terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Raymond Carver

O poema que não escrevi



Aqui está o poema que ia escrever
antes, mas não escrevi
porque te ouvi a despertar.
Estava a pensar outra vez
naquela primeira manhã em Zurique.
Como acordámos antes do amanhecer.
Desorientados por um instante. Mas indo
até à varanda que dava
para o rio e para a parte velha da cidade.
E ali estávamos simplesmente, em silêncio.
Nus. Vendo como o céu clareava.
Tão comovidos e felizes. Como se
nos tivessem colocado ali
naquele preciso momento.



(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Jaime Priede, reproduzidos em Todos Nosotros, Bartleby Editores, Madrid, 4ª edição, 2007, p.106).

domingo, 28 de dezembro de 2008

Raymond Carver

Domingo à noite



Usa as coisas que te rodeiam.
Esta chuva branda
Do lado de fora da janela, por exemplo.
Este cigarro entre os meus dedos,
Estes pés no sofá.
O som débil do rock-and-roll,
O Ferrari vermelho na minha cabeça.
A mulher aos encontrões
Bêbeda pela cozinha...
Recolhe tudo isso,
Usa-o.



(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Jaime Priede, reproduzidos em Todos Nosotros, Bartleby Editores, Madrid, 4ª edição, 2007, p. 223).

sábado, 27 de dezembro de 2008

Doug Beardsley

O poema perfeito



O que quero
escrever
não está aqui
mas algures
além.

O que faço
é um poema,
uma pequena casa
para viver,
um refúgio de prazer.

O que vejo
é a forma
que procuro ler,
uma perfeita
cascata de palavras.

O que sonho
é o mesmo
poema que faço
mas estou sempre
acordado.



(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, organização e selcção de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd. Saskatoon, 2ª impressão, 2006, p 15).

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Robert Hilles

Este poema não te vai magoar



Contém apenas palavras gentis.
Não há esquadrões da morte
à espera clamando por ti entre
as sílabas. Os sons das
explosões e da morte são vagos
e pertencem às composições
de outros. Aqui podes viajar
em segurança. É calmo; repousa
entre o desepero e a perda.
As flores crescem cuidadosamente
neste poema. As suas fragrâncias demoram-se
por dentro do ritmo das
palavras. Muda cada página suavemente.
Entregam-se assim que a tua língua
imagina o seu sabor. Este poema
não conquista nada. Não ataca
nada. Foge das
ofensas, das discussões,
das vozes agressivas. Muda a página
suavemente. As ruas neste poema
estão repletas de música. Até os
mortos são leves; flutuam
livres do estranho malogro
da sepultura. Muda a página
suavemente. Quando terminares este
poema, adormece; pensa apenas nos deuses
e no que lhes gostarias
de pedir. Este poema não tem
queixas contra ti, liberta-o suavemente.
Outros foram torturados por
pensamentos idênticos. Este poema não se preocupa
com a cor da tua pele ou o tipo
de atrocidades pessoais que testemunhaste.
Liberta-o suavemente. Há uma imagem final.
Lê-o em voz alta.
Uma letra de cada vez.



(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, selecção e organização de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd. Saskatoon, 2ª impressão, 2006, pp. 102-103).

domingo, 21 de dezembro de 2008

Leona Gom

O modo como ele o disse



Tanto frio,
os cavalos embranquecidos por ele,
e a minha mulher, a morrer,
no trenó,
a quarenta milhas do hospital,
depois chegámos lá,
e eles não queriam tomar conta dela.
Não tem dinheiro, não há médico,
disseram eles.
E Rosenbloom, que estava lá,
tomem conta desta mulher, gritou ele,
eu dou-vos o raio do dinheiro!
Então ficou tudo bem,
eles tomaram conta dela.
Ele era judeu, Rosenbloom, disseram eles,
mas isto é o que eu recordo dele.




(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, selecção e organização de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press Ltd., Saskatoon, 2ª impressão, 2006, p. 75).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

John Ash

O enigma de Jan Keetmam


O seu correio chega,
correctamente endereçado,
mas ele não está aqui.

É holandês ou dinamarquês?
Não é certamente alemão.
Penso que tem cabelos finos e flexíveis.

Por vezes o carteiro desespera,
e deixa as suas cartas e
encomendas órfãs à minha porta

como se fossem oferendas para o deus
de tudo o que é estrangeiro e infiel.

Na verdade, temos ambos nomes estranhos,
e Jan não é muito diferente de John.
Desconfio que o carteiro pensa que

eu sou realmente esta outra pessoa,
e, se ele persistir, vou desistir
e confessar por fim a minha verdadeira identidade.

Mas não, devo insistir,
eu não sou, não sou Jan Keetman.



(versão minha; poema do livro The Parthian Stations, Carcanet, Manchester, 2007, p. 29).

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Raymond Carver

Último fragmento



E apesar de tudo conseguiste
o que querias desta vida?
Sim.
E o que querias?
Considerar-me amado, sentir-me
amado sobre a terra.



(versão minha a partir do original e da tradução para espanhol de Jaime Priede, reproduzidos em Todos nosostros, Bartleby Editores, selecção, tradução e prólogo de Jaime Priede, 4ª edição, Madrid, 2007, p. 251).

domingo, 14 de dezembro de 2008

John Ash

Preocupação



Tal como a minha mãe e o meu pai antes de mim,
sou bom nisto. O truque é preocupares-te
quando tudo vai bem contigo:

tens saúde e estás apaixonado e o teu palacete
está rodeado por amplos jardins solenes,
e de súbito sabes que isto é demasiado bom para ser verdadeiro:

"Talvez, sem o meu conhecimento,
o meu corpo abrigue já uma doença fatal,
ou o meu amor me odeie secretamente, e agora mesmo
esteja a preparar a minha queda."

Nada é assim tão óbvio,
mas por amor de Deus usa a imaginação!
Pensa no que pode apanhar-te de surpresa
como uma bola de neve atirada às costas.

Se és um afortunado deverias estar preocupado.
Édipo, como podes recordar, teve um problema com isto.



(versão minha; poema do livro The Parthian Stations, Carcanet, Manchester, 2007, p. 28).

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

John Ash

Deixando Nova Iorque I



Não me mudei de uma
para outra cidade.
Mudei-me de uma para outra
versão da mesma cidade.

O que perdi ou ganhei? Amigos,
um apartamento com um tecto maravilhoso,

visões azuis do mar,
os gritos das gaivotas ao nascer do sol.
Todas as ruas são a mesma
se vives nela.



(versão minha; poema do livro The Parthian Stations, Carcanet, Manchester, 2007, p. 12).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Juan Gelman

O cão



O poema não pede de comer. Come
os pobres pratos que
gente sem vergonha ou pudor
lhe serve a meio da noite.
A palavra divina já não existe. Que pode
fazer o poema senão
contentar-se com o que lhe dão?
Depois uivará por aí
sem resposta, será
outro cão perdido
na cidade impiedosa.



(versão minha; poema do livro Valer la pena, Visor Libros, Madrid, 2008, 2ª edição, p. 132).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

jpb


(Uma "interpretação literal", palavras do fotógrafo, dos poemas "A chave do gás" e "Nota de rodapé de "A chave do gás"" de Juan Gelman, passados a português e publicados aqui e aqui).

domingo, 7 de dezembro de 2008

Juan Gelman

Nota de rodapé de "A chave do gás"



A mulher do poeta irritou-se
com o poema "A chave do gás".
Não vê por que razão a metáfora da palavra,
ou a ambiguidade da palavra,
ou as feridas que a palavra produz
podem impedir alguém
de saber onde está a chave do gás e
como ela fecha e abre. Tem razão.
O poeta labora num erro porque
a chave da palavra, digamos, nem fecha
nem abre, e pode até dizer-se que não existe,
e menos ainda a sua metapalavra,
a sua ambiguidade cortante ou vazio.
A realidade da cozinha tranquiliza,
há chaves que fecham, que abrem, funcionam
cumprindo a função de demonstrar
que há coisas que se fecham e abrem
e sonham desde ontem na minha cabeça
e que não consigo fechar.




(versão minha; poema do livro Valer la pena, Visor Libros, Madrid, 2008, 2ª edição, p. 131)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Juan Gelman

A chave do gás




A mulher do poeta está
condenada a ler ou a escutar os
versos do poeta que fumegam
recém-arrancados da alma. E mais:
a mulher do poeta
está condenada ao poeta, a esse
que nunca sabe onde
está a chave do gás e finge
que pergunta para o saber
quando só lhe interessa perguntar
o que não tem resposta.



(versão minha; poema do livro Valer la pena, Visor Libros, Madrid, 2008, 2ª edição, p. 130).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Leona Gom

Sobrevivência



Nunca houve qualquer espécie de delicadeza.
Nada dessas tretas românticas
sobre crescermos numa quinta.
Tudo o que recordo
resume-se a dor e morte.
Quando os porcos eram castrados,
os seus guinchos toda a tarde
e o meu pai a entrar
ensopado pelo sangue da culpa.
Quando serravam os cornos dos bezerros,
os seus berros desesperados
e a minha mãe só dizia,
"isto não lhes dói nada".
Quando vi os gatos recém-nascidos esmagados
contra as paredes do celeiro,
e os cães mortos a tiro
por serem demasiado velhos
para guardarem o gado,
e as galinhas
com as cabeças cortadas
a sacudirem-se no solo ensanguentado,
e os cavalos vendidos
quando o meu pai comprou um tractor,
e eu pude ir de autocarro para a escola.
Aprendi muito sobre a necessidade,
- ou são funcionais, as coisas, ou morrem;
e não fiquei assim tão mal preparada
como cheguei a pensar no início
para viver nas cidades.




(versão minha; original reproduzido em In the clear - a contemporary canadian poetry anthology, organização e introdução de Allan Forrie, Patrick O'Rourke e Glen Sorestad, Thistledown Press ltd., 2006, 2ª impressão, Saskatoon, pp. 72-73).

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

América 2008 (5)

(Chicago, Illinois, Nov. 2008: foto - jpb)

sábado, 29 de novembro de 2008

Fernando López de Artieta

As quatro estações



O outono e as suas ruas
douradas pelas folhas dos livros.

O inverno de neve
igual a um longo e triste hendecassílabo.

Depois a primavera enamorada
lendo algum poema de Vírgílio.

Logo chega o verão e, como sempre,
mandamos para o caralho os versinhos.



(versão minha; poema do livro Jugar en serio, Visor Libros, Madrid, 2004, p. 63).

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Fernando López de Artieta

Ode ao telefone



Todos nós compramos este aparelho
com a ilusão de que nos ligue um dia
uma loira que deseje ser nossa amiga
ou nos anunciem um prémio literário.

Esta loquaz pomba mensageira
devia ensinar ao carteiro
que as notícias não requerem selos,
nem caixa de correio, nem farda, nem uma Vespa.

Assalta-nos de súbito, a voz estridente,
com notícias triviais e prosaicas,
temas domésticos de andar por casa,
sem importância, porém com sentido.

A nossa vida esconde-se nestas coisas
que fazemos quase sem saber que fazemos,
e assim tagarelar com alguém ao telefone
representa-nos de não sei que forma.

Nenhum amigo me contou tantos
segredos ao ouvido como este,
e jamais me falaram as mulheres
acercando-se tanto dos meus lábios.

E não quero louvar no meu poema
o artefacto, antes o grande mistério
desses números mágicos que deixam
que apareça uma voz no meu silêncio.



(versão minha; poema do livro Jugar en serio, Visor Libros, Madrid, 2004, p. 19).

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

América 2008 (4)


(Train by the road - foto: jpb)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ernest Hemingway

O tempo exigiu



O tempo exigiu que cantássemos
E arrancou-nos a língua.

O tempo exigiu que fluíssemos
E cravou-nos uma rolha.

O tempo exigiu que dançássemos
E vestiu-nos uma calças de ferro.

E no fim o tempo recebeu em troca
Toda a quantidade de merda que exigiu.



(versão minha; original reproduzido em Illinois Voices, organização e selecção de Kevin Stein e G.E. Murray, University of Illinois Press, Urbana and Chicago, 2001, p. 26).

domingo, 23 de novembro de 2008

América 2008 (3)

(Near Route 66, Illinois - foto: jpb)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Elaine Equi

Coisas a fazer segundo a Bíblia



Embebedar-se.
Caminhar sobre as águas.
Coleccionar circuncisões.
Arrancar um olho.

Construir uma arca.
Interpretar sonhos.
Matar um irmão.
Não olhar para trás.

Juntar-se a uma tribo.
Ouvir as nuvens.
Viver numa tenda.
Deixar o trabalho.

Falar com as montanhas.
Apresentar-se perante um rei.
Ressuscitar os mortos.
Procurar o espírito.

Colher o que se semeou.
Somar bem-aventuranças.
Ranger os dentes.
Pescar para os homens.

Deixar crescer a barba.
Usar o hábito.
Montar um burro.
Transportar uma tocha.

Sentar-se junto a uma nascente.
Viver para chegar a velho.
Permanecer virgem
e falar em línguas.

Estas são as palavras do Senhor.



(versão minha; original em Illinois Voices, organização e selecção de Kevin Stein e G.E. Murray, University of Illinois Press, Urbana and Chicago, 2001, pp. 272-273).

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

América 2008 (2)


(Paris, Texas - foto: jpb)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Harriet Monroe

O encontro



A parelha de bois e o automóvel
Ficaram frente a frente na extensa estrada incandescente.
A extensa estrada incandescente estreitava
Na curva da colina,
E lá em baixo estava o rio dançante e solar
Espumando sobre as rochas.

Os animais brandos e pacíficos deixaram-se ficar calmamente, ruminando o seu alimento.
O homem hirsuto e barbudo das montanhas,
Mais enferrujado que a sua carroça,
Não tirou os olhos do motorista orgulhoso.
A pequena rapariga esfarrapada
De cabelo corado pelo sol,
Sentada numa mochila dura, amarela e empoeirada
Olhou para os elegantes chapéus de viagem das senhoras,
E para os seus lenços de chifon
Que a leve brisa dedilhava.
O motorista orgulhoso encheu de ar a buzina,
Mas nada se moveu -
Excepto o espumante rio dançante e solar lá em baixo.

Então ele meneou a cabeça,
E virou o volante.
E lentamente, cuidadosamente,
O automóvel fez marcha-atrás na extensa estrada incandescente.

E os animais brandos e pacíficos levantaram os cascos,
E o homem hirsuto e barbudo agitou as suas rédeas,
E a esfarrapada pequena rapariga lançou o olhar para além da colina.
E a parelha de bois arrastou-se e balanceou-se pela extensa estrada incandescente.



(versão minha; original reproduzido em Illinois Voices - an anthology of twentieth-century poetry, organização e selecção de Kevin Stein e G. E. Murray, University of Illinois Press, Urbana and Chicago, 2001, p. 1).

sábado, 15 de novembro de 2008

América 2008 (1)

(Illinois - foto: jpb)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Günter Eich

Irmãos Grimm



Bosque de urtigas.
As crianças calcinadas
esperam por detrás das janelas da cave.
Os pais sairam
dizendo que voltariam em breve.

Primeiro chegou o lobo
conduzindo um cilindro,
a hiena quis pedir emprestada uma forquilha,
o escorpião veio pelo guia da TV.

Sem chamas
o bosque de urtigas arde por fora.
Os pais
sairam há muito tempo.



(versão minha a partir da tradução do alemão para o inglês de Michael Hofmann, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, pp. 89-90).

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Dick Allen

O acompanhante



Sempre me preocupei contigo - o homem ou a mulher
sentados ao piano,
noite após noite recebendo apenas alguns aplausos
consentidos pelo cantor: uma salva de palmas, por favor,
para o meu acompanhante. Nos concertos,
enquanto vejo os teus dedos sobre as teclas,
e com que rapidez, com que excelência
mudas as páginas da pauta,
segues as notas do cantor, cobres as fífias do cantor,
preocupo-me com todas as vidas,
a maior parte das vidas
vividas na sombra de alguma celebridade impositiva;
mas depois a voz do cantor morre
e passam a existir apenas as tuas últimas notas ao piano,
de modo nenhum ressentidas,
encaminhando-nos para o fim, para essa sincera alegria
que brota em pequenas quantidades de uma audiência comovida
como súbitas flores silvestres oscilando sob uma chuva
de fortes aplausos. E eu ergo-me também,
aplaudindo o cantor, é certo, mas
julgo que aclamando-te também a ti
meio virado para nós, em equilíbrio no teu banco preto,
modesto, perfeitamente ensaiado,
continuando a tocar a parte que tornaste tua.



(versão minha; original aqui).

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Rainer Brambach

Manhã



Todos os dias o homem do leite vem às seis
Um pouco depois das sete a senhora do jornal surge coxeando
Às oito começo eu a andar em torno
Da mesa onde ainda estão a garrafa de vinho
da última noite e o copo, vazios.
E também aí permanecem as cartas
todas elas sinceramente minhas -
Levanta-te, dá umas voltas, lê
o Eclesiastes, onze
a luz é verdadeiramente doce
e uma coisa agradável para os olhos é contemplar o sol...



(versão minha da tradução do alemão para o inglês de Michael Hofmann reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 98).

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Rainer Brambach

Homens solteiros



Um colecciona pedras.
Outro adquire selos.
Um terceiro joga xadrez pelo correio
e outro aguarda e fica noites à espreita no parque.
Um estuda russo.
Outro lê Shakespeare.
Um escreve uma carta a seguir a outra,
e outro bebe vinho à noite,
doutro modo não haveria nada a referir.
Bebem, lêem, espreitam, adquirem,
estes homens sós nas suas noites.
Escrevem, estudam, jogam, coleccionam,
cada um por si depois de um dia de trabalho.
Um frequenta a opereta.
Outro ouve Bach.
Um guarda um segredo.
Como um cão preso a uma corrente,
corre pelas avenidas abaixo, noite após noite.



(versão minha a partir da tradução do alemão para o inglês de Michael Hofmann, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, pp. 98-99)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Friederike Mayröcker

Ostia receber-te-á



Eu estarei em Ostia
Estarei à tua espera
Estarei lá para te abraçar
Hei-de dar-te mãos em Ostia
Estarei lá
em Ostia
na foz do Tibre
esse rio ancestral

Eu não estarei em Ostia
Não estarei lá à tua espera
Não estarei lá para te abraçar
Não te darei as mãos em Ostia
Não estarei lá
em Ostia
na foz desse rio ancestral
o Tibre



(versão minha a partir da tradução inglesa de Reinhold Grimm reproduzida em The Faber Book of 20-th Century German Poems, organização e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p.109).

domingo, 2 de novembro de 2008

Robert Walser

O meu quinquagésimo aniversário



Nasci em Abril numa pequena cidade
Cujos arredores são encantadores, e onde
Frequentei a escola; o vigário e o mestre-escola
Ficaram em parte satisfeitos comigo. Na devida altura
Fui simpaticamente integrado num banco a fim de aprender
O ofício devido ao qual depois visitei cidades como Basileia,
Estugarda e Zurique. Aí tomei conhecimento
Com a mais generosa e amável das mulheres
Que ora vivia na cidade, ora no campo,
Segundo o que lhe era mais conveniente,
E que conduziu a minha atenção para
Heinrich Heine, alguém que apenas pude
Apreciar completamente muito mais tarde.
O nome desta mulher somente por mim
Pode ser divulgado: mas por que deveria fazê-lo
Quando a discrição me faz feliz? Cargos importantes
Nos negócios desempenhei uma quantidade deles.
Com alacridade, por causa de um impulso
Só meu, abandonei um de modo a poder ter
E satisfazer outro; entretanto,
No sector industrial, escrevi poemas que apareceram
Mais tarde, talvez de maneira demasiadamente pródiga,
Na casa editora de Bruno Cassirer.
Por um período de mais ou menos sete anos vivi depois
Em Berlim, escrevendo prosa arduamente.
Mas quando, de forma cavalheiresca, os editores deixaram
De ter vontade de me conceder um adiantamento, regressei
À Suiça, que muitos amam
Pelas suas belas montanhas, para aqui
Persistir, sem mágoa, nas minhas tentativas poéticas.
E agora, a julgar por uns quantos cabelos grisalhos,
Cheguei à idade de cinquenta anos.




(versão minha a partir da tradução do alemão para o inglês de Michael Hamburguer, reproduzida em German Poetry: 1910-1975, antologia organizada e traduzida por Michael Hamburguer, Carcanet, Manchester, 1977, p. 27).

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Harold Pinter

Células cancerígenas


"Células cancerígenas são aquelas que se esqueceram de como morrer", enfermeira do Hospital Royal Marsden



Esqueceram-se de como morrer
E assim alastram sua vida assassina.

Eu e o meu tumor amavelmente lutamos.
Esperemos evitar uma morte dupla.

Preciso de ver morto o meu tumor
Um tumor que se esquece de morrer
Planeando ao invés o meu estertor.

Mas eu lembro-me de como morrer
Apesar de mortas minhas testemunhas.
Mas eu lembro-me do que disseram
De tumores capazes de as tornar
Tão cegas e tontas quanto tinham sido
Antes do nascer dessa doença
Que trouxe o tumor até à cena.

As negras células hão-de secar e morrer
Ou cantar alegremente e seguir o seu mister.
Noite e dia tão suave é o seu crescer,
Nunca se sabe, não o vão elas dizer.



(tradução inédita, datada de 8 de Maio de 2002, de Ricardo Castro Ferreira e Gil Santos Júnior, que assim colaboram com este blogue de poesia passada para português).

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Günter Eich

Inventário



Isto é o meu gorro,
isto é o meu casaco,
eis o meu estojo de barbear
numa bolsa de linho.

Uma caneca de estanho:
o meu prato, o meu copo,
no metal
tracei o meu nome.

Tracei-o com este
precioso prego
que escondo
dos olhos gananciosos.

Na minha mochila há
um par de meias de lã
e outras coisas que
não revelo a ninguém,

isto serve-me de almofada
à noite sob a cabeça.
O cartão aqui está
entre mim e a terra.

O lápis de carvão é
o que mais amo:
de dia escreve por mim os versos
que pensei durante a noite.

Isto é o meu bloco de notas,
isto é a minha tela,
isto é a minha toalha,
isto é o meu fio.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Charlotte Melin, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, organização e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 88).

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sapardi Djoko Damonno

Quem és tu



Eu sou Adão
o que comeu a maçã;
Adão subitamente consciente de si mesmo,
assustado e envergonhado,
eu sou Adão, o que descobre
o bem e o mal, passando
de um pecado a outro;
Adão ininterruptamente desconfiado
de si mesmo,
escondendo o rosto.
Eu sou Adão espojando-me
na armadilha do espaço e do tempo
sem qualquer ajuda da realidade:
o paraíso perdido
por causa da minha suspeição
em relação à Presença.
Eu sou Adão
o que ouviu Deus dizer
adeus, Adão.



(versão minha a partir da tradução do indonésio para o inglês reproduzida em The poetry of our world, organização de Jeffery Payne, Perennial, New York, 2001, pp. 422-423).

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Chairil Anwar

Por mim



Quando a minha hora chegar
Ninguém vai chorar por mim,
E tu também não

Malditas sejam todas essas lágrimas!

Eu sou uma fera furiosa
Expulsa do rebanho

As balas podem furar-me a pele
Mas eu continuarei sem parar,

Arrastando para a frente as minhas chagas e a minha dor,
Atacando
Atacando
Até o sofrimento desaparecer

E não me vai custar nada

Eu quero viver mais mil anos



(versão minha, a partir da tradução do indonésio para o inglês de Burton Raffel reproduzida em The poetry of our world, organização de Jeffery Payne, Perennial, New York, 2001, p. 427).

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

James P. Lenfestey

Filha



Uma filha não é uma nuvem passageira, antes permanente,
ligando a terra e o céu com a sua sombra.
Ela adormeceu lá em cima como um enigma numa história,
espalhando folhas pelas escadas, depois ar frio, quente depois.
Nós que aos sessenta deveríamos saber tudo, nada sabemos.
Nós que ficamos taciturnos e desorientados pela incerteza do tempo.
Nós ajoelhamo-nos, as palmas das mãos unidas, diante deste altar a florescer.



(versão minha; original reproduzido aqui; pode reler-se, em regime de complemento e contraste, este outro poema sobre outros pais e outra filha.)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Eavan Boland

Neste momento



Um lugar algures.
Ao anoitecer.

Coisas estão à beira
de acontecer
longe dos olhares.

Estrelas e borboletas nocturnas.
E cascas enrolando-se em volta dos frutos.

Mas não ainda.

Uma árvore é negra.
Uma janela é amarela como manteiga.

Uma mulher baixa-se para receber uma criança
que correu para os seus braços
neste momento.

As estrelas irrompem.
As borboletas volteiam.
As maçãs amadurecem no escuro.



(versão minha; original reproduzido aqui).

sábado, 18 de outubro de 2008

Reiner Kunze

Com o som em baixo



Então vieram
doze anos
em que não estive autorizado a publicar
diz o homem na rádio

Eu penso em X
e começo a contar



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Ewald Osers reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 162).

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Volker Sielaff

Sem sono



A barulheira dos pássaros
nas árvores às três
e um quarto.

Cioran
queixou-se de insónias
a vida toda.

Atiro-me
às cegas
para os braços da manhã.

Nenhuma experiência
é comunicável.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Michael Hofmann reproduzida em The Faber Book of 20 th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, London, 2005, p. 203).

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Günther Grass

A fortaleza cresce



A terra jaz em pousio, alimento de gralhas e corvos agora.
As barreiras proliferam e, de um modo nunca antes feito,
desconfiados, ao longo da vedação, cães desconhecidos correm.
Temos que pagar: em dinheiro, e bem caro.

Porque o medo centro-europeu - rico e vulnerável -
cheira a suor nos seus rascunhos para um muro defensivo:
como uma fortaleza a Terra de Novembro quer agora segurança
quanto a Negros, Árabes, Judeus, Turcos, Ciganos.

Como fronteira a leste a Polónia servirá de novo:
assim, velozes, repensamos a história - em proveito próprio.
Construir castelos sempre foi a nossa maior alegria,
levantar muralhas, escavar o fosso;
e contra a brutalidade, depressões, estupidez e ataques de melancolia
sempre algum Hölderlin aliviou com poemas o nosso fardo.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Michael Hamburguer, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, introdução e selecção de Michael Hofmann, Faber and Faber London, 2005, p. 128.)

sábado, 11 de outubro de 2008

Inge Müller

Debaixo do entulho III



Quando fui buscar água
A casa desmoronou-se sobre mim
Nós amparámos a casa
Eu e o cão abandonado.
Não me perguntem como o conseguimos
Não me lembro.
Perguntem ao cão.



(versão minha a partir da tradução inglesa de Michael Hofmann, reproduzida em The Faber Book of 20th-Century German Poems, selecção e introdução de Michael Hofmann, Faber and Faber, London, 2005, p. 203).

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Adonis

O deserto
(O Diário do Cerco de Beirute, 1982)

(...)


9
Ele fecha a porta
Não para aprisionar a sua alegria
... Mas para libertar o seu desgosto.



10
Um noticiário
Sobre uma mulher apaixonada
A ser morta,
Sobre um rapaz a ser raptado
E um polícia a crescer para dentro de um muro.



11
Venha o que vier acabará por envelhecer
Por isso leva tudo contigo menos esta loucura - prepara-te
Para continuares a ser um estranho...



12
Encontraram pessoas em sacas:
Uma sem a cabeça
Outra sem a língua ou as mãos
Outra esmagada
As restantes sem nomes.
Enlouqueceste? Por favor,
Não escrevas sobre estas coisas.


(...)


(mais quatro partes de um poema com trinta e cinco; versões minhas a partir da tradução para inglês de Abdullah al-Udhari, reproduzida em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2ª edição, 2005, pp. 141-143).

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Adonis

O deserto
(O Diário do Cerco de Beirute, 1982)



1
O meu tempo diz-me grosseiramente:
Tu não fazes parte.
Respondo grosseiramente:
Não faço parte,
Procuro compreender-te.
Agora sou uma sombra
Perdida na floresta
De um crânio.



2
Estou de pé, o muro é uma barreira -
A distância encurta-se, uma janela recua.
A luz do dia é fio
Cortado pelos meus pulmões para coser a noite.



3
Tudo o que eu disse sobre a minha vida e a minha morte
Retorna no silêncio
Da pedra debaixo da minha cabeça...



4
Estou cheio de contradições? É verdade.
Agora sou uma planta. Ontem, quando estava entre fogo e água
Era uma colheita.
Agora sou uma rosa e carvão vivo,
Agora sou o sol e a sombra
Não sou um deus.
Estou cheio de contradições? É verdade...



5
A lua usa sempre
Um elmo de pedra
Para combater as suas próprias sombras.



6
A porta da minha casa está fechada.
A escuridão é um cobertor:
Uma lua pálida chega com
Uma mão cheia de luz
As minhas palavras falham
Não traduzem a minha gratidão.



7
A matança mudou a forma da cidade - Esta pedra
É osso
Este fumo respiração de pessoas.



8
Nunca nos encontrámos,
Rejeição e exílio mantêm-nos separados.
As promessas morreram, o espaço morreu,
Morrermos sós tornou-se o nosso ponto de encontro.



(...)


(primeiras oito partes de um poema com trinta e cinco; versão minha, a partir da tradução inglesa de Abdullah al-Udhari, reproduzida em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2ª edição, 2005, pp. 135-139).

sábado, 4 de outubro de 2008

Thomas Lux

Um pequeno dente



À tua menina nasce um dente, depois o segundo,
e o quarto, e o quinto, depois ela quer carne
directamente do osso. Acaba

tudo: vai aprender certas palavras, apaixonar-se
por cretinos, imbecis, um qualquer falinhas
mansas a caminho da prisão. E tu,

a tua mulher, envelhecem, estão gastos,
e não se lastimam. Já viveste, amaste, os teus pés
doem. Anoitece. A tua filha está enorme.



(versão minha; original reproduzido aqui).

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Thomas Lux

Para ajudar o macaco a atravessar o rio,



o que ele tem
de fazer, nadando, para apanhar frutos e nozes,
para o ajudar
sento-me com a minha carabina numa plataforma
bem alta numa árvore, do mesmo lado do rio
em que se encontra o macaco esfomeado. Como é que isto o
ajuda? Quando ele se lança à água para chegar à outra margem
olho primeiro rio acima: os predadores movem-se mais depressa a favor
do que contra a corrente.
Se um crocodilo se prepara rio acima para comer o macaco
e uma anaconda rio abaixo arde
com a mesma ambição, elaboro
os cálculos, a álgebra necessária, os ângulos, as relações de velocidade
de macaco-crocodilo-e cobra, e se, se
se afigura provável que a anaconda ou o crocodilo
irão apanhar o macaco
antes de ele atingir a margem mais afastada do rio,
então aponto a minha carabina e disparo
uma, duas, três, talvez até quatro vezes para o rio,
mesmo a rasar as costas do macaco
para o apressar um pouco.
Deveria disparar sobre a cobra, o crocodilo?
Eles apenas desempenham os seus papéis na história,
mas o macaco, o macaco
tem duas mãozinhas que parecem as de uma criança,
e os mais espertos, numa jaula, podem ser ensinados a sorrir.



(versão minha; original e leitura do poeta aqui).

domingo, 28 de setembro de 2008

Carol Ann Duffy

Palavras, extensa noite



Algures do outro lado desta extensa noite
e da distância entre nós, estou a pensar em ti.
O meu espaço despede-se lentamente do espaço.

Isto é agradável. Ou devo riscar isto e dizer
que é triste? Numa certa linha do tempo canto
uma impossível canção de desejo que não podes escutar.

Lá lala lá. Entendes? Fecho os meus olhos e imagino
as montanhas negras que teria que atravessar
para te alcançar. Porque te amo e isto

é como é ou como é em palavras.



(versão minha; original reproduzido em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 141.)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Primo Levi

25 Fevereiro 1944



Quem me dera acreditar em alguma coisa,
Alguma coisa para além da morte que te desfez.
Quem me dera poder dizer a força
Com que desejávamos então,
Já submersos,
Poder voltar a caminhar por uma vez
Livres sob o sol.



(versão minha; original e tradução para inglês de Eleonora Chiavetta reproduzidos em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 243.)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Anna Swir

O mesmo interior



A caminho de tua casa para um festim de amor
vi na esquina de uma rua
uma velha pedinte.

Peguei na sua mão,
beijei a sua face delicada,
conversámos, ela tinha
o mesmo interior que eu,
do mesmo género,
senti-o instantaneamente
como um cão conhece pelo cheiro
outro cão.

Dei-lhe dinheiro,
não conseguia separar-me dela.
Afinal, todos precisamos
dos que nos são próximos.

E depois eu já não sabia
porque caminhava para tua casa.



****



Sandálias de praia



Nadei para longe de mim mesma.
Não me chames.
Nada também para longe de ti mesmo.

Nadaremos para longe, abandonando os nossos corpos
na margem
como um par de sandálias de praia.



****



Não é fácil



Ponho algemas
e grilhões de ferro
e agora
corro.



(versões minhas, a partir das traduções para inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, reproduzidas em Talking to my body, Copper Canyon Press, Washington, 1996, pp. 73, 131 e 125.)

sábado, 20 de setembro de 2008

Stuart Kestenbaum

Oração pelos mortos



A neve suave começou tarde a noite passada e continuou
a noite toda enquanto eu dormia e podia ouvi-la entrar
ocasionalmente no meu sono, no qual sonhei que o meu irmão
estava de novo vivo e possuía a beleza da juventude, consciente
de que ele partiria de novo em breve e de que essa é a lição
da neve a cair e das sementes de morte que existem em tudo
o que nasce: estamos aqui por um momento
numa história que é mais longa do que nós e poucos de nós
recordam, o vento nasce em sítios
que desconhecemos, e cada momento contém ritmos
dentro de ritmos, e se descobres restos antigos
da tua própria escrita, ou uma velha fotografia,
podes não ter a certeza de que foste tu mesmo que tenhas sido tu,
não és tu agora, nem este momento que une o fogo
e as tuas mãos movem-se para cobrir o teu rosto num gesto
de dor e recordação.



(versão minha; o original, com o irmão do poeta e o 11 de Setembro de 2001 em fundo, pode ser lido aqui).

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Vagn Steen

$capitalista$



$uma$sociedade$
$capitalista$transforma$tudo$
$em$dinheiro$e$capitaliza$todos$
$os$serviços$tudo$é$expresso$
$monetariamente$e$exactamente$contabilizado$
$tudo$tem$um$aspecto$
$monetário$tudo$tem$
$um$sorriso$monetário$
$tudo$


(versão minha a partir da tradução para inglês feita pelo poeta, reproduzida em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 249.)

domingo, 14 de setembro de 2008

Cicely Herbert

Tudo muda

depois de Brecht, "Alles wandelt sich"



Tudo muda. Plantamos
árvores em nome dos que vão nascer
mas o que aconteceu aconteceu,
e os venenos vazados nos mares
não mais serão drenados.

O que aconteceu aconteceu.
Os venenos vazados nos mares
não mais serão drenados, mas
tudo muda. Plantamos
árvores em nome dos que vão nascer.



(versão minha; original reproduzido em Poems on the Underground, organização e selecção de Gerard Benson, Judith Chernaik e Cicely Herbert, Weidenfeld & Nicolson, London, 10ª edição reimpressa em 2007, p. 89.)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Barton Sutter

Canção sóbria



Não mais a luz das estrelas no whisky,
Adeus ao brilho do sol na cerveja.
A bebedeira tornou-me vaidoso e brincalhão
Mas atormentou o homem ao espelho.
Boa noite para o luar no brandy,
Adieu ao ardor do vinho.
Penso que consigo finalmente
aguentar-me sem um copo ou uma sagres.
Bye-bye ao conforto do vodka,
Tchau ao mentol do gin.
Tento fazer o que devo,
Rejeitar este remédio venenoso.
Não sentirei a falta dos colapsos e dos vómitos,
dos acidentes e do arrependimento.
Se conseguir manter-me longe do álcool tinhoso
É capaz de haver ainda uma hipótese para mim.
Adeus a Deus numa garrafa,
Às mentiras do rum e do vermute.
Deixem-me matar a sede com a água
E a doce, transparente verdade.



(versão minha; original aqui)

domingo, 7 de setembro de 2008

Samih al-Qasim

Como me transformei num artigo



Eles mataram-me uma vez
Agora exibem o meu rosto vezes infinitas



****



Fim de um debate com um carcereiro



Do postigo da minha estreita cela
posso avistar árvores sorrindo-me,
telhados repletos com a minha gente,
janelas chorando e rezando por mim.
Do postigo da minha estreita cela
posso avistar a tua imensa cela.




****



Eternidade




Folhas caem de quando em quando
No entanto o tronco do carvalho



****



Bilhetes de viagem



No dia em que me matares
Encontrarás no meu bolso
Bilhetes de viagem
Para a paz,
Para os campos e a chuva,
Para a consciência do povo.
Não os desperdices.



(versões minhas a partir das traduções inglesas de Abdullah al-Udhari reproduzidas em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2005, pp. 71, 77, 79 e 59).

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Samih al-Qasim

Confissão ao meio-dia



Plantei uma árvore
Desprezei o fruto
Queimei o tronco como lenha
Fiz um alaúde
E toquei uma melodia

Quebrei o alaúde
Perdi o fruto
Perdi a melodia
Chorei sobre a árvore



(versão minha a partir da tradução inglesa de Abdullah al-Udhari reproduzida em Victims of a Map: a bilingual anthology of arabic poetry, SAQI, London, 2005, p. 57).

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Javier Salvago

Último retrato da juventude



Faz quase três anos que não escrevo
poemas, abandono-me, apenas leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
dentro de mim uma espécie de vazio

que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, ontem tão vivo.

Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de extraordinário
espero doravante. Não disfruto

do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
me consentem os anos menos fantasias.



(versão minha; poema do livro Los mejores años, 1991; original aqui).

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Patrick Phillips

Piano



Tocado pela tua bondade, eu sou como
esse grande piano que encontrámos uma noite em Willoughby
e que alguém estragou e atirou
de qualquer maneira por uma janela aberta.

Podes pensar que com isto estou a dizer que sou uma ruína,
que fui abandonado, ou desamado. A verdade é que não
sei exactamente o que sou, pelo menos não mais
do que os destroços no beco sabem
que são um piano coberto de lixo e folhas amarelas.

Talvez eu seja tudo o que restou daquilo que fui.
Mas, tocando-me, eu sei, tu és a brisa
suave passando por entre as cordas enferrujadas.

Que nome vais dar a esse sentimento quando a madeira,
mesmo se a harpa foi quebrada, começa a cantar?



(versão minha; original aqui).

terça-feira, 29 de julho de 2008

Connie Bensley

Apologia



A minha vida é demasiado insípida e demasiado cautelosa -
até eu consigo ver isso:
a mesinha-de-cabeceira bem arrumada,
o gato estragado com mimo.

Sem dúvida que deveria ter sido mais ousada.
Que dirão de mim os biógrafos?
Levantou-se, comeu uma torrada e foi às compras
dia após dia?

O whisky e o gin são assustadores,
o ecstasy leva-nos à desgraça.
Os jovens amantes provocam estragos nas finanças
e na nossa metade da cama.

Emily Dickinson, ajuda-me.
Stevie, tira os olhos da tua Tia.
Há gente que aguenta a excitação,
há gente que não.



(versão minha; original reproduzido em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 8ª impressão, 2006, p. 112).

domingo, 27 de julho de 2008

Bill Knott

Caro conselheiro sentimental



Recentemente matei o meu pai
E em breve casarei com a minha mãe;
A minha questão é:
Deve a parte da família dele ser convidada para a cerimónia?



(versão minha; original algures aqui).

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Bill Knott

(Sem título)



o passado e o futuro
são os meus pais
a encontrarem-se pela primeira vez
no momento em que eu morro



****



(Sem título)



agora que morri
o meu passado tornou-se tão infinito
como o meu futuro costumava ser



****



Interruptus



Espera. O que és.
Sou um poeta. Redijo o conteúdo de notas suicidárias. Tais como:
Amo-te.
Está bem. Continua.



(versões minhas; originais algures aqui).

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Bill Knott

Fragmento



Porque há no mundo em todos os momentos
Algures pelo menos um casal a fazer amor,
Porque os dois estão sempre unidos de uma forma tão apertada
Que o ódio não consegue nunca passar por entre eles
Para nos vir destruir.



(versão minha; original, algures aqui).

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Dennis O'Driscoll

Experiências com animais
(depois de Miroslav Holub)



É muito mais simples quando chovem coelhos
em vez de gatos ou cães. Os animais a experimentar
não devem denunciar demasiada inteligência.
É enervante ver as suas acções a mimetizarem as tuas;
o terror e o horror com os quais te podes identificar.

Mas, para uma verdadeira dor de alma, atenta num porco
recém-nascido.
Fantasticamente feio; sem possuir nada
e sem desejar nada a não ser goles de leite;
as pernas arqueando-se debaixo de todo aquele peso
de inutilidade, estupidez e focinho.

Quando tenho de matar um leitão hesito por um instante.
Por cinco ou seis segundos.
Em nome de toda a beleza do mundo.
Em nome de toda a tristeza do mundo.
"O qu' é que t' está a demorar?", alguém interrompe então.

Ou interrompo-me eu a mim próprio.



(versão minha; original reproduzido em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 2006, 8ª impressão, pp. 218-219).

terça-feira, 15 de julho de 2008

Miroslav Holub

Experiências com animais



É mais fácil com coelhos do que com cães ou gatos. O
animal da experiência não deve ser demasiado inteligente. É
desconfortável quando as suas acções lembram as dos humanos,
é desconfortável quando conseguimos compreender o seu terror
e a sua tristeza.

Mas a coisa mais triste é trabalhar com porcos recém-nascidos.
São feios.

Não possuem nem desejam mais nada senão a sua fonte de leite.

As suas pernas ásperas e desastradas resvalam debaixo deles,
os seus focinhos e cascos minúsculos são extraordinariamente
inúteis.

São feios e estúpidos.

Quando tenho de matar um leitão paro sempre por um instante.
Mais ou menos cinco ou seis segundos.

Mais ou menos cinco ou seis segundos em nome de toda a beleza
e tristeza do mundo.

- Acaba lá com isso, - alguém diz então.

Ou então sou eu que o digo a mim próprio.




(versão minha a partir da tradução do checo para o inglês de Daniel Simko, reproduzida em Contemporary east european poetry, organização de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 1993, 2ª edição, aumentada, pp. 219-220).

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Chase Twichel

Cavalo



Nunca vi uma alma separada do seu próprio género,
mas gostava. Gostava de ver a minha dessa maneira,
livre do seu cabresto feminino. Talvez fosse como
montar um cavalo. O cavaleiro é o elemento humano,
mas toda a gente olha para o cavalo.



(versão minha; original reproduzido em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 2006, 8ª impressão, p. 110).

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Christopher Logue

Não sejas demasiado duro



Não sejas demasiado duro pois a vida é curta
E nada é dado ao homem;
Não sejas demasiado duro quando ele se vende ou compra
Pois tem de arranjar-se o melhor que pode;
Não sejas demasiado duro quando ele morre feliz
Defendendo coisas que não lhe pertencem;
Não sejas demasiado duro quando ele mente
E se o coração é em certas ocasiões como uma pedra
Não sejas demasiado duro - pois vai morrer em breve,
Quantas vezes menos sábio do que quando começou.
Não sejas demasiado duro pois a vida é curta
E nada foi dado ao homem.



(versão minha; original reproduzido em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 2006, 8ª impressão, p. 98).

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Reiner Kunze

Hino a uma mulher sob interrogatório



Mau (disse ela) foi
o momento de
despir-se

Depois
exposta aos seus olhares fixos ela
descobriu tudo

sobre eles



(versão minha a partir da tradução do alemão para inglês de Ewald Osers, em Contemporary east european poetry, organização de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 2ª edição, aumentada, 1993, pp. 182-183).

terça-feira, 8 de julho de 2008

Reiner Kunze

Quase um poema primaveril



Pássaros, postilhões, quando
começares a cantar a carta
com o carimbo azul chegará, com selos
a desfazerem-se em flores com palavras
a serem lidas:

Nada
dura
para sempre



(versão minha a partir da tradução do alemão para inglês de Ewald Osers reproduzida em Contemporary east european poetry, organização de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 1993, 2ª edição, aumentada, p. 183).

domingo, 6 de julho de 2008

Reiner Kunze

Resposta



O meu pai, tu dizes,
o meu pai no fundo da mina
tem feridas nas costas,
cicatrizes,
rasgões de pedregulhos caídos,
enquanto eu, sim eu,
canto o amor.

Eu digo:
sim, é por isso mesmo.



(versão minha, a partir da tradução do alemão para inglês de Ewald Osers, reproduzida em Contemporary east european poetry, organização de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 2ª edição, aumentada, 1993, p. 182).

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Ángel González

Morte no esquecimento



Sei que existo
porque tu me imaginas.
Sou alto porque tu me vês
alto, e limpo porque tu me olhas
com olhos bons,
com o olhar limpo.
O teu pensamento faz-me
inteligente, e na tua simples
ternura eu sou também simples
e bondoso.
Mas se tu me esqueces
cairei morto sem que nada
o evite. Verão viva
a minha carne, mas será outro homem
- obscuro, torpe, mau - aquele que a habita.



(versão minha).

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Mary Oliver

A viagem



Um dia descobriste finalmente
o que tinhas que fazer, e começaste,
apesar das vozes à tua volta
continuarem a gritar-te
os seus maus conselhos -
apesar de toda a casa
ter começado a vacilar
e sentires o velho esticão
nos teus tornozelos.
"Corrige a minha vida!"
gritou cada uma das vozes.
Mas não paraste.
Sabias o que tinhas que fazer,
apesar do vento ter suplicado
com os dedos apontados
às mais profundas fundações,
apesar da sua melancolia
ser terrível.
Era já muito tarde,
e uma noite selvagem,
e a estrada cheia de ramos
caídos e pedras.
Mas, à medida que
deixavas as suas vozes para trás,
as estrelas começaram a arder
por entre as camadas das nuvens
e surgiu uma nova voz
que aos poucos
reconheceste como tua,
que te fez companhia
enquanto avançaste cada vez mais fundo
no interior do mundo,
determinado a fazer
a única coisa que podias fazer -
determinado a salvar
a única vida que podias salvar.



(versão minha; original reproduzido em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 2006, 8ª edição, p. 78).

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Bob King

Geologia



Eu conheço a origem das rochas, sedimentando-se
fora da água, incubando cristais
a partir do fogo, posto sob pressão
pelos diferentes padrões eu coleccionei
os mais belos, piquenique após piquenique.

E conheço o amor, uma pequena,
ignea luxúria, as lentas afeições
da sedimentação, a pressão
sob a terra, longe do olhar, para se fazer
matéria, alguma coisa sólida
que podes agarrar, uma montanha inteira,
por exemplo, ou uma colecção perdida
de seixos que esqueceste que guardavas.



(versão minha; original aqui).

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Andrew Motion

No sótão



Ainda que soubéssemos agora
que a tua roupa não seria mais
necessária guardámo-la,
lá em cima, numa arca fechada.

Às vezes lá estou eu, ajoelhado,
segurando-a, tentando reviver
o tempo em que a usaste, recordar
o tamanho real de braços e pulsos.

As minhas mãos descem por dentro
de mangas invisíveis, vazias,
hesitam, depois exibem
amostras da memória:

um feriado verde, um baptismo vermelho,
todas as tuas vidas incompletas
definhando através dos verões sombrios,
entrando na minha cabeça como poeira.



(versão minha; original reproduzido em The Penguin Book of Contemporary British Poetry, selecção de Blake Morrison e Andrew Motion, Penguin Books, Middlesex, 1986, 5ª edição, p. 132.)

domingo, 22 de junho de 2008

Anna Swir

Não sei ladrar



Estou a lavar o chão da cozinha
como se tivesse quatro patas,
na posição de cão.
Alcanço
por um momento
o bom humor
de cão.

É pena, só não consigo
ladrar.



(versão minha; de Talking to my body, tradução de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, Copper Canyon Press, Washington, 1996, p. 117).

Miroslav Holub

A porta



Vai e abre a porta.
Talvez lá fora exista
uma árvore, ou um bosque,
um jardim,
ou uma cidade mágica.

Vai e abre a porta.
Talvez haja um cão a esquadrinhar.
Talvez vejas um rosto,
ou um olhar,
ou a imagem
de uma imagem.

Vai e abre a porta.
Se houver nevoeiro
ele desaparecerá.

Vai e abre a porta.
Mesmo que só haja
o tiquetaque das trevas,
mesmo que só haja
o vento vazio,
mesmo que
não exista
nada,
vai e abre a porta.

Pelo menos
haverá
uma corrente de ar.



(versão minha, a partir da tradução do checo para o inglês de Ian Milner, reproduzida em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 8ª edição, p. 69).

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Helen Farish

O portão branco



Sinto-me tão contente não pude saber
que a última vez seria a última vez
que cruzaríamos o portão branco
do campo e que eu poderia regressar a casa
cheia de felicidade. Senhor, defende-me

das últimas vezes e se não puderes
defender-me das últimas vezes defende-me
da consciência delas. Leva de súbito
cada um de nós, fecha de súbito
o portão. Não me reveles coisa nenhuma.



(versão minha; de Intimates, Cape Poetry, London, 2005, p. 34).

terça-feira, 17 de junho de 2008

Helen Farish

Empire State Building



Fui mesmo até ao topo
para nos atirar
na forma de dois cêntimos,
as moedas caindo
em tristes linhas paralelas,
o espaço entre elas
vazio como o não-espaço
entre os arranha-céus erguidos em separado.
Mas cometi o erro de esperar
até que a cidade se iluminasse
em resposta ao crepúsculo
e com o crepúsculo
veio o vento e com o vento
neve como a neve de um filme.
Tão mágica que era como se
estivesses comigo
a tomar posição sobre os acontecimentos,
a tornar direitas linhas curvas,
a deslizar a tua mão fria
debaixo do meu casaco, procurando a pele
lisa das minhas costas, depois reclamando o direito
ao meu seio, incendiando-me.
As pessoas abandonariam o Norte o Sul e o Leste
para virem assistir
ao que se estava a passar na parte Oeste,
e à medida que o 80º piso se tornasse no 79º
e este no 78º, tu dirias Sabes,
sempre merecemos muito mais do que isso.



(versão minha; de Intimates, Cape Poetry, London, p. 18.)

Helen Farish

Três poemas traduzidos por João Luís Barreto Guimarães.

domingo, 15 de junho de 2008

Helen Farish

Gémeas recém-nascidas


Em incubadoras separadas uma das gémeas estava a morrer.
Contra as ordens do médico, uma enfermeira juntou-as.



A gémea mais forte, a que não
tinha qualquer dificuldade, atirou
o seu braço recém-nascido para cima
da que queria partir,
e estabilizou o seu ritmo cardíaco, regularizou
tudo no corpo da que já
tivera que bastasse.

A mais forte, vai julgar
que é Deus, pois pode trazer de volta
a vida para onde já partira.
Vai ser mais duro para ela
do que para a que já conheceu
a separação, a solidão, lugares
que acabarão por nos fazer desejar.



(versão minha; de Intimates, Cape Poetry, London, 2005, p. 11.)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Wendell Berry

A paz das coisas bravias



Quando o desespero pelo mundo cresce em mim
e acordo na noite ao mínimo som
com medo do que a minha vida
e a dos meus filhos possam vir a ser
avanço e deito-me junto da água onde
o pato dos bosques aconchega a sua beleza
e a garça real se alimenta.
Entro na paz das coisas bravias
que não impõem tributos às suas existências preparando-se
para a dor. Fico na presença da água serena.
E sinto, acima de mim, as estrelas cegas de dia
aguardando com a sua luz. Por um instante
participo da graça do mundo, e sou livre.



(versão minha; original aqui)

domingo, 8 de junho de 2008

James Tate

Ensinando o macaco a escrever



Não tiveram grandes problemas
em ensinar o macaco a escrever poemas:
primeiro amarraram-no a uma cadeira
depois ataram o lápis à sua mão
(o papel já fora previamente fixado).
Então o Dr. Bluespire inclinou-se sobre ele
e murmurou-lhe ao ouvido:
"Parece-me que está confortavelmente sentado.
Não quer experimentar escrever qualquer coisa?".



(versão minha; original reproduzido em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1996, p. 251).

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Po Chu-I (772 - 846)

Os filósofos: Lao-Tzu



"Aqueles que falam nada sabem:
Aqueles que sabem permanecem em silêncio."
Estas palavras, disseram-me,
Foram pronunciadas por Lao-Tzu;
Se acreditarmos que Lao-Tzu
Foi ele próprio um daqueles que sabiam,
Como explicar que tivesse escrito um livro
De cinco mil palavras?



(versão minha, a partir da tradução do chinês para o inglês de Arthur Walley, reproduzida em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1996, p. 244)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

domingo, 1 de junho de 2008

Mousheg Ishkhan

A língua Arménia é a casa dos arménios



A língua Arménia é a casa
e o refúgio onde o errante pode encontrar
telhado e paredes e sustento.
Ele pode entrar para recolher amor e orgulho
fechando a hiena e a tempestade lá fora.
Durante séculos os seus arquitectos trabalharam arduamente
para levantar os seus tectos.
Quantos camponeses, com a sua labuta,
dia e noite mantiveram
os seus armários cheios, as lâmpadas acesas, os fornos quentes.
Sempre rejuvenescida, sempre antiga, tem durado
século após século no caminho
onde cada Arménio pode encontrá-la quando está perdido
no deserto do seu futuro, ou do seu passado.



(versão minha, da tradução do arménio para o inglês de Diana de Hovanessian, reproduzida em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1996, p. 303.)

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Anna Swir

Há uma luz dentro de mim



Seja de dia ou de noite
trago sempre dentro de mim
uma luz.
No meio do ruído e da desordem
trago silêncio.
Trago
sempre luz e silêncio.



(versão minha, a partir da tradução do polaco para o inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, em Talking to my body, Copper Canyon Press, Washington, 1996, p. 115).

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Anna Swir

Eu falo com o meu corpo



Corpo, és um animal
cujo comportamento adequado
é a concentração e a disciplina.
Um esforço
de atleta, de santo e de praticante de yoga.

Bem treinado
podes vir a ser para mim
uma porta
por onde sairei de mim
e uma porta
por onde entrarei em mim.
Uma linha de prumo até ao centro da terra
e uma nau cósmica até Júpiter.

Corpo, és um animal
para quem a ambição
é legítima.
Possibilidades esplêndidas
estão-nos prometidas.



(versão minha, a partir da tradução do polaco para inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan reproduzida em Talking to my body, Copper Canyon Press, Washington, 1996, p. 121).

domingo, 25 de maio de 2008

Mary Ruefle

A mão



O professor faz uma pergunta.
Tu sabes a resposta, desconfias
que és o único na sala de aula
que sabe a resposta, porque a pessoa
em questão és tu próprio, e nisso
és a maior autoridade viva,
mas não levantas a mão.
Levantas a tampa da tua carteira
e tiras uma maçã.
Olhas pela janela.
Não levantas a mão e há
uma beleza essencial nos teus dedos
que nem sequer tamborilam, permanecem
apenas rasos e descansados.
O professor repete a pergunta.
Para lá da janela, num ramo saliente,
um pisco agita as penas
e sente-se no ar a primavera.



(versão minha; original aqui)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Robert Pinsky

"Se pudesse escrever um grande poema,
deveria ser sobre o quê?"

(Perguntado por quatro alunos poetas das Escolas
do Illinois para Surdos e Deficientes Visuais)



Fogo: porque é rápido, e pode destruir.
Música: lugar onde a raiva tem o seu lugar.
Amor romântico - aquele que é frio ou estúpido pergunta porquê.
Signo: é assim uma linguagem, cheia de graça,

É assim visível, invisível, clara e escura,
É assim ruidosa e silenciosa e é contida
No interior de um corpo e explode no ar
Fora de um corpo a conquistar a partir da mente.



(versão minha; original reproduzido por Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 2007, p.403.)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Robert Pinsky

"Ar um instrumento da língua"



Ar um instrumento da língua.
A língua um instrumento
Do corpo. O corpo
Um instrumento do espírito,
O espírito um ser do ar.



(versão minha; original reproduzido por Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 2007, p. 402).

terça-feira, 20 de maio de 2008

Francisco Gálvez

Mensagens



Neste momento estou ausente,
mas podes deixar uma mensagem
e ligar-te-ei quando regressar.
Se és o amor
liga mais tarde, ou talvez outro dia;
se és a solidão
aguarda, em breve estarei contigo;
se és o suicida
marca outro número, o tempo urge;
se és a morte
elege outro destino, sou apenas tecnologia;
se és o pensamento
desiste, esta linha não medita;
se és a palavra
do regresso, aqui ninguém te pronuncia;
e se és uma voz anónima
a qualquer momento chegarei a casa:
fala depois de ouvires o sinal.



(versão minha; original aqui).

Reetika Vazinari

Sou eu, não estou em casa



É tarde na cidade e eu adormeço.
Vais ligar de novo? Terei ouvido
(por favor deixe a sua mensagem depois do sinal)

Tchekov? A ama B. Eu aplaudo
com prazer. B ama C. C não vai responder.
Na cidade é tarde, eu durmo,

e se o teu rosto se aproxima de mim como um mapa familiar
de desabrigo: velho mundo, novo hemisfério
(sou eu deixa uma mensagem depois do sinal)

então a história precipita-se para o volte-face
final, eu passo o testemunho tu desapareces
na cidade, é tarde e eu sonho

com núpcias outra vez, a acontecer por aqui,
dedicadas à nossa causa durante um ano,
deixa uma mensagem depois do sinal,

vou deixar-te uma chave, escuta a gravação
quando chegares, ou pega no auscultador.
É tarde na cidade e eu durmo.
Por favor deixa uma mensagem depois do sinal.



(versão minha; original reproduzido por Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 207, pp. 212-213).

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Max Mendelsohn (poeta aos 12 anos)

Ode aos berlindes



Adoro o som dos berlindes
espalhando-se sobre o soalho gasto do chão,
como crianças a fugir e a jogar às escondidas.
Adoro ver berlindes brancos,
berlindes azuis,
berlindes verdes, pretos,
novos berlindes, velhos berlindes,
berlindes iridescentes,
com redemoinhos e fitas de vidro,
dançando sempre às voltas.
Adoro sentir os berlindes,
frescos, lisos,
rolando livremente na palma da mão,
como estrelas de faces macias
a iluminar o gasto mundo.



(versão minha; original aqui.)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Jane Hirshfield

Árvore



É um disparate
deixar uma jovem sequóia
crescer junto a uma casa.

Até neste
tempo de vida
vais ter de escolher.

Esta grande tranquilidade de existir,
esta desordem de panelas de sopa e livros -

E já as primeiras pontas dos ramos tocam a janela.
Suavemente, calmamente, imensamente sangram a tua vida.



(versão minha)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Javier Salvago

Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos



Qaundo alguém já não é jovem, convence-se
de que o diabo sabe mais por ser velho,
e aceita que os anos nos ensinam
a distinguir a realidade do sonho.
E, por acaso, não. Talvez a vida apenas
nos apareça uma vez - quando temos
olhos para a apreciar - e logo começamos
a esquecer o seu rosto e o seu segredo.



(versão minha; de Variaciones y reincidencias, 1985.)

domingo, 11 de maio de 2008

Javier Salgado

Anúncio de primavera



A minha vida é feita de noites,
de lágrimas de estrelas, de luas
frias e silenciosas.
Como um anjo das trevas
habituaram-se os meus olhos às ruas
obscuras, à penumbra dos bares,
à luz, de néon, artificial.
Gentes, recém-chegadas da tarde,
asseguram que regressou a primavera
e no meu roupeiro só há fatos negros,
pressentimentos negros,
máscaras de amargura.
Senhora dos Céus Luminosos,
quando não for um maldito
farei umas asas
- como Ícaro -
e tentarei voar até ao sol.



(versão minha; de Canciones del amargo amor y outros poemas, 1977.)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Martha Collins

Linhas



Traça uma linha. Escreve uma linha. Aí.
Mantém-te em linha, não desligues, um vislumbre
entre linhas é bom mas não dobres esquinas,
atravessa, interrompe, passa por cima
ou apaga-te, entre dois pontos de não
retorno há uma linha de fuga, entre
dois pontos de vista uma linha de visão.
Mas uma linha de pensamento raramente
segue a direito, uma linha aberta não é uma linha
partilhada, por admirável que seja a tua posição.
Uma linha de fogo comunica, mas larga
as tuas armas e renuncia à tua linha,
considera a distância mais curta de x
a y, deixa que x seja eu, que y sejas tu.



(versão minha; do livro Some things words can do, de 1988.)

domingo, 4 de maio de 2008

Al Zolynas

Amor na sala de aulas

- para os meus alunos


De tarde. Do outro lado do jardim, em Green Hall,
alguém começa a tocar no velho piano -
uma peça espontânea, viva e diletante,
cheia de uma melodia alegre e simples.
A música flutua entre nós na sala de aulas.

Estou em frente dos meus alunos
e falo-lhes de fragmentos de frases.
Peço-lhes que descubram os dez fragmentos
do parágrafo vinte e um da página quarenta e cinco.
Eles vieram de todas as partes
do mundo - Irão, Micronésia, África,
Japão, China, até de Los Angeles - e continuam
desejosos de me agradar. Falta menos
de metade do trimestre.

Inclinam-se sobre os livros e começam.
Os lábios de Hamid movem-se enquanto segue
o tortuoso labirinto sintáctico do Inglês.
Yoshie senta-se direita, perfeita com a sua ténue maquilhagem,
as pernas cruzadas, em rápida cadência ritmada
sacudindo o pé direito. Tony,
vindo de um ilha do Pacífico Sul,
espreguiça-se molemente e estende-se sobre a carteira.

A melodia flutua à nossa volta e entre nós,
na sala, quebrada aqui e ali, fragmentada,
recomeçada. Parece oriental, mas
pode ser jazz, ou blues - pode ser
qualquer coisa de qualquer lado.

"Não importa," quero gritar.
"Não se preocupem com fragmentos.
Entendê-los ou não. Tudo
é fragmento e tudo não é fragmento.
Oiçam a música, quão fragmentada,
quão cheia, como não podemos separá-la
do sol a cair de joelhos sobre toda a verdura,
deste movimento, como este momento
contém todos os fragmentos de ontem
e de tudo o que não iremos conhecer do amanhã!"

Em vez disso, mantenho um silêncio cobarde.
A música pára abruptamente;
eles terminam o seu trabalho,
e avançamos munidos das respostas correctas,
que é o mesmo que dizer
que separamos os fragmentos do todo.



(versão minha; original reproduzido em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, pp. 193-194).

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Leonard Nathan

Canção da bexiga



Num pedaço de papel higiénico,
Flutuando no mijo não evacuado,
Os lábios impressos e inteiros de uma mulher.

Nathan, alegra-te! O esgoto
Manda-te um grande beijo vermelho.
Ah, nada está perdido, se é humano.



(versão minha; original reproduzido em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, p. 197)

terça-feira, 29 de abril de 2008

Adam Zagajewski

Espelho auto-reflector



No retrovisor vi subitamente
a mole imensa da Catedral de Beauvais;
grandes coisas habitando nas pequenas
por um instante.



(versão minha, a partir da tradução inglesa do polaco de Czeslaw Milosz e Robert Hass, reproduzida em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, p. 128.)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Miller Williams

Animais



Penso na morte dos animais domésticos
como um marco no mar de mudanças das nossas vidas.
Penso como as coisas eram, quando as coisas eram diferentes.
Havia então um animal, um cão ou um gato,
não o que há agora, mas outro.
Penso como as coisas eram diferentes antes disso.
Havia outro então. E tu quase esqueceste.



(versão minha; original reproduzido em Being Alive, organização e introdução de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 3ª edição, 2007, p. 175).

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Lisel Mueller

O amor como sal



Jaz nas nossas mãos na forma de cristais
demasiado intrincados para a decifração

Vai para dentro da caçarola
sem ter havido um segundo pensamento

Espalha-se tão finamente no chão
que o levamos nos pés para todo o lado

Carregamos uma pitada por detrás de cada globo ocular

Rebenta nas nossas frontes

Acumulamo-lo dentro dos nossos corpos
em odres secretos

Na sopa passamo-lo em volta da mesa
enquanto falamos de férias e do mar.



(versão minha)

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Robert Creeley

Assim o dizem



Debaixo da árvore sobre um pouco
de erva fofa sentei-me,

vi dois picapaus
felizes serem per-

turbados pela minha presença. E
porque não, pensei

para mim, por
que não.



(versão minha; original reproduzido em A book of luminous things, antologia organizada por e com uma introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, p. 18).

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Anna Swir

Recital de poesia



Enrosco-me em espiral
como um cão
que tem frio.

Quem me vai dizer
porque nasci,
a razão desta monstruosidade
chamada vida.

O telefone toca. Tenho de dar
um recital de poesia.

Entro.
Uma centena de pessoas, uma centena de pares de olhos.
Olham, esperam.
Eu sei porquê.

É suposto dizer-lhes
porque nasceram,
porque existe
esta monstruosidade chamada vida.



(versão minha, a partir da tradução inglesa do polaco de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, in A book of luminous things, organizado por e com uma introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1988, p. 259).

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Anna Swir

Lavo a camisa



Pela última vez lavo a camisa
de meu pai agora morto.
A camisa cheira a suor. Lembro-me
deste suor desde a minha infância,
durante tantos anos
lavei as suas camisas e a sua roupa interior,
sequei-as
num fogão de ferro no ateliê,
ele preferia vesti-las sem serem engomadas.

De entre todos os corpos do mundo,
animal, humano,
só um exsudava este suor.
Aspiro-o
pela última vez. Ao lavar esta camisa
destruo-o
para sempre.
Agora sobrevivem-lhe apenas os quadros
que cheiram a óleos.



(versão minha a partir da tradução do polaco para inglês de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, in A book of luminous things, organizado por e com uma introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, p. 204. Anna Swir (1909-1984), poetisa polaca que se radicou nos Estados Unidos, era a única filha de um pintor "abismalmente pobre" (segundo Milosz) que viveu e trabalhou em Varsóvia.)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Anna Swir

O mar e o homem



Não subjugarás este mar
pela humildade ou pela exaltação.
Mas podes rir-te
na sua cara.

O riso
foi inventado pelos que
têm uma vida breve
como a explosão de uma gargalhada.

O mar eterno
nunca aprenderá a rir.



(versão minha, a partir da tradução inglesa do polaco de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, in A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, 1998, p.47).

domingo, 13 de abril de 2008

Laura Riding

O universo e eu



Não é exactamente isto que quero dizer
Não mais que sol é o sol.
Porém como dizê-lo mais rigorosamente,
Se o sol brilha, se não aproximadamente.
Que universo de inépcias!
Que instrumentos inimigos do sentido!
Talvez isto se aproxime de um significado
Ou talvez se transforme em acto de conhecimento.
Então penso que o universo e eu
Temos que viver juntos como estranhos e morrer -
Um amor azedo, cada qual duvidando
Se houve no outro algo para amar.
Não, é melhor para ambos estarmos seguros
Um do outro - exactamente onde
Exactamente eu e exactamente o universo
Falhamos em conhecermo-nos por um momento, por um verso.



(versão minha; original reproduzido in The great modern poets, Edited by Michael Schmidt, Quercus, London, s/d., p. 102).

terça-feira, 8 de abril de 2008

Li-Young Lee

Peço à minha mãe que cante



Ela começa, e a minha avó acompanha-a.
Mãe e filha cantam como jovens raparigas.
Se fosse vivo, o meu pai tocaria
o seu acordeão e balançaria como um barco.

Nunca estive em Pequim, ou no Palácio de Verão,
nem fiquei no grande Barco de Pedra a ver
a chuva a principiar sobre o Lago Kuen Ming, os veraneantes
a fugir pela relva fora.

Mas adoro ouvir tudo isto cantado;
como os nenúfares se enchem de chuva até
transbordarem, derramando água na água,
e voltam ao mesmo, e enchem-se com mais.

As duas mulheres começam a chorar.
Mas nem isto interrompe a sua canção.



(versão minha; original reproduzido in Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 2007, pp. 241-242).

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Roger McGough

Fama



O melhor
de ser famoso

é quando desces
a rua

e as pessoas se viram
para te olhar

e vão contra as coisas.



****



Blues em tempo de guerra



O sexo é racionado
e o cão roeu
todos os cupões.



****



Sobrevivente



Todos os dias
penso na morte.
Na doença, na fome,
violência, terrorismo, guerra,
no fim do mundo.

Isto ajuda-me a manter a cabeça fria.



(versões minhas; poemas incluídos em The State of Poetry, Peguin, London, 2005).

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Stanley Kunitz

O retrato



A minha mãe nunca perdoou o meu pai
por se ter suicidado,
especialmente num momento tão inoportuno
e num parque público,
naquela primavera
em que me preparava para nascer.
Ela fechou o seu nome
no seu armário mais fundo
e não o quis deixar sair,
embora eu pudesse ouvi-lo a bater.
Quando desci do sótão
com o retrato a pastel na minha mão
de um estranho de lábios grandes
com um intrépido bigode
e equilibrados olhos castanhos escuros,
ela rasgou-o em pedaços
sem dizer uma palavra
e esbofeteou-me com força.
Aos sessenta e quatro anos
ainda consigo sentir a minha bochecha
a arder.



(in Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 2007, p. 232).

Allen Grossman

O corredor



O homem pensava na sua mãe
E na lua.

Era uma noite suave.
Ele corria debaixo das estrelas. A lua
Ainda não aparecera,

mas ele não tinha dúvidas que
Apareceria tal como ele corria.

Pequenas coisas atravessavam a estrada
Ou caíam dificilmente nela. A sua mãe
Estava longe, como uma nuvem sobre uma montanha
Com seios chuvosos. O homem não era um corredor
Mas corria com vigor.

Passado um instante, a lua
Surgiu entre as estrelas inextinguíveis,
E ele leu enquanto corria a escritura-nocturna
De pedra da lua com a sua própria luz.

Então a sua mãe
Chegou e correu a seu lado, cheirando a chuva;
E eles correram toda a noite, juntos,
Como um homem e a sua sombra.



(in Edward Hirsch, Poet's choice, Harcourt, Orlando, 2007, p. 229-230; o arranjo gráfico original é ligeiramente diferente daquele que, por limitações técnicas, aqui se apresenta; no original, os primeiros versos de todas as estrofes, à excepção da primeira, começam avançados na página e não na mesma linha vertical dos restantes).

segunda-feira, 31 de março de 2008

Lisel Mueller

Em Novembro



No interior da casa o vento uiva
e as árvores rangem de forma horrível.
Esta é uma velha história
com o seu velho começo,
enquanto me deito para adormecer.
Mas, quando acordo, a luz do sol
tomou conta de todo o quarto.
Tu já preparaste o café
e o rádio traz-nos música
vinda de uma época confiante. No jornal
as más notícias acontecem em lugares longínquos.
Fosse o que fosse que estivesse para acontecer
na minha história não aconteceu.
Mas sei que há regras que não podem ser quebradas.
Talvez um nome tenha mudado.
Um pequeno erro. Talvez
uma mulher que eu não conheço
enfrente agora o dia com o coração pesado
que, segundo todas as leis, deveria ser o meu.



(versão minha)

sexta-feira, 28 de março de 2008

José Emílio Pacheco

Indesejável



Não me deixa passar o guarda.
Ultrapassei o limite de idade.
Provenho de um país que já não existe.
Os meus papéis não estão em ordem.
Falta-me um carimbo.
Preciso de outra assinatura.
Não falo a língua.
Não tenho conta no banco.
Reprovei no exame de admissão.
Extinguiram o meu posto na fábrica imensa.
Desempregaram-me hoje e para sempre.
Não tenho nenhuma cunha.
Levo aqui deste mundo vasto tempo.
E os nossos amos dizem que já é hora
de me calar e de me fundir com o lixo.



(versão minha)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Bill Knott

Poema



Queridos rapazes e raparigas,
não se esqueçam por favor
de sublinhar as minhas palavras
depois de as apagarem.



****



Na encruzilhada



O vento traz uma folha de papel até aos meus pés.

Apanho-a.

Não é uma petição para a minha morte.



****



Errado


Quero ser mal interpretado;
isto é,
interpretado a partir da tua perspectiva.



****



O que eu disse



O humor foi banido do céu das hienas.



****



Poema putativo da época samurai



ele escreveu um haiku
antes da sua lâmina cortar a minha cabeça
por que não um tanka
um tanka permitir-me-ia viver
por mais catorze sílabas.



(versões minhas)

Andrew Hudgins

No poço


O meu pai cingiu a corda,
um nó em torno da minha cintura,
e baixou-me para o interior
das trevas. Pude provar o sabor

do meu medo. Primeiro do escuro,
depois da terra, depois da podridão.
Oscilei e bati com a cabeça
e nesse instante cheguei

a outro medo: o do sangue,
que me fez cerrar ferreamente a boca.
À força de mãos, o meu pai
fez-me passar por tudo isto:

depois a água. Depois o pêlo encharcado,
que abracei contra o peito.
Gritei. E o meu pai puxou a corda
molhada. Desequilibrei-me, apertei

o cão desaparecido do meu vizinho
contra mim. Segurei a sua morte
e ascendi até ao meu pai.
Depois luz. Depois mãos. Depois a respiração.



(versão minha; original aqui).

segunda-feira, 24 de março de 2008

Eduardo Chirinos

Poema com cães


Conheci-o em Istambul.
Da sua boca pendia um cigarro turco
tinha os olhos pequenos
e uma vaga expressão de príncipe arruinado.
Nunca mais voltei a vê-lo, mas comprei o seu retrato
num leilão nos arredores de Londres.
Os meus filhos inventam subterfúgios para não o olharem,
as visitas desculpam-se, inventam mil histórias,
preferem não vir.
A minha mulher acaricia o lombo dos cães.
Não os teme. Diz que são amigos do homem.


(versão minha)

domingo, 23 de março de 2008

Javier Salvago

Retrato


Fala pouco, e a muito poucos
se atreve a chamar amigos,
passa ao largo se há confusão,
não visita os seus vizinhos,

atravessa a rua fumando,
sempre dentro de si mesmo,
vendo o mundo de fora
como quem lê um livro

preso - sem saída -
no seu próprio labirinto,
no entanto nem surdo nem cego
nem indiferente nem frio:

um solitário que vive
com uma mulher e um miúdo.



(versão minha)

sábado, 22 de março de 2008

Javier Salvago

Convém não esquecer



Por este atalho,
a que chamam vida, todos
vamos às apalpadelas

tal como um cego.
Em cinza terminam
todos os fogos.



****



Haiku



Como as nuvens de agosto, tudo passa.
A vida prova-nos
que se pode viver sem quase tudo.



(versões minhas)

sexta-feira, 21 de março de 2008

Javier Salvago

A juventude



Durou o que duram,
por norma, as ilusões:
até que descobres
que já acordaste.

Hoje é só história
para constituir memória.

Outros são os seus donos
e outro é aquele que olha
e procura o que de novo
oferece a vida.

Quem veio por tudo
não se satisfaz com tão pouco.


(versão minha)