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quarta-feira, 19 de junho de 2019

Roger Wolfe

"A poesia que desde há séculos..."




     A poesia que desde há séculos se escreve e publica - em qualquer latitude ou época histórica, tanto faz -  não é mais do que, com muito poucas excepções, palha, verbo de encher, desperdício. É possível que boa parte dela esteja convencionalmente bem escrita e que atinja momentos de virtuosismo variável, beleza, pathos, mestria formal, fundo sentimento e intensidade. Nisso estamos de acordo, e há poesia para todos os gostos; poesia para dar e vender. Mas o problema é que, ainda que possa valer num momento de apuros ou numa tarde de chuva ocasional, trata-se de uma poesia fundamentalmente irrelevante. É ilegível porque não tem nada que ver com a vida real de ninguém; porque, em suma, não diz o que é preciso dizer. A poesia ficou reduzida, na imaginação popular, aos quatro tópicos irrisórios do costume, reservados para casamentos, baptizados, funerais e restantes funções sociais de maior ou menor solenidade.
     Ninguém, tirando os poetas que a escrevem e certos sectores do grémio académico, lê hoje poesia. Isto é um facto irrefutável. E ninguém o faz porque nem sequer lhe passa pela cabeça que a poesia esteja literalmente em todos os sítios. O homem vulgar, aquele a quem chamamos o ser humano comum, vive momentos de poesia em cada dia da sua vida; o que acontece é que não se dá conta disso, porque se em alguma ocasião improvável se detém a pensar na poesia é para a considerar pouco menos do que uma absurda piroseira para enfeminados, débeis mentais e gentes ociosas incapazes de viver. Os poetas, ao longo dos séculos, têm-se encarregado de confirmar precisamente esta opinião.
     O ser humano comum não suspeita que precisa da poesia para viver; que consegue de facto seguir em frente com esta batalha interminável da vida graças ao espírito da poesia, que é o que torna suportável em último caso a sua existência (o que são esses "doces momentos nescafé" dos célebres anúncios televisivos senão poesia?).
    O que faz falta é uma poesia relevante. Uma poesia intimamente relacionada com a vida real de cada ser humano; uma poesia que "crie dependência"; uma poesia tão necessária como um cigarro, o primeiro café, o jornal de cada manhã. As pessoas não querem paternalismo, nem divagações mentais, nem exibicionismo barato; querem ver a sua própria vida reflectida no que lêem. Se se lhes oferecesse uma poesia que cumprisse esse simples requisito, não só conseguiríamos que se formassem filas diante das livrarias como também algo mais, algo que tantos escritores afirmam desejar: a "humanização" dos nossos semelhantes através da literatura.




(Versão minha; excerto incluído em Escrito con la lengua, Huacanamo, Barcelona, 2012, pp. 167-168).

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Roger Wolfe

Uma foto do poeta aqui:




















E a tradução de um poema aqui.

sábado, 29 de maio de 2010

Roger Wolfe

Artigo não sujeito à legislação em vigor



Os poemas?
Alguns funcionam,
outros não.
Se o que queres
é uma garantia,
então compra um televisor.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa: 1986 - 2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 269).

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Roger Wolfe

Poesia



Pergunta-me o que é a poesia.
A poesia, respondo-lhe,
é uma manada de vacas a atravessar uma ponte
por cima de uma auto-estrada.

Então olha-me, e sorri,
e isso é também
poesia.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa 1986-2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 49).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Roger Wolfe

Glosa de Celaya



A poesia
é uma arma
carregada de futuro.

E o futuro
é do Banco
Santander.



(Versão minha; original reproduzido em Noches de blanco papel (poesía completa 1986 - 2001), Huacanamo, Barcelona, 2008, p. 262).

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Roger Wolfe

Sabedoria



Uma mulher
que passa de bicicleta
às duas da manhã,
maravilhosas pernas morenas
dando aos pedais
enquanto a brisa lhe levanta o vestido
e revela
um perfeito milagre
de carne feminina em movimento.

Os nossos olhos
cruzam-se por um momento
e já se foi.

São coisas como esta
que te fazem dar conta
do pouco que realmente sabes
de nada.



(Versão minha; original aqui).

terça-feira, 6 de abril de 2010

Roger Wolfe

Pálpebra



Pedro Salinas
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).