quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Inger Hagerup

A formiga



Pequena?
Eu?
Nem pensar.
Tenho o tamanho perfeito.
Encho-me completamente a mim mesma
ao comprido e em largura,
de cima a baixo.
Por acaso és tu maior
do que tu mesmo?



(versão minha, a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Afinidades afectivas - antologia de la poesía nórdica, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 93).

domingo, 27 de dezembro de 2009

Gagan Gill

Formigas



As formigas não encontram o seu caminho para casa.

Caminham, traçando linhas entre o nosso sono e os nossos corpos.
A sua farinha invisível continua espalhada na sua memória,
espalhada noutro espaço e tempo. Elas continuam a ir de um fim
da terra a outro em busca dela. Afundam os seus dentes
em todas as coisas vivas e mortas. As tristezas da terra crescem
de modo tão leve com a sua demanda que as direcções
começam a rodopiar em grande confusão. Os
pólos começam a mudar de lugar. Mas ninguém
conhece a tristeza das formigas.

Há muito tempo atrás talvez tenham sido mulheres.




(versão minha a partir da tradução inglesa de Jane Duran e Lucy Rosenstein que pode ser lida aqui).

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Marie Sheppard Williams

Toda a gente



Eu estava numa paragem de autocarro
numa destas tardes, esperando
pelo "2". Um tipo
mais velho esperava também.
Olhei-o com atenção. Ele
captou o meu olhar e arreganhou um sorriso
onde faltavam alguns dentes. Queres
assinar o meu casaco? disse ele.
Estendeu-me logo uma caneta. Trazia
vestido um casaco de lona imundo que
exibia assinaturas por todo
o lado, centenas delas, talvez
milhares.
Estou a ver
se apanho toda a gente,
disse ele.
Assinei. Na pequena
superfície de um dos bolsos.
Por vezes lembro-me:
sou uma parte de um todo.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

Jack Agüeros

Salmo pela paciência



Senhor,
Despacha-te e dá-me paciência!



(versão minha; original reproduzido em Lord, is this a psalm, Hanging Loose Press, Brooklyn Nova Iorque, 2002, p. 43).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Olav H. Hange

Tu eras o vento



Sou um barco
sem vento.
Tu eras o vento.
Era esse o rumo que eu devia seguir?
A quem importa o rumo
com um vento assim!



(versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 86).

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Petko Daveski

As chaves da saída



As chaves da porta secreta da única saída
e as da solução do enigma crucial
que cada esfinge recém-nascida conhece
talvez não estejam no mesmo chaveiro
que as chaves das masmorras da nossa vida,
da obscuridade e da luz da terra.
As chaves da nossa ignorância real são
de facto as chaves perdidas e as chaves que não podem
encontrar de novo os seus cadeados e as suas fechaduras.
Não diria que o mesmo artesão as fez,
parece que pisamos o caminho da dúvida
que cada chave sente junto à porta,
uma caixa de Pandora de posse inalienável:
existe uma gazua que ao mesmo tempo pode abrir
as fechaduras do bem e o cadeado do mal.
A dedicação é infinita, talvez desesperada,
uma busca no interior do bolso à procura de chaves não marcadas;
se não chamas, prepara-te para esperar
que o fechado se abra a seu tempo.
E se não o abres tu mesmo, vais chamar já depois de aberto.
Do que fica dito não deveria deduzir-se:
que se as chaves não existissem não necessitaríamos de portas
nem se poria o problema da saída.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Maria Krstevska, reproduzida em 4 poetas macedonios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 70).

domingo, 13 de dezembro de 2009

Zoran Anchevski

A última ceia



Tomo assento junto à
imagem fracturada do meu dia.
O meu segredo permanece intacto
preparados os meus planos para o crime
digo umas palavras de cortesia sem sentido
porque o silêncio é um abismo espantoso
entre os dois latidos da pulsação
onde nos enredamos na nossa própria armadilha.
Quão difícil é suportar o seu olhar
sobre a minha consciência.
Disperso-me em milhares de sílabas
tartamudeio essas cortesias sem sentido
que se multiplicam em nada
desaparecem...

Ofereço a minha mão.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Maria Krstevska reproduzida em 4 poetas macedonios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 132).

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Petko Daveski

Frutos verdes



Sinto, vejo e escuto
o esforço da fruta verde recolhida,
maçã golden e tomate verde
a amadurecer dentro de si mesmos,
pousados na prateleira.
Sem a ligação, o cordão umbilical
que os alimentou,
sem a luz do dia e do sol
para se vestirem com o cetim do Outono,
com o vermelho de um fogo puro,
com a incadescência das pétalas das flores
e os lábios dos gerânios e a rosa que arde.
Sinto, sem os virar,
sem lhes aplicar qualquer unguento,
como tratam, sozinhos,
só com a ajuda de Alguém,
invisivelmente presente desde o germen da semente,
como tratam de cicatrizar as feridas,
elas mesmas, de outra pessoa
invisível para nós, presente debaixo do céu,
que nos deu uma lição, prova obscura.



(versão minha a partir da tradução castelhana de Maria Krstevska reproduzida em 4 poetas macedonios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 78).

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Petko Daveski

A sobrevivência das coisas



Entre as coisas
que sobreviveram aos criadores
encontram-se
uma faca e um machado de pedra
e um maço perfurado no cabo.
Objectos criados pelos artesãos
para sobreviverem ao inverno,
usados também para sobreviverem
às vozes ameaçadoras da fome,
ao inóspito e aos adversários.
Objectos que sobreviveram
ao seu uso real,
sem a alma vendida desde o passado
ao seu valor de uso.
Cavando assim profundamente na terra,
cavando cada vez mais fundo também no tempo
até ao manancial da origem turvado
pela gota escarlate de Abel.



(versão minha a partir da tradução para castelhano de Maria Krstevska reproduzida em 4 poetas macedonios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 68).

sábado, 5 de dezembro de 2009

Petko Daveski

Distâncias



Não só o fervor exagerado
pelas coisas secundárias,
também a própria indiferença, sem exagero,
faz-nos pecaminosos: não respondemos
às nossas verdadeiras obrigações.
E por aqui, entre
o fervor mal dirigido
e o sentimento de vocação verdadeira
dedico-me às MEDIDAS
das distâncias entre as coisas.
Não é apropriado esconder mais:
dói-me que a distância
de homem a homem
seja maior
que a distância do homem ao macaco.



(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Maria Krstevska reproduzida em 4 poetas macedónios, Norteysur, Benalmádena, 2006, p. 84).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Ernst Orvil

O sentido da vida



O sentido da vida, digo inquieto,
por que nos é desconhecido?

Porque uma vida com sentido
parece-nos intolerável.

Sentido da manhã à
noite, da noite à manhã.

Assim uma vida sem sentido,
diz ela, não é uma vida sem sentido.



(versão minha a partir da tradução de Francisco J. Uriz reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 164).

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Olav H. Hange

Na hora da verdade



Ano após ano estiveste debruçado sobre os livros,
acumulaste em ti mais conhecimentos
do que os que necessitarias para nove dias.
Na hora da verdade
é preciso muito pouco, e esse muito pouco
conhece-o o coração desde sempre.
No Egipto o deus da sabedoria
tinha cabeça de macaco.



(versão minha, a partir da tradução de Francisco J. Uriz reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 125).

domingo, 29 de novembro de 2009

Partaw Naderi

Desolação



Nas linhas das palmas das tuas mãos
foi escrito o destino do sol

Nasce,
ergue a tua mão -

a longa noite está a sufocar-me.



Cabul,
Junho 1994



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Sarah Maguire e de Yama Yari que pode ser lida aqui).

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sam Hamill

O poema de Nova Iorque



Sento-me na escuridão, não exactamente
para meditar, nem para esperar pelo amanhecer
que está mesmo a surgir, às seis e vinte e um,
por detrás das árvores na luz cinzenta de Outubro.
Sento-me, respirando, a mente às voltas no seu turbilhão.

Hayden escreve, "Para que serve a poesia
em tempos como estes?" E eu julgo
entendê-lo quando diz, "Um poeta
não pode simplesmente retirar
qualquer sentido de tamanha carnificina."

Porém, no esmagamento do horror,
eu retorno à poesia, não à prosa,
para que me ajude a chegar a um entendimento -
tanto quanto possível - com as mentiras, os assassínios
e as hipocrisisas sufocantes

desses que hão-de liderar uma nação
ou uma igreja. "Para que serve a poesia?"
No dia doze de Setembro
de dois mil e um da Nossa Era
eu sentei-me e li Rumi e beijei o chão.

E agora que milhões morrem à fome
em nome da guerra santa? Qualquer guerra
é santa. Eis a perpétua e patética história
da qual derivamos
em "bíblicas proporções".

Oiço as passadas de Pilatos vibrando
nas lajes, a voz de Joe McCarthy
a praguejar no senado, a "Fat Boy" explodindo
enquanto o céu inteiro estremece.
Na cidade de Nova Iorque os estrondos

e os colapsos subsequentes
originaram ondas sísmicas. Para começar a falar
dos mortos, dos moribundos... como
pode um poeta falar de "proporção" uma vez mais
que seja? No entanto, como disseram os antigos gregos,

"Caminhamos sobre as faces dos mortos."
O escuro céu outonal torna-se azul.
Sozinhos entre cinzas e ossos e ruínas
Tu Fu e Basho escrevem o poema.
O último traço de raiva cega desvanece-se

e uma tristeza muda instala-se,
como pó, para o longo, muito longo caminho. Mas se
eu não me levantar e cantar,
se não me levantar e dançar de novo,
os bárbaros vencerão.

Beijarei, se necessário, a espada que me rouba a vida.




(versão minha; original reproduzido em The Wisdom Anthology of North American Buddhist Poetry, organização de Andrew Schelling, Wisdom Publications, Boston, 2005, pp. 90-91).

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Cecilia Woloch

A picareta



Eu vi-o girar a picareta ao sol
transformando os degraus de cimento em grandes bocados de pedra,
e as pedras em poeira,
e a poeira em terra outra vez.
Devo ter estado muito tempo sentada no intervalo da vedação do comboio
só a observá-lo.
O corpo do meu pai brilhando com o suor,
os seus braços levantando voo como asas negras sobre a cabeça.
Ele estava a converter o quintal numa espécie de terraço
partindo o pequeno declive em duas superfícies planas.
Eu tomei como segura a sua força
apesar de a achar também assustadora.
Vi como ele impelia a picareta de encontro ao ar
e como a atirava com toda a força para baixo,
e assim mudava a forma do mundo,
e mudava de novo a forma do mundo.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 21 de novembro de 2009

Olav H. Hange

Sobre os dias da guerra



Uma bala caiu no chão do passeio.
Sopesei-a na mão.
Tinha atravessado a janela e
duas paredes de madeira
Não tive dúvidas de que podia matar.



(versão minha, a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de F. J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 20).

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Jack Agüeros

Salmo pelas mulheres



Senhor,
obrigado por teres feito as mulheres.
Obrigado por me teres dado olhos
para as olhar, nariz para as cheirar,
dedos para folhear lentamente as suas páginas,
língua para as saborear,
doces momentos para enlearmos os nossos pêlos encaracolados.

Obrigado por as teres feito
como o melhor dos géneros,
por as teres dotado com uma inteligência
que eu nunca compreendi.

E, Senhor, escuta,
pessoalmente eu não acredito no pecado,
mas por favor perdoa-me
se alguma vez fiz mal a uma mulher.



(versão minha; original reproduzido em Lord, is this a psalm?, Hanging Loose Press, Brooklyn - Nova Iorque, 2002, p. 36).

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Rolf Jacobsen

Candeeiro público



Que glacialmente só na noite está o meu candeeiro público.
As pedritas da rua descansam as pequenas cabeças em seu redor
ali onde ele abre o seu guarda-chuva de luz sobre elas
para que não se aproxime a malvada obscuridade.

Estamos todos longe de casa, diz.
Já não há esperança alguma.



(versão minha a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de F. J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p. 20).

sábado, 14 de novembro de 2009

David Lee Garrison

Bach numa estação de Metro



Como experiência
o Washington Post
pediu a um violinista de formação clássica -
usando ganga, ténis
e um boné de basebol -
que se instalasse junto ao recipiente do lixo
na hora de ponta à entrada do Metro
e tocasse Bach
com um Stradivarius.
A Partita nº2 em Dó Menor
emergiu das colunas
como um oceano nasce das ondas
e, soando, revelou à estação
porque nos devemos dar ao trabalho
de viver.

Um milhar de pessoas
foi fluindo como uma corrente. Sete delas
pararam por um minuto (mais ou menos)
e trinta e dois dólares pousaram
no estojo aberto do violino.
Uma empregada de café impelida
para a porta aberta
sempre que estava livre
disse mais tarde que Bach
a pacificou,
e todas as crianças,
todas sem excepção,
imergindo na música
como se esta fosse água,
puseram-se a ouvi-la até que tiveram que ser
resgatadas pelos pais
que tinham que ir a outro lugar qualquer.



(versão minha; original reproduzido aqui).

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Jane O. Wayne

Por acidente



Porque o trouxe comigo aqui
seguro-lhe a mão
enquanto o cirurgião lhe limpa a perna,
a este rapaz que mal conheço, uma criança
da idade da minha filha. Há anos atrás
uma enfermeira negra segurou
a minha mão branca num hospital e eu
apertei-a tanto como ele faz agora
uma estranha a que nunca se agradeceu
que nunca foi esquecida.

Eu sei como as coisas são,
como a dor nos fragiliza tão facilmente
como a força do hábito nos endurece, como
nos conhecemos agora e como, se nos voltarmos a encontrar,
vamos desviar o olhar, ambos,
o rapaz e eu,
como se do próprio golpe,
a branca costura abrindo-se em vermelho vivo,
nos afastássemos. Penso muitas vezes que,
havendo ocasião, podemos amar qualquer pessoa.



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 178).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Lauren Mendinueta

Uma longa tarefa



O rouxinol de Keats,
A cotovia de Shakespeare,
O corvo de Poe.
Todo o pássaro real ou imaginário
cruzará o céu desde os confins,
e contra a sua determinação
precipitar-se-á ao encontro do envelhecimento,
que é a verdadeira vocação do que existe.



(versão minha; original reproduzido em La vocación suspendida, Editorial Point de Lunettes, Sevilha, 2008, p. 61).

domingo, 8 de novembro de 2009

Olav H. Hange

Um poema por dia



Quero escrever um poema por dia,
cada dia.
Tem que ser possível.
Browning pôde fazê-lo durante muito tempo, ainda que
rimasse
e marcasse o ritmo
com as suas espessas sobrancelhas.
Portanto, um poema por dia.
Algo te há-de ocorrer,
algo acontecerá,
algo novo hás-de descobrir.
- Levanto-me. Clareia.
Tenho boas intenções.
E vejo o pintarroxo a subir a cerejeira
depois de lhe ter furtado alguns rebentos.



(versão minha, a partir da tradução de Francisco J. Uriz, reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de F. J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2oo2, p. 101).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Olav H. Hange

Uma palavra



Uma palavra
- uma pedra
num rio frio.
Mais outra pedra -
Tenho que ter mais pedras
se vou atravessá-lo.



(versão minha, a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de F. J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2002, p.79).

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Jyotsna Milan

Mulher, 2



Às vezes
nos momentos em que se faz amor
o homem surge à mulher como uma espécie de Deus.
"Deus... Deus!" grita a mulher
com o corpo
dominado pelo fogo.
"Olha-me,"
diz o homem,
"eu sou Deus."
A mulher
olha
e, em convulsões de dor
por perder Deus,
vira a cara
de lado.




(versão minha, a partir da tradução inglesa de Mrinal Pande e Arlene Zide reproduzida em The Oxford Anthology of Modern Indian Poetry, organização de Vinay Dharwadker e A. K. Ramanujan, Oxford University Press, Oxford, 2ª impressão, 1997, p. 20).

domingo, 1 de novembro de 2009

Toeti Heraty

Post scriptum



Eu quero escrever
um poema erótico
no qual palavras cruas, sem enfeites,
se tornem belas
onde as metáforas não sejam necessárias
e seios, por exemplo,
não se transformem em colinas
ou o corpo de uma mulher numa paisagem opressiva
ou a relação sexual no "mais íntimo enlace".

É claro
que um poema assim é escrito no espaço
entre a exposição e a ocultação
entre a hipocrisia e as verdadeiras emoções.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Carole Satyamurti que pode ser lida aqui).

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

David Bottoms

A mão esquerda do meu pai



Por vezes a mão do meu velho voa sobre o seu joelho, agita-se
em círculos malucos, e regressa à sua base.

Por vezes fica apoiada durante uma hora nessa proeminência ossuda.

E por vezes quando o meu velho tenta falar, a sua mão sacode-se
no ar, perseguindo uma palavra, depois empoleira-se de novo

na barra do andarilho ou no braço de uma cadeira.

Por vezes quando o anoitecer se fecha sobre a sua janela e a chuva
se tinge de negro até se tornar gelo na soleira, ela treme como um pardal numa tempestade.

Então a noite escura cai, e treme menos, e menos, até que sossega.



(versão minha; original reproduzido aqui).

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Al-Saddiq Al-Raddi

A pequena raposa



De súbito - uma pequena raposa, brincalhona,
inunda com alegria o teu ferido coração
Ela procura o teu rosto com o seu olhar singular,
sabe que te identificas com ela na sua pose vagabunda

Nessa mesma noite em que suspirei por ti,
em que senti a falta do teu delicado despertar
e ansiei pela lua que sabia de cor os nossos nomes
Esse vidro estilhaçado e esquecido,
o esquilo atrevido que fugiu -
abandonando-nos tudo: a noite, e o vinho

E quanto a mim - estou bêbedo de sede,
tremo de desejo por ti -
mas não há aqui nenhuma raposa para ser encontrada


Cartum 14 de Junho, 2006
(versão minha, a partir da tradução inglesa de Sarah Maguire, reproduzida aqui).

domingo, 25 de outubro de 2009

Martín Espada

Lição revolucionária de espanhol



Sempre que alguém
pronuncia mal o meu nome,
quero logo comprar uma pistola de brincar,
pôr óculos escuros,
inclinar a minha boina,
pentear a barba em bico,
sequestrar um autocarro cheio
de turistas Republicanos
do Wisconsin,
e obrigá-los a entoar
palavras de ordem anti-americanas
em espanhol,
e esperar
que o pelotão de intervenção especial bilingue
nos sobrevoe de helicóptero
e me suplique
que seja razoável



(versão minha, a partir da tradução para espanhol de Camilo Pérez-Bustillo, Diego Zaitegui, Pedro J. Miguel e do próprio autor, reproduzida em Soldados en el jardín: antologia 1989-2009, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, p. 91).

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sharon Olds

A corrida



Assim que cheguei ao aeroporto precipitei-me para o balcão,
comprei o bilhete, dez minutos depois
anunciaram-me que o voo tinha sido cancelado, os médicos
tinham-me dito que o meu pai não passaria desta noite
e o voo tinha sido cancelado. Um homem jovem
de bigode castanho escuro disse-me
que uma outra companhia tinha um voo
directo dali a sete minutos. Está a ver
aquele elevador, bem desça
até ao primeiro piso, vire à direita e
encontrará um autocarro amarelo, saia no
segundo terminal da Pan Am, e eu
corri, eu que não tenho qualquer sentido de orientação
lancei-me na direcção exacta que ele me indicou, um peixe
deslocando-se destramente corrente acima
contra o movimento do rio. Saltei do tal autocarro com as tais
mochilas para onde tinha atirado tudo
em cinco minutos, e corri, as mochilas
balançando-me de um lado para o outro como que
para provar que eu estava sujeita às leis da matéria,
corri em direcção ao homem com uma flor branca ao peito,
eu que vou sempre até aos limites, eu disse
Ajude-me. Ele olhou para o bilhete e disse
Vire à esquerda e depois à direita, suba pelas escadas rolantes e depois
corra. Arrastei-me pelas escadas rolantes e,
lá em cima, vi o corredor,
depois inspirei fundo, e disse
Adeus ao meu corpo, adeus ao conforto,
usei as minhas pernas e o meu coração como se
os tivesse alegremente só para isto,
para o tocar uma vez mais nesta vida. Corri e
as mochilas embatiam em mim, rodando e virando-se
em órbitas oblíquas, eu que tenho visto imagens de
mulheres a correr com os seus haveres presos
a tiracolo agarrados nas mãos fechadas, eu abençoei
as longas pernas que ele me deu, o meu forte
coração que eu abandonei ao seu próprio desígnio,
eu corri para a Porta 17 e estavam quase
a levantar o compacto losango
branco da porta para o acomodar
no encaixe do avião. Como aquele que
não é excessivamente rico, virei-me de lado e
esgueirei-me pelo buraco da agulha, e depois
desci pela coxia até ao meu pai. O avião
estava lotado e o cabelo das pessoas brilhava, elas
sorriam no interior do aparelho cheio de uma
névoa de luz dourada e analgésica,
eu chorei como se chora quando se chega ao céu,
num pesado alívio. Levantámo-nos
suavemente numa das pontas do continente
e não parámos se não quando aterrámos levemente
na outra extremidade. Eu entrei no quarto dele
e vi-lhe o peito a subir devagar
e a fundar-se de novo, vi-o
toda a noite a respirar.



(Versão minha; o original reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, pp. 129-130.
Nota: o título deste poema é "The race", palavra que tanto pode significar "corrida" como "prole", "descendência" ou "linhagem"; esta dupla significação alude claramente à relação filha/pai, bem como à corrida contra o tempo que todo o poema descreve).

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Begoña Paz

Extrasístoles



O meu coração
teima em
lembrar-me
que ainda
está
aí.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesia alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, Tenerife, 2ª edição, p. 226).

domingo, 18 de outubro de 2009

Anna Swir

Ele teve sorte


Para o Prof. Wladyslaw Tatarkiewicz



O homem velho
deixa a sua casa, traz os seus livros.
Um soldado alemão agarra os livros
atira-os para a lama.

O homem velho apanha-os,
o soldado bate-lhe na cara.
O homem velho cai,
o soldado pontapeia-o e vai-se embora.

O homem velho
fica estendido na lama, a sangrar.
Sente debaixo de si
os livros.



(versão minha a partir da tradução inglesa do polaco de Magnus J. Krynski e Robert A. Maguire reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin Books, Londres, 2ª (?) edição, 1993, pp. 67-68).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Roger McGough

Um poema sério



Este é um poema sério
Com uma aparência séria
Não desperdiça uma só palavra
Conhece bem o seu lugar.

Perfeitamente equilibrado
Nem longo nem curto
Olha solenemente os céus
Como um verdadeiro poema deve fazer.
`
Conhecedor dos clássicos
Dispõe nomes à vontade.
Aqui vem Platão com Lycidas
E, reparem, eis Demóstenes!

Um poema sério há-de findar muitas vezes
Com dois versos que rimam.
Mas nem sempre.



(versão minha; original reproduzido em Collected poems, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 2004, p. 297).

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Rolf Jacobsen

Torres melancólicas



Os escravos tinham mãos imensas e construíram torres melancólicas.
Tinham coração de chumbo, costas como montanhas e construíram torres melancólicas
Tinham mãos como martelos de pedra e construíram montanhas
de silêncio
Estão na Borgonha e Balbek e em Jerez de la Frontera.
Muros de um cinzento envelhecido sobre os bosques, frentes de pedra
e olhos melancólicos,
em muitos lugares da terra
de onde as andorinhas saem em grandes cachos pelo ar
como chicotadas silenciosas.




(versão minha, a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de F.J. Uriz, Libros del Innombrable, 2002, p. 23).

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Danila Stoyanova

O rapaz matou um pato...



O rapaz matou um pato
com uma pedra
mas não se apercebeu.
O pato não deu conta de nada
porque ficou morto.
Os outros patos nadaram
debaixo de água
os pecoços esticados para baixo.

Isto aconteceu mesmo?
Ninguém sabe
porque ninguém viu.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Belin Tonchev, reproduzida em Young poets of a new Bulgaria - an anthology, selecção e tradução de Belin Tonchev, introdução de Sebastian Barker, Forest Books, Londres, 1990, p. 135).

sábado, 10 de outubro de 2009

Nikki Giovanni

O mundo não é um lugar agradável para se estar



o mundo não é um lugar agradável
para se estar sem
alguém para defendermos ou que nos defenda

um rio só deterá
o seu fluir se
uma corrente lá estiver
para o receber

um oceano nunca escarnecerá
se as nuvens não estiverem lá
para lhe beijarem as lágrimas

o mundo não é
um lugar agradável para se estar sem
alguém


[17 fev 72]



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, p. 72).

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Jack Agüeros

Salmo pela distribuição



Senhor,
na Rua nº 8
entre a 6ª Avenida e a Broadway
em Greenwich Village
há tantas sapatarias
com tantos sapatos
que me pergunto
por que há tanta gente descalça
na terra.

Senhor,
tens que despedir o Anjo
que tem a tarefa da distribuição.



(versão minha; original reproduzido algures por aqui).

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Nicolai Kolev-Bosiya

Posição



Estou a pintar
uma pequena cruz preta
na testa
para que
o inimigo
possa apontar melhor.
Não torno pública
a minha falta de medo.
Sei
que o assassino
não compreenderia.
Ele desenharia
apenas um ponto
no centro do alvo
e o seu indicador
premiria o gatilho.
Um buraco abrir-se-ia
na testa despedaçada,
no meio dessa
nobre Cruz da Bíblia.
Então eu extrairia
da polpa espessa
alguns pensamentos e sangue,
miolos e um grito
e com isso pintaria
a terrível tela da vida,
com isso escreveria
o meu mais terno poema.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Belin Tonchev reproduzida em Young poets of a new Bulgaria, selecção e tradução de B. Tonchev, introdução de Sebastian Barker, Forest Books, Londres, 1990, p. 38).

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Jack Agüeros

Salmo pelo bacalhau



Senhor,
agradecemos-te pelo bacalhau,
agradecemos-te pelo bacalhau salgado
e agradecemos-te pelo bacalhau sem espinhas
e agradecemos-te pelo bacalhau
que é tão dócil que
nada em molho de tomate tão ditosamente
como nada em azeite.

Senhor,
agradecemos-te especialmente porque o bacalhau
não nada perto das costas
de Porto Rico.
Agradecemos-te por ele ir tão bem
com banana verde
rodelas de cebola e ovos mexidos.

E, Senhor,
porque é um peixe
agradecemos-te por o deixares vir a voar
até Porto Rico, agradecemos-te
por o deixares vir de barco
até aos nossos portos, agradecemos-te
por o deixares vir a nado até às nossas bocas tão felizes.



(versão minha; original reproduzido em El coro - a chorus of latino and latina poetry, selecção e organização de Martín Espada, 1997, University of Massachusets Press, Amherst, p. 8).

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Martín Espada

Regras para a "oficina de poesia" do Capitão Ahab em Provincetown



1. Sois livres de escrever um poema sobre qualquer assunto, desde que diga respeito à Baleia Branca.
2. Será concedido um dobrão de ouro ao primeiro que entre vós aviste num poema a Baleia Branca.
3. O Prémio Chamem-me Ismael será atribuído ao melhor poema sobre a Baleia Branca, o qual será publicado na Revista Baleia Branca.
4. O Piquenique e o Jogo de Beisebol de Homenagem a Herman Melville estarão abertos a todos aqueles que entre vós escrevam um poema sobre seguir o seu Capitão até aos fundos do inferno para matar a Baleia Branca.
5. Haverá um caixão gratuito à deriva para todo o participante na "oficina" que caia borda fora enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
6. Haverá uma perna gratuita, talhada em mandíbula de baleia, para todo o participante na oficina que seja atirado do mastro enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
7. Haverá um funeral gratuito em pleno oceano, que incluirá um coro de aguerridos lobos do mar entoando cânticos marítimos sobre a Baleia Branca, para todo o participante da "oficina" que seja decapitado enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
8. Aquele que entre vós não busque a Baleia Branca nos seus poemas será arpoado.
(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Óscar D. Sarmiento, Diogo Zaitegui e Pedro J. Miguel, reproduzida em Soldados en el jardín, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, p. 13).

domingo, 27 de setembro de 2009

Ivan Krustev

A história apócrifa da porcelana



A paixão pela porcelana, Europa do século XIX.
Serviços, elefantes e copos.
O mundo é vasto e bom,
Distinto, frágil, aristocrático.
E há algo para além disto,
O horizonte ergue-se transparente.
A América é só uma costa.
E a China um gato preto.
Montesquieu continua a redigir
As suas cartas sobre filósofos.
Os eruditos usam perucas
E as senhoras - flores.
Os soberanos não são dementes
E, no entanto, não são grandes inteligências.
Nenhum fantasma persegue a Europa
E o amor é fantasmagórico.
Infelizmente os poetas são de salão,
Felizmente os seus poemas não.
E a liberdade, como um jarro,
Está no centro do pensamento.
A nova história começa
Com fragmentos de porcelana.
Enterrada em pequenos elefantes brancos
Deixamos a idade da Razão para trás.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Belin Tonchev, reproduzida em Young poets of a new Bulgaria- an anthology, selecção e tradução de Belin Tonchev, introdução de Sebastian Barker, Forest Books, Londres, 1990, p. 42).

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Martín Espada

A república da poesia


Para o Chile



Na república da poesia
um comboio cheio de poetas
desliza para sul debaixo da chuva
tal como as ameixeiras balançam
e os cavalos escoiceiam o ar,
e as bandas filarmónicas
desfilam pelas ruas
com trompetes, com chapéus de coco,
seguidas pelo presidente
da república,
que aperta todas as mãos.

Na república da poesia
os monges imprimem versos sobre a noite
em caixas de chocolate conventual,
cozinhas em restaurantes
usam odes como receitas
de enguias ou alcachofras,
e os poetas comem à borla.

Na república da poesia
os poetas lêem para os babuínos
no jardim zoológico, e todos os primatas
- como poetas e babuínos - gritam de alegria.

Na república da poesia
os poetas alugam um helicóptero
para bombardearem o palácio nacional
com poemas impressos em marcadores de páginas
e toda a gente, cega pelas lágrimas,
se precipita no pátio
para apanhar um poema
que esvoaça caindo do céu.

Na república da poesia
a guarda do aeroporto
não autorizará a tua saída do país
até que lhe declames um poema
e ela diga Ah! Lindo.



(versão minha a partir do original, reproduzido aqui, e da tradução para espanhol de Óscar D. Sarmiento, Diego Zaitegui e Pedro J. Miguel incluída em Soldados en el jardín - Antologia 1989-2009, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, pp. 14-15).

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Jan Polkowski

Não escrevas nada...



Não escrevas nada. Deixa os outros falarem,
e mesmo que eles nunca usem palavras como:
revolução, liberdade, dignidade, humilhação,
mesmo que as suas línguas sejam apenas carne
e não cítaras, ou frescos, ou espadas, permite-lhes
que falem. Deixa o sangue correr
e o fogo propagar-se, deixa o tronco da limeira engrossar,
deixa a água e o fruto extraviarem-se.
Não retenhas o teu coração,
deixa-o beber e escutar.



(versão minha a partir da tradução de Donald Pirie reproduzida em Young poets of a new Poland, introdução e traduções de D. Pirie, Forest Books, Londres, 1993, p. 82.)

domingo, 20 de setembro de 2009

Margaret Atwood

Eles jantam fora



Nos restaurantes discutimos
qual de nós pagará o teu funeral

ainda que a verdadeira pergunta seja
se farei ou não de ti um ser imortal.

Neste momento só eu
posso fazê-lo e assim

levanto o garfo mágico
sobre o prato de carne e arroz frito

e cravo-o no teu coração.
Há um pequeno estalido, um zumbido

e da tua própria cabeça fendida
emerges incandescente;

o céu abre-se
uma voz canta O Amor É Uma

Coisa Esplendorosa
circulas suspenso por cima da cidade

com um fato azul e uma capa vermelha,
os teus olhos brilhando em uníssono.

Os outros comensais olham-te
alguns com temor, outros só com aborrecimento:

não conseguem decidir se és uma nova arma
ou apenas outro anúncio.

Quanto a mim, continuo a comer;
gostava mais de ti como eras,
mas tu sempre foste ambicioso.



(versão minha, a partir do original e da tradução para espanhol de Pilar Somacarrera Íñigo, reproduzidos em Juegos de poder, tradução, introdução e notas de P. S. Íñigo, Hiperión, Madrid, 2000, p. 33).

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Martín Espada

Blasfémia



Permitam que a blasfémia seja dita: a poesia pode salvar-nos,
não da maneira como um pescador iça para dentro do barco
o nadador que se afoga, não da maneira como Jesus, entre gritos,
promete vida eterna ao ladrão crucificado ao seu lado
no monte, mas ainda assim salvação.

Algures um condenado soluça sobre um livro de poemas
trazido da biblioteca da prisão, e eu conheço o motivo
pelo qual as suas mãos têm o cuidado de não quebrar as páginas tão frágeis.



(versão minha; original reproduzido aqui).

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Óscar Hahn

Numa estação de Metro



Desventurados os que avistaram
uma rapariga no Metro

e se apaixonaram de repente
e a seguiram enlouquecidos

e a perderam para sempre entre a multidão

Porque serão condenados
a vaguear sem rumo pelas estações

e a chorar com as canções de amor
que os músicos ambulantes cantam nos túneis

E se calhar o amor não é mais do que isso:

uma mulher ou um homem que sai de uma carruagem
numa qualquer estação de Metro

e resplandece por uns segundos
e desaparece na noite sem nome



(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 95).

sábado, 12 de setembro de 2009

Marcin Swietlicki

A palavra ética (24 de Março de 1988)



Varro as escadas que conduzem ao
Palácio das Artes. Isto não é uma metáfora:
é a realidade. Algum dinheiro extra.
A poesia precisa de sobreviver de alguma maneira. A poesia
tem que comer.
É primavera. O inverno deixou-nos a sua sujidade -
esta mistela branca tão facilmente transformada em lama
húmida, negra e pegajosa. Um monte
de beatas, papéis, caganitas de pássaros, fezes de cão e
um bocado que é provavelmente um excremento humano.
Isto também não é uma metáfora: é a realidade.
O meu uso das palavras trouxe-me
até aqui. O céu ficou limpo.
A chuva não lavará tudo isto.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Donald Pirie, reproduzida em Young poets of a new Poland, Forest Books, Londres, 1993, p. 169).

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Bronislaw Maj

Nunca escreverei um poema...



Nunca escreverei um poema longo: tudo
o que encontrei aqui impede-me
de dizer mentiras: isto existe entre
duas golfadas de ar, apenas num
relance, num só aprisionamento do coração. E agora
estou só, e o que está aqui comigo
chega apenas para uma dúzia (mais ou menos)
de pequenos versos, um poema tão breve como o instante de vida
de uma borboleta das couves, ou o fulgor de luz
na crista de uma onda,
de um ser humano, ou de uma catedral. Uma dúzia (mais
ou menos) de versos depois,
e o que existe entre eles: a perpétua
fulgurância da luz, a eternidade da vida de uma borboleta
e a humanidade que transcende
a morte.




(versão minha, a partir da tradução inglesa de Donald Pirie, reproduzida em Young poets of a new Poland, Forest Books, Londres, 1993, p. 61).

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Marie Howe

Depressa



Paramos na lavandaria e na mercearia
e na estação de serviço e no mercado da fruta e
Despacha-te querida, digo eu, depressa,
enquanto ela vai correndo dois ou três passos atrás de mim
com o casaco azul aberto e as meias descaídas.

Para onde quero eu que ela se apresse? Para a sua sepultura?
Para a minha? Para que se descubra um dia finalmente adulta?
Hoje, cumpridas todas as tarefas, digo-lhe,
Desculpa-me querida estou sempre a dizer-te que te despaches -
Vai tu à frente. Faz tu de mãe.

Então, Despacha-te, diz ela, muito segura, olhando
para trás, para mim, rindo-se. Despacha-te queridinha, diz ela,
despacha-te, depressa, tirando-me as chaves de casa das mãos.



(versão minha; original reproduzido aqui).

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Óscar Hahn

Retrato de família iraquiana



O pai de turbante
e denso bigode negro
com os braços cruzados
À esquerda a sua esposa
com a túnica bordada
e o véu branco
Ahmad e Zainab
os dois filhos pequenos
de mãos dadas
Os avós sentados
em cadeirões de verga
Todos a sorrir
numa fotografia meio chamuscada
encontrada entre os escombros
da sua casa
depois do bombardeamento



(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 46).

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Vladimíra Cerepková

Para Eva O.



Não me fales como a um morto
não me fales como se eu fosse um defunto
fala-me
como se eu ainda não tivesse nascido
fala-me como se eu fosse árvore



(versão minha, a partir da tradução francesa de Petr Král reproduzida em Anthologie de la poésie tchèque contemporaine: 1945-2000, Gallimard, Paris, 2002, p. 266).

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Óscar Hahn

Nunca se sabe



Num bairro qualquer
no trabalho
na universidade
há um indivíduo que parece
perfeitamente normal
um bom cidadão
um estudante entre outros
um chefe de família
que cumpre os seus deveres
e dorme tranquilo
Ele não sabe
que noutras condições
noutro tempo
noutras circunstâncias
poderia ser
um informador
da polícia secreta
um censor de livros
um torturador
No entanto está aí
mesmo ao pé de ti
ou talvez sejas tu próprio
aquele que lê este poema
ou aquele que o escreve



(versão minha; original reproduzido em Poemas de la era nuclear, Bartleby Editores, Prólogo de Alexandra Domínguez, Madrid, 2008, p. 43).

sábado, 29 de agosto de 2009

Marvin Bell

Para Dorothy



Não és exactamente bela.
És inexactamente bela.
Deixas a erva daninha crescer junto à amoreira
E a amoreira cresce junto à casa.
Tão perto, no particular silêncio
De uma noite ventosa, que raspa a parede
E varre o dia até que adormecemos.

Uma criança disse-o, e pareceu verdadeiro.
"As coisas que se perderam são todas iguais."
Mas não é verdade. Se te perdesse
O ar não se moveria, nem a árvore cresceria.
Alguém arrancaria a erva daninha, minha flor.
O silêncio deixaria de te pertencer. Se te perdesse
Teria que pedir à erva que me deixasse adormecer.



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, seleccção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 7).

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Pablo Garcia Casado

Bloomberg



... TPI 3,86 +5,75. União FENOSA, 12, 42 +2,48. Valleformoso 9,15 + 1,10%. Zeltia 6,52 +2,19%. O euro tem estado a subir na última hora depois de ter sido fortemente desvalorizado devido aos avanços das tropas da coligação anglo-americana. Tony Blair opõe-se a que a Síria seja o próximo país a ser alvo de bombardeamentos na guerra. O Iraque assegura que derrubou dois caças bombardeiros americanos, um A-10 e um F-15, em Bagdade, segundo um porta-voz da televisão oficial iraquiana. George Bush chega à Irlanda do Norte para se reunir com Blair e conversar sobre a reconstrução do Iraque. Um dos responsáveis do Pentágono, Paul Wolfowitz, afirma que serão necessários pelo menos seis meses até que se possa organizar no Iraque um governo depois da queda de Saddam. A GUERRA NO IRAQUE. O jornalista espanhol Julio Anguita Parrado foi morto durante um ataque iraniano contra um centro de comunicações dos Estados Unidos nos arredores de Bagdade. O meu filho mais velho, de 32 anos, acaba de morrer no cumprimento das suas obrigações de correspondente de guerra. Há 20 dias esteve comigo e disse-me que queria estar na linha da frente, declarou o seu pai, Julio Anguita. A Cruz Vermelha adverte que as condições dos hospitais em Bagdade são terríveis. Peritos americanos em armamento químico e biológico acreditam ter encontrado um armazém iraquiano de mísseis com substâncias que poderão ser gás mostarda e gás sarin. O quartel general americano afirma que o governo do Iraque ainda possui alguma capacidade militar. Colin Powell declara que Washington enviará para o Iraque uma equipa preparada para colaborar na formação de um governo provisório no país. O número de prisioneiros iraquianos eleva-se a mais de 7.000, segundo o general Richard Myers. Geof Hoon disse desconhecer o paradeiro de Saddam e dos seus filhos. O IBEX 35 está a valorizar-se em 2,06%, pelo que se situa nos 6.45,20 pontos. Acerinox 35,00 +1,39%. Amadeus 4,59 +3,85...



(versão minha; original reproduzido em Poesía Pasión - doce jóvenes poetas españoles, selecção, introdução e notas de Eduardo Moga, Libros del Innombrable, Saragoça, 2004, pp. 147-148.)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Jan Erik Vold

O mistério básico do capitalismo



O mistério básico
do capitalismo: como uma coroa, permanecendo imóvel

durante um certo período de tempo, faz nascer dez cêntimos
ao seu lado - por exemplo: Tu pões

como diz o anúncio
20.000 coroas numa conta de alta rentabilidade

num dos nossos grandes bancos. Passados seis anos
podes ir a esse banco e receber

35.532 coroas. Agora a questão é: A quem
tiraram as 15.532 coroas?



(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Francisco J. Uriz reproduzida em El poema nos recuerda el mundo, prólogo, selecção e tradução de Francisco J. Uriz, Libros del Innombrable, Saragoça, 2000, p. 104).

domingo, 26 de julho de 2009

Aaron Zeitlin

As crianças estão sempre a morrer



As crianças desaparecem.
Os adultos - espectros
de crianças mortas.

As crianças - sempre a morrer -
mesmo aquelas que continuam a brincar
no pátio da escola, na varanda
nas traseiras do armazém, atrás do sofá,
no canto do quarto.
As suas brincadeiras são breves -
acabam num instante.
Os adultos avisam-nas,
"Não se sujem."
"Despachem-se, vamos embora."

As crianças - criadoras. Travessas.
Agora aqui mesmo, desaparecidas logo a seguir.

As crianças desaparecem.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Richard J. Fein, reproduzida em With everything we've got - a personal anthologt of yiddish poetry, selecção e tradução de Richard J. Fein, Host, Austin, 2009, p. 128).

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Aaron Zeitlin

Texto



Todos nós -
pedras, pessoas, estilhaços de vidro ao sol,
embalagens de compota, gatos e árvores -
somos ilustrações de um texto.

Algures, ninguém precisa de nós.
Aí, só o texto é lido -
as imagens desfazem-se como folhas secas.

Quando o vento da morte sacode a erva alta
e todas as imagens criadas pelas nuvens
a ocidente são varridas para longe -
a noite chega e interpreta as estrelas.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Richard J. Fein, reproduzida em With everything we've got - a personal anthology of yiddish poetry, selecção e tradução de Richard J. Fein, Host, Austin, 2009, p. 126).

terça-feira, 21 de julho de 2009

Jean Nordhaus

Eu estava sempre de partida



Eu estava sempre de partida, sempre
prestes a levantar-me e a seguir, sempre
a caminho, sem saber para onde.
Para outro sítio. Aqui é que não.
Aqui nunca nada me bastava.

Teria de ser melhor lá, para onde
me dirigia. Sem saber como, nem porquê.
A cúpula debaixo da qual me encolhia
seria erguida, e eu haveria de ser lançado
para dentro da minha verdadeira vida. Nela

encontraria os que estava destinado a encontrar.
Receber-me-iam em festa,
com flautas e castanholas,
e seria levantado no ar. Que isto
pudessse ser uma espécie de morte

não me ocorreu. Só sei que
alguma coisa me reteve,
uma dúvida, uma dívida, um rosto que não pude
abandonar. Quando a porta
se abriu, não entrei.



(versão minha; original reproduzido aqui).

domingo, 19 de julho de 2009

Yehuda Amichai

Em memória de Dicky


Em memória de Dicky



Chove sobre a cara dos meus amigos;
sobre a cara dos meus amigos vivos
que tapam a cabeça com a manta
e sobre a cara dos meus amigos mortos
que já não se tapam.



(versão minha, a partir da tradução para espanhol de Teresa Martínez reproduzida em Poesía hebrea contemporânea, tradução e introdução de Teresa Martínez, Hiperión, 2 ª edição, Madrid, 2001, p. 59).

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Amir Gilboa

Sentai-vos, amigos...



Sentai-vos, amigos, senta-te também tu
pai eu sou
aqui o mais alto o mais velho
de vós.

Sentai-vos comigo amigos meus
também eu aqui
me calarei convosco.



(versão minha, a partir da tradução do espanhol de Teresa Martínez reproduzida em Poesía hebrea contemporânea, tradução e introdução de Teresa MArtínez, Hipérión, 2ª edição, Madrid, 2001, p. 37).

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mada Alderete

Nunca poderia ser Bukowski



nunca bebi um whisky inteiro
pelo que não poderia ser como ele
não sei o que se sente na pele de um sedutor
bêbedo, cansado e sujo,
eu teria cortado o cabelo
cheiraria a tangerina
e a minha casa seria branca
repara só no tempo que demorei com um pano
enquanto ele escrevia sem parar
não sou partidária da violação
não me entusiasma
importam-me as mulheres
não só como buraco e latrina
claro que não tenho nada pendurado entre as pernas
ansiando por uma estreita caverna diferente a toda a hora
isso conta bastante
bebo sumos nos bares
às vezes chá
e ao terceiro chá mudo para água mineral
porque me excita em demasia
poderia acontecer alguma coisa e eu não posso arriscar
bem vês
sou medrosa
assustar-me-ia ser como ele
tenho medo dos cães e das noites na rua
não sei vaguear sozinha à procura de sexo
nem sei onde se vendem drogas
nem quanto custam
se por acaso as pudesse pagar
às vezes vejo suspeitos cochichando em grupo
e não me aproximo
como de certeza ele faria
corro na outra direcção
aquela onde estão os bebés
que embalo encantada
conto-lhes histórias inocentes
nada bukowskianas
nunca amanheci cheia de litros de cerveja
e com cuecas com cheiros desconhecidos junto à cara
sempre fodi com um homem de cada vez
sem contar com os fantasmas
sofri mas mão me dava para sujar tudo e escrever
antes para chorar
e agora mudo de passeio se vejo que um danado me olha
porque sou cobarde
e porque não me porto mal
jamais existirão os meus melhores textos
posso sim
convidar-vos amanhã para abraços e pão-de-ló



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa espanõla, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile de Sol, 2ª edição, Tenerife, pp. 269-270).

terça-feira, 14 de julho de 2009

Thomas Lux

Kalashnikov



(uma metralhadora AK-47, provavelmente a arma ligeira mais produzida da história)



Criada por Mikhail Kalashnikov que, se fosse vivo,
hoje teria setenta e três anos,
mas tão
conhecido na sua terra Russa
como Marina Tsvetayeva, Anna Akhamatova,
ou Ossip Mandelstam? Os Russos amam
os seus poetas. Eu não sei

o que eles sentem por Kalashnikov,
mas ele é ou foi mais próspero do
que alguma vez foram os poetas acima mencionados
e espalhou milhões de homónimos
por todo o lado: lê um livro
onde se fale de pessoas a matar pessoas - revolucionários,
sejam sérios e sinceros,

ou meros bandidos: Kalashnikoves - todos têm uma.
Há sempre um movimento de guerrilha
algures: uma Kalashnikov. Assassinos,
peões de senhores da guerra, contrabandistas, piratas,
ladrões: Kalashnikoves, calibre
7.62 x 39, 600 tiros
por minuto, um potencial de 10 cadáveres

por segundo.
Kalashnikov - não é uma dança,
ou uma trupe de prestigitadores divertidos,
ou uma marca de vodka,
e se responderes que é uma pequena cidade (49.000 habitantes)
no sul da Crimeia,
então estás mortalmente enganado.



(versão minha; original reproduzido em New & selected poems, 1975 - 1995, Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 154).

sábado, 11 de julho de 2009

Jan Heller Levi

Nada mau, papá, nada mau



Penso que és mais tu próprio quando nadas;
cortas a água a cada braçada,
a maneira curiosa como respiras, a tua boca aberta
como se estivesses a bocejar.

Não és nem fantástico nem um desastre
no percurso daqui para ali.
Não ganharás medalhas, papá,
mas também não irás ao fundo.

Penso em como tudo poderia ter sido diferente
caso tivesse avaliado o teu amor
como avalio o teu estilo livre, a tua mariposa,
o teu estilo de bruços.

Mas eu sempre pensei que me estava a afundar
naquele oceano gelado entre nós,
sempre pensei que te movias demasido devagar para me salvares
quando afinal o fazias o mais depressa que podias.





(versão minha; original reproduzido em Poetry 180, a turning back to poetry, organização e introdução de Billy Collins, Random House, Nova Iorque, 2003, p. 5).

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Joseph Stroud

A noite no dia



A noite nunca quer acabar e entregar-se
à luz. Por isso emaranha-se em certas coisas: obsidiana, corvos.
Até no solstício do Verão, o dia do grande triunfo
da luz, quando os campos de girassóis se empanturram ao sol -
abrimos a melancia e cuspimos as sementes
negras, partículas da noite cintilando na erva.



(versão minha; original aqui).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Marina Boroditskaya

Pobre compositor



Pobre compositor,
dispensável sem um piano,
pobre prosador,
desesperado sem uma secretária.
E pobre artista,
que precisa de cavalete, pincéis
e pequenos tubos de tinta.
Eu não seria capaz de lidar com isso.

Pobre, pobre escultor.
Pobre realizador.
Neste mundo só
o poeta é um ser afortunado.
Ele caminha pelo parque
com uma estrofe na cabeça.
(Isto desde que não lhe dês
- como a Pushkin - um tiro nas tripas).



(versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Fainlight, reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, organização e selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, p.21).

sábado, 4 de julho de 2009

Yusef Komunyakaa

Terra do Nunca



Quem me dera que esta noite
não fosses um dos Jackson Five
e apenas permanecesses

dentro de ti próprio,
intocado pelo vampiro
do luar. Tão ansioso

por representar O Outro,
terás esquecido que Drácula
foi escolhido pelo

seu cabelo negro, pela sua pele
cor-de-azeitona? Depois de
te teres tornado a tua própria capa

os títulos dos tablóides
enxertaram o teu nome
num rapazinho louro.

A tua vida íntima escorreu como sangue
pelo papel de jornal,
cruzou o teu rosto. Victor

Frankenstein sabia que é nosso dever
amarmos o que criamos. Talvez
agora a pele comece a rejuvenescer

sobre as mentiras & subtraia
tudo o que mina
nariz & ossos malares.

Tu podias dizer-nos se
é a solidão que faz
o pardal cantar.

Michael, não ligues
ao que a maquilhadora
diz, tu sabes

que o teu esperma nunca
reproduzirá esse rosto
no espelho oval.




(versão minha; original reproduzido em Real things - an anthology of popular culture in american poetry, selecção e organização de Jim Elledge e Susan Swartwout, Indiana University Press, Bloomington, 1999, pp. 150-151).

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Thomas Lux

Um homem leva a filha de 5 anos a uma execução pública pela guilhotina, Paris, 1857




É um homem mau. Diz ele em francês
à sua filha, na mesma cidade,
no mesmo ano em que Charles Baudelaire
publicou As Flores do Mal.
O pai da criança acredita
na utilização democrática desta máquina
indolor, rápida, humanitária: "Uma doce donzela
cujo abraço impulsionará a alma - seja de quem for -
para o céu". "Se te portares mal...", diz ele,
que soube pela leitura que Goethe comprou para o filho
uma guilhotina de brincar -
mas esta criança pode ver.
Senta-a nos seus ombros.
Não consigo ver os fantoches, diz ela.
É um homem mau, diz-lhe o pai.
A multidão já viu tudo isto outras vezes.
Alguns trazem vinho, comida.
A lâmina cintila - passarão ainda quinze anos
até que, manchada de preto,
o seu brilho seja obscurecido,
e mais alguns para que amortecedores de borracha sejam acrescentados
de forma a reduzir o duplo (o ressalto) impacto
da lâmina.
Papá, continuo sem conseguir ver os fantoches.



(versão minha; original reproduzido em New & selected poems - 1975 - 1995, Mariner Books, Boston / Nova Iorque, 1997, p. 11).

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Kenneth Rexroth

A madalena de Proust



Alguém ofereceu à minha
Filha uma caixa de
Velhas fichas para jogar póquer.
Hoje ela mostrou-me uma enquanto
Eu estava sentado, morto de
Cansaço, à secretária. É vermelha.
No verso e no reverso a imagem da
Cabeça de um alce e as letras
B.P.O.E. - uma ficha do Alce
Clube de uma qualquer pequena cidade. Atiro-a
Negligentemente ao ar e
Agarro-a para fazer um truque
Que divirta a minha filha.
De súbito tudo resvala para outro lado.
Vejo o meu pai
A fazer exactamente a mesma coisa,
Assobiando "Beautiful Dreamer",
O seu hálito cheirando fortemente
A whisky e tabaco. Posso
Escutá-lo a chegar a casa bêbedo
Vindo do Alce Clube de Elkhart,
Indiana, embatendo
Contra as cadeiras no escuro. Posso vê-lo
A morrer por causa de uma cirrose
No fígado, de úlceras
No estômago e pneumonia,
Ou, como ele disse no seu leito de morte,
Por causa de cartas manhosas, whisky genuíno,
Cavalos vagarosos e mulheres velozes.



(versão minha, a partir do original e da tradução castelhana de Armando Roa Vial, reproduzidos em This be the verse - 26 poetas de lengua inglesa del siglo XX, selecção, prólogos e traduções de Diana Dunkelberguer, Marcelo Rioseco e Armando Roa Vial, Be-uve-draís Editores, Santiago de Chile, 2003, pp. 86-87).

sábado, 27 de junho de 2009

Nina Cassian

Nós dois



Meu Deus, que sonho tive:
nós dois, mais apaixonados do que nunca,
a fazer amor como se fôssemos o primeiro casal na terra...
- e parecíamos tão belos, nus e selvagens,
nós dois, mortos.



(versão minha a partir da tradução do romeno para o inglês da responsabilidade da autora, reproduzida em The poetry of survival, organização e prefácio de Daniel Weissbort, Peguin, 2ª edição (?), Londres, 1993, p. 107).

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Belén Reyes

Sou poeta



Sou poeta
E nunca levo escolta.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, p.249).

terça-feira, 23 de junho de 2009

Nina Cassian

Exercícios matinais



Acordo e digo: estou inteira.
É o meu primeiro pensamento ao amanhecer.
Que bela maneira de começar o dia
com um pensamento tão bárbaro.

Meu Deus, tem piedade de mim
- é o segundo pensamento, e depois
levanto-me da cama
e faço-me à vida como se
nada tivesse sido dito.



(versão minha a partir da tradução inglesa do original romeno feita pela autora e reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª (?) edição, 1993, p. 107).

domingo, 21 de junho de 2009

José Manuel Arango

Os que têm por ofício lavar as ruas



Os que têm por ofício lavar as ruas
(madrugam, Deus ajuda-os)
encontram nas pedras, um dia após outro, rastos de sangue

E também os lavam: é o seu ofício
E depressa
não se dê o caso de os primeiros transeuntes os espezinharem



(versão minha; original reproduzido em La poesia del siglo XX em Colombia, edição de Ramón Cote Baraibar, Visor, Madrid, 2006, p. 276).

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Miroslav Holub

Cemitério judeu em Olsany, túmulo de Kafka, Abril, tempo solarengo



Ocultas sob os carvalhos
algumas pedras abandonadas
como palavras dispersas.
A solidão é tão compacta
que tem de ser feita de pedra.

O homem velho ao portão,
um Gregor Samsa
que não sofreu nenhuma metamorfose,
olha de esguelha
sob a nudez da luz,
respondendo a todas as perguntas:

Desculpe, mas não sei.
Não sou de Praga.



(versão minha, a partir da tradução do checo para o inglês de David Young e Dana Hábová reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), p. 184)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Leopold Staff

Fala



Não é necessário compreender o canto do rouxinol
Para o admirar.
Não é necessário compreender o coaxar das rãs
Para o considerar inebriante.
Eu compreendo a fala humana
Com todas as suas duplicidades e mentiras.
Se não a compreendesse
Seria o maior dos poetas.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Adam Czerniawski reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª (?) edição, 1993, p. 62).

domingo, 14 de junho de 2009

Brenda Ascoz

se sentes que não existes



se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca

se tu não existes,
a tua solidão muito menos.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 131).

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Roxana Popelka

Acerca da verdade, acerca da felicidade



Agora que
não estou contigo,
que não estarei
contigo nunca
mais,
é bom que
te diga várias coisas:

enganei-te
um montão de vezes
com alguns homens
muito mais jovens
do que tu
porque sabia que
isso era o que mais
te doía
e voltaria a fazê-lo
acredita
- asseguro-to -

que foram
os momentos
mais felizes da
minha vida.

Quando esses homens
me abriam a
porta e me
faziam entrar
nas suas casas.
E nos despíamos
com impaciência.

Então tirava
a camisola preta,
aquela, sim!
e o sutiã.

Alguns diziam-me:
"espera, fica um
instante com as cuecas
vestidas."

E beijávamo-nos
com paixão,
era autêntica a
paixão.

Lá fora
no pátio da
casa
ouvia-se uma mulher
a mexer os ovos perto do
televisor.

E voltávamos a beijar-nos
com ardor
esmagando
o que restava
dos nossos corpos
Alguns corpos
ossudos, outros
debilitados,
ou barbeados
tanto se me dava.

E entretanto
eu pensava tanto em como te
sentirias se tivesses
sabido
tudo isto.

Mas sempre
tive bons
álibis,
ainda te lembras?

Nunca suspeitaste
que tudo
aquilo era
mentira,
que o que fazia
verdadeiramente
era enganar-te com
homens muito
mais jovens
do que tu.

E essa
- asseguro-te -
foi a época
mais feliz da
minha vida.





(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, pp. 210-213).

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Carol Ann Duffy

Namorada



Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.

Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Promete luz
tal como o cuidadoso desnudamento do amor.

Aqui.
Vai cegar-te com lágrimas
tal como um amante.
Vai fazer do teu reflexo
uma fotografia tremida de dor.

Tento ser verdadeira.

Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.

Ofereço-te uma cebola.
Os seus beijos violentos permanecerão nos teus lábios,
possessivos e fiéis
como nós somos,
enquanto continuarmos a ser.

Aceita-a.
Se o desejares
os seus anéis de platina servem de alianças.

Letais.
O seu cheiro vai agarrar-se aos teus dedos,
agarrar-se à tua faca.



(versão minha; original reproduzido em Selected poems, Peguin, Londres, 2006, p. 11).

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Almudena Vidorreta Torres

Outro lugar



Noutro lugar deixou-se ficar nua
e deu o seu corpo ao lobo mais faminto da cidade.

Noutro lugar abriu a casa ao inimigo
e disse-lhe toma tudo quanto queiras.

Noutro lugar dançou com tanta água
que se lhe humedeceram as entranhas
e apodreceu por dentro.

Noutro lugar veio tanta gente vê-la
que o aplauso se transformou em tempestade de Verão
e a cabeça estalou-lhe de tanta névoa e tantos caracóis
e tanto Agosto e tanto fogo.

Noutro lugar rendeu-se
deixou-se levar pelo instinto noutro lugar
e deitou-se para sobreviver aos seus pés
e lamber as feridas do caminho...
e viveu noutro lugar a vida de rastos.

Noutro lugar,
não neste.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 21.)

sábado, 6 de junho de 2009

Kevin Griffith

Girando



Seguro o meu filho de dois anos
por debaixo dos braços e faço-o girar.
Os seus pés afastam-se de mim
e o dia desfaz-se numa mancha.
Tudo o que possuo voa pelos ares:
brinquedos de quintal, balde de areia, pá e ancinho,
garagem, casa,
e, por fim, os anos da minha vida.

Quando paramos, o meu filho é um adulto
e eu envelheci. Voltamos
a vacilar nos braços um do outro
uma última vez, dois amigos extraviados
cambaleando por causa da bebida,
recordando os bons velhos tempos.



(versão minha; original reproduzido aqui).

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Wendy Cope

Poema composto em Santa Bárbara



Os poetas falam. Falam muito.
Falam de T.S. Eliot.
Um é contra. Outro a favor.
Que pensamentos profundos, os seus! Quanta sabedoria!
São felizes. Uma cigarra canta.
Nós, mulheres, falamos de outras coisas.



(versão minha; original reproduzido aqui).

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Kevin Griffith

Dobrando os quarenta



De tempos a tempos parece que há um pequeno planeta
dentro de mim. E neste planeta
há uma imensidade de pequenas guerras, porém nenhuma
suficientemente grande para fazer uma verdadeira diferença.
As maiores potências - o espírito e o coração - declararam
tréguas por agora. Se houve um líder neste planeta
ninguém se lembra dele. Todas
as decisões são tomadas em conjunto.
No entanto há algumas imagens do velho ditador -
como parecia cheio de juventude no seu grande cavalo,
como brilhavam os seus olhos.
Estava preparado para conquistar o mundo.



(versão minha; original reproduzido aqui).

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Carmen Ruiz Fleta

A mulher mais feia do mundo



A mulher mais feia do mundo
falava-me dos tratamentos faciais gratuitos
enquanto punha na minha mão um folheto
com a mulher mais bela do mundo.
Foi às 10 horas da manhã.
A mulher mais feia do mundo
deve entregar 500 folhetos diários
da mulher mais bela do mundo
para ganhar 587 euros por mês.
Ninguém olha a cara da mulher mais feia do mundo.
Ninguém se atreve.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesía alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 87).

sábado, 30 de maio de 2009

Sofía Castañón

Chamo-me Sofía



Chamo-me Sofía
e desde pequena
tenho ouvido que é nome
de rainha.

Chamo-me Sofía
como os passos obscuros da minha avó
antes que um comboio me deixasse só
um nome
e um vazio
na memória.

Chamo-me Sofía
igual a conhecimento,
recordam-no aqueles que sabem três
palavras de grego e têm
muito pouco que contar.

Chamo-me Sofía
e nunca me dizem
como Coppola, como Marceau,
como a de Kill Bill
aquela a quem cortaram os dois braços.

E desculpo-me
por não ter um Jostein Gäarder
no meu mundo, por não
querer estar na ribalta, por não
ter da Bulgária mais do que um postal
que não era para mim.

Chamo-me Sofía
e desde pequena tenho ouvido
que é nome
de rainha e também
que por aqui chove muito
e que antes se lia mais
e que as crianças já não sabem brincar
e tantas outras
conversas de café. Por isso
para evitarmos
tanto tópico
e tanto discurso monárquico
queria chamar-me
de vez em quando
Dolores, Virgínia, Marguerite
e falar também
de revolução.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - poesia alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, pp. 37-38).

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Déborah Vukušić

chamo-me déborah vukušić



chamo-me déborah vukušić
sou duas metades
metade galega e metade croata
tenho 26 anos
23 de maio de 1979
saio para a luz

déborah em hebraico
'abelha'
vukušić em croata
uši: 'orelhas'
vuk: 'lobo'

abelha com orelhas de lobo




(versão minha, a partir do original em galego (?) e da sua versão castelhana (?), reproduzidos em 23 Pandoras - poesia alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, 2ª edição, Tenerife, 2009, p. 71; mais informação aqui e aqui).

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Kenneth Rexroth

O lobo



Não acredites em tudo o que ouves.
Os lobos não são tão maus como os cordeiros.
Eu tenho sido um lobo toda a minha vida,
E tenho duas filhas adoráveis
Para o comprovar; em contrapartida poderia
Contar-te histórias repugnantes
De cordeiros que tiveram o que mereceram.


1956
(versão minha, a partir do original e da tradução para castelhano de Armando Roa Vial, reproduzidos em This be the verse - 26 poetas de lengua inglesa del siglo XX, selecção, prólogos e traduções de Diana Dunkelberguer, Marcelo Rioseco e Armando Roa Vial, Be-uve-dráis Editores, Santiago de Chile, 2003, pp. 88-89)

sábado, 23 de maio de 2009

Kenneth Rexroth

O leão



O leão é conhecido como o rei
Das bestas. Hoje em dia há
Quase tantos leões
Dentro como fora das jaulas.
Se te oferecerem uma coroa, recusa-a.


1955

(versão minha, a partir do original e da tradução para castelhano de Armando Roa Vial, reproduzidos em This be the verse - 26 poetas de lengua inglesa del siglo XX, selecção,prólogos e traduções de Diana Dunkelberguer, Marcelo Rioseco e Armando Roa Vial, Be-uve-dráis Editores, Santiago de Chile, 2003, pp. 86-87).

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Steve Kowit

A lição de gramática



Um nome é uma coisa. Um verbo é a coisa que se faz.
Um adjectivo é o que descreve o nome.
Em "A vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim"

de e com são preposições. A é
um artigo, uma vasilha é um nome,
um nome é uma coisa. Um verbo é a coisa que se faz.

Uma vasilha pode ressoar - ou não. O que não é foi
ou pode ser, pode significando o ainda não conhecido.
"A nossa vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim"

é o presente do indicativo. Enquanto palavras como nossa e nós
são pronomes - isto é, isto é bolorento e eles são castanhos e repelentes.
Um nome é uma coisa; um verbo é a coisa que se faz.

Está é um verbo auxiliar. Auxilia porque
cheia não é uma forma verbal completa. A vasilha é o que é nosso
em "A nossa vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim".

Entendem? Não há muito mais a saber. É
só memorizar estas regras... ou escrevê-las no caderno!
Um nome é uma coisa, um verbo é a coisa que se faz.
A vasilha de beterrabas está cheia com cotão carmesim.



(versão minha; original reproduzido aqui).

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Blaga Dimitrova





A árvore perdoa ao vento
que lhe saqueia as folhas
e abraça-o com os ramos.
A ave perdoa à nuvem
que engole o sol
e saúda-a com as asas.
A onda perdoa à pedra
que lhe impede o salto
e envolve-a em carícias.
Só o homem não perdoa
ao ar, à água, à pedra,
a nenhuma criatura terrestre.
Persegue tudo com crueldade.

E está só no universo.




1994



(versão minha, a partir da tradução para castelhano de Zhivka Baltadzhieva, reproduzida em Espacios, tradução e prólogo de Z. Baltadzhieva, La Poesia, señor hidalgo, Barcelona, 2006, p. 113).

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Vladimír Holan

Mãe



Alguma vez observaste a tua velha mãe
a compor a cama para ti,
a maneira como ela estica, endireita, aconchega e alisa os lençóis
para que não sintas um só vinco?
A sua respiração, o movimento das palmas das mãos
são tão ternos
que no passado apagam esse incêndio em Persepolis
e agora acalmam uma futura tempestade
nas costas da China ou em mares desconhecidos.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Ian e Jasmila Milner, reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), 1993, p. 37).

sábado, 16 de maio de 2009

Maggie Anderson

Cuspindo para as folhas



Em Spanishburg há rapazes com calças de ganga justas,
lama nas botas de vaqueiros, que usam grandes chapéus
com penas, penas de doninha dizem-me eles.
Não querem estar na escola, mas estão.
Alguns professores preocuparam-se o suficiente para os agarrar. Ao contrário
dos seus primos magros e desgrenhados, esses rapazes na Rua
Principal de Matoaka em Outubro, que se recostam nos parquímetros
e cospem para as folhas. Por causa deles, alguém
irá pensar que precisamos de uma guerra, que a melhor solução
para eles será pegar nos seus chapéus e penas,
nas suas belas maneiras de rústicos, e arrastá-los para longe,
para o Vietname, ou El Salvador. E eles irão.
Irão da Virgínia ocidental, das colinas e das estradas interiores
que ziguezagueiam como políticos por entre as árvores, e irão combater,
não porque saibam porquê mas porque o que sabem
é combater. O que sabem resume-se às suas penas,
aos seus braços fortes e descarnados, ao modo
como cospem para as folhas.



(versão minha; original reproduzido em American poetry now, organização de Ed Ochester, University of Pittsburgh Press, Pittsburgh, 2007, p. 2).

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Carol Ann Duffy

Educação para o ócio



Hoje vou matar alguma coisa. Qualquer coisa.
Estou farto de ser ignorado e hoje vou
representar o papel de Deus. É um dia vulgar,
uma mistura de cinzento e tédio arrebatador pelas ruas.

Esmago uma mosca contra a janela com o polegar.
Fizémo-lo na escola. Shakespeare. Foi noutra
língua e agora a mosca mudou-se para outra língua.
Expiro talento no vidro para escrever o meu nome.

Sou um génio. Poderia ser o que quisesse, com metade
da sorte. Mas hoje vou mudar o mundo.
O mundo de qualquer coisa. O gato evita-me. O gato
sabe que eu sou um génio, e escondeu-se.

Deito pela sanita os peixes dourados. Puxo o autoclismo.
Vejo como isto é bom. O periquito está aterrorizado.
De quinze em quinze dias, faço três quilómetros até à cidade
por causa de uma assinatura. Eles não gostam do meu autógrafo.

Não há nada para matar. Telefono para a rádio
e digo ao homem que está a falar com uma super-estrela.
Ele desliga. Pego na nossa faca do pão e saio.
O piso resplandece de súbito. Toco no teu braço.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

terça-feira, 12 de maio de 2009

Vladimír Holan

Entre



Entre a ideia e a palavra
há mais do que podemos compreender
Há ideias para as quais não se encontram palavras.

O pensamento perdido nos olhos de um unicórnio
reaparece na gargalhada de um cão.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Ian e Jasmila Milner, reproduzida em The poetry of survival, Peguin, organização e introdução de Daniel Weissbort, Londres, 2ª ed. (?), 1993, p. 38).

domingo, 10 de maio de 2009

Lucille Clifton

testamento



no princípio
era o Verbo.

o ano do Senhor,
ámen. eu
lucille clifton
por este meio atesto
que naquele quarto
havia uma luz
e nessa luz
havia uma voz
e nessa voz
havia um suspiro
e nesse suspiro
havia um mundo.
um mundo um suspiro uma voz uma luz e
eu
sozinha
num quarto.



(versão minha; original reproduzido em The generation of 2000 - contemporary american poets, prefácio e organização de William Heyen, Ontario Rewiew Press, Nova Iorque, 1984, p. 36-37).

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Jane Kenyon

A tigela azul



Como primitivos enterrámos o gato
com a sua tigela. De mãos nuas
amontoámos areia e cascalho
sobre a cova.
Com um silvo
e um baque caiu tudo sobre os seus flancos,
sobre a sua extensa pele vermelha, a plumagem
branca entre os seus dedos e o seu
longo, para não dizer aquilino, nariz.

Parámos e sacudimos o pó um ao outro.
Há desgostos mais fundos do que este.

Silenciosos o resto do dia trabalhámos,
comemos, olhámo-nos fixamente, dormimos. Toda a noite
houve temporal; agora o dia clareia, e um pintarroxo
gorjeia num arbusto gotejante
como o vizinho que nos quer bem
mas diz sempre a coisa errada.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

terça-feira, 5 de maio de 2009

William Stafford

Junto ao Monumento Não-Nacional ao longo da fronteira canadiana



Este é o campo onde a batalha não se deu,
onde o soldado desconhecido não morreu.
Este é o campo onde a erva encontra as mãos,
onde não há nenhum monumento
e a única coisa heróica é o céu.

Os pássaros voam aqui sem produzirem som,
abrindo as asas através do espaço aberto.
Ninguém matou - ou foi morto - sobre esta terra
sagrada pelo abandono, uma brisa tão doce
que as pessoas celebram esquecendo o seu nome.





(versão minha; o original pode ser lido aqui).

domingo, 3 de maio de 2009

Jorge Urrutia

(Porque sou só verbo)



Uma só Anne Frank comove-nos mais que as inumeráveis pessoas que sofreram o mesmo que ela. E assim talvez tenha que ser: se tivéssemos que e pudéssemos partilhar os sofrimentos de todas as pessoas, não poderíamos continuar a viver.


Primo Levi



Este parágrafo pode ter dois comentários que interessam
de um ponto de vista semiótico.
Não importa tanto, para comover, para convulsionar, para
reclamar a acção, o sofrimento como o signo do sofrimento.
Através do seu diário, a jovem Anne converteu-se
nisso, em signo da maldade, não já sofrida, antes exercida sobre
o ser humano. À ética não diz respeito a maldade pelo sofrimento,
antes pelo acto.
No entanto, para se converter em símbolo, Anne Frank precisou
da escrita. Sem esta não teria havido Anne, e sem Anne careceria
de expressão a dor sofrida e a injustiça cometida.
Logo, terrivelmente (e digo bem "terrivelmente"), só a
escrita importa. No fim, só a escrita é.





(versão minha; original reproduzido em Metalingüísticos y sentimentales, introdução, notas, selecção de poemas e organização de Marta Sanz Pastor, Biblioteca Nueva, Madrid, 2007, pp. 268-270).

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Charles Wright

O novo poema



Não se parecerá com o mar.
Não terá lodo nas suas mãos grossas.
Não fará parte do tempo atmosférico.

Não revelará o seu nome.
Não terá sonhos em que possas confiar.
Não será fotogénico.

Não dará atenção ao nosso desgosto.
Não servirá de consolo às nossas crianças.
Não poderá ajudar-nos.



(versão minha; original reproduzido em The generation of 2000 - contemporary american poets; organização e prefácio de William Heyen, Ontario Rewiew Press, Nova Iorque, 1984, p. 359).

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Bill Holm

Botão-de-ouvido



Botão-de-ouvido - uma pequena bolinha revestida de espuma
para usares como um brinco interior,
assim desfrutas de barulhos privados enquanto andas por aí
protegido de qualquer silêncio súbito.
Só tens de verificar a bateria e copiar
mil canções e histórias secretas
para esse pequeno casulo que trazes no bolso.
Agora estás a salvo dos outros barulhos produzidos
por outras pesssoas e máquinas, só por acaso
barulhos que não escolheste como teus.
Para ter a tua atenção, toco-te no braço -
para te revelar o tornado ou o urso polar.
Por vezes apanho-te a murmurar ou a falar para o ar
como se houvesse uma amante encolhida, à espera no teu ouvido.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 25 de abril de 2009

José Emílio Pacheco

Alta traição



Não amo a minha pátria.
O seu fulgor abstracto
não se deixa agarrar.
Mas (ainda que soe mal)
daria a vida
por dez lugares seus,
certa gente,
portos, bosques, desertos, fortalezas,
uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
várias figuras da sua história,
montanhas
- e três ou quatro rios.



(versão minha, corrigida; a primeira versão que propus foi produzida a partir da forma como o poema original surge aqui; mas esta fonte pode ser problemática uma vez que, posteriormente, tomei conhecimento desta tradução, através da qual me dei conta de falhas na minha proposta, que agora rectifico; tomo agora como texto de partida o poema tal como surge em Tarde o temprano (poemas 1958-2000), Fondo de Cultura Económica, edição de Ana Clavel, 3ª edição, 2ª reimpressão, Picacho-Ajusco, 2004, p. 73; pela alta traição, ainda que involuntária, ao autor e aos leitores, as minhas desculpas).

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Harold Norse

O comércio da poesia



o comércio da poesia
é a imagem de um rapaz
a fazer música e amor
com uma rapariga cujos interesses
em amor e música coincidem
com uma enorme aflição sentida
no interior de ambos como uma guitarra
corajosa ao sol quente e seco
da esperança onde homens selvagens e brutais
estão a rasgar a vida como uma página
de um livro
muito antigo
e amarelo.



(versão minha; original reproduzido em City Lights Pocket Poets Anthology, organização de Lawrence Ferlinghetti, City Lights Books, San Francisco, 1997, 3ª edição, p. 152)