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terça-feira, 29 de abril de 2008

Adam Zagajewski

Espelho auto-reflector



No retrovisor vi subitamente
a mole imensa da Catedral de Beauvais;
grandes coisas habitando nas pequenas
por um instante.



(versão minha, a partir da tradução inglesa do polaco de Czeslaw Milosz e Robert Hass, reproduzida em A book of luminous things, organização e introdução de Czeslaw Milosz, Harcourt Brace & Company, San Diego, p. 128.)

quarta-feira, 19 de março de 2008

Adam Zagajewski

Não permitas que o momento de lucidez se dissolva



Não permitas que o momento de lucidez se dissolva
Deixa que o pensamento radiante dure em sossego
embora a página esteja quase concluída e a chama vacile
Ainda não ascendemos ao nível que nos é devido
A sabedoria cresce lentamente como um dente do siso
A estatura de um homem continua a ser talhada
sobre uma porta branca

Vinda da distância, a voz feliz de uma trompete
e de uma canção surge inesperadamente como um gato
O que acontece não cai no vazio
O fogueiro continua a alimentar a fornalha com carvão
Não permitas que o momento de lucidez se dissolva
Tens de gravar a verdade
numa substância seca e dura



(versão minha a partir da tradução para inglês de Renata Gorczynski)

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Adam Zagajewski

Lume



Provavelmente sou um homem vulgar da classe
média, crente nos direitos individuais, a palavra
"liberdade" é simples para mim, não significa
a liberdade de nenhum grupo em particular.
Politicamente ingénuo, com uma educação
mediana (breves momentos de visão clara
são o seu maior sustento), recordo
o ardente apelo desse lume que abrasa
os lábios da multidão sedenta e queima
livros e incendeia a pele das cidades. Eu costumava
cantar essas canções e sei como é magnífico
caminhar com os outros; mais tarde, a sós,
com o sabor das cinzas na minha boca, ouvi
a voz irónica da mentira e o coro a gritar
e quando toquei a minha cabeça pude sentir
o arqueado crânio do meu país, o seu limite opressivo.


****



Um poema veloz



Ouvindo cantos gregorianos
seguia num carro veloz
numa auto-estrada de França.
As árvores precipitavam-se para o passado. As vozes
dos monges cantavam louvores a um deus invisível
(ao amanhecer, tremendo de frio numa capela).
Domine, exaudi orationem meam,
vozes masculinas suplicando calmamente
como se a salvação fosse emergir no jardim.
Para onde ia eu? Para onde ia o sol?
A minha vida estendia-se esfarrapada
pelos dois lados da estrada, frágil como o papel de um mapa.
Na doce companhia dos monges
fiz o meu caminho em direcção às nuvens, ao profundo,
alto, denso azul,
em direcção ao futuro, ao abismo,
engolindo as ásperas lágrimas do granizo.
Longe da manhã. Longe de casa.
No lugar de muros - chapas metálicas.
Em lugar de uma vela - uma fuga.
A viagem em vez da recordação.
Um poema veloz em vez de um hino.
Uma pequena estrela cansada correu
à minha frente
e o asfalto da auto-estrada brilhou,
revelando onde estava a terra,
onde aguardava na expectativa a lâmina do horizonte,
e a aranha negra do anoitecer
e da noite, viúva de tantos sonhos.




(versões minhas, a partir das traduções inglesas do polaco de Renata Gorczynski e Clare Cavanagh, respectivamente, ambas reproduzidas por Edward Hirsch, in Poet's Choice, Harcourt, Orlando, 2006, pp. 104-106.)

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Adam Zagajewski

Mais poemas de Adam Zagajewski, traduzidos por Jorge Sousa Braga aqui.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Adam Zagajewski

Uma chama


Senhor, dá-nos um longo inverno
e música suave, e bocas pacientes,
e um pouco de orgulho - antes
que o nosso tempo chegue ao fim.
Dá-nos o espanto
e uma chama, alta, clara.



(versão minha a partir da tradução do polaco para inglês de Clare Cavanagh, reproduzida por Edward Hirsch in Poet's Choice, Harcourt, Orlando, 2006, p. 102)