segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Dieter Fringeli

Hoje



nada
nada mais
ainda nada mais
só tu
só eu
e nada no meio



(Versão minha a partir da tradução de Hans Leopold Davi reproduzida na Antología de la poesía suiza contemporánea, Los libros de la frontera, Barcelona, s/d., p. 245).

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Abu - L - Qasim al - Shabbi

A estranha narrativa



Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Lena Jayyuri e Naomi Shihab Nye reproduzida em The flag of childhood - peoms from the middle east; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, 2002, p. 32).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Merry Little Christmas

 

Alexandre Sarrazola - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - Luís Filipe Parrado - Manuel de Freitas - Miguel Martins - Renata correia Botelho - Vítor Nogueira - fotografia da sobrecapa de Bert Hardy - composição e paginação de Inês Mateus - Averno - Lisboa - 2012 - 23 páginas

sábado, 22 de dezembro de 2012

Silja Walter

O meu pequeno cão branco e eu



O meu pequeno cão branco e eu -
entrámos e saímos em todas as portas.
Procuramos-te a ti. Procuramo-nos a mim.
Choramos e passamos frio.

A chuva dá grandes voltas no largo.
Faz círculos em crescendo.
Não sei aonde vou nem onde estou
com o meu pequeno cão.

O mundo é grande. E tu és grande.
Onde terminam o caminho e a viagem?
Escuto o aguaceiro,
o meu pequeno cão ladra docemente.

Não te encontro. Não me encontro.
Contigo me perdi.
O meu cão olha entristecido
e aperto a minha cara contra as suas orelhas.



(Versão minha a partir da tradução de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção e introdução do tradutor, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., p. p.71).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Nós, os desconhecidos




A.M. Pires Cabral - A. Maria de Jesus - Alexandre Sarrazola - David Teles Pereira - Diogo Vaz Pinto - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - João Almeida - José Carlos Soares - Luís Filipe Parrado - Luis Manuel Gaspar - Manuel de Freitas - Marta Chaves - Miguel Martins - Renata Correia Botelho - Ricardo Álvaro - Rosa Maria Martelo - Rui Caeiro - Rui Miguel Ribeiro - Rui Pires Cabral - Vítor Nogueira - organização de Daniela Gomes e Rui Pires Cabral - capa de Luís Manuel Gaspar - composição e paginação de Inês Mateus - Averno - Lisboa - 2012 - 97 páginas.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Óscar Cruz

Síndrome de Kafka




cinco meses depois da morte
do meu pai ainda encontramos
quem chore por ele. o meu pai,
porém, teria preferido ser
esquecido. creio que foi por isso
que o esquecemos.



(Versão minha; original reproduzido em Dejar atrás el agua. Nueve nuevos poetas cubanos; edição e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 78).

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Marina Aoiz Monreal

Nós


Os nós
albergam segredos perigosos.
No seu interior
escondem-se punhais invisíveis
dardos envenenados
que trespassam a luz
em lentíssimas sequências
quando alguém escreve a palavra mão
ou a palavra vida. Os nós
não oferecem consolo. Não possuem
o brilho de um anel de casamento
nem a brancura
do primeiro dente debaixo da almofada.
Os nós
dobram as suas asas de morcego
sobre si mesmos
e escondem-se nos lentos resquícios
da geada nocturna.
Para os enfrentar
há que beber
os raios do sol da meia noite,
beijo a beijo,
e despojar-se de tudo o que se aprendeu.
Só às apalpadelas
se pode rasgar um nó
nos tenebrosos aposentos.
Só a sós,
entre o frio e o nada.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros; selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesus Munárriz; Hiperión, Madrid, 2012, pp. 50-51).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Joseba Sarrionandia

Quarenta nomes para fazer um soneto



William Faulkner. Alice Liddell. Buster Keaton.
James Joyce. Marilyn Monroe. Stephen Crane.
Ambroise Bierce. Marcel Duchamp. Júlio Verne.
Franz Kafka. Herman Melville. André Breton.

Humphrey Bogart. Paul Klee. François Villon.
Jacques Brel. Ezra Pound. Louis Ferdinand Céline.
Nicholas Ray. Dante Alighieri. John Wayne.
Samuel Beckett. Jonathan Swift. John Huston.

Nazim Hikmet. Juliette Greco. Boris Vian.
Edgar Allan Poe. Vladímir Nabokov.
Hieronimus Bosch. Bram Stocker. Paul Celan.

Johan Huizinga. Jean Genet. Marcel Schwob.
Edgar Spencer Dogson. Vladímir Holan.
Edward Lear. Joseph Conrad. Vincent Van Gogh.



(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana reproduzida em El otro medio siglo - Antología incompleta de poesía iberoamericana; organização de Antonio Domínguez Rey e outros, Espiral Maior, A Coruña, 2009, p.p. 539-540. Nota: na versão que aqui utilizo (e única que conheço) como fonte da transposição para português dos nomes citados pelo poeta alguns destes surgem grafados erradamente - por exemplo, "Marcel Sohwob" ou "Vincent Vang Gogh". Presumo que se trate de um conjunto de gralhas, alheias à vontade do autor; optei, assim, por corrigir esses "erros". De resto, o próprio nome do poeta aparece escrito, nesta obra, de forma ligeiramente diferente daquela que já conhecia: "Sarrionaindia" em vez de "Sarrionandia"; mantenho esta última).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Kwang-kiu Kim

O nascimento de uma pedra



Nessas fundas ravinas das montanhas
- pergunto-me -
existirão pedras
que nunca ninguém visitou?
Subi à montanha
em busca de uma pedra que ninguém tivesse visto
desde os tempos mais remotos.

Debaixo dos antigos pinheiros
em encostas íngremes e intransitáveis
havia uma pedra
há quanto tempo
- pergunto-me -
há quanto tempo
esta pedra coberta de musgo
está aqui?

Dois mil anos? Dois milhões? Dois biliões?
Não
De modo nenhum
Se até agora nunca ninguém viu realmente
esta pedra
ela apenas existe
aqui
a partir deste momento
Esta pedra
nasceu só
no momento em que a vi pela primeira vez



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em This Same Sky - a collection of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p.111).

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Fernando Luis Chivite

Apontamentos para um manifesto futuro, 9



Sabemos demasiadas coisas.

Sabemos tantas coisas que estamos presos
pelas coisas que sabemos.

Há armas que angustiam
quem as possui. A razão tem cárceres.

Sai daí, sê diurno. Não interrompas
a luz. Apaga a tua marca.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros. Selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesús Munárriz; Hiperión, Madrid, 2012, p. 98).

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Fernando Luís Chivite

Epitáfio sarcástico para si mesmo



Na verdade, ainda estava vivo
quando me enterraram.

Sempre consegui enganá-los
com certa facilidade.

No entanto nunca
me serviu de nada.



(Versão minha; original reproduzido em Nueva poesía en el viejo reyno. Ocho poetas navarros; selecção e textos introdutórios de Consuelo Allué; apresentação de Jesús Munárriz, Hiperión, Madrid, 2012, p. 100).

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

III. O homem que matou Leopoldo María Panero
(The man who shot Leopoldo María Panero)



        O meu querido amigo Javier Barquín pensará sempre que foi ele que matou Leopoldo María Panero. Porém isso não corresponde à verdade. Ninguém tinha então valor para o fazer. O sujeito aterrorizava toda a cidade. Raptara várias mulheres e amaeaçava torturá-las. De tal maneira que me decidi nessa tarde, fui à loja de armas do Jim e comprei um revólver de calibre 45. No momento em que Leopoldo María Panero estava a tentar extorquir mais uma vez Javier Barquín, disparei à distância. Como Javier também tinha sacado uma pequena pistola, supôs ter sido ele que fizera justiça. Toda a vida acreditará que foi ele quem matou Leopoldo María Panero. Mas não foi esse o caso. Eu sou o homem que matou Leopoldo María Panero.



(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1979-2000); edição Túa Blesa, Visor, 4ª ed., Madrid, 2010, p. 269).

sábado, 24 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

II. O homem que acreditava ser Leopoldo María Panero



      Chovia e voltava a chover sobre a casa de De Kooning, célebre pelas suas aparições. Aí, o filho mais novo de De Kooning levantou-se, nervoso, da cama, vestiu um roupão e foi até ao quarto do pai para lhe dizer que era Leopoldo María Panero. Enquanto se demorava a enfatizar o seu desgosto relativamente a O Desencanto, o filme de Chávarri, não houve outro remédio senão o de se chamar um psiquiatra. Já no manicómio, persistia no seu delírio, imaginava cenas da infância, ruas em Astorga, badaladas, cacetadas do meu pai. Depois de um rápido electrochoque, passou a acreditar que era Eduardo Haro, uma ligeira variação da primeira figura. De seguida, pôs-se a coxear e a tossir e afirmou ser Vicente Aleixandre. Entretanto, em casa de De Kooning, entre barulhos de correntes, continuaram a multiplicar-se as aparições.
 


(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1970-2000), edição de Túa Blesa, Visor, 4ª edição, Madrid, p. 268).

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Leopoldo María Panero

I. A chegada do impostor que se fingia Leopoldo María Panero



       Ao amanhecer, quando as mulheres comiam morangos frescos, alguém bateu à minha porta dizendo ser e chamar-se Leopoldo María Panero. No entanto, a sua falta de firmeza na representação do papel, os seus abundantes silêncios, os seus enganos ao recordar frases célebres, o seu embaraço quando o obriguei a recitar Pound e, finalmente, o pouco encanto dos seus encantos, convenceram-me de que se tratava de um impostor. Imediatamente fiz vir os soldados: ao amanhecer do dia seguinte, quando os homens comiam peixe congelado, na presença de todo o regimento, foram-lhe arrancados os galões, os fechos de correr, e arrojado ao lixo o seu baton, para ser fuzilado pouco depois. Assim teve o seu fim o homem que se fingia Leopoldo María Panero.
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em Poesía completa (1970-2000); edição de Túa Blesa, Visor, Madrid, 4ª ed., p.267).

domingo, 18 de novembro de 2012

Cheryl Savageau

Por que é que eles fazem isso



O tio Jack bebe porque é índio.
A tia Rita
porque casou com um alemão.
O tio Raymond
porque as pequenas discussões passaram de moda.
O tio  Bébé
porque a Jeannie o encoraja a fazê-lo.
A tia Jeannie porque o tio Bébé o faz.
O Russel porque anda na faculdade.
O tio Jack
porque é um perfeccionista.
O Dave porque está desempregado.
A tia Rita
porque é música.
O Bert porque é casado com a tia Rita.
O Renny
porque gosta de se divertir.
O Gil porque sempre bebeu.
O Raymond
porque a Marie é demasiado esperta.
O Jack porque a Florence não o fará.
A Lucille e o Bob não bebem
porque todos os outros o fazem.
O Raymond por causa de todas as mulheres
que nunca terá.
E o Dick só porque quer esvaziar a pipa.



(Versão minha; original reproduzido em Poetry like bread; selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 5ª ed. (ampliada), Willimantic, 2000, p. 229).

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Kurt Marti

Contra a corrente



não existiu
                        já um
que andava sobre as águas?
mais ninguém
conseguiu fazer o mesmo

mas
                       que tu
uma não-nadadora
nades contra a corrente
não é um milagre menos significativo



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea, Los Libros de la Frontera, Barcelona, 1998, p.101).

sábado, 10 de novembro de 2012

Mohammed El Abdallah

Esta



Esta cabeça sem dúvida vai matar-me.
Não pára de pensar.
Expliquei-lhe mil vezes a inutilidade dos pensamentos,
demonstrei-lhe as razões para desesperar,
mas ela não pára de pensar.
Digo-lhe: está bem,
pensaremos até que o pensamento se esgote.
Então ela adormece por fim apesar de si mesma,
e acorda manhã cedo,
acende um cigarro, toma o café antes de mim
e recorda as histórias de ontem e os pensamentos de ontem.
Lavo-a, e continua a pensar.
Penteio-a, e continua a pensar.
Envio-a ao barbeiro, e continua a pensar.
Mas quando quero pensar num problema que me extenua
ou em alguma coisa que me interessa,
ela geme de dor como se lhe estivesse a bater com um machado.
Esta cabeça vai matar-me.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río de incendia - Antología libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, pp. 39-40).

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Joanna Pollakówna

Canícula



Porquê esta tão longa prova de dor?
Primeiro assaltou-me a dúvida,
depois recuperei a confiança,
revoltei-me
e remeti-me ao silêncio da humildade.
Continuas a testar-me.
E a prova final parece sempre tão distante,
as complicações de sentido indecifráveis.

Na fogueira azul da canícula eterna
o teu amor nunca se inclina para a frieza;
não há refúgio nem meio de fugir.
Não há resposta
porque não há pergunta.



(Versão minha a partir da tradução francesa de Georges Lisowki reproduzida em Vingt-quatre poètes polonais, Éditions du Murmure, Neuilly-lès-Dijon, 2003, p. 125).

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Din Mehmeti

Tenho um pedido a fazer



Eu tenho um pedido a fazer
Que vai transformar uma pedra numa maçã,
Uma maçã num pássaro,
Quando a estrela souber o seu nome
Desvanecer-se-á num sopro de fumo.

Um pedido que envolve lágrimas
E vai transformar o pássaro numa bala,
A bala numa flor,
Túmulo após túmulo
Até que brote toda uma encosta.

É o suspiro da alma
Que arde na música
E nasce na sua própria morte.

Vamos empilhar os ossos, diz ela,
E erguer uma torre de amor
Pois o futuro solicitará de nós
Um farol para enfrentar a tempestade.



(Versão minha a partir dda tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; Northwestern University Press, Evanston - Illinois, 2008, p. 184).

sábado, 3 de novembro de 2012

Rainer Brambach

Vida quotidiana



Ir aonde tenha de ir
Plantar uma  árvore nova
Regar o jardim ainda que chova sem cessar
Engraxar os pneus
e testar os travões
Ler o jornal sem o desejo
de emigrar
Receber os amigos
Poder esquecer
Rosas ou galinhas?
Escrever poemas
e não fazer caso da música dos contrabaixos
do céu
que está azul ou encoberto.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Hans Leopold Davi reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporànea, Libros de la frontera, Barcelona, s/d., p 53.)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Fouad Rifka

Profissão



- Qual é a tua profissão?
- Pescador.
- E que pescas tu?
- Baleias.
- E onde estão as baleias?
- Nos mares onde as ondas são vulcões.
- Aí não há cordas nem rochas, só remos destroçados,
   e os faróis são mais profundos do que o silêncio.
- Eu sei.
- E apesar disso abandonas as praias?
- O país do poeta está no perigo.
- Ou na loucura.



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río se incendia - Antología de la poesía libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, p. 16).

domingo, 28 de outubro de 2012

Mohammed Ali Chamseddin

Desordem fascinante



Nessa pequena casa, a minha, rodeiam-me vinte mil poetas, cantando em vinte mil idiomas, ao mesmo tempo, um canto mesclado. Que prazer: não compreendo nada...



(versão minha a partir da tradução espanhola de Joumana Haddad reproduzida em Allí donde el río se incendia - Antología de la poesía libanesa moderna, Norteysur, Málaga, 2005, p. 31).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Lisel Mueller

Famílias felizes e famílias infelizes I



Se todas as famílias felizes são iguais,
também o são todas as famílias infelizes,
cujas vidas celebramos
porque estão cheias de movimento e ardor,
porque elas são aquilo que pensamos que a vida é.
Alguém mente e alguém está a ser
vítima de mentira. Alguém é agredido
e alguém é o sujeito da agressão.
Alguém reza, ou chora
porque não sabe como rezar.
Alguém bebe durante a noite;
alguém se encolhe nos cantos;
alguém ameaça e alguém suplica.
Palavras azedas à mesa,
soluços amargos no quarto;
represálias surdas no espelho da casa de banho.
A casa estala com segredos;
todos preparam o seu plano de fuga.
Alguém se desmorona sem produzir um som.
Às vezes, alguém sai de casa
numa maca, num silêncio terrível.
Quanta energia gasta em sofrimento!
É como um fogo que arde sem parar
mas não consegue arder até ao ponto da sua extinção.
As famílias infelizes nunca são indolentes;
estão sempre em acção,
ao contrário das outras, as felizes,
aquelas em que nunca se levanta a voz
ou se cospe sangue, aquelas que nunca
fizeram nada para merecer a felicidade que têm.



(Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems; Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 34).

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nicolai Kantchev

Acreditem ou não



A Mãe assoma na planície lá fora.

E, acreditem ou não, a montanha é arrastada
para sul pela Mãe.

Anos e anos passaram desde então,
mas aos olhos da Mãe eu continuo a ser tão pequeno

como uma semente de mostarda.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Jasche Kessler e Alexander Shurbanov reproduzida em This same sky - a collection of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 72).



sábado, 20 de outubro de 2012

Quando eu soube da morte do poeta Manuel António Pina


O dia já estava escuro
quando eu soube da morte do poeta
Manuel António Pina.

"Então isso faz-se?", perguntei,
incrédulo, ao escuro.

E acrescentei:
"Agora quem vai lembrar o nome do cão,
tactear as sombras dos livros,
aflorar o escândalo das nuvens
no céu?

Eu sei, o coração é um logro,
a beleza pura ilusão;
mas sem estas
e outras palavras, escuro,

como iluminar
cada segundo, cada promessa
inseparável da nossa vida?"

Então, caiu a noite.
E, significativamente,
o escuro optou por não me responder.


Luís Filipe Parrado

(19/20 de outubro de 2012)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Thomas Lux

Cadáveres haitianos



Harvard, Yale, não têm problemas em arranjar corpos,
tal como outras prestigiadas faculdades de medicina, mas escolas
menos afortunadas por vezes têm uma evidente falta de cadáveres

para desenvolverem o seu trabalho vital e sombrio: não se pode
usar um mais do que uma vez. Quanto aos cadáveres haitianos,
são os melhores naquilo que os cadáveres fazem melhor:

ficam sossegados na mesa anatómica para que os futuros
cirurgiões os possam dissecar. Uma vez resolvidos
os problemas de importação (os práticos: câmaras frigoríficas

de navios de pesca fora de serviço; os legais: poucos
antecedentes), o negócio é bom,
é mesmo visionário: 50.000 dólares americanos por peça,

o abastecimento é garantido, nunca escasseia, e a mais valia
que torna tudo tão suave - um verdadeiro
e inultrapassável sonho - é o estado em que se encontram

os corpos: tão magros, todos tão magros
que os órgãos estão mesmo rente à pele, esses órgãos
feitos para a lâmina com assombrosa tranquilidade.



(Versão minha; original reproduzido em New and selected poems (1975-1995), Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 111).

domingo, 14 de outubro de 2012

Lisel Mueller

A história



Contas uma história:
Como o Fogo faz da Água a sua mulher

É sempre assim, dizes tu,
os opostos atraem-se

Desejam penetrar um no outro,
ser um,
assim ele queima-a com todas as forças
e ela procura afogá-lo

É o chamado amor à primeira vista
e não dói

mas passado algum tempo ela chora
e diz que ele está a destruí-la,
ele grita que não consegue respirar
debaixo de água -

Agora criem vós o vosso próprio
fim, dizes tu às crianças,
e elas assim farão, assim farão



(Versão minha a partir do original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 145).

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ricardo Castro Ferreira


Retrato do artista enquanto jovem


domingo, 7 de outubro de 2012

Jaan Kaplinski

[Uma vez recebi...]



Uma vez recebi um postal das Ilhas Fidji
com uma fotografia da colheita da cana de açúcar. Percebi então
que nada é exótico por si mesmo.
Não há diferença nenhuma entre apanhar batatas no nosso jardim de Mutiku
e canas de açúcar em Viti Levu.
Tudo o que existe é realmente vulgar
ou, melhor dizendo, nem vulgar nem estranho.
Terras distantes e povos estrangeiros são um sonho,
uma divagação de olhos abertos
de que alguém não vai acordar.
É o que se passa com a poesia - vista à distância
parece qualquer coisa de especial, misteriosa, festiva.
Não, a poesia é ainda menos
especial do que uma plantação de cana de açúcar ou um campo de batatas.
A poesia é como a serradura produzida por uma serra
ou como o rasto fofo e amarelo de um avião.
A poesia é lavar as mãos à noite
ou esse lenço - limpo - que a minha tia (agora morta)
nunca se esquecia de pôr no meu bolso.



(Versão minha a partir da tradução inglesa do próprio autor, de Riina Tamn e Sam Hamill reproduzida em The same sky - a collection of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 9).

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Miron Bialoszewski (1922-1983)

Auto-retrato com alegria




Não pensem que sou infeliz.
Alegro-me por pensar.
Pensem que sou alegre.

A consciência é uma dança alegre.
A minha consciência dança
          diante da candeia da chuva
          diante das ruínas do muro
          diante do armazém de comida repleto de cabeças de couve
          diante das bocas dos meus amigos que falam
          diante da minha própria mão inesperada
          diante da escultura inacabada da realidade -
Na sumptuosidade do mais belo jogo
e da elevação do sacrifício religioso
idissoluvelmente
a minha consciência dança.

E quando a dança se interromper
como todos os flocos
irei para o céu -
onde nada se sente,
onde estava no princípio, antes de nascer,
onde estarei até ao fim, quando já não existir mais,
ali - que alegria indescritível.

...
É tudo.



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em Vingt-quatre poètes polonais; tradução de Georges Lisowski, Éditions dum Murmure, Neully-lès-Dijon, 2003, pp. 74-75).


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Abel Feu

Futebolista



Se soubesse o que sei hoje, futebolista.

Um desportivo foleiro e uma loira
ainda mais foleira à saída
dos treinos. Um brinco
na orelha esquerda e uma franja
tenaz que cai e volta a cair sobre os olhos
e que desvio - que pinta! - com esse gesto
que até os putos imitam...
                                         Enfim, vida
da boa, anúncios, golos, entrevistas,
uma vasta mansão, autógrafos e coisa e tal...

Juro-o: futebolista. Não estes versos
ordinários e prosaicos. Não estes anos
filhos da mãe. Nem as conjecturas. Nem esperar
que nunca nada aconteça...
                                           E não
poeta, não, não!, sobretudo nada de poeta,
antes outra coisa qualquer em vez deste tótó
que se põe a olhar para o que faz: a lamentar-se muito
de si mesmo, a exibir a roupa suja,
este striptease grotesco, que vergonha.



(Versão minha; original reproduzido em Feu de erratas, Renacimiento, Sevilha, 1997, pp. 49-50).

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Lisel Mueller

Triagem



Bertolt Brecht lamentava ter vivido numa época em que era quase um crime falar de árvores, porque isso significava ficar calado em relação a tanto mal existente. Caminhando numa zona cheia de olmos enormes, ainda saudáveis, junto ao lago de Chicago, penso no que Brecht disse. Eu quero celebrar estes olmos poupados às pragas, estes sobreviventes de uma tribo outrora florescente e comemorada por todas as Elm Streets* da América. Mas celebrá-los significa ficar em silêncio em relação às pessoas que se sentaram e dormiram debaixo deles, aos pobres sem-abrigo que foram arrastados para fora da cidade como lixo, com a diferença de que não havia sítio para os despejar. Pois falar de uma coisa implica omitir outra. Quando falo de mim própria não posso falar de ti. E tu apercebes-te disso enquanto me escutas, a desilusão estampada no rosto.
 
 
 
(*Rua(s) dos Olmos. Versão minha; original reproduzido em Alive together - new and selected poems, Louisiana State University Press, Baton Rouge, 1996, p. 127).

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Kurt Marti

O pão nosso de cada dia



O pão nosso de cada dia
nos dai hoje
para que não só
por pão
tenhamos de estilhaçar o peito
para que não tenhamos
de sofrer qualquer chantagem da parte dos patrões
que nos dão o pão
para que não tenhamos
de nos tornar dóceis
com medo de perdermos o nosso pão



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporànea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/., p. 99).

domingo, 23 de setembro de 2012

Salih Boat

O meu quinhão



toda a gente anda ocupada com alguma coisa
a avó a fiar lã
com as suas mãos secas e enrugadas como pepinos
deixados no campo
depois das sementes lhes terem sido extaídas,
está ocupada com alguma coisa;
o negociante que compra e vende terras
e o estudante que é avaliado
nas matérias que não lhe foram ensinadas
estão ocupados com alguma coisa;
o caixa do banco que se questiona sobre a relação
entre as suas mãos e o dinheiro que conta sem parar
e o adminsitrador que ontem casou a filha mais velha,
o piloto que se prepara para um novo voo
com a sua mala que já viu tantos países,
o bombeiro que passou um dia descansado
com as suas memórias de incêndios,
o trabalhador que acorda para fazer o turno da noite
e a sua raiva adormecida,
a galinha na capoeira anda ocupada com alguma coisa
preparando-se para os pintaínhos que parecem algodão-doce,

e o que sobrou para mim foi escrever poesia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Yusuf Eradam reproduzida em This same sky; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 180).

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Dahlia Ravikovitch

Orgulho



Digo-te, até as rochas se partem,
e não é por causa do tempo.
Durante anos mantém-se deitadas de costas
no calor e no frio,
durante tantos anos
isso quase parece pacífico.
Não se mexem, por isso as fendas permanecem escondidas.
É uma espécie de orgulho.
Os anos passam sobre elas, e elas aguardam.
Seja o que for que venha despedaçá-las
ainda não chegou.
E assim o musgo cresce, as algas
chicoteiam à sua volta,
o mar avança sobre elas e retrocede -
as pedras parecem imóveis.
Até uma pequena foca vem esfregar-se contra elas,
chega e vai-se embora.
E de súbito a rocha tem uma ferida aberta.
Eu disse-te, quando as rochas se quebram, isso acontece de súbito.
Tal como as pessoas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Chama Bloch e Ariel Bloch reproduzida em This same sky - a colletion of poems around the world, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paper, Nova Iorque, 1996, p. 181).

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Werner Bucher

Rogativa



Mörike, tu que estás
nos céus
roga por mim para que
escreva melhores poemas
do que tu
e não gire eternamente (como
tu tão maravilhosamente
giraste)
em torno do mesmo tema, sim,
Mörike,
roga por mim
para
que tenha mais sorte
no amor
do que tu
e para que não termine,
como tu,
a minha vida com o canto dos lábios descaído,
também te rogo
para que eu,
ao contrário de ti,
volte a acreditar em Deus
e que por detrás
do Papa actual
e dos milhares de movimentos de redenção
reconheça ainda o divino, roga
por mim, Mörike, para que
eu escreva
sem invejar os colegas
e as colegas mais célebres
e que todos os que
amo
cheguem aonde
querem chegar e que
os meus inimigos e adversários
não sejam atropelados
por carros, rogo-te ao mesmo tempo para que
a vida traga alegria
a todos quantos ofendi
e que o mau músico
que atropelaram
em Oberegg
ao sair do autocarro dos correios
aprenda agora
no céu de Elvis,
Bruckner e Beet-
hoven o que é boa música
e ao mesmo tempo rogo-te
que me protejas nas minhas viagens de scooter
pela região de Appenzell
e que o inesperado
se torne no esperado, também
te rogo para que preserves
o mundo dos déspotas,
feministas, políticos
e outros dirigentes, para que
suprimas a miséria
em todos os nossos mundos
arrancando os solitários
à sua solidão, os velhos
aos seus asilos
e centros de assistência,
para que cures as crianças
doentes de cancro e de sida e para
que ajas de forma a que
tu e Hölderlin, Pavese
e Alfonsina Storni, Gabriela
Mistral, Lenau e Van Gogh
se encontrem de imediato
sobre uma nuvem
na qual uma paz verdadeira
cubra as vossas almas,
sim, Mörike,
poupa-nos a Papas, arcebispos,
campos de entretenimento e a todos
esses políticos fariseus à maneira de
Helmut Kohl e Adolf Ogi,
e roga a Deus para que
ponha fim, por fim,
à ordem no mundo.
Pois então ondeará
(pelos ares) a fita azul
e todos nós saberemos
para que serve a dor, para que serve a alegria.
Roga por nós, Santo
Mörike, tal não
prejudicará a tua fama e
fará de ti um homem
que é mais do que apenas
um grande poeta.
Neste sentido, Mörike,
agora digo amén,
e louvo o Senhor.
Deus esteja contigo,
eternamente e para sempre.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; ed. bilingue; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi; Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., pp. 209-217).
 
 
 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Ewa Lipska

[Não fui salva...]



Não fui salva pela inundação
contudo mais de uma vez toquei o fundo

Não fui salva pelo incêndio
contudo ardi durante anos

Não fui salva pelas catástrofes
contudo comboios e automóveis passaram por cima de mim

Não fui salva pelos aviões
que explodiram no ar comigo a bordo

Os muros das grandes cidades
desmoronaram-se sobre mim

Não fui salva pelos cogumelos venenosos
nem pelas balas precisas dos pelotões de execução

Não fui salva pelo fim do mundo
que não teve tempo de se ocupar de mim

Nada me salvou

EU VIVO



(Versão minha a partir da tradução francesa de Georges Lisowski reproduzida em Vingt-quatre poètes polonais, Éditions du Murmure, Neuilly-lès-Dijon, 2003, pp. 128-129).

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Albert Ehrismann

[Ontem vi...]



Ontem vi um cavalo
a rezar.
Não me pergunte como e onde,
porque estou a mentir.
Mas eu queria sinceramente ver um cavalo
a rezar
e rezar com ele
por ti.
Porque te amo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida na Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi; edição bilingue; Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d, p 29).

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Günter Kunert

Inquietações



Aquele que decidiu viver
Tem de saber porque acordou
Na noite passada, para onde
Vai hoje rua após rua,
Com que propósito caiará amanhã
De branco o seu quarto.

Terá havido um grito?
Há uma finalidade?
O lugar será seguro?



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Christopher Middleton reproduzida em East Germany Poetry - an anthology; selecção de Michael Hamburguer, Carcanet Press, Oxford, 1972, p. 93).

domingo, 2 de setembro de 2012

Albert Ehrismann

Dura lição para escritores



Acredita que pode mudar o mundo?
Não.
Então por que escreve?
Porque não o posso mudar.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida como texto de abertura da Antología de la poesía suiza alemana contemporánea; selecção, tradução e introdução de Hans Leopold Davi, edição bilingue alemão/castelhano, Los Libros de la Frontera, Barcelona, s/d., p. 5)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Edip Cansever

Mesa



Transbordando de felicidade por estar vivo
Um homem põe as suas chaves sobre a mesa,
Põe flores numa jarra de cobre sobre a mesa.
Coloca os seus ovos e o leite sobre a mesa.
Coloca sobre ela a luz que entra pela janela,
O som de uma bicicleta, o som de uma roda de fiar.
A brandura do pão e do tempo é ali colocada por ele.
Sobre a mesa o homem põe
Coisas que aconteceram na sua mente.
O que deseja fazer na sua vida.
Coloca lá tudo isso.
Aqueles que amou e os que não amou,
O homem coloca-os também sobre a mesa.
Três vezes três são nove:
O homem coloca nove sobre a mesa.
Ele esteve junto à janela, próximo do céu;
Estendeu e colocou coisas sem parar na mesa.
Foram tantos os dias em que quis beber uma cerveja!
Ele coloca sobre a mesa o líquido derramado dessa cerveja.
Coloca nela o seu sono e a sua insónia;
A sua fome e a sua saciedade são nela colocadas por ele.

É a isto que eu chamo uma mesa!
Algo que nunca se queixa minimamente da sua carga.
Cambaleou uma ou duas vezes, depois manteve-se firme.
O homem continuou a acumular coisas sobre ela.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Richard Tillinghast reproduzida em The flag of childhood - poems from the middle east; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque; 2002; p. 31).

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Fernando López de Artieta

Piscina pública



Risos
        gritos
                rumor
de conversas sobre a relva
                jogadores de cartas
leitoras obstinadas
beijos
         ainda inocentes
de frescos adolescentes
bandos de garotos à beira da piscina
meninas
            flexíveis
                        como
juncos
jovens imigrantes
                          exibindo
                                        saltinhos acrobáticos
jovenzitas
mostrando a sua nudez explícita
(ninguém lhes explicou - coitadas -
que tapadas excitariam muito mais)
vaporizadores de bronzeado
que surgem
                 aqui
e ali
      como géiseres simpáticos

e o deus Sol que cruza lentamente o dia
dourando por igual
miúdos
gordas carecas
mamalhudas saloios
estrangeiros donas de casa condutores de domingo
mirones engatatões anoréticas culturistas
que
no final da tarde recolhem as suas coisas

                cansados
                                      esgotados
                                                              desfeitos
sorrindo

enquanto a sombra negra dos prédios
avança inexorável sobre a água...



(Grosso modo; La Isla de Siltolá, Sevilha, 2011, pp. 67-69).

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Ingemar Leckins

Preso



Vivi toda a minha vida dentro de um coco.
Era escuro e apertado,
especialmente de manhã quando precisava de me barbear.
Mas o que me custava mais era não ter maneira
de entrar em contacto com o mundo exterior.
Se não se desse o caso de alguém descobrir o coco,
se ninguém o partisse, então eu estaria condenado
a viver toda a minha vida dentro dele, e talvez até de morrer dentro dele.
          Morri dentro do coco.
Alguns anos depois encontraram-no,
partiram-no e descobriram-me encolhido e enrugado lá dentro.
          "Que desastre!"
          "Se o tivéssemos descoberto só um pouco mais cedo..."
          "Talvez assim o pudéssemos ter salvado."
          "Talvez haja por aí mais alguns presos como ele,"
disseram, e começaram a partir em bocados cada coco
que apanhavam.
           Inútil! Sem sentido! Uma perda de tempo!
Uma pessoa que escolhe viver num coco!
Uma pessoa como essa é um caso num milhão!
                    Mas eu tenho um cunhado que
          vive numa
          bolota.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de May Swenson reproduzida em This same sky, organização de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 152).

sexta-feira, 27 de julho de 2012

De fio a pavio



Alexandra Lucas Coelho - A. M. Pires Cabral - Ana Cássia Rebelo - Ana Salomé - Carlos Mota de Oliveira - John Mateer - Luís Filipe Parrado - Manuel Filipe - Manuel Paes - Maria da Conceição Caleiro - Pedro S. Martins - Ricardo Álvaro - Rui Miguel Ribeiro - composição e paginação de Inês Mateus - tea for one - Lisboa - 2012 - 24 páginas - pedidos & informações: t41editores@gmail.com

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Vasyl Holoborodko

Queria ser uma pessoa



Para não ter de dançar - amputou uma perna
(deixou até de visitar os amigos),

para não combater e gesticular indecências - arrancou os dedos
(era incapaz até de tirar a pele a uma maçã),

para não ouvir palavras obscenas - arrancou as orelhas
(deixou também de ouvir as belas),

para não lhe chamarem narigudo - torceu o nariz
(e ficou com ele achatado),

para não ver os sapos - furou os olhos
(já não pode contemplar as rosas),

para que não lhe escapasse alguma incoerência - cortou a língua
(também não teve mais palavras gentis para a amada).

Cada dia que passava
fazia uma operação plástica ao corpo
para ficar igual aos outros, a todos os outros.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Ed. UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 175).

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Deitar a língua de fora




Abel Neves - Alexandre Sarrazola - António Barahona - David Teles Pereira - Diogo Vaz Pinto - Inês Dias - Jaime Rocha - Luís Filipe Parrado - Rosa Maria Martelo - Rui Caeiro - Tiago Araújo - ilustrações de Luís Henriques  - Lingua Morta - Lisboa - 2012 - 92 páginas - pedidos & informações: edlinguamorta@gmail.com

domingo, 22 de julho de 2012

Christine M. Krishnasami

[ao lado de um pedra...]



ao lado de uma pedra com três
mil anos duas
papoilas de hoje



(Versão minha; original reproduzido em This same sky; selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbacks, Nova Iorque, 1996, p. 100).

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Tarapada Ray

O irmão do meu bisavô



O irmão do meu bisavô tinha um passatempo peculiar -
Costumava coleccionar penas
          de diferentes pássaros
          de diferentes cores, de diferentes sítios.
O seu quarto, o corredor, a escada
Estavam cheios de milhares de penas coloridas e descoloridas.

No dia da sua morte
Um pouco antes do sol nascer, de madrugada,
O irmão do meu bisavô
          subiu ao telhado da sua casa
E lançou as penas para o ar da manhã.
As penas flutuaram nos raios dourados
          do sol nascente.
Algumas cairam por perto.
Outras foram para longe.
Outras ainda voaram até à eternidade, pelo céu.

Não, não é possível escrever uma história
          sobre este assunto
Mas algumas dessas penas continuam a voar
          pelo céu.



(Versão minha a partir da tradução inglesa do autor reproduzida em This same sky, selecção de Naomi Shihab Nye, Aladdin Paperbaks, Nova Iorque, 1996, p.56).

terça-feira, 17 de julho de 2012

Xuan Bello

Variações sobre o meu nome



Tu,
que poderias ser João Velho
na claridade azul de Sintra.
Lá longe, distante e amigo,
pressentes o teu senhor El-Rei
dom Sebastião.

Tu,
que percorres terras remotas
e a quem chamam Jean Vieilh.
Recordas aqueles dias
tão tristes em Auvergne
enquanto escutas pela primeira vez
- imensa e rara -
a voz do deus do rio:
Mississipi.

Tu,
John Oldman,
pirata em Tortuga:
o próprio Henry Morgan
há-de dar-te um tiro.

Tu,
que serias Juan el Viejo
lá nas terras de Sória:
lavram nos campos os bois
no outono do Criador.

E tu,
que estranho,
chamar-te Xuan Bello
e estar aqui, em Oviedo,
passando visões obscuras
para o claro asturiano.
Saber que a tua pátria
fica sempre noutro sítio:
ali onde não estás.



(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana do autor reproduzidos em Toma de tierra - Poetas en lengua asturiana: Antología (1975-2010); organização de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, 2010, pp. 475-477).

domingo, 15 de julho de 2012

Fatos Arapi

Esses que continuam a amar



Esses que não têm que comer,
Quando sonham com comida
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que não têm fogo,
Quando sonham com o fogo
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Os insones deste mundo
Com os olhos abertos como a noite
No abismo das suas noites
Deixem-nos pensar em mim e em ti.
Esses que já morreram
E continuam a amar -
Deixem-nos pensar em mim e em ti.



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 178).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Berta Piñan

À maneira de Szymborska



Chegados a este ponto
talvez tudo devesse ser mais simples,
a palavra lua não deveria nomear nada mais
do que a lua,
e os rios deveriam seguir até ao seu destino
sem serem alterados
pelas metáforas.
Talvez a palavra solidão não devesse
significar outra coisa além da ausência
de acontecimentos
e a palavra silêncio pudesse servir só
para calar os ruídos.

Com a língua talvez tudo devesse ser
mais simples, sem voltas
nem requebros, deixando-nos
com duas ou três questões
para seguir em frente:
um porquê, algum não sei.
E, depois, fechar a porta
que, neste caso,
deveria significar unicamente
fechá-la.



(Versão minha a partir do original asturiano e da tradução castelhana da autora reproduzidos em Toma de tierra - poetas en lengua asturiana: antología (1975-2010); selecção de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, p. 445).

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Eqrem Basha

Menu Balkânico



Não ponhas a mesa, querida
Vamos jantar fora
Sair cedo
E voltar tarde
A vida aqui na Europa mudou
Vamos lá, querida, vamos sair
Beber ponche
No Admiral Bar
E um coupe royale
Na esplanada do Café Montreal
Na sala de bilhar do Benny
Tentaremos as carambolas de costas
Beberemos um cappucino
Na Cafetaria Marilyn
E um martini com azeitona no Florida Club
Não ponhas a mesa, querida
Vamos jantar fora
Na Pizzaria Miami
Comer uma pizza New Jersey
Um escaloppe viennense no Restaurante Roma
E depois iremos ao Parma's
Para uma coupe macédonienne
E quando se fizer tarde
Voltaremos para casa
Para esvaziarmos os intestinos
Numa latrina balcânica.



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - an anthology of albanian poetry, organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 218-219).

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Dorianne Laux

Histórias de famílias



Tive um namorado que me contava histórias da sua família,
uma vez uma discussão acabou com o pai dele
a agarrar num bolo de aniversário todo enfeitado com as duas mãos
e a atirá-lo pela janela do segundo andar. Isso,
pensei, é o que acontece numa família normal: raiva
arremessada pelo parapeito da janela, aterrando como um presente
que vai decorar o passeio lá em baixo. Na minha,
eram punhos e golpes directos contra a boca do estômago,
e nunca ninguém perdoou a ninguém. Mas, nas histórias dele, eu
acreditava que as pessoas se amavam verdadeiramente umas às outras,
mesmo quando berravam e forçavam as portas dos armários
com os pés, ou levantavam uma cadeira como se fosse uma garrafa
de espumante barato, martirizando uma parede,
os degraus explodindo nos seus espaços vazios.
Disse-lhe que isso me parecia inofensivo, a pompa e a fúria
dos apaixonados. Ele respondeu que fôra uma maldição
ter nascido italiano e católico e quando olhou
pela janela o que viu foi esse momento
barbaramente destruído. Em contrapartida, tudo o que eu pude ver
foi um maravilhoso bolo de três andares a deslizar como um navio
maltratado até ao passeio, as velas partidas, afundando-se
cada vez mais no gelo, algumas ainda a arder.



(Versão minha; o original pode ler-se aqui).

terça-feira, 3 de julho de 2012

Nel Amaro

Declaração de princípios


Para Oski S.



Um homem fala em inglês
(esse homem é meu irmão).

Outro homem fala em asturiano
(é meu inimigo).

O primeiro homem é um mineiro
(norte-americano).

O segundo homem é um patrão
(asturiano).

Nem sempre a língua nos
faz irmãos.



(Versão minha a partir do original em asturiano e da tradução castelhana do autor reproduzidos em Toma de tierra - poetas en lengua asturiana: antología (1975-2010); selecção de José Luis Argüelles, Trea, Gijón, 2010, p. 71).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Vasyl Holoborodko

Labirinto



O autocarro vermelho há-de deter-se
e eu encontrar-me-ei no labirinto:
levarei muito tempo a descer os degraus,
gastando a sola dos sapatos,
pelo que irei à procura de um sapateiro,
entrarei com os pés descalços
pisando a pedra fria
e a desorientação será ainda maior.

Desesperado hei-de sentar-me nas escadas,
abrirei o jornal e começarei a ler
para encontrar a saída deste labirinto.
Então descobrirei um sinal:
talhado à mão indica a direcção que devo tomar;
penso, com uma alegria indizível, que eu sou o guia
e novamente hei-de pôr-me a caminho
perdendo cada vez mais a orientação.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Ed. UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 178).

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Edward Hirsch

Eu nunca fui capaz de rezar



Guia-me até ao porto
onde o farol jaz abandonado
e a lua range nas vigas de madeira.

Deixa-me ouvir o vento chamar por entre as árvores
e ver as estrelas irromperem, uma a uma,
como os rostos esquecidos dos mortos.

Eu nunca fui capaz de rezar,
mas deixa-me gravar o meu nome
no livro das ondas

e depois olhar intensamente a cúpula
de um céu que não tem fim
e ver a minha voz navegar pela noite dentro.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Jillena Rose

Taos



No deserto é mais fácil encontrar ossos
do que flores, por isso pinto-os:
belos e claros crânios de cavalos e vacas.

Quando me estendo sob as estrelas
na parte traseira do carro, com os coiotes a uivar
nos pinhais, é fácil sentir como estes ossos
são tão tal e qual os meus: eis a minha pélvis
tão parecida com a pélvis que encontrei hoje
polida pelo sol e pela areia. A mesma
cavidade onde o quadril deveria encaixar, a mesma

curva branca de osso debaixo da minha carne,
o mesmo berço de vida, sereno e silencioso em mim.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 23 de junho de 2012

Wendy Videlock

Desarmada



Eu devia ser determinada e firme,
eu sei que devia, e mostrar uma cara feia;
mais uma vez falhaste na limpeza do teu quarto.
E não é só isso, também as provas
do saque da meia noite na tua cama -
cascas de amendoins partidas e m&m's
esmigalhados no sítio onde pousaste a cabeça
e, um pouco acima, o parapeito
está sobrelotado com uma girafa verde
(que espreita através do teu telescópio),
peças de dominó e um copo meio cheio
de sumo de laranja. Minha criança esfomeada,

como posso eu sentir-me desencantada com tudo isto,
este teu mundo secreto, esta tua maravilhosa desarrumação?



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Begoña Paz

A Branca de Neve envelhece



Nunca imaginei
cabelos brancos
no meu
púbis.



(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger; selecção de David González, prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby Editores, Madrid, 2010, p. 271).

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Vasyl Holoborodko

[Detestáveis sementes de erva...]



Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva

Depois de tudo morreremos uma vez,
não somos eternos nem imortais (a matéria não desaparece
em contrapartida nós sim: eu, tu, ela, a amante, o irmão, os outros),
e qualquer semente de erva: de tomilho, sinuosa como uma áspide,
espera a nossa morte (morreremos uma vez)
para se fundir com o nosso corpo alheio exangue
(no qual fomos nós: o meu, o teu, o dele, da amante, do irmão, dos outros)
e crescerá e florescerá e dará sementes
para aguardarem então a morte dos demais (não a nossa),
porque as sementes de erva são imortais, porque são sementes de erva.

Detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva
detestáveis sementes de erva



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una icinografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 174).

sexta-feira, 15 de junho de 2012

David Turkéltaub

O tempo corre



Que queres dizer com isso de que o tempo corre?
Corre a nosso favor ou corre
separando-nos? Os cinquenta
beijos de ontem à noite, e da noite anterior,
correm no sentido dos ponteiros
do relógio, ou no outro sentido?
Perdi a conta.
Somos dois, dizes-me, e o tempo
corre: ontem éramos um só
e caminhávamos a passo de tartaruga.



(Versão minha; original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodríguez; prólogo de María Nieves Alonso, Diputación de Huelva, Huelva, 2001, 1º volume, p.119).

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Ester García Camps

Identidade



esta tarde,
enquanto a telefonista
soletra os meus dados pessoais
do outro lado
do auricular,
tenho de lhe lembrar
que ester
é ester

mas sem h.

que Camps é como Campos
mas em valenciano
e que, além disso,
esse é o meu segundo
apelido,
o primeiro é García

com acento no i.

é importante
não esquecer o meu nome

uma pessoa tem de poder dizer
quem é
mesmo que na realidade

não o saiba ainda.



(Versão minha; original reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generacíón blogger; selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 58).

domingo, 10 de junho de 2012

Dave Etter

Roma Higgins

Grilo



Durante uma semana inteira
um grilo andou pela cave,
algures entre
a fornalha
e o estojo de críquete.
Eu gostaria de ter ido lá abaixo
todas as noites
para o ouvir trinar.
Ele daria pelos meus passos
e interromperia
a sua música mágica.
Logo depois começaria
de novo a cantar.
Isto seria assim
e eu falaria com ele
e seria seu amigo.
Mas esta noite
na cave
só encontrei um silêncio gelado
e uma aranha
a tecer uma mortalha
junto à janela.



(Versão minha; original reproduzido em Illinois voices - an anthology of twentieth-century poetry, organização de Kevin Stein e G. E. Murray, University of Illinois Press, Urbana e Chicago, 2001, p. 98).

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Xhevahir Spahiu

Acordar tarde



Acordar tarde significa
Encontrar as flores sem orvalho, as pétalas caídas.
Acordar tarde significa
Que o amor deixou para trás uma marca indistinta.
Acordar tarde significa
Que a morte assinou longamente os teus documentos.

Mas acorda ainda assim.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 213).

terça-feira, 5 de junho de 2012

Karmelo C. Iribarren

A condição urbana


                                           Para Roger Wolfe



Detesto autocarros. A boa
educação que nos obriga
a ceder os lugares sentados
a essas senhoras
que até que se sentem
pode dar-lhes
qualquer coisa fatal.
Os empurrões. Os cheiros. Que ninguém
fume e tenhamos de aguentar
todos os pormenores
do enfarte
que deu a não sei quem.
Os anúncios publicitários
nas partes laterais.
As travagens. E muitas
outras coisas que agora calo
porque desço aqui.



(Versão minha; original reproduzido em Seguro que esta historia te suena - Poesía completa (1985-2005), Renacimiento, Sevilha, 2005, p. 37).

domingo, 3 de junho de 2012

David Turkéltaub

A poesia serve para tudo




A poesia serve para tudo: substitui a anestesia
no dentista e não tem efeitos secundários.
Em doses muito concentradas (p. ex. Keats + Vallejo) pode provocar calafrios
[na espinal medula,
estremecimentos, palidez
e uma sensação de caminhar no vazio.
Nesses casos recomenda-se que se deixe uma flor seca entre as folhas
assinalando o culpado até que outra alma piedosa
daqui a cem anos
arrisque a pele na aventura.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; prólogo de María Nieves Alonso; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodriguez, Diputación de Huelva, 2001, p. 122)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Floridor Pérez

Para traduzir não é preciso saber línguas



Escreveu um lendário poeta chinês da dinastia Tang:
Abandona a tempo a tua poesia ou a tua mulher.

Um académico traduziu:
terminou o tempo da poesia amorosa.

E um psicanalista:
chega um tempo em que as pernas da mulher
deixam de ser um livro aberto.

Então vim eu
e abandonei-me o tempo todo
à minha poesia e à minha mulher.

Que era exactamente o que tinha querido dizer
o lendário poeta chinês
da dinastia de Li Po.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Informe para extranjeros - Antología de poesía chilena contemporánea; prólogo de María Nieves Alonso; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodríguez, Diputación de Huelva, 2001, p. 130).

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Besnik Mustafaj

Poema profético



Se, em vez de Cristo e de Maomé,
A Bíblia e o Corão
Falassem do destino trágico de Tristão e Isolda,
Amantes exemplares,
Mortais neste pequeno planeta,
Seria muito mais difícil negar
O conceito de divino.



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry; organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 241).

sábado, 26 de maio de 2012

Pak Tujin (1916-1998)

Livro de poemas



Um livro de poemas aberto na areia
branco diante do mar azul.
O vento virava-lhe as páginas,
amarrotava-as uma após outra.
As palavras ardentes desse livro gravaram no seu interior
um coração belo e triste.
E essas palavras impressas transformaram-se em pássaros, começaram a voar.
Uma, depois outra;
cem, mil palavras,
alto, mais alto, cintilando, elevando-se até ao céu,
poemas brancos de pássaros, pássaros de poemas.
Trémulas pétalas de flores caíam do céu.
E esses pássaros que recitavam poemas no céu
esqueceram-se, incapazes de dizer os versos que sabiam
transformaram-se em flores a cair sobre o mar.
Então tornaram-se estrelas no céu distante.
Esses pássaros que recitavam poemas no céu
os mais belos e tristes
poemas do mundo
- recitavam os poemas do livro de modo tão fulgurante
que agora brilham, estrelas no mundo das estrelas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Edward W. Poitras reproduzida em The Columbia anthology of modern korean poetry, edição de David R. McCann, Columbia University Press, Nova Iorque, 2004, p. 126. Esta versão é dedicada a Amélia Pinto Pais).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Vasyl Holoborodko

[És como a areia...]



És como a areia
aperto com mais força os meus dedos.

És como um pequeno pássaro
construo para ti uma gaiola.

És como a água do rio
procuro para ti um cântaro.

Mas tu já és bosque
Mas tu já és campo
Mas tu já és caminho.



(Versão minha a partir da tradução castelhana reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iury Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 180).

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Dmitry Prigov

Diálogo nº 5



Estaline     Não há felicidade na terra!
Prigov       Não há felicidade!
Estaline     O que é que há então?
Prigov       O que é que há?
Estaline     Há Estaline!
Prigov       Há Estaline!
Estaline     E o que é Estaline?
Prigov       E o que é?
Estaline     Estaline é a nossa glória militar!
Prigov       Glória militar!
Estaline     Estaline é a maior inspiração da nossa juventude!
Prigov       A maior inspiração da juventude!
Estaline     Cantando nas batalhas e nas vitórias!
Prigov       Vitórias!
Estaline     O nosso povo segue Estaline!
Prigov       Segue Estaline.
Estaline     E o que mais é Estaline?
Prigov       E o que mais?
Estaline     Os três princípios principais.
Prigov       Os três princípios principais.
Estaline     E o que mais é Estaline?
Prigov       E o que mais?
Estaline     As cinco grandes ideias!
Prigov       As cinco grandes ideias!
Estaline     As oito grande letras!
Prigov       E como seria se deixássemos cair uma letra?
Estaline     Como seria?
Prigov       Seria Staline!
Estaline     Staline!
Prigov        E se deixássemos cair outra?
Staline       Outra?
Prigov        Seria Taline!
Taline        Taline!
Prigov        E se deixássemos cair outra?
Taline        Outra?
Prigov       Seria Aline.
Aline         Seria Aline!
Prigov       E se deixássemos cair ainda outra?
Aline         Outra?
Prigov       Seria Line.
Line          Seria Line!
Prigov       E outra?
Line          Outra?
Prigov      Seria Ine.
Ine            Ine?
Prigov       E outra?
Ine            Outra?
Prigov       Seria Ne!
Ne             Seria Ne!
Prigov       E outra?
Ne             Outra?
Prigov       Seria E!
E               Seria E!
Prigov       E outra?



(Versão minha a partir da tradução inglesa de J. Kates reproduzida em In the grip of strange thoughts - Russian poetry en a new era, selecção e organização de J. Kates, Bloodaxe Books, Newcastle, 1999, pp. 261-263).

sábado, 19 de maio de 2012

Karel Bofill Bahamonde

(vendo desenhos animados soviéticos)



vejo de novo desenhos animados soviéticos
e escuto vozes que não posso compreender
vozes que me recordam a estranha tristeza
em que crescemos
comendo como soviéticos
vestindo como soviéticos
vendo desenhos animados soviéticos como crianças soviéticas
pensando que o mundo estava numa revista Misha(1)
sem saber que Koniec(2) era o fim
que se aproximava



(Versão minha; o original aparece reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos, selecção e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdova, 2011, p. 87. Notas: (1) Revista infantil soviética; (2) "Fim" em polaco).

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dritëro Agolli

Coisas simples mas úteis



Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
Terá sempre alguma utilidade para um cego,
É bom para o coxo, exausto pela caminhada,
E benéfico para qualquer um quando atacado pelas hordas.

Um bordão, seja macio, torto ou nodoso,
É valioso para se usar tanto fora como em casa,
Em casa para te defenderes de vizinhos coléricos,
Fora para te precaveres dos cães raivosos e vadios que erram pelos caminhos.

Um bordão pode parecer belo ou feio,
De qualquer modo será útil ainda para outras coisas,
Precisas dele para sacudires o pó das tuas malas,
Para bateres às portas quando não há campainha.

Um bordão é um recurso necessário a um polícia,
É apreciado pelo director de uma prisão cheia de humidade,
Um bordão foi usado pelo apóstolo São Pedro
E uma vez pelo cego Homero privado de uma candeia.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 182).

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Xhevahir Spahiu

Tradução do rio



Sento-me e traduzo o rio,
É difícil reproduzir
Esta coisa líquida,
São precisas palavras raras,
Expressões firmes,
Ritmos eternos,
Uma centena de fontes em uníssono
A contar de novo um mito antigo.
Durante toda a noite traduzi o rio.
De manhã
A minha versão tinha desaparecido.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathier-Heck reproduzida em Lightning from the depts - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 213).

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Yunier Riquenes García

[Se vão continuar...]



Se vão continuar com os discursos que não seja com
palavras, que seja com a boca cosida, com as mãos
amarradas, com as pernas mutiladas, com os olhos
fechados. Se vão continuar com os discursos então
que arranquem o coração com a ponta de uma
pedra, que abram o peito. Se vão continuar com
os discursos, se por acaso os puderem continuar.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos; selecção e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 87).

terça-feira, 8 de maio de 2012

Teresa Fornaris

A porcelana partida



A porcelana partida
caiu outra vez
Recolho as partes
emendo-as
e volto a colocá-la à beira da mesa.



(Versão minha; original reproduzido em Dejar atrás el agua - Nueve nuevos poetas cubanos; edição e prólogo de Fruela Fernández e Juan Antonio Bernier, La Bella Varsovia, Córdoba, 2011, p. 33).

domingo, 6 de maio de 2012

Azem Shkreli

Anátema



Porque eu tinha saibro antigo, orvalho arcaico
Nas sobrancelhas, vinho na garganta do meu pássaro e porque
Um mais um são dois, como duas armas, duas mulheres,
Duas pedras brancas sobre a cabeça de cada homem avisado,
Porque não houve nenhuma ferida deste lado do rio,
Houve pontes, ervas medicinais e paz, e porque
Eu beijei a terra doce com os meus grossos lábios neolíticos,
Porque eu tirei do inferno a minha flauta e toquei-a
À minha maneira, assustando nuvens e corvos, porque
Semeei a minha sombra no sol, e porque
Tinha lume na minha lança, centeio no cabelo, fios de cinza
Em igrejas, em tempos, em sepulturas, porque eu tinha sangue
E a minha flauta de folhas falava, eles amaldiçoaram-me.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 200).



quinta-feira, 3 de maio de 2012

Vasyl Simonenko (1935-1963)

Dedicado aos papagaios



Vós, que lançais palavras às multidões,
Como velhos alunos da primária,
Por que vos dedicais meramente a repetir?
Onde estão os vossos próprios pensamentos?
Por acaso escondei-los por insignificantes?
Ou careceis deles por completo?
As línguas tê-los-ão murchado?

Se secaram, estais livres de responsabilidades,
É algo que se pode perdoar, no entanto...
Com as vossas línguas - é possível afiar facas
Ou varrer estábulos!
Por que razão chorais com lágrimas alheias,
E saltais sobre ideias emprestadas? -
Isso era o que queríamos saber!



(Versão minha a partir da tradução espanhola de Iuri Lech reproduzida em Poesía ucraniana del siglo XX - Una iconografia del alma; prólogo, selecção e tradução de Iuri Lech, Litoral/Edições UNESCO, Torremolinos/Málaga, 1993, p. 92).

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pere Rovira

A greve



Não é preciso mais nada: uma avenida
de gente que sorri ao meio-dia
diz-nos quem tem razão.
Não os encontras nunca quando sais
a ventilar o vício de dormir sempre mal,
e o sol do aposentado é como uma aspirina.
Hoje estará apagada a luz de asma
de oficinas e fábricas; a agulha
das horas não coserá ao contrário
o tempo dessa rapariga de blusa colorida,
e daquele homem velho que a olha
com a terna surpresa de regressar ao desejo;
a blusa passa ondeando pelos seus olhos
como as bandeiras vermelhas da manhã
pela montra fura-greves de uma loja.

"Que só o coração marque a fronteira
da esquerda", alguém escreveu.
O coração de quem? O coração armado,
o coração blindado dos bancos,
o coração anémico dos políticos a soldo,
ou esses corações
que defendem agora a alegria?

De noite, nas varandas, brilham os cigarros
dos homens que odeiam a manhã.
A greve terminou, mas eles prolongam-na
com o fumo da insónia. Está calor,
amanhã estará ainda mais junto às máquinas
sagradas outra vez, como a lei
que o dinheiro ditou, como o âmbito
do tempo e do amor.
Não é véspera de nada esta hora ofendida,
chega o sopro da alvorada, forte, espesso
como uma baforada de hospital,
e retorna, biliosa, às janelas
a luz de um novo dia de trabalho.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Pere Ballart e Jordi Julià reproduzida em Lírica de fin del siglo - Poesía catalana y española (1980-2000), Diputación de Granada, Granada, 2005, pp. 187-188).

domingo, 29 de abril de 2012

Dritëro Agolli

Sobre o apelo da poesia



Dizes que escrevi de mais sobre vacas,
E que estraguei demasiados versos com os cereais dos campos.
E então? Tu tens manteiga e leite pela manhã,
Ao jantar há sempre esse pãozinho branco
No teu prato e, além disso, o teu clamor por carne.

Sustentas que perdemos alguma emoção poética
Quando, nos nossos versos, falamos de vacas a toda a hora,
A intensidade de um poema, dizes, não vem das pastagens,
Nasce antes sob a nossa pele - quando uma linha explode
Em palavras, insistes, vindas de alguma reserva sublime.

Escuta, no entanto: no que diz respeito a vacas, eu nunca alcancei
Tudo o que queria, sim, elas merecem muito mais,
Por isso não posso separá-las da minha caneta e das minhas folhas,
As vacas são a minha inspiração, a minha primavera, o meu outono,
E, se pudesse, ensiná-las-ia a escrever poemas.

Tenho a certeza de que fariam melhor do que a maioria dos nossos bardos!



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 181).

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Xhevahir Spahiu

Linguagem



Eles disseram à linguagem: agora tens liberdade.
Mas a linguagem não teve forças para responder: não preciso.
De que me serve agora
Se não falei livremente quando devia?
Fui deixada sem asas,
Fui deixada sem céu,
Sou vida sem sonho,
Sou um sonho sem uma vida.
Disseram à linguagem: és livre.
É difícil, disse a linguagem, difícil
Acreditar que se é livre.
Quando engolimos as nosssas próprias sílabas,
Quando nos golpeiam até nos reduzirem a um cepo
Até a liberdade se transforma numa prisão.
Eles disseram à linguagem: a liberdade vive.
A linguagem replicou:
Eu não sou Constantino - que se lançou em busca da morte.
Disseram à linguagem: és a liberdade.
Não é preciso muito para perceber isso.
Então a linguagem acreditou neles
E abriu a boca,
Emitindo
Em vez de sons
Sangue.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An Anthology of albanian poetry, Nortwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, pp. 213-214).

terça-feira, 24 de abril de 2012

Dritëro Agolli

A vaca



A vaca rumina o seu alimento no estábulo cheio de forragem,
Eu encosto a cara ao seu flanco enorme
E sinto, vindo do interior das suas profundezas, o calor,
O calor do feno colhido nos campos.
Sobre os seus cornos escuros está suspensa uma lâmpada eléctrica
Que traz luz até ao balde do leite.
Não posso abandonar a vaca.
Com a cara encostada ao seu flanco, cheiro o leite coberto de espuma.
A leiteira retira o balde com cuidado
E pára por um instante, com as mãos a pingar.
Diz:
     "Você é veterinário?"
Descolo a cara da vaca:
     "Não, poeta."
Ela ri-se e estuda-me com os olhos azuis,
Simpática, sábia, serena.
Reflecte um pouco e compreende
Que eu não consigo escrever uma linha sem uma vaca...



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestwern University Press, Evanston - Illinois, 208, p. 180).

domingo, 22 de abril de 2012

Entre a carne e o osso



























Luís Filipe Parrado, Entre a carne e o osso, Língua Morta, Lisboa.

[com capa de Inês Dias,
150 exemplares, 68pp., 9€]
pedidos: edlinguamorta@gmail.com

terça-feira, 17 de abril de 2012

Cristina Morano

Fabricante de armas

                                             (Transcrição de uma conversa real gravada com
                                              câmara oculta para uma reportagem da BBC)



E esta outra arma que aqui tenho,
dada a sua forma alongada e de fácil
manejo, pode ser utilizada
como um eficaz objecto contundente
para dispersar multidões.
Além do mais numa das pontas
incorpora uma bateria
que, accionada por este botão,
produz uma descarga feroz
de cada vez que se golpeia;
ou, se o desejar, o artefacto
pode introduzir-se na vagina
e, a partir daí, electrocutar,
sem as velhas complicações
dos instrumentos clássicos
similares no mercado.
                                   Não tenham
receio de perguntar o preço.



(Versão minha; o original aparece reproduzido em La manera de recogerse el pelo - Generación blogger, selecção de David González; prólogo de José Ángel Barrueco, Bartleby, Madrid, 2010, p. 219).

domingo, 15 de abril de 2012

Raúl Gustavo Aguirre

A trincheira do Reno



Eu, Martin
Heidegger, o filósofo
que pensou o Impensável
e anunciou a perda do Ser
por causa da ciência e do olvido,
fui declarado pelos meus pares
"pessoa totalmente dispensável"
e enviado para cavar esta trincheira
ao longo do Reno.

Debaixo dos meus pés a terra venerável afunda-se.
Cai o crepúsculo azul de Georg Trakl. Tenho frio.
E no bosque vizinho soa outra vez, tenebroso,
o riso do idiota que assistia às minhas lições.



(Versão minha; o original pode ler-se aqui).

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ali Podrimja

Se



Se um povo
Não tem poetas
Nem poesia própria
Para uma Antologia Nacional
Então a traição e o ladrar
Hão-de servir.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 208).

terça-feira, 10 de abril de 2012

Girolamo de Rada (1814 -1903)

Pode um beijo ser mais doce?



Era uma manhã de domingo
E o filho da nobre senhora
Foi visitar a bela donzela
Para lhe pedir uma gota de água,
Pois morria de sede.
Encontrou-a sozinha à lareira
A entrançar o cabelo.
Amavam-se, mas nenhuma palavra de amor foi trocada,
A jovem tinha um sorriso nos lábios:
"Por que tens de te ir como o vento?"
"Aguardam-me para o lançamento do disco."
"Espera só um pouco, guardei
Duas maçãs maduras para ti."
Segurando o cabelo penteado
Com uma das mãos erguida
Sobre a pele pálida das orelhas,
Ela mergulhou a outra no seu corpete
E tirou as maçãs,
Colocando-as nas mãos dele,
Ruborizando de vergonha.
Dizei-me, ó apaixonados,
Pode um beijo ser mais doce?



(Versão minha a partir da tradução inglesa reproduzida em Lightning from the depths - An anthology of albanian poetry, organização e tradução de Robert Elsie e Janice Mathie-Heck, Northwestern University Press, Evanston/Illinois, 2008, p. 71).

sábado, 7 de abril de 2012

Fabián Casas

Sem chaves e às escuras



Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais.

Então saí para o patamar para deitar o lixo fora
e, atrás de mim, com uma corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes dos meus vizinhos
através das suas portas.
É passageiro, disse para mim;
no entanto também a morte poderia ser assim:
um patamar escuro,
uma porta fechada com a chave do lado de dentro,
o lixo na mão.



(Versão minha, o original pode ser lido algures por aqui).

quinta-feira, 29 de março de 2012

Eeva-Liisa Manner

Nada



"Não se pode viver sem amar"
"Pode-se, sim", disse
e vesti-me de negro
para o último baile de máscaras.

E tinha a boca cheia de pó
como se tivesse secado de tanto chorar
(ainda que não tenha chorado em cinquenta anos).

Não quero o vosso céu, companheiros,
as falsas promessas, os amigos fingidos,
as ruas cheias de beijos,
as mentiras de espelhos fugidios.
Quero rasgar o último selo,
a lua que não dá luz,
a noite em que não brilha nada.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz reproduzida em Poesía nórdica, Ediciones de la Torre, 2ª edição, Madrid, 1999, p. 93).

segunda-feira, 26 de março de 2012

Ricardo Castro Ferreira

Vanitas (a lição de Marlene Dumas)



(Óleo sobre papel; 2012).