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domingo, 18 de outubro de 2009

Anna Swir

Ele teve sorte


Para o Prof. Wladyslaw Tatarkiewicz



O homem velho
deixa a sua casa, traz os seus livros.
Um soldado alemão agarra os livros
atira-os para a lama.

O homem velho apanha-os,
o soldado bate-lhe na cara.
O homem velho cai,
o soldado pontapeia-o e vai-se embora.

O homem velho
fica estendido na lama, a sangrar.
Sente debaixo de si
os livros.



(versão minha a partir da tradução inglesa do polaco de Magnus J. Krynski e Robert A. Maguire reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin Books, Londres, 2ª (?) edição, 1993, pp. 67-68).

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Anna Swir

Vamos atirar directamente ao coração



Nós vamos matar o nosso amor.

Vamos estrangulá-lo
como se estrangula um bebé.
Vamos pontapeá-lo
como se pontapeia um cão fiel.

Vamos arrancar
as suas asas vivas
como se faz
com um pássaro.

Vamos disparar sobre o seu coração
como disparamos
sobre nós.



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 1993, pp. 69-70).

sábado, 4 de abril de 2009

Anna Swir

Uma conversa nocturna muito triste



"Devias ter muitos amantes."
"Eu sei, querido."
"Eu tive muitas mulheres."
"Eu tive homens, querido."
"Estou acabado."
"Sim, querido."
"Não confies em mim."
"Não confio, querido."
"Tenho medo da morte."
"Eu também, querido."
"Não me vais deixar."
"Não, querido."
"Estou só."
"Também eu, querido."
"Abraça-me."
"Boa noite, querido."



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição, 1993, p. 69).

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Anna Swir

O mesmo interior



A caminho de tua casa para um festim de amor
vi na esquina de uma rua
uma velha pedinte.

Peguei na sua mão,
beijei a sua face delicada,
conversámos, ela tinha
o mesmo interior que eu,
do mesmo género,
senti-o instantaneamente
como um cão conhece pelo cheiro
outro cão.

Dei-lhe dinheiro,
não conseguia separar-me dela.
Afinal, todos precisamos
dos que nos são próximos.

E depois eu já não sabia
porque caminhava para tua casa.



****



Sandálias de praia



Nadei para longe de mim mesma.
Não me chames.
Nada também para longe de ti mesmo.

Nadaremos para longe, abandonando os nossos corpos
na margem
como um par de sandálias de praia.



****



Não é fácil



Ponho algemas
e grilhões de ferro
e agora
corro.



(versões minhas, a partir das traduções para inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzidas em Talking to my body, Copper Canyon Press, Washington, 1996, pp. 73, 131 e 125.)

domingo, 22 de junho de 2008

Anna Swir

Não sei ladrar



Estou a lavar o chão da cozinha
como se tivesse quatro patas,
na posição de cão.
Alcanço
por um momento
o bom humor
de cão.

É pena, só não consigo
ladrar.



(versão minha; de Talking to my body, tradução de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, Copper Canyon Press, Washington, 1996, p. 117).

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Anna Swir

Há uma luz dentro de mim



Seja de dia ou de noite
trago sempre dentro de mim
uma luz.
No meio do ruído e da desordem
trago silêncio.
Trago
sempre luz e silêncio.



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, em Talking to my body, Copper Canyon Press, Washington, 1996, p. 115).

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Anna Swir

Eu falo com o meu corpo



Corpo, és um animal
cujo comportamento adequado
é a concentração e a disciplina.
Um esforço
de atleta, de santo e de praticante de yoga.

Bem treinado
podes vir a ser para mim
uma porta
por onde sairei de mim
e uma porta
por onde entrarei em mim.
Uma linha de prumo até ao centro da terra
e uma nau cósmica até Júpiter.

Corpo, és um animal
para quem a ambição
é legítima.
Possibilidades esplêndidas
estão-nos prometidas.



(versão minha, a partir da tradução do polaco para inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan reproduzida em Talking to my body, Copper Canyon Press, Washington, 1996, p. 121).

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Anna Swir

Recital de poesia



Enrosco-me em espiral
como um cão
que tem frio.

Quem me vai dizer
porque nasci,
a razão desta monstruosidade
chamada vida.

O telefone toca. Tenho de dar
um recital de poesia.

Entro.
Uma centena de pessoas, uma centena de pares de olhos.
Olham, esperam.
Eu sei porquê.

É suposto dizer-lhes
porque nasceram,
porque existe
esta monstruosidade chamada vida.



(versão minha, a partir da tradução inglesa do polaco de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, in A book of luminous things, organizado por e com uma introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1988, p. 259).

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Anna Swir

Lavo a camisa



Pela última vez lavo a camisa
de meu pai agora morto.
A camisa cheira a suor. Lembro-me
deste suor desde a minha infância,
durante tantos anos
lavei as suas camisas e a sua roupa interior,
sequei-as
num fogão de ferro no ateliê,
ele preferia vesti-las sem serem engomadas.

De entre todos os corpos do mundo,
animal, humano,
só um exsudava este suor.
Aspiro-o
pela última vez. Ao lavar esta camisa
destruo-o
para sempre.
Agora sobrevivem-lhe apenas os quadros
que cheiram a óleos.



(versão minha a partir da tradução do polaco para inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, in A book of luminous things, organizado por e com uma introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, p. 204. Anna Swir (1909-1984), poetisa polaca que se radicou nos Estados Unidos, era a única filha de um pintor "abismalmente pobre" (segundo Milosz) que viveu e trabalhou em Varsóvia.)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Anna Swir

O mar e o homem



Não subjugarás este mar
pela humildade ou pela exaltação.
Mas podes rir-te
na sua cara.

O riso
foi inventado pelos que
têm uma vida breve
como a explosão de uma gargalhada.

O mar eterno
nunca aprenderá a rir.



(versão minha, a partir da tradução inglesa do polaco de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, in A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, p.47).