quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Raymond Carver

Pelo menos



Quero levantar-me cedo uma manhã mais,
antes do nascer do sol. Antes mesmo dos pássaros.
Quero atirar água fria à minha cara
e estar à minha mesa de trabalho
quando o céu clarear e o fumo
começar a sair das chaminés
das outras casas.
Quero ver as ondas a quebrarem-se
nesta praia rochosa, não ouvi-las apenas
a bater, como fiz toda a noite durante o meu sono.
Quero ver de novo os navios
que passam pelo estreito vindos de todos
os países marítimos do mundo -
os cargueiros velhos e sujos movendo-se vagarosamente
e os novos e rápidos navios de carga
pintados, sob o sol, de todas as cores
que cortam a água à medida que avançam.
Quero manter-me de olhos bem abertos por eles.
E pelos pequenos barcos que manobram
na água entre os navios
e o porto, junto ao farol.
Quero vê-los a receberem um homem que sai do navio
e a pôr outro lá em cima, a bordo.
Quero passar o dia a ver isto a acontecer
e tirar as minhas próprias conclusões.
Detesto parecer ganancioso - e já tenho tanto
pelo qual devo ficar agradecido.
Mas quero levantar-me cedo mais uma manhã, pelo menos.
E ir para o meu lugar com algum café, e esperar.
Esperar, apenas, para ver o que irá acontecer.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin, Nova Iorque, 2002, pp. 8-9).

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Hélène Dorion

Pode-se viver muito bem...



Pode-se viver muito bem
sem nada mais do que estes privilégios quotidianos:
uma carta na caixa do correio, o barulho de uma vaga,
o azul sobre a planície, as palavras de um poema.
O universo reduzido a poucos vínculos
ao trajecto habitual
da sua própria morte.

Pode-se muito bem não ser mais
do que uma aventura de átomos e de questões insignificantes.



(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, selecção de Gérard Cartier e Francis Combes, Les Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 82).

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Cecilia Woloch

Crianças vagarosas em jogo



Todas as crianças ligeiras foram para dentro, chamadas
pelas mães - despachem-se - lavem - as - mãos - queridos
o - jantar - está - a - arrefecer, ai - quando - o - vosso - pai - chegar - a - casa -
e só as crianças vagarosas ficam nos relvados, abrindo
caminhos por entre os pirilampos, produzindo sons doces e breves com as suas bocas, óóós
que brilham e se apagam e brilham. E as suas mães vagarosas e tremeluzentes,
pálidas na penumbra, observam-nas a rodopiar no ar suave,
observam-nas
a ziguezaguear, os braços bem abertos, pensando, Estes são os meus filhos, pensando,
Onde está o jantar deles? Para onde foi o pai deles?




(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keilor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 252).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Raymond Carver

Os nus de Bonnard



A sua mulher. Durante quarenta anos ele pintou-a.
Uma e outra vez. O nu da última pintura
igual à jovem nudez da primeira. A sua mulher.

Tal como se recordava dela enquanto jovem. Como se ela o fosse.
A sua mulher no banho. Na sua cómoda
em frente ao espelho. Nua.

A sua mulher com as mãos debaixo dos seios,
olhando o jardim.
O sol concedendo cor e calor.

Todas as coisas vivas a florescer ali.
Ela jovem e trémula e tão desejável.
Quando ela morreu, ele pintou por mais algum tempo.

Algumas paisagens. Depois morreu.
E puseram-no junto dela.
A sua jovem mulher.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrisson Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 146).

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sara Teadsdale

Aquelas que amam



Aquelas que mais amam
Não falam do seu amor,
Francesca, Guinevère,
Deirdre, Isolda, Heloísa,
Nos jardins perfumados do paraíso
Ficam em silêncio, ou falam
De coisas frágeis e inconsequentes.

E uma mulher que eu costumava encontrar
E que amou um homem desde a juventude,
Lutando com orgulho sombrio
Contra a força do destino,
Nunca falou deste assunto,
Mas se por acaso ouvisse o nome dele
Uma luz havia de sobrevoar o seu rosto.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 137).

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Gerard Locklin

Onde estamos



(para edward field)



tenho inveja daqueles
que vivem em dois sítios:
nova iorque, digamos, e londres;
país de gales ou espanha;
l.a. e paris;
hawai e suíça.

há sempre a antevisão
da mudança, a possibilidade de que aquilo que está mal
resulta do sítio onde estamos. sempre
adorei não só a frescura
da chegada como o alívio da partida. com
duas casas qualquer movimento seria um regresso.
nem me estou a referir ao clima, quente
ou frio, seco ou húmido: falo de esperança.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 286).

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Leo Dangel

Depois de quarenta anos de casamento, ela experimenta uma nova receita de hambúrguer como prato quente



"O que é que achaste?", perguntou ela.

"Tudo bem", disse ele.

"Esta é a terceira vez que o faço
desta maneira. Porque é que
nunca dizes que gostas de alguma coisa?"

"Bem, se não tivesse gostado
não teria comido", disse ele.

"Nunca consegues dizer que uma coisa
feita por mim te sabe bem."

"Não sei porque é que pensas
que tenho de estar sempre a dizer que é bom.
Comi, não foi?"

"Não penso nada que tenhas de estar
sempre a dizer que é bom, mas de vez
em quando podias dizer
que gostas."

"Tudo bem", disse ele.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 136).

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

David Budbill

Os três objectivos



O primeiro objectivo é ver a coisa em si,
nela e por ela,vê-la simples e claramente
pelo que ela é.
Nenhum simbolismo, por favor.

O segundo objectivo é ver cada coisa em particular
como una, uma só, entre todas as outras
dez mil coisas.
Deste ponto de vista, algum vinho ajuda imenso.

O terceiro objectivo é vincular o primeiro e o segundo objectivos,
ver o universal e o particular
em simultâneo.
Quanto a este, chama-me quando o alcançares.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 225)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Wendy Cope

A laranja



À hora de almoço comprei uma laranja enorme -
O seu tamanho pôs-nos todos a rir.
Descasquei-a e dividi-a com o Robert e o Dave -
Cada um deles ficou com um quarto e eu com metade.

Fez-me tão feliz essa laranja -
Como me tem acontecido ultimamente
Com as coisas vulgares. As compras. Um passeio no parque.
Esta paz e satisfação. É uma novidade.

O resto do dia foi muito leve.
Cumpri com prazer todas as tarefas da minha lista
E ainda me sobrou tempo.
Amo-te. É maravilhoso viver.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 133).

domingo, 5 de dezembro de 2010

Yves Martin

Eu não quero cantar o povo...



Eu não quero cantar o povo
Porque não conheço o seu estreito sofrimento
Nem o seu lento amor, nem as suas guerras
Legítimas e ilegítimas.
Eu não quero cantar as mulheres
Porque não as conheço
A não ser como criaturas esplêndidas
Que não me amaram,
Que eu não soube amar.
Eu quero ser um homem
Nem demasiado seguro, nem demasiado amargo
E morrer devagar, docemente
E por vezes viver
Porque nada mais é possível.



(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, selecção de Gérard Cartier e Francis Combes, Le Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 167).

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Mou'in Bsissou

A Rimbaud



Assim que Rimbaud se tornou negreiro
e começou a lançar as redes
sobre a Abissínia
a caçar o leão negro
e o pelicano negro
abandonou a poesia
Como era leal, esse rapaz
Mais numerosos são esses que permaneceram poetas
e se tornaram negreiros
usurários
sem ainda assim abandonarem a poesia
Tornaram-se representantes de agências de publicidade
vendedores de quadros falsos
sem ainda assim abandonarem a poesia
Nos palácios dos déspotas os seus poemas transformaram-se
em portas e janelas
mesas e tapetes
mas eles não abandonaram a poesia
Dispuseram-se ao louvor
e receberam medalhas e honrarias de todos os potentados do mundo
a taça de ouro, de prata e de pedra
mas não abandonaram a poesia
A chancela dos polícias
as marcas das solas desses polícias cobrem-lhes os poemas
mas eles não abandonaram a poesia
Que nobreza, a de Rimbaud
como era leal, esse rapaz



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em La poésie palestinienne contemporaine, selecção e tradução de Abdelattif Laâbi, Le Temps des Cerises / Maison de la Poésie Rhône-Alpes, 2002, pp. 74-75).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Erica-Lynn Gambino

É só para dizer

(para William Carlos Williams)



Só te
pedi que
saísses do meu
apartamento

mesmo que tu
nunca
tenhas pensado
que o faria

Perdoa-me
estavas
a pôr-me
doida



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin, Nova Iorque, 2002, p. 110).

domingo, 28 de novembro de 2010

Federico Gallego Ripoll

São os pássaros que levantam o dia para o cego



São os pássaros que levantam o dia para o cego.
Ouve-se a luz pendurada das árvores
e uma transfusão de sangue acelerado que acumula nos tímpanos
os latidos roubados à noite.

Amanhece.

Tíbias gotas de azul salpicam de manhã
os párabrisas dos carros.
Alguém, equivocado,
abriu o guarda-chuva pensando que chove.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montalbán, Bartleby, Madrid, 20023, p. 49).

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Jane Kenyon

De outro modo



Usei a força das minhas duas pernas
para me levantar da cama.
Poderia ter sido
de outro modo. Comi
cereais - com leite
e doce - e um pêssego
perfeito e maduro. Poderia
ter sido de outro modo.
Subi a encosta com o cão
até ao bosque dos vidoeiros.
Durante toda a manhã
fiz o trabalho que adoro.

Ao meio-dia deitei-me
com o meu companheiro. Poderia
ter sido de outro modo.
Jantámos juntos
numa mesa com castiçais
de prata. Poderia
ter sido de outro modo.
Dormi numa cama
num quarto com quadros
nas paredes, e
planeei um novo dia
igual ao de hoje.
Mas um dia, eu sei,
será de outro modo.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

David Allan Evans

Rapariga andando a cavalo num campo de girassóis



Postura perfeitamente direita,
satisfeita e pensativa,
ela prende numa mão,
não segura, as rédeas do Verão:

o verde das árvores e dos arbustos;
o azul da água do lago;
o vermelho da jaqueta
e do colarinho aberto; o castanho
do seu cabelo, preso ao alto,
e do cavalo, bem no meio
do amarelo dos girassóis.

Quando ela pára para descansar,
o Verão descansa.
Quando ela decide partir,
assim se vai o Verão
para além do horizonte.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

sábado, 20 de novembro de 2010

Roberto D. Malatesta

Exame de inglês



Líamos Dylan Thomas para o teu exame de inglês,
mas não estava ali o teu exame, a severidade de uma aula,
a lição decisiva que era preciso temer.
Estava, sim, a colina dos fetos
com o seu sol tombando em rios de ouro palpável,
estava o sol sobre os declives
na sua sagrada fascinação de beijar
as crianças que acabavam de começar a andar.
Estavam as eiras de feno a partir das quais
segui o trilho das ervas altas
que me levou aos caminhos da minha infância.
Não havia ali nenhum mundo maciço,
antes uma substância núbil cobrindo o ar
na qual as minhas palavras se lançavam felizes
pelo seu som, pela sua cadência e cor.
Em voz alta Dylan Thomas para o teu exame de inglês,
juntos aprovámos esse regaço de luz verbal
comovida entre as folhas frescas dos fetos.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel, reproduzidos em Voix d'Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (trois-Rivières - Québec) e Le Temps des Creises (Pantin), 2009, pp. 118-119).

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Jean L' Anselme

Versos sem brilho
(Arte poética)



Vinte vezes metido no trabalho
de tirar brilho à obra,
um verso demasiado polido
não deve permanecer na rede

Desconfiem dos versos esplendorosos.



(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, selecção de Gérard Cartier e Francis Combes, Le Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 144).

domingo, 14 de novembro de 2010

Danijel Dragojevic

Os dias



Eu deveria ler a Bíblia.
Grande, negra, ela olha-me de uma estante.
Eu deveria lê-la, mas tenho medo
de tantas palavras, pensamentos, nomes, histórias,
de tantos avisos, saberes, intenções,
de uma voz remota de uma gravidade cinzenta.
Eu deveria ler, tenho medo de não ler,
tenho medo deste medo.
Eu deveria ler, mas não faço mais do que voltar
a cabeça e abrir a janela.
Que faria o homem se não tivesse uma janela?



(Versão minha a partir da tradução francesa de Brankica Radic reproduzida em Voix croisées: Croatie-France, Autre Sud, Hors-série, nº 6, Dez. 2009, Gémenos, p. 22)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sergio Rigazio

Sapos



quase na linha que limita a pobreza
molho os lábios com o que me é dado

algo me diz que tudo é uma benção
que até no mais perfeito caos há uma certa ordem

em redor da minha casa
por exemplo

penso nestas coisas
enquanto destapo o esgoto da cozinha

meto trinta e seis sapos num saco de supermercado
e penso que nos assemelhamos em alguma coisa

não fazem ideia para onde irão
mas ainda assim cantam



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Québec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, pp. 144-145).

domingo, 7 de novembro de 2010

Roberto D. Malatesta

Árvores



Algumas árvores que já não tenho
regressam-me em sonhos:
o salgueiro-chorão da minha infância,
a linha escura das sebes de ligustros,
as casuarianas e o seu modo de uivar,
um limoeiro que chega ao tecto,
uma figueira que viu a minha mãe crescer
e ao sol, à hora da sesta, me ouviu
conversar com a minha avó,
as folhas pesadas da árvore-da-borracha que oiço cair.
São tão nítidas
como se as tocasse depois de andar por um atalho
que envergonhasse o tempo.
Às vezes creio que alguma coisa delas
cresceu em mim,
que eu sou uma das minhas árvores.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Québec) e Les Temps des Cerises (Pantin), 2009, pp. 120-121).

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Gerardo Pico Manfredi

Alegria e fibras...



Alegria e fibras
são a base da nossa alimentação.
Beijo-te e regresso à cozinha.
Pico com paciência e rigor
cebola, pimento, alho francês.
Junto tudo às favas,
mais sal, pimentão, gengibre.
Deixo cozer em lume brando durante alguns minutos,
apago o fogo, junto salsa.
Farei também uma salada
de três cores: vermelho, laranja e verde.

Depois de comer hei-de ler-te este poema.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Québec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, pp. 126-127).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Roberto D. Malatesta

Dois poemas nutritivos



Ela corta bocados de pão
e junta-os ao café com leite,
observo as suas mãos minuciosas,
a fronte concentrada,
o seu ar ritual;
ela bebe, eu alimento-me
dela e da sua tigela
azul com flores vermelhas.



****



Enquanto ela prepara o café
eu fico a pensar na lua,
não pela lua em si,
não porque seja a lua a interessar-me esta noite,
ou porque haja astronautas ou algum eclipse,
penso na lua lá fora
porque aqui dentro
- ela - prepara o café.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schavrtz e Gerardo Manfredi, tradução francesa de Nicole e Émile Martel, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières - Quebec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, p. 114).

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Enrique M. Butti

Ao recém-nascido



Será Píndaro, Platão, Ptolomeu,
inventará o fogo
e descobrirá cada estrela,
será Ulisses, reinará no seu mundo.

Tudo lhe será possível:
a salvação e o Paraíso
que são os dias do amor
e da amizade
e da ambição desinteressada.

Mas será também - tremo de espanto
enquanto o vejo sorrir nos seus sonhos -
Rascolnikov, um escravo
que prefere morrer pela liberdade,
um budista que medita
enquanto cai a bomba de Hiroshima.
No único destino
que se desenrolará
prevejo que vibrará na fraternidade
de todos os destinos.
Há flores que nascerão só
para ele
e para as quais ele nasce.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, organização de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, tradução francesa de Nicole e Émile Martel, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières/Québec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, p. 56).

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Pierre Albert-Birot

A erva dizem vocês...



A erva dizem vocês
Não faz qualquer barulho a despontar
A criança a crescer
O tempo a passar
Não têm o ouvido verdadeiramente apurado vocês.



(Versão minha; original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, Le Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 13).

sábado, 23 de outubro de 2010

Marlene Dumas

Medindo o teu próprio túmulo



Eu sou a mulher que já não sabe
onde quer ser sepultada.
Quando era pequena, queria um anjo enorme no meu túmulo
com asas como num quadro de Caravaggio.
Mais tarde achei isso demasiado pomposo.
E então pensei que preferia uma cruz.
Depois pensei - uma árvore.
Eu sou a mulher que já não sabe
se quero ser sepultada.
Se já ninguém vai a cemitérios
se vocês já não me visitam lá
também sou capaz de deixar as minhas cinzas num frasco de compota
e ser mais transportável.

Mas voltemos à minha exposição aqui.
Disseram-me que as pessoas querem saber
porquê um título tão sóbrio para uma mostra?
Trata-se de algo sobre artistas a meio da sua carreira,
ou é sobre mulheres depois dos cinquenta danos?
Não. Quero deixar isto claro:
É a melhor definição que consigo encontrar
para aquilo que um artista faz quando se trata de arte
e para o modo como uma figura deixa a sua marca num quadro.
Para o tipo de retratista como eu
isto é tão longe quanto consigo alcançar.



(Tradução de Ricardo Castro Ferreira; Marlene Dumas é uma artista plástica sul africana; o texto/poema original pode ser lido algures por aqui).

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Maria Teresa Andruetto

Maca



Estou de cama
(a enfermeira
chama-se Erminda)
Pela janela que dá para o pátio
a minha irmã passa numa maca.
Passam também as amoras, o verão,
as cigarras. Há-de ser Outubro,
como esta tarde, ou talvez Novembro,
e o calor sufoca, porque o meu pai
que chega do trabalho desaperta,
coisa estranha, a gravata. Eu estou
de cama. E a Ana que passa alegre,
viva, sobre a maca.
Terá sido de vidro o ar,
como esta tarde.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, tradução para francês de Nicole e Émile Martel, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières / Québec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, p. 16).

sábado, 16 de outubro de 2010

Charlotte Delbo (1913-1985)

Oração aos vivos para que sejam perdoados por estarem vivos



Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pêlo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, Le Temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 71).

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Jean Marcenal

O cão



O cão vive de pouco

Aquilo que o dono não quer
Atira aos cães

Mas quando o cão tem demasiada fome
Devora o dono.



(Versão minha a partir do original reproduzido em Poèmes pour voyager - anthologie des poèmes dans le métro et le bus, Le temps des Cerises, Pantin, 2005, p. 164).

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Maria Teresa Andruetto

Segunda-feira



Às segundas-feiras o meu pai chegava tarde
e trazia chocolates amargos.
Na cama grande, a mamã lia-nos
A Cabana do Pai Tomás.
Nós gostávamos das segundas-feiras,
gostávamos de chorar por causa das tristezas
de romance, de sofrer pelos negros
enquanto comíamos chocolates
Suchard.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa reproduzidos em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, tradução para francês de Nicole e èmile Martel, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières/Québec) e Le temps des Cerises (Pantin), 2009, p. 22).

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Oktay Rifat

O menino



Este menino cresce,
Fica parecido com o pai
E depois, em seguida, meus senhores,
Morre.



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em J' ai vu la mer - Anthologie de la poésie turque contemporaine, selecção, apresentação e tradução de Michèle Aquieu e outros, Bleu autour, Saint-Pourçain-sur-Sioule, 2010, p. 92).

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Maria Teresa Andruetto

Visita



Hoje a minha mãe veio visitar-me
e caminhamos as duas por estas ruas.
Falamos do meu irmão,
dos filhos, das raparigas do Sul,
do meu cunhado. A dado passo eu critiquei
o governo e ela afirmou a seguir
"É um país tão grande!". Não quer
que me queixe: "Este país generoso
acolheu o teu pai!", e seguimos as duas
por uma zona de tristeza, em silêncio,
até que se detém e diz: "ontem
fiz doce de pêssego" e eu digo
que falaram do meu livro
no jornal.



(Versão minha a partir do original e da tradução francesa de Nicole e Émile Martel reproduzida em Voix d' Argentine / voces argentinas, selecção de Claudia Schvartz e Gerardo Manfredi, Leviatán (Buenos Aires), Écrits des Forges (Trois-Rivières / Québec) e Le Temps des Cerises (Pantin), 2009, p. 28).

domingo, 3 de outubro de 2010

Savkar Altinel

Joseph Conrad


É a juventude: eu e os guerrilheiros de D. Carlos
A fazermos contrabando de armas em terras de Espanha,
Sobre esse mar ancestral um ou dois veleiros,
Quem sabe em que pensávamos nós.

A noite dentro de quartos de altos tectos
Enquanto os cortinados de tule vogavam na escuridão,
As minhas mãos nas espáduas de Dona Rita,
Em mim um infinito desgosto.

Depois, aprisionado por isso, parti para Sidney,
Quarto capitão em 77,
Panamá, o Congo, mal passei
Por tudo isso: infantilidades.

De agora em diante já não sou o homem que fui, graças a Deus,
Vejam - se não acreditam - as minhas fotografias.
Um inglês respeitável e burguês
Ao lado do meu amigo Henry James.

Agora tenho uma casa, livros,
Todas as manhãs leio o Times,
Aos poucos o meu sotaque vai sendo corrigido,
Falo o inglês da Rainha.

Mas há coisas que permanecem em mim,
Esses pobres hotéis, certos barcos vetustos;
Sob um clima frio comecei o meu primeiro romance,
Do coração das trevas há notícias a dar-vos.



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em J' ai vu la mer - Anthologie de poésie turque contemporaine, selecção, apresentação e tradução de Michèle Aquieu, Pierre Chuvin e Güzin Dino com Enis Batur e Elif Deniz, Bleu autour, Saint-Pourçain-sur-Sioule, 2009, pp.216-217).

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Oktay Rifat

Do pão e das estrelas



O pão sobre os joelhos
E as estrelas ao longe, muito distantes.
Como o pão olhando as estrelas.
Estou tão absorto, oh sim, de tal forma
Que por vezes me engano e em vez de pão
Como as estrelas.



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em J' ai vu la mer - Anthologie de la poésie turque contemporaine, selecção, apresentação e tradução de Michèle Aquieu e outros, Bleu autour, Saint-Pourçain-sur-Sioule, 2010, p. 92).

domingo, 26 de setembro de 2010

Oleg Grigoriev

A laranja




O Boris, sentado num tronco, comia uma laranja.
Gomo após gomo.
O Nicolas veio sentar-se ao pé dele.
- É boa?
- Muito boa!, responde o Boris.
- Ah!, suspira o Nicolas. Se eu tivesse uma laranja havia de a partilhar contigo.
- Claro, diz o Boris, engolindo o último gomo da sua laranja. É pena não teres uma laranja!

(Versão minha a partir da tradução francesa de Henri Abril reproduzida na Anthologie de la poésie russe pour enfants, tradução e selecção de H. Abril, 3ª edição, Circé, Belval, 2009, p. 173.)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Charles Baudelaire

O albatroz



Muitas vezes, por pura diversão, os marinheiros
Apanham albatrozes, enormes pássaros marítimos,
Que acompanham, de viagem indolentes companheiros,
O navio vogando sobre os amargos abismos.

A custo eles são largados sobre as pranchas,
Esses reis do azul, tímidos e desajeitados,
Humildemente deixando cair suas enormes asas brancas
Como soltos remos pelo chão arrastados.

Esse viajante alado, como anda desajeitado num limbo!
Ele, outrora tão belo, como é cómico e desleixado!
Um espicaça-lhe o bico com o seu cachimbo,
Outro, coxeando, imita o que voava, agora aleijado.

O poeta é como o príncipe das nuvens
A rir-se do arqueiro e a tempestade a afrontar;
Exilado na terra e na algazarra dos homens,
As suas asas de gigante impedem-no de andar.



(Tradução inédita de Ricardo Castro Ferreira e Gil Santos Júnior).

domingo, 19 de setembro de 2010

Peter Cherches

O meu marido obrigou-me a fazer sexo com o nosso periquito



O meu marido obrigou-me a fazer sexo com o nosso periquito
Na passada sexta-feira à noite.

Tava a ficar tarde,
Ele tinha passado a noite toda a beber cerveja,
E vira-se pra mim e diz,
"Querida, quero que fodas com o nosso periquito."

Vou eu e digo-lhe,
"Por favor, Bobby, não me obrigues a fazer isso."
E ele diz,
"Tem de ser!"

E assim foi:
Eu e o periquito,
E o Bobby ali especado a ver.

Não gostei assim muito,
E o pássaro até me 'stava a aleijar bastante,
E eu sentia-me mesmo mal,
Até que o periquito me diz:
"Querida, amo-te bué."

Tal e qual como o Bobby costuma dizer.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui.)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bernardo Atxaga

A vida é a vida



A vida é a vida,
não as suas consequências.

Não a casa sólida
construída no topo de uma montanha,
ou as taças e as medalhas
banhadas a ouro
amontoadas nas suas prateleiras.
A vida não é isso.
A vida é a vida.

Não as viagens
até cidades longínquas
ou as crianças, homens
e mulheres nelas mal ou
esplendidamente fotografadas.
A vida não é isso.
A vida é a vida.

Não a chuva no telhado,
ou o granizo nas janelas,
ou a neve, ou a lua silenciosa,
ou a luz, tão magnífica,
dourada no Verão e prateada no Inverno.
A vida não é isso.
A vida é a vida.

Não a mulher ou o homem
que te sussurram ao ouvido,
não os nossos pais, ou filhos,
não os nossos irmãos ou irmãs ou amigos,
velhos ou novos.
A vida não é nada disso.
A vida é a vida.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, p. 45.)

domingo, 12 de setembro de 2010

Valentin Bérestov

A sombra



Quem poderá ser-te mais fiel
Que a tua sombra? É sempre ela
Que te segue com zelo por toda a parte
Sem que lhe seja pedido -
Mais ligeira do que uma asa,
Mais doce do que uma rola.
Mas é ela justamente,
Tão doce e fiel,
Que não te pode ajudar,
Nem esconder-te ou salvar-te
Em pleno deserto, sob o sol
Mais cruel...



(Versão minha a partir da tradução francesa de Henri Abril reproduzida na Anthologie de la poésie russe pour enfants, selecção e tradução de H. Abril, Circé, Belval, 2006, 3ª edição, p. 111).

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Roman Sef

As máquinas



Eis uma máquina
Que escreve.
Eis uma máquina
Que multiplica
E pode subtrair.
E outra que
Que sabe ordenhar,
Que mói
E corta tudo.
E eis uma que, eh lá!,
Corre e galopa
A cem à hora...

Mas não há,
Não sei porquê,
Não há
Uma máquina
Que chore.



(Versão minha a partir da tradução francesa de Henri Abril reproduzida em Anthologie de la poésie russe pour enfants, selecção e tradução de H. Abril, Circé, Belval, 2006, 3ª edição, p. 139).

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Valentin Bérestov

Psicologia



"Que vida de cão!", diz o gato.
E sente-se logo melhor.



(Versão minha a partir da tradução francesa de Henri Abril reproduzida em Anthologie de la poésie russe pour enfants, selecção e tradução de H. Abril, Circé, Belval, 2006, 3ª edição, p. 105).

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Peter Meinke

Soneto na morte do homem que inventou as rosas de plástico



O homem que inventou as rosas de plástico morreu.
Reparem na sua importância:
as suas flores imperecíveis e imaculadas nunca murcham
mas resolutamente velam o seu túmulo através da escuridão.
Ele não compreendeu a beleza nem as flores,
que enredam os nossos corações em redes suaves como o céu
e nos prendem com um fio de horas efémeras:
as flores são belas porque morrem.
A beleza sem o seu lado perecível
torna-se seca e estéril, um palco abandonado
com uma floresta de enganos. Mas a realidade
dá razão à invenção deste homem; ele conhecia a sua época:
uma visão do nosso tempo impiedoso revela-nos
homens artificiais cheirando rosas de plástico.



(Tradução de Ricardo Castro Ferreira a partir de diversas fontes: aqui; aqui; aqui; aqui e aqui. Apesar da problemática fidedignidade destas fontes, decidiu-se publicar esta tradução de um poema que, palavras do tradutor, faz lembrar um certo outro "poema sobre (...) orquídeas e talvez por isso tenha chamado mais a [sua] atenção").

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Kirmen Uribe

O indizível



Não podes dizer Liberdade, não podes dizer Igualdade,
não podes dizer Fraternidade; não o podes dizer.
Não podes dizer árvore ou rio ou coração.
As leis antigas já não se aplicam.

As cheias arrastaram a ponte entre as palavras e as coisas.
Não podes dizer que a decisão de um déspota é um crime.
Não podes dizer que perdeste alguém
se uma memória mundana te perfura a alma.

A linguagem é imperfeita, os signos estão gastos
como velhas mós de moinhos que rodaram e rodaram em demasia. E, por isso,

não podes dizer Amor, não podes dizer Beleza,
não podes dizer Solidariedade; não o podes dizer.
Não podes dizer árvore ou rio ou coração.
As leis antigas já não se aplicam.

Mas, apesar disso, confesso que quando te oiço
dizer "meu amor" fico eléctrico,
seja verdade, ou mentira.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, 2007, p. 155).

domingo, 29 de agosto de 2010

Joseba Sarrionandia

Literatura e revolução



Quando o chefe da polícia Ángel Martínez enfia o cano
do seu revólver no ânus do prisioneiro nu
e a imagem se torna nojenta, patética e cheia de sangue,
que importância tem para o jovem torturado
se o poeta é um fingidor, como disse Pessoa?
Alguma vez G. K. Chesterton visitou La Salve?
Há alguém nas celas de Intxaurrondo que conheça
Hermann Broch?
Quando está, totalmente destruído, diante do juíz,
como poderá o jovem torturado explicar
o significado de correlativo objectivo?
Como poderia Molly Bloom compreender um nascer do sol
tricotado com agulhas na prisão de Carabanchel?
Quem é Michel Foucault para o homem que passa dez meses
a definhar numa cela?
Uma visita de cinco minutos? Uma descoberta lírica?
Será que os presos estudam a Bíblia Basca de Jean Duvoisin
para terem a certeza de que as vírgulas e os agás das suas
cartas proibidas estão correctos?
Haverá, para a literatura, um valor ético inerente
na rebelião, na revolução e na coragem? Ninguém o diz.
Alguma coisa se escreveu em revistas literárias como
a Voprosi Literaturi ou a Tel Quel sobre
as longas greves de fome dos presos bascos?
Como pode preocupar-se com o compromisso o rapaz
que foge, esquivando-se às balas da polícia, o seu coração
desnudo uma bandeira revolucionária?



(Versão minha a partir da tradução do basco para o inglês de Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, 2007, p. 87).

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Felipe Juaristi

Geografia



Eu nasci aqui,
no entanto não reconheço este lugar.
Falamos a mesma língua,
no entanto não entendo o meu povo.
Esta é a minha terra,
ela mata-me aos poucos,
no entanto regresso sempre ao seu estranho domínio
como um homem doente à sua dor.



(Versão minha a partir da tradução do basco para o inglês de Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção e introdução de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, 2007, p. 71).

domingo, 25 de julho de 2010

Bernardo Atxaga

A morte e as zebras



Nós éramos 157 zebras
a galopar pela planície ressequida,
eu corria atrás das zebras 24,
25 e 26,
à frente da 61 e da 62
e de súbito fomos ultrapassadas com um salto
pela 118 e a 119,
ambas a gritar rio, rio,
e a 25, muito feliz, repetiu rio, rio,
e de súbito a 130 alcançou-nos
a correr e a gritar, muito feliz, rio, rio,
e a 25 deu uma guinada à esquerda
à frente da 24 e da 26
e de súbito eu vi o sol no rio cintilante
cheio de salpicos faíscantes
e a 8 e a 9 passaram por mim
a correr na direcção contrária
com as suas bocas cheias de água
e as pernas molhadas e os peitos molhados,
muito felizes, a gritar, vamos, vamos, vamos,
e eu de súbito colidi com a 5 e a 7
que também vinham a correr na direcção contrária
mas a gritar crocodilo, crocodilo,
e então a 6 e a 30 e a 14 passaram por nós
muito assustadas, a gritar, crocodilo, crocodilo, vamos, vamos, vamos,
e eu bebi água, bebi água cintilante
cheia de salpicos faíscantes e sol,
crocodilo, crocodilo, gritou a 25, muito assustada,
crocodilo, repeti eu, voltando para trás;
e correndo muito assustada na direcção contrária
colidi de súbito com a 149
e a 150 e a 151
que vinham a correr e a gritar, muito felizes, rio, rio,
crocodilos, crocodilos, gritei-lhes eu, muito assustada
com a minha boca cheia de água
e as pernas molhadas e o peito molhado.
Continuei a galopar pela planície ressequida
atrás da 24 e da 26
à frente da 60 e da 61
e de súbito vi, de súbito vi um espaço
entre a 24 e a 26, um espaço
e continuei a galopar pela planície ressequida
e de novo vi o espaço, de novo o espaço,
entre a 24 e a 26
e de súbito saltei e preenchi o espaço.

Nós éramos 149 zebras
a galopar pela planície ressequida,
e à minha frente estavam a 12, a 13
e a 14, e atrás de mim
a 43 e a 44.



(Versão minha a partir da tradução inglesa da Amaia Gabantxo reproduzida em Six basque poets, selecção de Mari Jose Olaziregi, Arc, Todmorden, 2007, pp. 37-39).

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Gintaras Grajauskas

ando a erguer uma barricada...



ando a erguer uma barricada
à minha volta

junto o armário e a cama
e ponho o frigorífico ao seu lado

enviam-me um negociador
o rapaz das pizzas

é inútil tentar resistir, diz ele

é inútil tentar resistir, concordo

deixa-me como um vencedor
deixa uma pizza com miolo de caranguejo

chega um carteiro: ora aqui está
uma carta registada, assine nesta linha por favor

assino, sorrimos os dois
é inútil tentar resistir, diz a carta

não discuto, concordo educadamente:
não há sequer a mínima esperança

depois chega um mórmon - o senhor
conhece o plano de Deus, pergunta o mórmon

conheço, é inútil tentar resistir
digo eu, o mórmon desce as escadas murmurando

consolido a barricada: tapo brechas
com velhos jornais e pastilha elástica

eles tocam à campainha uma e outra vez

à porta estão o rapaz das pizzas
o mórmon e o carteiro

o que é agora, pergunto

tem razão, dizem eles, não faz sentido
tentar resistir, não há sequer a mínima esperança

é por isso que estamos no mesmo
lado da barricada



(Versão minha a partir da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry Shawn Keys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008, pp. 107-109).

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Delmore Schwarts

Baudelaire



Ao adormecer, e mesmo enquanto durmo,
Oiço vozes que pronunciam, com toda a clareza,
Frases inteiras, corriqueiras e triviais,
Que nada têm a ver com os meus assuntos.

Querida Mãe, temos ainda tempo
Para sermos felizes? As minhas dívidas são imensas.
A minha conta bancária está sob a alçada do tribunal.
Nada sei. Nada posso saber.
Perdi a capacidade de realizar qualquer esforço.
Mas tu estás sempre de pedras na mão contra mim, sempre:
É verdade. Isto já vem desde a infância.

Pela primeira vez na minha longa vida
Sou quase feliz. O livro, praticamente terminado,
Quase me parece bom. Vai perdurar, um monumento
Às minhas obsessões, ao meu ódio, ao meu nojo.

As dívidas e a inquietação persistem e enfraquecem-me.
Satã aparece-me e diz-me docemente:
"Descansa por um dia! Hoje podes descansar e divertir-te.
Esta noite trabalharás." Quando a noite chega,
A minha mente, aterrorizada pelos pagamentos em atraso,
Enfastiada de tristeza, paralisada de impotência,
Promete: "Amanhã. Fá-lo-ei amanhã."
E amanhã a comédia de sempre será de novo representada
Com a mesma resolução, a mesma fraqueza.

Estou farto desta vida em quartos almofadados.
Estou farto de resfriados e enxaquecas:
Conheces a minha estranha vida. Cada dia traz
A sua dose de ira. Pouco sabes
Da vida de um poeta, querida Mãe: devo escrever poemas,
A mais desgastante das ocupações.

Estou triste esta manhã. Não me repreendas.
Escrevo-te de um café próximo da estação dos correios,
Entre os ruídos secos das bolas de bilhar, o retinir das loiças,
As batidas do meu coração. Encarregaram-me de escrever
Uma História da Caricatura. Encarregaram-me de escrever
Uma História da Escultura. Escreverei então uma história
Das caricaturas das esculturas de ti no meu coração?

Ainda que isto signifique para ti uma infindável agonia,
Ainda que não possas crer que seja necessário
E duvides que a soma seja adequada,
Peço-te, por favor, que me envies dinheiro suficiente para - pelo menos - três semanas.



(Versão minha a partir do texto original e da tradução espanhola de Roger Wolfe que podem, ambos, ser lidos algures por aqui).

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Charles Baudelaire

Alquimia da dor



Um te acende, Natura, com ardor,
Outro em ti depõe um luto banal.
Aquele que diz algo sepulcral
A outro gritará: vida e esplendor!

Hermes desconhecido, que me assistes
E que agora e p'ra sempre me intimidas,
Tu que me vais tornando igual a Midas,
O mais triste dos alquimistas tristes.

Através de ti transmudo ouro em ferro
E o paraíso ponho a fogo e ferro;
Naquelas nuvens compondo um sudário

Descubro um cadáver onde amando erro,
E num celeste espaço portuário
Edifico amplo jardim mortuário.



Tradução de Ricardo Castro Ferreira.



***


(Nota: o tradutor, que colaborou já com este blogue em diversas ocasiões, fez-me chegar esta sua tradução do poema baudelairiano acompanhada de um aparato bibliográfico que considero conveniente elencar:
a) a versão original do poema, que reproduzirei mais à frente;
b) uma citação de Henri Michaux: "L'enfer, c'est le rythme des autres./ --------------------/ On parle à dés décapités/ les décapités répondent em "ouolof"". Esta citação serve, como talvez seja útil recordar, de epígrafe a Ouolof - poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987;
c) uma afirmação algo enigmática sobre a natureza da tradução: "A tradução é, quanto a mim, a mais sublime e simultaneamente infame forma de morte.";
d) uma tradução literal do poema, da sua autoria, que abdica das rimas;
e) a tradução de Fernando Pinto do Amaral, que pode ser lida em As flores do mal, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992, pp. 201-203;
f) a tradução da autoria de Maria Gabriela Llansol, a qual, por se relacionar directamente com a tradução acima apresentada, também reproduzirei de seguida (cf. As flores do mal, Relógio D' Água, Lisboa, 2003, pp. 175-177);
g) e, finalmente, um texto em prosa, sem título, de natureza reflexiva, que aqui será igualmente apresentado.
Infelizmente, não consigo respeitar, por deficiência do programa de texto do blogger, a estrutura estrófica dos textos apresentados.
***
Alchimie de la douleur (texto original)
L' un t'eclaire avec son ardeur,
L'autre en toi met son deuil, Nature!
Ce qui dit à l'un: Sépulture!
Dit à l'autre: Vie et splendeur!
Hermes inconnu qui m'assistes
Et qui toujours m'intimidas
Tu me rends l'égal de Midas,
Le plus triste des alchimistes;
Par toi je change l'or en fer
Et le paradis en enfer;
Dans le suaire des nuages
Je découvre un cadavre cher,
Et sur les célestes rivages
Je bâtis de grands sarcophages.
***
Alquimia da dor (tradução de Maria Gabriela Llansol)
Meu eu acentrado ilumina-se com teu fulgor
Meu eu gestor abafa-te em cê ó dois
Paisagem entre lixeira e esplendor
Me desencontro e te desfaço
Como explicar-te
Hermes ignoto que me guias?
Eis-me um exemplo de eficiência
A mais triste das alquimias
Sei fazer ferro a partir de ouro
Como se monta um inferno juntando afectos
No sudário das nuvens
Passam cadáveres aéreos que conheço
Nas margens do edénico
Urbanizo cemitérios
***
[Pode dizer-se que...]
Pode dizer-se que Allan Poe é a figura inaugural da modernidade no negativo. Mas também se pode dizer, sem errar demasiado, que, de facto, a figura inaugural é Charles Baudelaire. Na verdade, o primeiro é, em certa medida, uma invenção do segundo. A tal ponto que Baudelaire traduziu textos de Poe como uma forma de apropriação, chegando a deixar no ar que a fronteira entre um e outro era da ordem do idiscernível. Poe terá agradecido e nós por ele. A Baudelaire o que é de Poe e a Poe o que é de Baudelaire. Será assim tão importante a questão da assinatura? A literatura pode ser (in)apropriada.
Em todo o caso, porquê traduzir? Há o original, quem quiser que o leia na sua língua. Depois podemos pensar na questão da divulgação, é verdade - uma forma estranha de (con)verter. Faz parte da política romântica da cultura ao alcance de todos e coisa e tal.
Quanto a mim, pode sempre colocar-se uma questão pertinente. Um poema, se é um bom poema, tem qualquer coisa de cobra, serpenteia por todo o lado, e o leitor anda por ali a errar. A certa altura, pode surgir o gosto, a necessidade, o impulso de fixar o original na língua de "chegada" (propósito ingénuo, se da tradução surgir também um bom poema, porque imediatamente se torna também ele um réptil difícil de agarrar).
Eu cá não gosto particularmente de traduzir. Agrada-me a ideia de errar (um dos verbos mais saborosos da língua portuguesa, com tanta ressonância, física, psíquica, moral, eu sei lá!). Todo o poema é, afinal de contas, um erro, do ponto de vista do silêncio estrutural do ser. Uma interpretação, por consequência, ou não, será um erro também. E a tradução? Outro rotundo erro. Walter Benjamin, que tem quase sempre razão, fala da tarefa do tradutor, precisamente a propósito da tradução d' As Flores do Mal. Paul de Man, na Resistência à Teoria (título bastante significativo), recorda que, em alemão, o verbo traduzir se liga ao verbo desistir, e, assim, a tarefa do tradutor seria, de certa forma, uma maneira de desistir. A errância na sua máxima passividade ou inércia total.
Mas há, afinal de contas, uma tradução. Foi despoletada pela versão libertina de Gabriela Llansol. Pensei cá com os meus botões: vamos lá responder a isto com uma versão constrangida pela forma soneto. O resultado está aí. A duplicação do "erro" é, talvez, o ponto mais fraco, mas valeu a pena pelo achado: "um cadáver onde amando erro".
Quanto ao poema original, permanece intocado, como cobra que morde a sua própria cauda. Mas se se dá o caso de apanhar alguém pelo caminho, no fundo é de si mesma que se alimenta.
***
Obrigado, Ricardo, e desculpa o arranjo gráfico desastroso).

terça-feira, 13 de julho de 2010

Kestutis Navakas

O relógio de areia

(uma memória daqueles que viveram em vão)



(não me peçam que fale sobre a areia) nós
juntávamos conchas buscando o vazio
abrimos caixas

: vindos do nada e do nada
do não-barroco não-gótico

vindos do vento e do vento (cheio de papagaios e
tristeza) tivemos de escolher
de brecha em brecha (não me peçam!)

compreendes que isto é a vida - a tua?

(vê eles levam os mortos para a casa dos Judeus
percebes como um segundo te salva? mas
para onde vais) nós

bebemos o dicionário o whisky e as ressacas
foram terríveis até
nos remeterem ao silêncio

até nos separarem um do outro

(pela memória das árvores) até ao último grão de areia
suspenso na cela de vidro



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Jonas Zdanys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008, p. 49).

domingo, 11 de julho de 2010

Sigitas Parulskis

Esquilos



Os teus seios, quando sais da casa
de banho - se eu fosse um verdadeiro poeta diria
quando emerges do vale lilás - os teu seios são como
dois esquilos empoleirados num ramo,
dois pequenos narizes castanhos voltados ligeiramente para o lado
perscrutando de cima as novidades que este mundo tem para oferecer

se eu fosse poeta diria que um dilúvio de desejo
jorra até ao vale da minha pélvis quando vejo
esses esquilos a olharem-
-me como se encarassem não um deus, ou um fauno,
mas um velho e aborrecido
sátiro

poderosas correntes de desejo descem
das nuvens do meu cérebro através da folhagem dos pulmões
e das pedras dos rins, murmuram por entre os baixios do fígado
e então, emergindo da gruta mais funda do vale,
um tronco fortemente enraizado cresce
subindo até às folhas, ceptro da vida, axis mundi
isto é o que eu diria se fosse poeta
em vez disso estendo simplesmente as minhas mãos para ti, e os meigos
pequenos animais comem calmamente
das minhas palmas
e eu enteso-me só um bocadinho



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Medeine Tribinevicius reproduzida em Six lithuanian poets, selecção e organização de Eugenijus Alisanka, Arc, Todmordem, 2008, pp. 87-89).

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Juan Luis Panero

Un étranger



Provoca uma certa melancolia,

uma tristeza decadente – seguramente literária—

como certas canções de entre guerras

ou páginas soltas de Drieu La Rochelle,

ver um homem só, afastado e distante,

no balcão de um bar com uma decoração cosmopolita.

Nessa idade incerta, tão incerta como a luz ambiente,

em que já não é jovem e contudo ainda não é velho

mas traz nos seus olhos a marca da sua derrota

quando com um gesto estudado acende um cigarro.

Muitos copos e muitas camas,

uma indubitável barriga mal dissimulada pela camisa,

o tremor, não muito visível, da sua mão segurando um copo,

fazem parte do naufrágio, da ressaca da vida.

Um homem que espera sabe deus o quê

e, inspirando o fumo, olha com declarada indiferença

as garrafas à sua frente, os rostos reflectidos por um espelho,

tudo com a particular irrealidade de uma fotografia.

E causa, ainda mais triste, um fundo suspiro reprimido,

ver no fundo desse copo – mágico caleidoscópio –

que esse homem és irremediavelmente tu.

Não resta então senão um sorriso céptico e distante

– aprendido muito cedo e útil anos mais tarde –,

e acabares a bebida de um só trago,

pagares a conta enquanto chamas um táxi

e dizeres-te adeus com palavras banais.

...

(Versão inédita de Ricardo Castro Ferreira; deste poema existem, pelo menos, duas outras traduções para português: de Joaquim Manuel Magalhães - em Poemas, Relógio D' Água, 2003, p. 33 - e de António Cabrita e Teresa Noronha - em Antes que chegue a noite, Fenda, 2000, p. 35 -).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Eugenijus Alisanka

Ensaio sobre a literatura lituana



cada vez menos sou capaz de responder à questão por que escrevo
às vezes parece: para escrever
às vezes eu vejo a luz
cada vez menos por interesse na poesia (para não falar da prosa)
às vezes parece: leio para esquecer
às vezes parece: estou por detrás deste jogo involuntário de palavras
cada vez mais forço-me a estar com os poetas lituanos
às vezes os poetas são generosos e torturados como na poesia russa
às vezes bêbedos e brutos como no rap
às vezes mal se aproximam disto como eu
mais modestamente penso na poesia lituana
às vezes recordo só alguns nomes: vytautas alfonsas sigitas
às vezes digo: a poesia pode ensinar a arte não a vida
às vezes pergunto: será que a vida se preocupa com a poesia como os celans
às vezes fico em silêncio: esta ignorância há-de trazer-me problemas



(Versão minha a partir da tradução inglesa do autor e de Kerry Shawn Keys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008, p.141).

sábado, 3 de julho de 2010

Daiva Cepauskaite

Como alcançar o paraíso



Tens de ter coragem
para escrever um poema,
tens de ter coragem
para não escrever um poema,
tens de dizer olá
e adeus,
tens de tomar vitaminas,
tens de respeitar todas as pessoas
e amar apenas uma,
mesmo que ela não o mereça,
tens de sofrer silenciosamente
e de permanecer pacientemente em silêncio,
tens de estar em silêncio quando alguém fala
e de falar quando toda a gente fica em silêncio,
tens de deitar o lixo fora,
de regar as flores,
de pagar o gás e a água,
os erros e os sucessos,
tens de dar o coração
por um olho e um olho
pelos dentes,
não deves pedir nada
quando desejas tudo,
e exigir tudo
quando não desejas nada,
tens de adormecer a horas
e de acordar a horas,
de encontrar dois sapatos para o pé esquerdo
porque os outros dois são do pé direito,
não esperar que alguém regresse
ou deixe de regressar
só porque alguém está à espera,
tens de olhar para o céu
porque ele jamais olhará
para ti,
tens de morrer porque é assim,
mesmo que não o
mereças,
tens de escrever um poema
nascido do medo
entre "sim" e "não",
vindo do "por quê",
com "para quê",
para ser "agradecido",
mesmo quando
não o merece.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry Shawn Keys reproduzida em Six lithuanian poets, Arc, Todmorden, 2008. pp. 119-121).

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Aidas Marcenas

Um poema real



Esmaguei um mosquito inchado
com o meu sangue - a sua vida jorrou
de tal forma que senti pena, porque
afinal de contas, Arjuna, nunca, nunca

nunca poderia eu criar algo
mais real do que esta
marca sangrenta, este
poema, este cadáver
sugador de sangue.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Laima Vince reproduzida em Six lithuanian poets, organização de Eugenijus Alisanka, Arc, Todmorden, 2008, p. 37).

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Gintaras Grajauskas

Sinceramente



se fôssemos realmente sinceros
não estaríamos sempre a falar de sinceridade

na verdade falaríamos menos
ou ficaríamos completamente em silêncio

se fôssemos realmente sinceros
diríamos "as minhas insinceras condolências"

ou "os meus insinceros cumprimentos".
"insinceramente vosso -

Grajauskas"

em geral falaríamos muito menos

laconicamente

não estaríamos sempre a perguntar: como vai a vida, como vai isso
iríamos direitos ao assunto, como vai isso de morrer

e responderíamos sinceramente: obrigado, bem



(Versão minha - revista - a partir da tradução inglesa de E. Alisanka e Kerry Shawn Keys reproduzida em Six Lithuanian poets, organização de Eugenijus Alisanka, Arc, Todmorden, 2008, pp. 105-107).

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Primo Levi

Agave



Não sou útil nem belo,
Não tenho cores alegres nem perfumes;
As minhas raízes roem o cimento
E as minhas folhas, marginadas por espinhos,
Protegem-me, afiadas como espadas.
Sou mudo. Só falo a minha linguagem de planta,
Difícil de entender por ti, homem.
É uma linguagem insólita,
Exótica, já que venho de muito longe,
De um país cruel,
Cheio de vento, venenos e vulcões.
Esperei muitos anos antes de expressar
Esta minha flor altíssima e desesperada,
Feia, fibrosa, rígida, mas estendida para o céu.
É a nossa maneira de gritar que
Morrerei amanhã. Compreendes-me agora?


10 Setembro 1983



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Jeannette L. Clariond reproduzida em A una hora incierta, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p. 133; e da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, 2ª ed., Londres, 1992, p, 59).

terça-feira, 22 de junho de 2010

Zaharia Stancu

A árvore vermelha



À beira das águas,
à beira das planícies,
à beira dos céus -
erguem-se árvores vermelhas.

Conheci os seus frutos: vermelhos.
A suas folhas conheci: vermelhas.
As suas sementes conheci: vermelhas.
O coração, o coração, a primeira árvore vermelha.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorialo Verbum, Madrid, 2004, p. 69).

sábado, 19 de junho de 2010

Hal Sirowitz

A arte do casamento



Viver com alguém é uma arte,
disse o pai, e uma vez que a tua mãe
é que é criativa, eu deixo-lhe
essa parte. Fico de lado
e digo, "Ainda não acabaste
de aperfeiçoar o nosso casamento?"
"Só posso alcançar essa perfeição",
diz ela, "arranjando um novo marido."
É assim que sei que ela continua amar-me.
Se assim não fosse, isto não seria uma piada.



(Versão minha; original reproduzido em Father said, Softskull Press, Brooklyn / Nova Iorque, 2004, p. 127).

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Zbynek Hejda

Depois da morte do meu pai...



Depois da morte do meu pai, tive um sonho:
estou em casa, sozinho, a campainha toca,
eu vou abrir a porta.
O meu pai está ali,
com o seu sobretudo, de chapéu,
sorrindo suavemente como sempre, prestes a entrar.
Mas depois pergunta-me se a mãe está em casa.
Esta pergunta é como um nó
que me aperta a garganta,
um precipício...
O meu pai ficou assim muito triste,
ele sabia a resposta,
eu não consigo descrever a minha angústia.
A mãe não estava em casa.
Ela que sempre aqui esteve -
mas, desta vez, saíra só por um instante
e estaría de volta dali a nada...
A sua ausência fatal significava porém
que o meu pai nunca mais
haveria de regressar.



(Versão minha a partir da tradução inglesa de Bernard O'Donoghue, Simon Danícek e Alexandra Büchler reproduzida em Six czech poets, Arc Publications, Todmordem, 2007, pp. 30-31).

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ana Blandiana

Humildade



Nada posso fazer para que o dia
não tenha vinte e quatro horas.
Apenas posso dizer:
perdoa-me pela duração do dia.
Também não posso impedir
o voo das borboletas a partir das larvas.
Apenas posso implorar o teu perdão,
pelo voo das borboletas, pelas larvas,
perdoa-me pelas flores que se transformam em frutos
e os frutos em sementes e as sementes em árvores.
Perdoa-me pelos mananciais
que se convertem em rios e os rios
em mares e os mares em oceanos.
Perdoa-me pelos amores
que se transformam em recém-nascidos
e os recém-nascidos em solidões
e as solidões em amores...
Nada posso impedir.
Tudo segue o seu destino e nunca me pergunta nada.
Nem o último grão de areia, nem sequer o meu sangue.
Apenas posso dizer: perdoa-me.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contenporánea, Editorial Verbum, Madrid, 2004, p. 166).

domingo, 13 de junho de 2010

Mircea Dinescu

Vidas paralelas



Sem dor alguma
também eu estou a contar as estrelas
tal como o caraguejo
conta os glóbulos brancos do afogado.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorial Verbum, Madrid, 2004, p. 193).

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Primo Levi

Chegada



Feliz o homem que chega a um porto
Deixando para trás mares e tempestades,
Cujos sonhos estão mortos ou não nasceram,
E se senta e bebe na cervejaria de Bremen,
Feito o caminho, agora em paz.
Feliz o homem que é apagada chama,
Feliz o homem que é areia no estuário,
Que largou a carga e enxugou a fronte
E descansa à beira do caminho.
Não teme nem deseja nem espera,
Apenas olha fixamente o sol a pôr-se.



10 Setembro 1964


(Versão minha a partir da tradução castelhana de Jeannette L. Clariond, reproduzida em A una hora incierta, La Poesía senõr hidalgo, Barcelona, 2005, p. 67 e da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann, reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, Londres, 2ª ed. (?), 1992, p. 25).

terça-feira, 8 de junho de 2010

A. E. Baconsky

Auto-retrato no tempo



Fui semelhante ao bosque, ao moinho de vento,
aos calados, negros e desconhecidos cruzeiros,
às sombras dos cavalos
sobre as altas colinas da Moldávia,
fui até semelhante à silhueta dos estranhos
deuses enterrados na areia do mar.
Quanto tempo passou desde então?
Devem ter passado muitas chuvas, muitas tempestades,
devem ter caído muitas muralhas, e muitas hostes,
devem ter sido quebradas muitas correntes,
queimados e esparzidos muitos impérios
até se assemelharem a mim mesmo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorial Verbum, Madrid, 2004, p. 106).

domingo, 6 de junho de 2010

Dimitrie Stelaru

Jovem velho



Quando eu era velho
amava os cavalos, as crinas
e a selvajaria,
por trás de mim gritavam as estrelas errantes.

Ri-me sobre o lombo dos fantasmas
vestidos afinal com muito pudor;
esquecido pelas carpideiras
como um sino sem voz
o meu fogo é já cinza.

Agora sou jovem como Marsyas
e os cavalos pastam na erva do meu corpo.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Editorial Verbum, 2004, p. 97).

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Primo Levi

Cantar



... Mas quando começámos a cantar
As nossas boas canções insensatas,
Então vimos que todas as coisas
Voltavam a ser o que haviam sido.

Um dia não é mais que um dia:
Sete fazem uma semana.
Matar parecia-nos uma coisa má;
Morrer, uma coisa longínqua.

E os meses passaram mais que velozes,
Mas tínhamos tantos pela frente!
De novo fomos apenas jovens:
Nem mártires, nem santos, nem infames.

Isto e outras coisas vinham à nossa mente
Enquanto continuávamos a cantar;
Mas eram coisas como as nuvens,
Difíceis de explicar.


3 Janeiro 1946


(Versão minha a partir da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann reproduzida em Collected Poems, Faber and Faber, Londres, 2ª edição (?), 1992, p. 6, e da tradução espanhola de Jeannette L. Clariond reproduzida em A una hora incierta, La Poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p. 27).

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Tudor Arghezi

O príncipe Tzepesh



No país há paz, e fora também;
os confins estão calmos como nunca,
e hoje, nos campos seguros,
os lavradores cantam e sulcam a terra.

No início da doce primavera
o povo recorda as lendas
e as folhas tremem nos ramos celestes -
também, em segredo, tremem os boiardos.

É claro, o Príncipe pensativo
está decidido a purificar o mundo.
Enfia uma estaca até ao pescoço dos homens
para que o cu tenha uma campainha.

Não há piedade nem demoras
para quem se opõe à justiça.
Religioso, o Príncipe, a cada estaca,
prepara as velas e o pudim de trigo.

Respeitador dos bons costumes,
para os grandes - sejam conterrâneos ou turcos -
tem estacas diferentes, forquilhas soberbas
que distinguem as suas hierarquias.

Podem ver-se os vizires nas alturas,
empalados sobre majestosos álamos,
e para os santos, os padres e os bispos
tem madeira santa e perfumada.

E é aqui que as Cortes do país se reúnem
para agradecer ao Príncipe a paz.
Ele está no seu trono. Silencioso.
A alma coberta de adargas.

E enquanto amigos e cortesãos com armaduras
brindam e erguem as taças de vinho
em honra das façanhas de Sua Majestade,
o Príncipe pensa nas estacas que merecem.



(Versão minha a partir da tradução castelhana de Darie Novaceanu, reproduzida em Antología de la poesía rumana contemporánea, Verbum, Madrid, 2004, p. 28).

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Primo Levi

Segunda-feira



Há alguma coisa mais triste do que um combóio
Que parte à hora certa,
Que só tem uma voz,
Que só tem uma via?
Não há nada mais triste do que um combóio.

Só talvez um cavalo de tiro.
Debaixo do governo das rédeas
Nem sequer pode olhar para o lado.
A sua vida é caminhar.

E um homem? Não é triste um homem?
Se vive largo tempo na solidão,
Se pensa que chegou a sua hora,
Também um homem é uma coisa triste.


17 Janeiro 1946



(Versão minha, a partir da tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann, reproduzida em Collected poems, Faber and Faber, 2ª edição, Londres, 1992, p. 11, e da tradução espanhola de Jeannette L. Clariond, reproduzida em A una hora incierta, La poesía, señor hidalgo, Barcelona, 2005, p.37).

sábado, 29 de maio de 2010

Roger Wolfe

Artigo não sujeito à legislação em vigor



Os poemas?
Alguns funcionam,
outros não.
Se o que queres
é uma garantia,
então compra um televisor.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa: 1986 - 2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 269).

terça-feira, 25 de maio de 2010

Hal Sirowitz

Trocando dólares por cêntimos



Levei a minha navalha para a escola, disse o Pai,
e tracei um boneco na minha carteira. O reitor
disse-me que eu não concluiria o curso a não ser
que lhe desse cinco dólares para emendar o erro.
Os meus pais deram-me o dinheiro, uma soma
considerável naquele tempo. Eu fui ao banco
e troquei-o por 500 cêntimos. Coloquei-os
dentro de um saco de papel e bati à porta do reitor.
Despejei os cêntimos sobre a sua secretária
& disse-lhe que violara o meu porquinho-mealheiro.
Pensei que ele teria pena de mim & me diria
que eu guardasse o dinheiro. Mas ele disse-me que não
podia aceitar os cêntimos, que eu tinha de ir a um banco
e trazer-lhe cinco dólares. Era um tipo duro.



(Versão minha; original reproduzido em Mother said, Crown Publishers, Nova Iorque, 1996, p.124; vale a pena lembrar isto a propósito deste poema, ).

domingo, 23 de maio de 2010

Jordi Virallonga

Confessar tudo



Queria dizer-te
que nunca passeei com ela,
que nenhuma montra devolveu a nossa silhueta reunida
nem o seu peito pressionou com o seu mudo acordeão os nossos cristais,

que nunca contemplei a sua nudez em lugares inquietantes,
que nem sequer sei o seu nome,
que não sei do que me estás a falar.

Queria dizer-te que não é verdade,
que no domingo andei a passear sozinho com o cão,
que o cão nunca a quis.

Queria dizer-te que nunca viveu comigo,
que deverias saber o que eu sei,
que era feia, corcunda e reaccionária,

dizer-te que sempre te fui fiel,
que nunca existiu,
que nunca jamais a quis.




(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 132).

quinta-feira, 20 de maio de 2010

José Agudo

A aprendizagem



Como o calor chega aos lençóis,
como chega o desejo aos lábios.

Com a premonição de uma bela recordação,
assim chega este dia,
calando até aos ossos.

Inventariarei os meus pertences
e esperarei que o sol aqueça
as minhas roupas e o meu corpo;
meditarei sobre as horas que vivi
e retirarei ensinamento dos meus fracassos.

E direi a mim mesmo que busco
aquilo que me aguarda
para saber o que espero
e a que sonhos convêm os meus esforços.

E não reclamarei mais ilusões
nem pedirei outro deus
que o deus que me compreenda
e encontre explicação para os meus pecados.

Elegerei o caminho que a idade
me mostre como bom,
conhecendo as forças que me assistem,
reconhecendo aquelas de que dependo.

E deixarei para trás quanto fui,
sem que o rancor me vença,
sem atender a mais disposições
além de estar em paz comigo.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 39).

terça-feira, 18 de maio de 2010

Dan Pagis

Escrito a lápis num vagão selado



Aqui neste vagão apinhado
eu Eva
e o meu filho Abel
se virem o meu filho mais velho
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu



(Versão minha, a partir desta tradução de A. Z. Foreman e da tradução de Robert Friend reproduzida em The poetry of survival, organização, prefácio e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, 2ª ed. (?), Londres, 1991, p. 221).

domingo, 16 de maio de 2010

Nizar Qabbani

Quando te vejo



Quando te vejo
Perco a esperança na poesia,
Como se apenas tu me pudesses criar.
És bela
E se penso na tua beleza
A minha respiração fraqueja,
A minha língua bloqueia,
As minhas palavras falham.
Salva-me de tudo isto. Sê menos bela
E permite-me reecontrar-me com a minha inspiração.
Sê uma mulher que se maquilha e perfuma,
Que engravida e dá à luz,
Sê como as outras mulheres
E reconcilia-me com a linguagem
Para que eu possa voltar a escrever.



(Versão minha a partir desta tradução de A. Z. Foreman e da tradução de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian love poems, A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, London, 1998, p. 97).

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Federico Gallego Ripoll

Final



A vida é a oferta que agradeço
hoje. Toda a vida é hoje. Os teus olhos
e os meus olhos. O ponto em que se deram
é hoje. E até onde chegam e de onde
regressam, é hoje.

Toda a vida é hoje, e parece-me
suficiente o ter vivido tanto
se neste hoje de hoje cabe o teu lúcido
olhar sobre mim, e o futuro é
um hoje perpetuamente teu.

Concede-me agora
a felicidade de morrer, hoje que não tenho
nem passado nem medo.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Madrid, 2003, p. 48).

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Neus Aguado

As tábuas da lei



Saber que cometes adultério
para não voltares a cometê-lo
que matas para não voltar a matar
que roubas para não voltares a roubar
que cobiças para não voltares a cobiçar.
E ainda que não te apedrejem
nem te cortem a mão
nem te arranquem os olhos
saber que a alma está completamente mutilada e se arrasta peregrina
esbarrando com os anjos que um dia tu mesma mandaste sangrar.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 114).

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Jordi Virallonga

Isso é tudo



Dá no mesmo, disseste, é só sexo,
porém esqueceste que nós vivemos dessas coisas;
só aqueles que fizeram a lei se ocupam
da virtude, da paz e da nobreza.

Essa justiça natural de que falas
fez-nos maus filhos, ateus e ladrões.
Esses homens, todavia, criaram deuses,
sacerdotes, polícias e orfanatos.

Nós comemos, bebemos e gozamos
pagando por isso o preço do salário.
Isso é tudo, somos mercenários, guardamos o Estado
e não merecemos consideração alguma.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aqui - Antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 137. Deste poeta existe em português Quanto sei de mim, um conjunto de poemas traduzido por Carlos da Veiga Ferreira, com prefácio de Nuno Júdice, Teorema, Lisboa, 2001; este mesmo poema aparece aí traduzido na p.32).

domingo, 9 de maio de 2010

José Agudo

Talvez um dia de novo



Talvez um dia de novo,
quando os anos e o inverno
corroerem os meus móveis, as minhas recordações,
o meu corpo e o meu passado,
e a minha memória se esqueça de mim mesmo,
e nada fique de mim,
e já nada me reconheça,
me recorde de ti
- jovem pirata de barcos de papel,
pequeno sonhador -
e do reino distante da minha infância.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Madrid, 2003, p 29).

sexta-feira, 7 de maio de 2010

(Hors-série)

Excertos de dois e-mails de um leitor devidamente identificado:
"Viva (...),

(...) ando a desenvolver um "ciclo do papel higiénico" em momentos análogos ao que o nosso HH narra em "Vida e obra de um poeta". Como me deu um ataque súbito de angústia da influência, estou agora mesmo a tentar desenvolver a argumentação que te convença a incluir o primeiro "borrão" (escrito numa primeira versão em papel higiénico) no Trapézio. A questão é que, não se tratando tecnicamente de uma tradução, a verdade é que os textos deveriam ter sido escritos por uma pessoa que falasse outra língua (não me perguntes como o sei) que não só nunca existiu como, existindo, jamais os teria escrito. Estranho? Eu sei, mas acho que é precisamente essa qualidade de estranheza alcançada que faz com que não desmereça de figurar na tua antologia digital. (...) Convencido? Aqui vai o Borrão (o primeiro de uma reciclagem de mitos clássicos):

Mito reciclado de Orfeu e Eurídice

(...) no último instante, Orfeu lembrou-se do seu canto, o qual era para si bem mais valioso que mil Eurídices. Olhando para trás, fixou a beleza silenciosa da amada e decidiu imortalizá-la nos seus versos, enquanto via, serenamente, a sombra de Eurídice desaparecer (...)


Dir-me-ás, não querendo discutir a qualidade do dito, que nem sequer se trata de um poema e eu respondo-te, então, que não chega a ser sequer uma prosa. Em desespero de causa sugiro que se corte às postas respeitando a pontuação:


(...) no último instante,
Orfeu lembrou-se do seu canto,
o qual era para si bem mais valioso que mil Eurídices.
Olhando para trás,
fixou a beleza silenciosa da amada e decidiu imortalizá-la nos seus versos,
enquanto via,
serenamente,
a sombra de Eurídice desaparecer (...)


(...) podes identificar-me como autor "contrafeito", ou como alguém que de algum modo opera uma contrafacção (não é impunemente que se desfaz um mito de amor - ainda por cima tão associado ao acto poético - e o transforma num puro gesto de crueldade), como um moedeiro falso, enfim, para os devidos efeitos Ricardo Castro Ferreira serve. E, assim, as agora já vinte linhas de fama ficarão cozidas à minha biografia, até ao momento tão obscura.
(...)

abraço"


(Ricardo Castro Ferreira colaborou anteriormente neste blogue com estes dois trabalhos de tradução).

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Neus Aguado

Conselhos domésticos



Levar a alma a passear como quem leva um cão,
não permitir que te ladre nem que te lamba,
engomá-la depois de bronzeada
e procurar que não se queime, ainda que arda.
Consumir o fogo restante e, se não há mais remédio,
mandá-la de vez para a fogueira ou para a tinturaria.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montalbán, Bartleby, Madrid, 2003, p. 116).

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Federico Gallego Ripoll

Alguém parte para o exílio



Alguém parte para o exílio.

E não sei se sou eu
o homem que se vai
ou o país que fica.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 44).

sábado, 1 de maio de 2010

José Agudo

Ne me quitte pas



Entro num bar
e ouve-se o Ne me quitte pas
de um Jacques Brel
nostálgico e distante.

Peço uma cerveja,
acendo um cigarro
e penso mais uma vez
que deveria largá-lo.

Sem saber por quê
recordo-me de sessenta e oito
e da Paris de então.
Eu era todavia muito jovem
e não estive em Paris
em maio de sessenta e oito.
Não estive em Paris.
Ne me quitte pas...

Acendo outro cigarro
e lembro-me que a minha filha
anda pelos quinze
ou tem dezasseis, não sei.

Irrita-me esta cerveja quente,
o fumo, a luz tísica das lâmpadas,
os gritos desses miúdos,
o murmurinho das conversas,
o cheiro a cozinha e a fritos.
- Barman,
que a música não se oiça!

Este lugar deprime-me
e no entanto aguento.



(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Mnuel Rico, prólogo de Manuel Vásquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, p. 32).

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Roger Wolfe

Poesia



Pergunta-me o que é a poesia.
A poesia, respondo-lhe,
é uma manada de vacas a atravessar uma ponte
por cima de uma auto-estrada.

Então olha-me, e sorri,
e isso é também
poesia.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa 1986-2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 49).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Roger Wolfe

Glosa de Celaya



A poesia
é uma arma
carregada de futuro.

E o futuro
é do Banco
Santander.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa 1986 - 2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 262).

sábado, 24 de abril de 2010

José María Micó

Breve História de Espanha



"Quando é preciso descobrir um Novo Mundo
ou domar o mouro,
ou há que medir o cinturão de ouro
do Equador, ou levantar sobre o profundo
espanto do erro negro que pesa
sobre a Cristandade o pensamento
que é amor em Teresa
e é claridade em Trento,
quando há que consumar a maravilha
de alguma nova façanha,
os anjos que estão à beira do seu Trono
olham para Deus... e pensam em Espanha."
(José María Pemán)




Tenho em casa o Poema
da Besta e o Anjo,
inveja de bibliófilos:
"Saragoça, Edições Jerarquía,
abril de mil novecentos e trinta e oito,
Segundo Ano Triunfal."
Certa dedicatória
do poeta a um amigo
seguramente médico
faz mais raro o meu exemplar.
Na primeira página, o tipógrafo
das Indústrias Gráficas Uriarte
dispôs sabiamente,
sobre papel precioso,
umas letras douradas:
"Franco, Calvo Sotelo, José António,
Sanjurjo, Mola."
Ainda se torna mais belo
o brilho desses nomes.
Com o seu fulgor acende-se
a lembrança e leva-me
às mesmas paragens,
ao campo descuidado de Pina de Ebro,
abril de mil novecentos e trinta e oito:
ali um mouro domado
por algum anjo espanhol daqueles
que olhavam para Deus
ceifou com tiros de espingarda cristã,
não com uma cimitarra feroz e herege,
os dias do soldado
Francisco Gómez Cuéllar,
morto aos trinta anos
com tempo suficiente
para manter viva a minha linhagem.




(Versão minha; original reproduzido em Por vivir aquí - antologia de poetas catalanes en castellano (1980-2003), organização de Manuel Rico, prólogo de Manuel Vázquez Montálban, Bartleby, Madrid, 2003, pp. 249-250).