sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Haydar Ergulen

Cerimónia do chá



Mais do que a outra coisa a morte parece-se
Com a cerimónia japonesa do chá,
O silêncio é parte do ouro, pureza e harmonia,
Pausadamente os convidados aproximam a morte dos seus lábios,
Um gole de vez em quando
Debaixo da luz do dia e no seu vulgar decurso
A todos calha sempre mais um trago,
Os criados entram, quebra-se a paz destes momentos
Com o movimento dos seus calcanhares brancos a caminhar.
Como um convidado invisível ou um hóspede inesperado
Regressa a esta cerimónia
O temor da morte com as suas mãos vazias,
O véu do orgulho não está estendido
E o hara-kiri silencioso da luz do dia
É bem vindo com o seu sabre.


(versão minha a partir da tradução castelhana de Jaime B. Rosa e Metin Cengiz integrada em Poesía Contemporánea de la República de Turquía, Vision Libros, Madrid, 2013, p. 70).

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Huseyín Ferad

A minha amante é uma loba da estepe (o nascimento da poesia)



A poesia é uma folha de erva
Eu sou um pastor.

O sopro da escuridão é Poesia
O inaudível grito de um morcego.

Uma estrela encostada ao meu coração
Chora quando desperta
Goteja resina oferecida pelas suas pestanas a arder.

A poesia é navegar pelos céus azuis
Eu sou um perdigão sinistro.

Impossível conhecer a cor das palavras
E a da minha língua.

A minha amante é um cisne
Cruzando o lago
Arrulha
E eu consumo-me com cio.

A poesia é a frescura do centeio
A rebeldia das formigas.

Desconheço a cor do meu rosto
A cor da minha língua.
A minha amante é uma loba da estepe.

Sou um corço
Os guarda-florestais perseguem-me
Quando ela uiva.

O sussurro da vida é poesia
O lamento da morte.



(versão minha a partir da tradução catelhana publicada em Poesía Contemporánea de la República de Turquía, tradução de Jaime B. Rosa e Metin Cengiz, Vision Libros, Madrid, 2013, pp. 61-62)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Eugenio Montejo

As árvores



Falam pouco as árvores, sabe-se.
Passam a vida inteira a meditar
e a agitar os seus ramos.
Basta observá-las no outono
quando se juntam nos parques:
só as mais velhas conversam,
as que partilham as nuvens e os pássaros,
mas a sua voz perde-se entre as folhas
e muito pouco nos chega, quase nada.

É difícil encher um pequeno livro
com reflexões de árvores.
Tudo nelas é vago, fragmentário.
Hoje, por exemplo, ao escutar o grito
de um tordo negro, já a caminho de casa,
grito final de quem não espera outro verão,
compreendi que na sua voz falava uma árvore,
uma de muitas,
mas não sei o que fazer com esse grito,
não sei como anotá-lo.



(versão minha; original incluído em La Poesía del Siglo XX en Venezuela; seleção de Rafael Arríz Lucca, Visor, Madrid, p. 208).