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domingo, 1 de agosto de 2021

Gerry Murphy

 A minha vida como estalinista



"Lacaio do capitalismo!",
gritei eu para o meu pai por cima da mesa do jantar,
durante uma discussão sobre a viabilidade
do Segundo Plano Quinquenal,
ou o regresso de Fianna Fáil ao governo,
ou o meu desgraçado relatório escolar
- ou, provavelmente, por causa de todos estes assuntos.
A conversa engasgou-se num impasse
e, por alguns momentos, fez-se silêncio.
A reacção do meu pai foi uma gargalhada,
própria de quem sabia muito bem que eu só em parte
alcançava o significado do mal direcionado insulto.
"Tens jeito para os "slogans", meu rapaz,
mas tens de aprofundar um pouco mais
as leituras que os sustentam."
"Melhor ainda, volta ao teu amado Estaline
e estuda os seus volumosos ensaios
sobre estas questões e os seus métodos de lidar
com "reaccionários", "sabotadores" e "lacaios",
depois podes vir ter comigo
e chamar-me o que te apetecer".



(Versão minha; poema do livro My life as a stalinist; Southword, Cork, 2018, p. 24).



terça-feira, 6 de julho de 2021

Gerry Murphy

 Canibal



A primeira vez 
que provei carne humana
tinha dez anos.
Deu-se durante uma discussão
com o meu irmão mais velho, de doze anos,
quando ele rebaixou
os meus adorados Beatles,
dizendo que eram exageradamente valorizados
e só para cretinos.
Perdi a cabeça,
fui-me a ele
e arranquei-lhe um pedaço considerável
de carne do ombro,
parte do qual
- cartilagem muito provavelmente -
ficou presa entre os dentes.
Seguiram-se uivos e rangidos
até que a minha mãe interveio.
Ficou tão chocada
com aquilo que eu acabara de fazer
que se esqueceu de me bater
e mandou-me directamente para a cama
sem jantar.
Mas, dah!, eu já tinha comido.



(Versão minha; original incluído em My life as a stalinist; Southword editions; Cork, 2018, p.17).

domingo, 27 de junho de 2021

Gerry Murphy

 Oh pelo amor de Deus



A fralda de pano
está fria, molhada, cheia.
Tenho três meses
e estou já a viver a minha primeira
- lanço os foguetes e apanho as canas -
crise existencial.

E só estamos em 1953!



(Versão minha; original incluído em My life as a stalinist; Southword editions, Cork, 2018, p.10)