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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Manuel Vilas

A aula de língua



Abatimento em metade de uma turma de adolescentes.
Queria estar noutro sítio, mas onde.
Rico e célebre em longas viagens pelo mundo.
Também eles não cumprirão as suas ilusões.
Salta à vista: sem talento, sem inteligência,
sem família com posses, sem beleza,
sórdida classe média-baixa da democracia
a quem foi prometida uma educação intranscendente.
Ensina-lhes, ao menos, a desejar a vida
com força, com justiça, com dignidade,
com as palavras duras que a sós aprendeste.
Ajuda-os a imaginar a ruína nada discreta
em que acabarão convertidos.
Os tristes afazeres das suas vidas são já um escândalo.
Diz-lhes que só a verdade com palavras justas
defende da verdade abandonada à sua sombra.



(Versão minha; original reproduzido em Hacia la democracia. La nueva poesía (1968-2000); organização de Araceli Iravedra, Visor, 2016, p.694).

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Manuel Vilas

Hölderlin



O grande poeta, linhagem das enfermidades mentais,
cuja palavra, segundo os doutos e cabais académicos,
falou da Grécia e da Alemanha, que propôs aos mortais
um reino superior, lá nas alturas onde os deuses vivem,
foi no tempo da sua vida um pobre tonto que esqueceu
até o seu próprio nome. Teve razão Goethe, que viu nele
o que era na realidade: primeiro, um jovem exaltado,
com pouca experiência do mundo e demasiada filosofia,
depois mais um louco entre os que adubam os campos da terra.



(Versão minha; poema incluído em Hacia la democracia. La nueva poesía (1968-2000); organização de Araceli Iravedra; Visor, 2016, p. 694).