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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Javier Salvago

Ano Novo



Como as coisas não podiam
piorar - escreveu Kafka,
no seu Diário -, melhoraram.

Como gostaria, diante deste negro
e inóspito horizonte que se abre
diante de mim - como um ano mais,
ou como um ano menos -,
de poder dizer o mesmo.
Sinto porém
que não toquei o fundo,
que há mais miséria, mais dor, mais tédio
mais à frente, que as coisas
podem piorar.
Que o pior, como alguém disse,
ainda está para chegar.


31, dezembro, 1996



(versão minha; o original pode ser lido algures por aqui).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Javier Salvago

Tesouro divino



A juventude passou.
Bem está o que acabou.
Não voltaria a ser jovem
nem que mo pagassem.

Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?

Começar outra vez
as velhas batalhas
e as suas velhas feridas?
Voltar às caminhadas

pela noite, pelo inferno,
ao gosto pela má
vida? Fazer de tudo,
que é comédia, um drama?

Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e frenesim,
de palavras gastas?

Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?... Que disparate!

Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?

Ter toda a vida
pela frente - tão longa -,
e o que já passou
não ser nem metade?

A juventude foi-se.
Fica bem o que acaba.
Não voltarei a ser jovem,
graças a Deus.



(Outubro, 1996)



(versão minha; poema do livro Variaciones y reincidencias, de 1997, que pode ser lido algures aqui).

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Javier Salvago

Último retrato da juventude



Faz quase três anos que não escrevo
poemas, abandono-me, apenas leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
dentro de mim uma espécie de vazio

que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, ontem tão vivo.

Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de extraordinário
espero doravante. Não disfruto

do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
me consentem os anos menos fantasias.



(versão minha; poema do livro Los mejores años, 1991; original aqui).

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Javier Salvago

Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos



Qaundo alguém já não é jovem, convence-se
de que o diabo sabe mais por ser velho,
e aceita que os anos nos ensinam
a distinguir a realidade do sonho.
E, por acaso, não. Talvez a vida apenas
nos apareça uma vez - quando temos
olhos para a apreciar - e logo começamos
a esquecer o seu rosto e o seu segredo.



(versão minha; de Variaciones y reincidencias, 1985.)

domingo, 11 de maio de 2008

Javier Salgado

Anúncio de primavera



A minha vida é feita de noites,
de lágrimas de estrelas, de luas
frias e silenciosas.
Como um anjo das trevas
habituaram-se os meus olhos às ruas
obscuras, à penumbra dos bares,
à luz, de néon, artificial.
Gentes, recém-chegadas da tarde,
asseguram que regressou a primavera
e no meu roupeiro só há fatos negros,
pressentimentos negros,
máscaras de amargura.
Senhora dos Céus Luminosos,
quando não for um maldito
farei umas asas
- como Ícaro -
e tentarei voar até ao sol.



(versão minha; de Canciones del amargo amor y outros poemas, 1977.)

domingo, 23 de março de 2008

Javier Salvago

Retrato


Fala pouco, e a muito poucos
se atreve a chamar amigos,
passa ao largo se há confusão,
não visita os seus vizinhos,

atravessa a rua fumando,
sempre dentro de si mesmo,
vendo o mundo de fora
como quem lê um livro

preso - sem saída -
no seu próprio labirinto,
no entanto nem surdo nem cego
nem indiferente nem frio:

um solitário que vive
com uma mulher e um miúdo.



(versão minha)

sábado, 22 de março de 2008

Javier Salvago

Convém não esquecer



Por este atalho,
a que chamam vida, todos
vamos às apalpadelas

tal como um cego.
Em cinza terminam
todos os fogos.



****



Haiku



Como as nuvens de agosto, tudo passa.
A vida prova-nos
que se pode viver sem quase tudo.



(versões minhas)

sexta-feira, 21 de março de 2008

Javier Salvago

A juventude



Durou o que duram,
por norma, as ilusões:
até que descobres
que já acordaste.

Hoje é só história
para constituir memória.

Outros são os seus donos
e outro é aquele que olha
e procura o que de novo
oferece a vida.

Quem veio por tudo
não se satisfaz com tão pouco.


(versão minha)

quinta-feira, 20 de março de 2008

Javier Salvago

Quinta-feira Santa



A mesma lua, o mesmo
perfume de laranjeira
perfumando as ruas,
onde a vida estala

na multidão de corpos
que se atraem e procuram.
Calor de primavera
na pele e no ar.

Jovens incansáveis,
como nós então,
percorrem a cidade
bêbedos de desejo

- jovens com invernos
de abstinência, que sentem,
como Aquele, que também
o seu reino não é deste mundo -.

Os tambores recordam
que se avança para o patíbulo.
Diante de virgens chorosas,
descaradamente, beijam-se

deuses que morrerão
- como o deus que ontem fomos -,
sem remédio nem culpa,
na cruz dos anos.



(in Los mejores años, 1991; versão minha)