduzo a minha ovelha negra de volta ao rebanho
Para poder ver a sua cabeça voar,
Essa cabeça do velho testamento em cima do seu dobrado pescoço de ovelha,
Para ouvir o seu generoso bater de coração de ovelha
E contar o meu tempo, o teu tempo, o tempo sabe Deus de quem?
O tempo da matança universal!



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology os serbian poetry; organização, tradução e introdução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 196).

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Jovan Hristic

[Naquela noite juntaram-se todos na mais alta torre...]



Naquela noite juntaram-se todos na mais alta torre,
Astrónomos, matemáticos e um dos magos da Síria,
Para lerem nas estrelas a glória do Rei dos Reis
E demonstrar a sua imortalidade com a ajuda da geometria.

Antes do nascer do dia, menearam as cabeças em concordância
Com as suas interpretações. A resposta das estrelas
Foi positiva. As trombetas anunciaram
A glória do Rei dos Reis sob o sol nascente.

No pálacio, com a mesa posta para o banquete, eles são esperados
Por aqueles sobre os quais as estrelas se pronunciaram esta noite
E cujo futuro transborda agora como vinho novo
Guardado nos cálices dourados preparados para os brindes.

Só alguns jovens, recentemente especializados em geometria,
Não se mostraram totalmente convencidos com o que foi lido nas estrelas,
Pois as estrelas respondem sempre aos humanos,
Mas a que questão só elas mesmas sabem.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização, tradução e introdução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 43).

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Matija Beckovic

Se eu soubesse que me aguentaria orgulhosamente



Se eu soubesse que me aguentaria orgulhosamente
Na prisão e frente aos juízes,
Que caminho ardente traçaria e suportaria até ao fim,
Resistindo apenas com as minhas mãos nuas.

Se eu me soubesse capaz de pontapear a tábua
Sob os meus pés e passar a corda em volta da minha própria garganta,
Mereceria a minha alma a vida eterna
E o meu carrasco choraria depois de mim.

Mas temo que começasse logo a suplicar,
A soluçar, a cair de joelhos, a trair tudo e mais alguma coisa.
Só para salvar a minha pobre pele,
Haveria de cuspir em tudo e de concordar com o que quisessem.



(Versão minha a partir da tradução de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização, tradução e introdução de Charles Simic; Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 175).

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Jovan Hristic

Bárbaros



Finalmente os mensageiros chegaram e anunciaram:
Vêm aí os bárbaros.
Começaram logo os preparativos para os receberem na cidade.
Jovens exaltados aclamam já os seus nomes
E apressam-se a celebrar os novos deuses.
Não defenderam os poetas que eles eram uma espécie de solução?
Agora escrevem poemas que os glorificam
Esperando por esse dia em que os declamarão publicamente
Enquanto os bárbaros - fortemente armados - os admirarão
E aplaudirão e aprenderão de cor esses versos.
Os poetas: vêem já os seus poemas em grandes caracteres
Colocados nos pórticos dos templos,
De onde as deidades impotentes foram expulsas,
E as livrarias cheias com os seus livros,
Substituindo as histórias que já não dizem nada a ninguém.

E no entanto os poetas sabem que serão os primeiros a ser enforcados em público,
Juntamente com os jovens que correram para abrir os portões
Da cidade à entrada desses que foram ansiosamente esperados,
Pois os bárbaros são bárbaros e não são solução para coisa nenhuma.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic reproduzida em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização, tradução e introdução de Charles Simic, Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 122).

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Vicent Andrés Estellès

Para mim seria um prazer escrever a Salvador Espriu



Mas
não
me
foi
possível
saber
se
estou
morto
ou
se
estou
vivo.
Em
tais
circunstâncias, que
cavalheiro pode escrever a Salvador Espriu?



(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor reproduzida em Antología; selecção de Jaume Perez Montaner e Vicent Salvador,Visor, 2ª edição, Madrid, 2003, p. 54).

sábado, 10 de agosto de 2013

Humberto Ak'Abal

Poesia



A poesia é fogo,
queima por dentro de um
e por dentro do outro.

Se não, será qualquer coisa,
não poesia.



(Versão minha; original reproduzido em Puertas abiertas - Antología de poesía centroamericana; selecção e prólogo de Sergio Ramírez, Fondo de Cultura Económica, Guadalajara, 2011, p. 80).

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Charles Simic

Charles Simic



Charles Simic é uma frase.
Uma frase tem um princípio e um fim.

Ele é uma frase simples ou composta?
Isso depende das condições do tempo,
Depende das estrelas que estão por cima.

Qual é o assunto da frase?
O assunto é o vosso querido Charles Simic.

Quantos verbos há na frase?
Comer, dormir e foder são alguns dos seus verbos.

Qual é o sentido(1) da frase?
O sentido, meus lindos,
Não se vê ainda qual seja.

E quem está a escrever esta frase desajeitada?
Um chantagista, uma rapariga apaixonada
E um candidato a um emprego.

Terminarão com um ponto final ou um ponto de interrogação?
Terminarão com um ponto de exclamação e um borrão de tinta.



(Versão minha; original reproduzido algures por aqui; (1) Traduzo "object" por sentido, visto que a palavra inglesa pode significar "objecto", ou seja, "coisa", "matéria", mas também "objectivo", "fim", "intenção", bem como, num contexto gramatical (que é explicitamente o do poema), "complemento" (por exemplo, "direct object" será "complemento directo").

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Charles Simic

Guerra



O dedo trémulo de uma mulher
Corre a lista das baixas
Na noite do primeiro nevão.

A casa é fria e a lista é longa.

Todos os nossos nomes estão incluídos.



(Versão minha; original reproduzido algures por aqui).

terça-feira, 25 de junho de 2013

Jack Gilbert

Algumas palavras em defesa



Dor em todo o lado. Mortandade em todo o lado. Se bebés
não morrem de fome algures, morrem de fome
noutro lugar qualquer. Com moscas rondando-lhes as narinas.
Mas nós apreciamos as nossas vidas porque Deus assim o quer.
Se assim não fosse, as madrugadas de Verão não teriam sido
feitas de tal beleza. O tigre de Bengala não teria sido
concebido com tão miraculosa perfeição. As mulheres pobres
junto à fonte riem em comunhão no intervalo entre
o sofrimento por que passaram e o terror
que as espera no futuro, sorrindo e dando gargalhadas enquanto alguém
na aldeia está muito doente. O riso acontece
todos os dias nas horrendas ruas de Calcutá,
e as mulheres riem nas prisões de Bombay.
Se negarmos a nossa felicidade, se resistirmos à nossa satisfação,
diminuímos a importância das suas privações.
Devemos arriscar a alegria. Podemos prescindir do prazer,
mas não da alegria. Não da satisfação. Temos de ter
a teimosia de aceitar o nosso contentamento no impiedoso
forno deste mundo. Fazer da injustiça a única
medida da nossa atenção é louvar o Demónio.
Se a locomotiva do Senhor nos abater,
devemos agradecer porque no nosso fim houve magnitude.
Admitamos que haverá música apesar de tudo.
Cá estamos, de novo na proa de um pequeno navio estreito,
olhando para a ilha que dorme: a beira-mar
são três cafés fechados e uma luz nua que ainda arde.
Ouvir o débil som de remos quebrando o silêncio enquanto um barquinho
sai do porto e depois regressa vale realmente a pena
todos os anos de dor que estão por vir.



(Tradução inédita de Andreia C. Faria; o original pode ser consultado aqui).

domingo, 19 de maio de 2013

Vicent Andrès Estellès

Crónica especial



A morte de Manolete (1) nas folhas de um diário,
enquanto eu te esperava em Benimaclet.
Ou as execuções num pátio de Nuremberga
enquanto te via passar pela Rua das Barcas.
Um amor num tempo, que tempo!, oh que amor!
Um amor inscrito para sempre na história.
O "Mosteiro de Santa Clara" levantava-se no ar.
O Tyris (2) cheio de gente, o cheiro das gentes.
Os casais saíam, traziam as faces vermelhas.
As mães não sabiam o que fazer para o jantar.
Os pais ouviam rádios estrangeiras.
E todos pensavam que era coisa de quatro dias.
Ou, o mais tardar, de quatro semanas, quem sabe.
Os filhos faziam amor no vão das escadas.
O pai conversava com a mãe na cozinha.
A mãe envelhecia sobre grandes panelas absurdas,
branqueavam os cabelos sobre o osso da fronte.
Coisa de quatro dias ou de quatro semanas.
E passavam os dias, as semanas, os anos.
E a marcha de Mao pelo continente chinês.
Depois veio a Coreia. Depois veio o Vietname.
O pai morreu, morreu a mãe.
A filha casou-se com outro, anos depois.
Por vezes encontra-se com aquele primeiro amor.
Coisa de quatro dias ou de quatro semanas.
Como se entre eles não tivesse havido intimidade
no vão das escadas, falam dos filhos.
"O meu vai para o Liceu", "A minha tem sarampo".
Ganharam uma suja e triste civilidade.
De pé na rua, falam quando se encontram.
E cada um segue depois o seu caminho.
Oh o amor inscrito, que coisa, na história!



(Notas - (1) Toureiro espanhol, considerado por muitos como o maior de todos os tempos, morreu devido a uma cornada na coxa direita, a 29 de agosto de 1947. Franco ordenou três dias de luto nacional em Espanha. (2) Rio Túria (Valência).
 
 
(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor, reproduzida em Antología; selecção de Jaume Perez Montaner e Vicent Salvador, Madrid, 2ª edição, 2003, pp. 58-59).

terça-feira, 14 de maio de 2013

Vicent Andrès Estellès

Os amantes

                                                                            "A carne quer carne"
                                                                                         Ausías Marc



"Em Valência não havia dois amantes como nós".
Amávamo-nos ferozmente de manhã à noite.
Recordo tudo enquanto vais estendendo a roupa.
Passaram anos, muitos anos; aconteceram muitas coisas.
De súbito ainda me colhe aquele vento ou o amor
e rodamos sobre a terra entre abraços e beijos.
Não concebemos o amor como um costume pacífico,
um costume amigável de troca de cumprimentos e galanteios
(e que nos perdoe o casto senhor López Picó).
Como um velho furação, ele acorda repentinamente
e atira-nos aos dois ao chão, junta-nos, empurra-nos.
Eu desejava, às vezes, um amor educado,
com música de fundo, beijando-te negligentemente
agora um ombro, depois a ponta de uma orelha.
O nosso amor é um amor brusco e selvagem
e nós temos a nostalgia amarga da terra
e de ir aos trambolhões entre beijos e arranhões.
Que querem que faça? É assim, já o sei.
Ignoramos Petrarca e muitas outras coisas.
As Estâncias de Riba e as Rimas de Bécquer.
Depois, tombados na terra, de qualquer maneira,
compreendemos que somos bárbaros, e que isso não pode ser,
que já não temos idade, e tudo isto e aquilo.

Que já não temos idade, e tudo isto e aquilo.
Não havia em Valência dois amantes como nós,
porque amantes como nós são paridos muito poucos.



(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor reproduzida em Antología; selecção de Jaume Perez Montaner e Vicent Salvador; Visor, Madrid, 2ª edição, 2003, p. 57).

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Vicent Andrès Estellès

Gozo da rua

                                                                            Para Isabel



A pura alegria da rua
encheu-nos as mãos de ternos punhados de água,
e ríamo-nos, ríamo-nos como tolos,
e em todos os nossos músculos estava a água viva do gozo
vinda por entre as ervas e as lebres.
Íamos sem motivo,
desejando boa noite ao velho matrimónio
e oprimindo silenciosamente os nossos corpos ao vermos
aquela jovem mãe
dando mama ao filho...
Viver era para nós uma oferenda,
um pintassilgo de barro com duas penas pintadas de cores vivas,
um cavalgar em corcéis de cartão, verdes e amarelos,
como um carrossel,
acenando uns aos outros, dizendo: "Adeus, adeus, amor! Nunca te esquecerei!"
A vida era para nós uma surpresa,
uma rã viva no bolso,
uma enorme cúpula de cristal,
um silêncio, um desejo súbito, um estupor,
um relógio parado que Alguém nos tinha
dado para que no fim o pudéssemos abrir
como desde pequenos queríamos
e afinal nada havia de interessante lá dentro.
E voltámos a rir!
O tempo estava no ar. E estendemos as mãos
à procura de punhados de tempo. Mas o tempo também não estava ali!
Nada mais era a alegria da rua.
E os gritos
                 - "Golo!" -
dos miúdos que jogavam
futebol assim que saíam da escola...



(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor reproduzida em Antología; selecção de Jaume Perez Montaner e Vincent Salvador; Visor, 2ª edição, Madrid, 2003, pp. 35-36):

sábado, 27 de abril de 2013

Helen Farish em Paredes de Coura 2011



(Agradeço a Albano Ribeiro por me ter feito chegar este registo de uma leitura pública que incluiu um poema traduzido neste blogue).

sábado, 20 de abril de 2013

Mihály Ladányi (1934 - 1986)

Eu podia ter vivido alegremente



Eu podia ter vivdo alegremente
porque para isso tinha aptidão,
tinha a noite serena
e passava horas inteiras sem chorar.
Agora as noites lançam-me um nó corredio
e as minhas artérias apertam-me a garganta.

Se sou amargo, quem me faz amargo?
Vivo a minha vida,
tenho sempre pão e amante
e o vinho nunca escasseia no meu copo.

Já não estou só e abandonado, como os que gesticulam e suam,
os das palmas das mãos feitas de lata,
os que dormem em colchões húmidos.
Quando sigo pelas estradas
e numa taberna -onde se juntam camponeses-
me abeiro do balcão,
não há leis que digam
que para sempre ali devo ficar
ou chegando a manhã
de novo devo tomar a direcção da estrada.

Podia ter vivido alegremente
mas os pássaros aninham as suas crias
nas palmas da minhas mãos
e alguém atou aos meus pés
os caminhos.
Podia ter vivido alegremente
mas agora as casas constroem-se em mim
e retumbam em mim na sua destruição.
Sou de alguma coisa o instrumento,
sinto sempre sobre mim o grande olho ardente
e vou por aqui e por ali, à deriva, embora
pudesse ter vivido alegremente.



(Versão minha a partir da versão castelhana de Yolanda Ulloa reproduzida em Cincuenta poemas de quince poetas húngaros del siglo XX; selecção de András Simor, Izana Editores, Madrid, 2012, pp. 141-142).

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Miklós Radnóti (1909 -1944)

Como o touro



Até hoje vivi a minha vida como um jovem touro
que se aborrece entre vacas prenhes no calor do meio-dia
e corre em círculos para exibir a sua força;
e desdobra o estandarte espumoso do seu jogo
a partir da baba; e sacode a cabeça - denso, o ar corta-se
entre os cornos - enquanto os seus coices espalham
erva martirizada e terra no prado espantado.

Assim vivo como o touro, mas como um touro que de súbito
pára no meio de um campo constelado de grilos
e fareja o ar. E sente que na espessura do monte
estacou uma corça, alerta, e que de repente corre com o vento
que no seu silvo arrasta o cheiro da matilha.
O touro fareja o ar mas não foge como a corça
e pensa que, chegada a hora, lutará e cairá
e na paisagem a matilha dispersará os seus ossos.
Entretanto, triste, brama lentamente no ar denso.

Assim também eu luto, assim cairei e, para exemplo
de eras distantes, a paisagem conservará os meus ossos.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Fayad Jamís reproduzida em Cincuenta poemas de quince poetas húngaros del siglo XX, selecção de András Simor, Izana Editores, Madrid, 2012, pp. 74-75).

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Maxim Rilsky (1895 - 1964)

A arte de traduzir



A flecha avança por planícies desconhecidas.
Onde paira a ave? Hoje será um dia de sorte?
O disparo será preciso? Num precipitado turbilhão
As cercetas levantam voo instalando na alma a agitação.

Assim o livro imagina o seu horizonte
E nessas linhas, configuradas sobre o papel,
Tens de capturar com a destreza de um caçador,
Oferecendo-a aos teus congéneres, a essência do real.

Não é necessário matar! Cada analogia possui
O seu próprio limite: procura que as palavras
Não transformem a sua riqueza em ausência de sentido,

Que nelas permaneça vivo o pensamento
E que o espírito poético se manifeste sobre nós
Como algo íntimo, num sopro que vem do que é único.


(1940)



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Iury Lech reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo e selecção do tradutor; Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993. Com este poema assinalam-se cinco anos de Do trapézio, sem rede. Foi um imenso prazer. Vemo-nos por aí).

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Wolf Biermann

Um pouco de paz



Crianças que acordam
Mulheres que lavam roupa de manhã
Homens que escrevem poemas s  o  b  r  e:

Crianças
              que acordam

Mulheres
               que lavam roupa de manhã

Homens
             que escrevem poemas



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Michael Hamburguer reproduzida em East Germany Poetry - an anthology; selecção do tradutor; Carcanet Press, Oxford, 1972, p. 177).

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Reiner Kunze

O fim das fábulas



Era uma vez uma raposa...
o galo começou
a compor uma fábula

Mas percebeu
que não o podia fazer
se a raposa a ouvisse
viria ter com ele e apanhá-lo-ia

Era uma vez um lavrador...
o galo começou
a compor uma fábula

Mas percebeu
que não o podia fazer
se o lavrador a ouvisse
viria torcer-lhe o pescoço

Era uma vez...

Procurem-nas por aqui procurem-nas por ali
Descobrirão que não há fábulas em lado nenhum



(Versão minha minha a partir da tradução inglesa de Michael Hamburguer reproduzida em East Germany Poetry - an anthology; selecção do tradutor; Carcanet Press, Oxford, 1972, p. 123).

sábado, 26 de janeiro de 2013

Kurt Marti

Depois do desaparecimento da cidade de Berna



onde tranquilamente
a erva daninha
pode brotar

labirintos
de pedestais de cotos
sobre línguas rochosas
cheias de fetos e selva virgem

ainda assim às vezes
turistas procedentes de
áfrica ou da ásia
tropeçam nos lugares em ruínas

a guia revela-lhes
que em tempos aqui
existiu uma cidade
- BÖRN ou coisa parecida -

e a gente de cor inclina a cabeça
olha rapidamente em redor
tira também algumas fotos dos destroços
e mordisca biscoitos feitos em nairobi



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Hans Leopold Davi reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção e introdução do tradutor, Los Libros de la Frontera, s/d., pp. 97-99).

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Antoine Douaihy

Um átomo de vazio



Estou repleto de ti desde um extremo ao outro extremo do meu corpo, e o teu corpo afoga-se em mim sem deixar um só átomo para a razão, a memória, o sentimento consciente, a alma visionária. É possível que te tenha tragado? Ergue a tua mão para mim para que eu saiba que estás viva.
 
 
 
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río se incendia - Antología de la poesía libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, p. 35).

sábado, 19 de janeiro de 2013

Lisel Muller

Literatura americana



Poetas e escritores
movem-se para o interior do vazio
que Edward Hopper lhes deixou.
Instalam-se em espaços desprovidos
onde a luz foi purgada e descolorida até se tornar
numa espécie de branco-crânio, onde nada
cresce senão a ausência. Onde falta alguma coisa,
o homem pelo qual espera uma mulher,
ou a mobília num quarto
nu como uma cama de hospital
depois do doente ter morrido.
Estes interiores desolados
são aquilo que eles têm procurado,
os escritores, chegando aqui com a sua bagagem
feita de varas de vedores, os seus livros com badanas,
as suas difíceis fotografias de família,
as suas camas granulosas e a sua inclinação
para começar fogos em quartos vazios.



(Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 31).

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Jon Benito

[Pela terceira vez...]



Pela terceira vez
saio à tua procura.

Procuro-te
nos sítios onde te encontrei até ontem:
nos bares do costume, nos terraços, dando um passeio de bicicleta.

Hoje é dia de festa,
chove pela primeira vez no verão.

Não encontro abrigo para a minha solidão.
Queria encontrar-te debaixo de todos os guarda-chuvas.
Queria abraçar-te debaixo das arcadas.

Tenho vertigens só de pensar que
estás em algum sítio onde não estou.



(Versão minha a partir da tradução castelhana do autor reproduzida em Un puente de palabras - 5 jóvenes poetas vascos; edição bilingue: basco/castelhano; selecção/organização de Jon Kortazar, Centro de Lingüística Aplicada Atenea, Madrid, 2005, p. 147).

domingo, 13 de janeiro de 2013

Marts Pujats

[Não é difícil...]



Não é difícil chegar a um qualquer lugar do mundo,
Avança até à água - olha, olha fixamente, depois nada.

Naquele tempo sentado numa rocha ardente eu disse-te:
A água é um músculo.

A água contrai-se sempre que tu dás as tuas braçadas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ieva Lesinska reproduzida em Six latvian poets; organização da tradutora, introdução de Juris Krombergs, Arca, Todmordem, 2011, p. 119).

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Matei Visniec

Uma manhã no parque



Durante as manhãs silenciosas impecáveis
costumo passear com o trompete debaixo do braço
pelo parque municipal

ponho-me de pé em cima de um dos bancos molhados
e sonhador começo a tocar
um homem e uma mulher detêm-se à minha frente
escutam perturbados, abraçam-se logo de seguida
e ele diz-lhe emocionado a partir de amanhã,
sim, a partir de amanhã, mudaremos o nosso modo de vida
trataremos de ser felizes iremos ao
cinema discutiremos arte
coleccionaremos postais pensaremos nas grandes verdades
dia após dia ao entardecer
apertaremos as mãos olhar-nos-emos olhos nos olhos
e a cada vinte e quatro horas
faremos uma boa acção
e no verão
oh, no verão
visitaremos de autocarro a Bulgária



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Angelica Lambru reproduzida em El muro del silencio - Antología de poesía rumana contemporánea, selecção e organização da tradutora, Huerga & Fierro, 2007, p. 162).

domingo, 6 de janeiro de 2013

Dorin Popa

Confissão em dezembro



pedi sempre ao outro, com dureza,
que olhasse as coisas de frente,
mas eu não as olhei

todas as minhas condenações
conservaram-se durante anos à minha frente
mas eu não soube segui-las
não soube segui-las
não soube compreendê-las
não pude decifrá-las
até ao fim

nunca
soube levar nada
até ao fim

só a juventude passa,
só a alegria passa,
só a vida passa,
só ela, a minha culpa inteira, perdura

nunca
soube levar nada
até ao fim

sempre pedi com dureza ao outro
que olhasse as coisas de frente,
mas eu voltei o rosto

e agora que nada espero
a minha esperança
é mais forte do que nunca



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Angelica Lambru reproduzida em El muro del silencio - Antología de poesía rumana contemporánea; selecção e organização da tradutora; Huerga & Fierro, 2007, pp. 150-151).

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Liviu Antonesei

Romance


                                                              Recordação de E. A. Poe



A flor da sua carne não voltarei a ver,
não voltarei a ver, não voltarei a ver
nunca mais
e ela a minha boca não quebrantará
não quebrantará, não quebrantará,
como tantas vezes,
inteira.

Os seus seios nus sobre a minha pele não voltarão,
não voltarão, não voltarão
jamais
e o meu coração para sempre errará
para sempre errará, para sempre errará
no deserto de pedra
áspero.

Na sua gruta não penetrarei mais,
não penetrarei mais, não penetrarei
jamais
e a minha carne morta será, morta será,
morta será,
despedaçada.

A flor da sua carne não voltarei a ver,
não voltarei a ver, não voltarei a ver
recostada
e o botão de rosa não me sorrirá,
não me sorrirá, não me sorrirá
nunca mais.

Nunca mais.
Nunca mais.
Assim grasnou o corvo feroz.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Angelica Lambru reproduzida em El muro del silencio - Antología de poesía rumana comtemporánea; selecção e organização da tradutora; Huerga & Fierro, 2007, pp. 35-36).