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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Mary Oliver

O que posso fazer



A televisão tem dois comandos que a controlam.
Fico confusa.
A máquina de lavar pergunta-me, lavagem normal ou delicada?
Honestamente, só quero roupa limpa.
É tudo assim.
E nem sequer vou falar de telemóveis.

Posso acender a luz da lâmpada ao lado da minha cadeira
onde um livro aguarda, e é tudo.

Oh sim, e posso riscar um fósforo e fazer lume.



(Versão minha; original reproduzido em Blue horses, Corsair, 2018, p. 3).

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mary Oliver

Tolice? Não, não é



Às vezes passo um dia inteiro a tentar contar as folhas de uma única árvore. Para o fazer tenho de trepar ramo após ramo e de tomar nota dos números num pequeno caderno. Pelo que, do ponto de vista deles, suponho que seja razoável que os meus amigos digam: que tolice! Lá está ela de novo com a cabeça nas nuvens.

Mas não é assim. Claro que há um momento em que tenho de desistir, mas nessa altura já eu estou meio enlouquecida com tal milagre - a abundância das folhas, a quietude dos ramos, o fracasso dos meus intentos. É quando dou por mim a rugir às gargalhadas, cheia de glória terrestre, neste lugar importante e delicioso.



(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 5).

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Mary Oliver

O jornal da manhã



Dedica-te à leitura de um jornal diário (a edição da manhã
          é a melhor
porque à noite ficas pelo menos com a certeza
          de que viveste mais um dia)
e deixa que os desastres, as inacreditáveis
          e no entanto aprovadas decisões,
se infiltrem.

Não preciso de nomear os países,
          o nosso entre eles.

O que nos impede de tombar, os nossos rostos
          por terra; cheios de vergonha, de vergonha?



(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 63).

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mary Oliver

O homem que tem muitas respostas



O homem que tem muitas respostas
é muitas vezes encontrado
nos teatros da informação
a oferecer, amavelmente,
as suas muito profundas descobertas.

Enquanto que o homem que só tem perguntas,
para se confortar a si mesmo, faz música.




(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 69)

Mary Oliver

Tomei a decisão



Tomei a decisão de arranjar uma casa para me instalar algures nas montanhas, lá em cima, onde se pode aprender a viver em paz no meio do frio e do silêncio. Diz-se que num sítio desses certas revelações podem acontecer. Que aquilo que o espírito procura pode eventualmente ser sentido, se não exactamente compreendido. Sem pressas, sem dúvida. E não falo de lazer.
 
Claro que ao mesmo tempo tenciono ficar exactamente onde estou.
 
Estão a ver aonde quero chegar?
 
 
 
(Versão minha; original reproduzido em A thousand mornings, Peguin, Nova Iorque, 2013, p. 45).
  

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Mary Oliver

A viagem



Um dia descobriste finalmente
o que tinhas que fazer, e começaste,
apesar das vozes à tua volta
continuarem a gritar-te
os seus maus conselhos -
apesar de toda a casa
ter começado a vacilar
e sentires o velho esticão
nos teus tornozelos.
"Corrige a minha vida!"
gritou cada uma das vozes.
Mas não paraste.
Sabias o que tinhas que fazer,
apesar do vento ter suplicado
com os dedos apontados
às mais profundas fundações,
apesar da sua melancolia
ser terrível.
Era já muito tarde,
e uma noite selvagem,
e a estrada cheia de ramos
caídos e pedras.
Mas, à medida que
deixavas as suas vozes para trás,
as estrelas começaram a arder
por entre as camadas das nuvens
e surgiu uma nova voz
que aos poucos
reconheceste como tua,
que te fez companhia
enquanto avançaste cada vez mais fundo
no interior do mundo,
determinado a fazer
a única coisa que podias fazer -
determinado a salvar
a única vida que podias salvar.



(versão minha; original reproduzido em Staying alive, organização de Neil Astley, Bloodaxe, Northumberland, 2006, 8ª edição, p. 78).