Mostrar mensagens com a etiqueta Miroslav Holub. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miroslav Holub. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Miroslav Holub

Cemitério judeu em Olsany, túmulo de Kafka, Abril, tempo solarengo



Ocultas sob os carvalhos
algumas pedras abandonadas
como palavras dispersas.
A solidão é tão compacta
que tem de ser feita de pedra.

O homem velho ao portão,
um Gregor Samsa
que não sofreu nenhuma metamorfose,
olha de esguelha
sob a nudez da luz,
respondendo a todas as perguntas:

Desculpe, mas não sei.
Não sou de Praga.



(versão minha, a partir da tradução do checo para o inglês de David Young e Dana Hábová reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), p. 184)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Miroslav Holub

Napoleão



Crianças, quando nasceu
Napoleão Bonaparte?
pergunta o professor.

Há mil anos, dizem as crianças.
Há cem anos, dizem as crianças.
Ninguém sabe.

Crianças, o que fez
Napoleão Bonaparte?
pergunta o professor.

Venceu uma guerra, dizem as crianças.
Perdeu uma guerra, dizem as crianças.
Ninguém sabe.

O homem do talho tinha um cão,
diz o Francisco,
e o seu nome era Napoleão,
e o homem do talho costumava bater-lhe,
e o cão morreu
de fome
há um ano.

E agora todas as crianças sentem pena
de Napoleão.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de K. Polácková, reproduzida em The poetry of survival, introdução e organização de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 1991, p. 170).

terça-feira, 15 de julho de 2008

Miroslav Holub

Experiências com animais



É mais fácil com coelhos do que com cães ou gatos. O
animal da experiência não deve ser demasiado inteligente. É
desconfortável quando as suas acções lembram as dos humanos,
é desconfortável quando conseguimos compreender o seu terror
e a sua tristeza.

Mas a coisa mais triste é trabalhar com porcos recém-nascidos.
São feios.

Não possuem nem desejam mais nada senão a sua fonte de leite.

As suas pernas ásperas e desastradas resvalam debaixo deles,
os seus focinhos e cascos minúsculos são extraordinariamente
inúteis.

São feios e estúpidos.

Quando tenho de matar um leitão paro sempre por um instante.
Mais ou menos cinco ou seis segundos.

Mais ou menos cinco ou seis segundos em nome de toda a beleza
e tristeza do mundo.

- Acaba lá com isso, - alguém diz então.

Ou então sou eu que o digo a mim próprio.




(versão minha a partir da tradução do checo para o inglês de Daniel Simko, reproduzida em Contemporary east european poetry, organização de Emery George, Oxford University Press, Oxford, 1993, 2ª edição, aumentada, pp. 219-220).

domingo, 22 de junho de 2008

Miroslav Holub

A porta



Vai e abre a porta.
Talvez lá fora exista
uma árvore, ou um bosque,
um jardim,
ou uma cidade mágica.

Vai e abre a porta.
Talvez haja um cão a esquadrinhar.
Talvez vejas um rosto,
ou um olhar,
ou a imagem
de uma imagem.

Vai e abre a porta.
Se houver nevoeiro
ele desaparecerá.

Vai e abre a porta.
Mesmo que só haja
o tiquetaque das trevas,
mesmo que só haja
o vento vazio,
mesmo que
não exista
nada,
vai e abre a porta.

Pelo menos
haverá
uma corrente de ar.



(versão minha, a partir da tradução do checo para o inglês de Ian Milner, reproduzida em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 8ª edição, p. 69).