Gosto que Epicuro se preocupe
Gosto que Epicuro se preocupe
com a forma redonda do granizo.
Que Francisco de Assis diga que a água é casta
e o fogo, robusto.
Que numa breve carta a um dos seus amigos
Marguerite Yourcenar escreva "Obrigada.
Obrigada pela honra de me comparar
a uma árvore".
Não sei porquê, estas coisas
curam-me o coração.
(Versão minha; poema incluído em La batalla de los centauros, Libros Canto y cuento, Jerez/Cádiz, 2019, p. 13).
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domingo, 10 de novembro de 2019
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Juan Antonio González Iglesias
Autorretrato como asceta inconsciente
Desconheço as marcas dos vinhos mais caros.
Ungaretti é a única denominação
de origem que respeito.
Estou treinado para respirar ar.
Dormi no chão, comi no chão.
Com um trago de água mineral
honro Píndaro. Exponho
o meu corpo inteiro
às diferentes temperaturas
das quatro estações.
Retiro o meu vocabulário do atletismo.
Não me enamoro do meu próprio zeppelin.
Pedi muitas vezes esmola
às estátuas: estou acostumado
ao fracasso, ainda que saiba
que Juan Ramón Jiménez
não teve mais substância do que a que tenho eu.
Sejamos claros: tenho
uma ideia radical de liberdade.
Tal como um poeta arcaico,
amaldiçoo o dinheiro, as moedas, uma a uma.
Tal como um poeta arcaico, no entanto,
celebro a riqueza e a pobreza
porque são dons. Para ler Horácio
um livro de bolso. Isso basta-me.
Bibliofilia e tesouros, para os outros.
Os meus luxos alcançam-se com dois euros.
O universo está pintado à mão,
assegura um rapper. Subscrevo-o.
Não sou romancista. Não invento.
Não posso permitir-me mentir
nesta relação. Dou a minha palavra.
Serenidade: um litro nas minhas artérias.
Há algo
de revolucionário
na felicidade do silencioso.
Movo-me nos extremos invisíveis.
Em alguns dias, para regressar a casa, tomo
o caminho mais longo.
Noutros dias escolho diagonais.
Fora disto não consigo
explicar-me. Para além de torpe, sou
um asceta inconsciente.
Hoje beberei contigo num copo curto
o vinho humilde que guardei para ti faz um ano.
Horácio, traduzido
por Luis Javier Moreno
Desconheço as marcas dos vinhos mais caros.
Ungaretti é a única denominação
de origem que respeito.
Estou treinado para respirar ar.
Dormi no chão, comi no chão.
Com um trago de água mineral
honro Píndaro. Exponho
o meu corpo inteiro
às diferentes temperaturas
das quatro estações.
Retiro o meu vocabulário do atletismo.
Não me enamoro do meu próprio zeppelin.
Pedi muitas vezes esmola
às estátuas: estou acostumado
ao fracasso, ainda que saiba
que Juan Ramón Jiménez
não teve mais substância do que a que tenho eu.
Sejamos claros: tenho
uma ideia radical de liberdade.
Tal como um poeta arcaico,
amaldiçoo o dinheiro, as moedas, uma a uma.
Tal como um poeta arcaico, no entanto,
celebro a riqueza e a pobreza
porque são dons. Para ler Horácio
um livro de bolso. Isso basta-me.
Bibliofilia e tesouros, para os outros.
Os meus luxos alcançam-se com dois euros.
O universo está pintado à mão,
assegura um rapper. Subscrevo-o.
Não sou romancista. Não invento.
Não posso permitir-me mentir
nesta relação. Dou a minha palavra.
Serenidade: um litro nas minhas artérias.
Há algo
de revolucionário
na felicidade do silencioso.
Movo-me nos extremos invisíveis.
Em alguns dias, para regressar a casa, tomo
o caminho mais longo.
Noutros dias escolho diagonais.
Fora disto não consigo
explicar-me. Para além de torpe, sou
um asceta inconsciente.
(Versão minha; original reproduzido em Del lado del amor - Poesía reunida (1994-2009), Prólogo de Guillermo Carnero, Visor, Madrid, 2010, p. 188-1899).
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Juan Antonio González Iglesias
Arte de traduzir
Devemos celebrar as traduções felizes.
Como o Précis de décomposition
de Cioran, convertido
em Breviário de apodrecimento.
Em momentos de máxima insegurança cultural
a arte de traduzir ergue-se
como última forma de conhecimento.
Agora que a torre da história
sofre assédios que podem ser os definitivos
temos de recorrer aos especialistas
e aos que traduzem
sem precipitação e com audácia
intuindo o sentido final dos escritos.
Para compreender tudo
o que se passa nestes anos,
basta este livro
de Arnaldo Momigliano
que trata de uma outra época:
The Alien Wisdom, que alguém traduziu
de forma tão bela por A sabedoria
dos bárbaros.
Devemos celebrar as traduções felizes.
Como o Précis de décomposition
de Cioran, convertido
em Breviário de apodrecimento.
Em momentos de máxima insegurança cultural
a arte de traduzir ergue-se
como última forma de conhecimento.
Agora que a torre da história
sofre assédios que podem ser os definitivos
temos de recorrer aos especialistas
e aos que traduzem
sem precipitação e com audácia
intuindo o sentido final dos escritos.
Para compreender tudo
o que se passa nestes anos,
basta este livro
de Arnaldo Momigliano
que trata de uma outra época:
The Alien Wisdom, que alguém traduziu
de forma tão bela por A sabedoria
dos bárbaros.
(Versão minha; poema incluído em Del lado del amor - Poesía reunida (1994-2009), prólogo de Guillermo Carnero, Visor, Madrid, 2010, p. 309).
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Juan Antonio González Iglesias
Ai dos que propõem a vida como uma operação incessante de conhecimento
Ai dos que propõem a vida como uma operação incessante de conhecimento.
Os que pretendem impor-nos o seu excesso e a sua tristeza.
Os que não se detêm.
Não há assunto incessante que não se chame vida
ou simplesmente amor.
Nijinski disse algo muito parecido com isto:
As pessoas que pensam demasiado
acabam a escrever
coisas absurdas sobre a beleza.
Ai dos que propõem a vida como uma operação incessante de conhecimento.
Os que pretendem impor-nos o seu excesso e a sua tristeza.
Os que não se detêm.
Não há assunto incessante que não se chame vida
ou simplesmente amor.
Nijinski disse algo muito parecido com isto:
As pessoas que pensam demasiado
acabam a escrever
coisas absurdas sobre a beleza.
(Versão minha; poema incluído em Del lado del amor - Poesía reunida (1994-2009); prólogo de Guillermo Carnero, Visor, Madrid, 2010, p. 172).
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