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sábado, 9 de abril de 2022

Vasyl Holoborodko

 Bisonte de um só corno


                                    "A ceifar os verdes campos dos cereais
                                      A minha mãe me mandava."
                                                   Canção popular


Da escura caverna 
que era a vida
saía o bisonte de um só corno 
que foi o arado
e lançava-se sobre a mulher 
que era fértil
até a deixar extenuada - 
como a terra cultivada...

Ferida pelo corno do bisonte 
que era o arado
a mulher achava-se estendida 
no campo -
e contemplava as flores - 
as rubras papoilas.

Penetrou o bisonte de um só corno 
que foi o arado
na escura caverna 
que era a vida.



(Versão minha. Fonte: Una iconografía del alma - Poesía ucraniana del siglo XX; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech; Litoral/Edições UNESCO, Málaga, 1993, p. 181).

sábado, 19 de março de 2022

Vasyl Holoborodko

 [Os homens começaram a reunir-se]



Os homens começaram a reunir-se
todos rapados com pente zero
(deste corte também se diz que é "à maluco")
e eu não sabia
se eram todos futuros soldados
(e onde estavam os seus estandartes e tambores?)
ou simplesmente prisioneiros
(mas então por que não traziam os seus trajes festivos às riscas?)
ou se as suas mulheres lhes haviam arrancado as madeixas.
A mim disseram-me:
olha a essência;
então compreendi, que nos próprios olhos observo,
como o princípio da igualdade se materializa na vida.
Quem se lembra da clandestinidade dos guedelhudos?:
prendam-nos e tosquiem-nos.
Quem é que alguma vez escreveu um verso sobre o ramo hirsuto 
                                                                                     da macieira?
Há que podar: a) o autor
                       b) o verso
                       c) o ramo hirsuto.



(Versão minha. Fonte: Una iconografía del alma -Poesía ucraniana del siglo XX; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech; Litoral / Edições UNESCO, Málaga, 1993, p. 179.)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Vasyl Holoborodko

Queria ser uma pessoa



Para não ter de dançar - amputou uma perna
(deixou até de visitar os amigos),

para não combater e gesticular indecências - arrancou os dedos
(era incapaz até de tirar a pele a uma maçã),

para não ouvir palavras obscenas - arrancou as orelhas
(deixou também de ouvir as belas),

para não lhe chamarem narigudo - torceu o nariz
(e ficou com ele achatado),

para não ver os sapos - furou os olhos
(já não pode contemplar as rosas),

para que não lhe escapasse alguma incoerência - cortou a língua
(também não teve mais palavras gentis para a amada).

Cada dia que passava
fazia uma operação plástica ao corpo
para ficar igual aos outros, a todos os outros.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Ed. UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 175).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Vasyl Holoborodko

Labirinto



O autocarro vermelho há-de deter-se
e eu encontrar-me-ei no labirinto:
levarei muito tempo a descer os degraus,
gastando a sola dos sapatos,
pelo que irei à procura de um sapateiro,
entrarei com os pés descalços
pisando a pedra fria
e a desorientação será ainda maior.

Desesperado hei-de sentar-me nas escadas,
abrirei o jornal e começarei a ler
para encontrar a saída deste labirinto.
Então descobrirei um sinal:
talhado à mão indica a direcção que devo tomar;
penso, com uma alegria indizível, que eu sou o guia
e novamente hei-de pôr-me a caminho
perdendo cada vez mais a orientação.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Ed. UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 178).

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Vasyl Holoborodko

[Detestáveis sementes de erva...]



Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva

Depois de tudo morreremos uma vez,
não somos eternos nem imortais (a matéria não desaparece
em contrapartida nós sim: eu, tu, ela, a amante, o irmão, os outros),
e qualquer semente de erva: de tomilho, sinuosa como uma áspide,
espera a nossa morte (morreremos uma vez)
para se fundir com o nosso corpo alheio exangue
(no qual fomos nós: o meu, o teu, o dele, da amante, do irmão, dos outros)
e crescerá e florescerá e dará sementes
para aguardarem então a morte dos demais (não a nossa),
porque as sementes de erva são imortais, porque são sementes de erva.

Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una icinografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 174).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Vasyl Holoborodko

[És como a areia...]



És como a areia
aperto com mais força os meus dedos.

És como um pequeno pássaro
construo para ti uma gaiola.

És como a água do rio
procuro para ti um cântaro.

Mas tu já és bosque
Mas tu já és campo
Mas tu já és caminho.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 180).