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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Marina Boroditskaya

Carta musical



Olá, Senhor!
Escreve-te
um poeta menor,
uma voz do coro,
um pequeno pinheiro do pinhal,
um clarinete na orquestra da escola.

Achas que é assim tão
fácil, Senhor,
ser uma voz no coro,
um peixe na água,
não perturbar a Tua ordem?
Pior, porém, é o destino gelado
desses que foram feitos para serem
o primeiro violino
ou o pico mais alto da montanha.

A nós não nos custa nada afundar,
ano sim ano sim, dia após dia,
as nossas raízes no mais fundo
e praticar as nossas escalas
esperando que o maestro,
posicionado no seu lugar,
aponte a sua batuta -
então um solo sublime começa a soar
levando às lágrimas as próprias montanhas.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Fainlight reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa Press, 2005, pp. 19-20).

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Marina Boroditskaya

[Tanta gentileza vinda de homens desconhecidos...]



Tanta gentileza vinda de homens desconhecidos
por nenhuma razão especial.
Uma vez em Paris um empregado de mesa virou-se para mim: "Chérie!
Não se esqueça dos cigarros."

E num mercado de Londres, quando
quis comprar um disco dos Beatles,
o vendedor suspirou: "Que posso eu fazer, love,
se o preço voltar a subir?"

No aeroporto de Nova Iorque um negro velho
guiou-me até à porta certa dizendo:
"Nada de pânicos, baby, vem comigo!"
E eu segui atrás dele.

Tanta amabilidade vinda de homens desconhecidos!
Por que raio havia eu de precisar de mais?
Descansa em paz na tua ostra, pérola.
Sossega, Lua, lá nos céus.



(Versão minha a partir da tradução de Ruth Fainlight reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, pp. 19-20).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Marina Boroditskaya

Pobre compositor



Pobre compositor,
dispensável sem um piano,
pobre prosador,
desesperado sem uma secretária.
E pobre artista,
que precisa de cavalete, pincéis
e pequenos tubos de tinta.
Eu não seria capaz de lidar com isso.

Pobre, pobre escultor.
Pobre realizador.
Neste mundo só
o poeta é um ser afortunado.
Ele caminha pelo parque
com uma estrofe na cabeça.
(Isto desde que não lhe dês
- como a Pushkin - um tiro nas tripas).



(versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Fainlight, reproduzida em An anthology of contemporary russian women poets, organização e selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, p.21).