quinta-feira, 29 de outubro de 2009

David Bottoms

A mão esquerda do meu pai



Por vezes a mão do meu velho voa sobre o seu joelho, agita-se
em círculos malucos, e regressa à sua base.

Por vezes fica apoiada durante uma hora nessa proeminência ossuda.

E por vezes quando o meu velho tenta falar, a sua mão sacode-se
no ar, perseguindo uma palavra, depois empoleira-se de novo

na barra do andarilho ou no braço de uma cadeira.

Por vezes quando o anoitecer se fecha sobre a sua janela e a chuva
se tinge de negro até se tornar gelo na soleira, ela treme como um pardal numa tempestade.

Então a noite escura cai, e treme menos, e menos, até que sossega.



(versão minha; original reproduzido aqui).

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Al-Saddiq Al-Raddi

A pequena raposa



De súbito - uma pequena raposa, brincalhona,
inunda com alegria o teu ferido coração
Ela procura o teu rosto com o seu olhar singular,
sabe que te identificas com ela na sua pose vagabunda

Nessa mesma noite em que suspirei por ti,
em que senti a falta do teu delicado despertar
e ansiei pela lua que sabia de cor os nossos nomes
Esse vidro estilhaçado e esquecido,
o esquilo atrevido que fugiu -
abandonando-nos tudo: a noite, e o vinho

E quanto a mim - estou bêbedo de sede,
tremo de desejo por ti -
mas não há aqui nenhuma raposa para ser encontrada


Cartum 14 de Junho, 2006
(versão minha, a partir da tradução inglesa de Sarah Maguire, reproduzida aqui).

domingo, 25 de outubro de 2009

Martín Espada

Lição revolucionária de espanhol



Sempre que alguém
pronuncia mal o meu nome,
quero logo comprar uma pistola de brincar,
pôr óculos escuros,
inclinar a minha boina,
pentear a barba em bico,
sequestrar um autocarro cheio
de turistas Republicanos
do Wisconsin,
e obrigá-los a entoar
palavras de ordem anti-americanas
em espanhol,
e esperar
que o pelotão de intervenção especial bilingue
nos sobrevoe de helicóptero
e me suplique
que seja razoável



(versão minha, a partir da tradução para espanhol de Camilo Pérez-Bustillo, Diego Zaitegui, Pedro J. Miguel e do próprio autor, reproduzida em Soldados en el jardín: antologia 1989-2009, El Gaviero Ediciones, Almería, 2009, p. 91).

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sharon Olds

A corrida



Assim que cheguei ao aeroporto precipitei-me para o balcão,
comprei o bilhete, dez minutos depois
anunciaram-me que o voo tinha sido cancelado, os médicos
tinham-me dito que o meu pai não passaria desta noite
e o voo tinha sido cancelado. Um homem jovem
de bigode castanho escuro disse-me
que uma outra companhia tinha um voo
directo dali a sete minutos. Está a ver
aquele elevador, bem desça
até ao primeiro piso, vire à direita e
encontrará um autocarro amarelo, saia no
segundo terminal da Pan Am, e eu
corri, eu que não tenho qualquer sentido de orientação
lancei-me na direcção exacta que ele me indicou, um peixe
deslocando-se destramente corrente acima
contra o movimento do rio. Saltei do tal autocarro com as tais
mochilas para onde tinha atirado tudo
em cinco minutos, e corri, as mochilas
balançando-me de um lado para o outro como que
para provar que eu estava sujeita às leis da matéria,
corri em direcção ao homem com uma flor branca ao peito,
eu que vou sempre até aos limites, eu disse
Ajude-me. Ele olhou para o bilhete e disse
Vire à esquerda e depois à direita, suba pelas escadas rolantes e depois
corra. Arrastei-me pelas escadas rolantes e,
lá em cima, vi o corredor,
depois inspirei fundo, e disse
Adeus ao meu corpo, adeus ao conforto,
usei as minhas pernas e o meu coração como se
os tivesse alegremente só para isto,
para o tocar uma vez mais nesta vida. Corri e
as mochilas embatiam em mim, rodando e virando-se
em órbitas oblíquas, eu que tenho visto imagens de
mulheres a correr com os seus haveres presos
a tiracolo agarrados nas mãos fechadas, eu abençoei
as longas pernas que ele me deu, o meu forte
coração que eu abandonei ao seu próprio desígnio,
eu corri para a Porta 17 e estavam quase
a levantar o compacto losango
branco da porta para o acomodar
no encaixe do avião. Como aquele que
não é excessivamente rico, virei-me de lado e
esgueirei-me pelo buraco da agulha, e depois
desci pela coxia até ao meu pai. O avião
estava lotado e o cabelo das pessoas brilhava, elas
sorriam no interior do aparelho cheio de uma
névoa de luz dourada e analgésica,
eu chorei como se chora quando se chega ao céu,
num pesado alívio. Levantámo-nos
suavemente numa das pontas do continente
e não parámos se não quando aterrámos levemente
na outra extremidade. Eu entrei no quarto dele
e vi-lhe o peito a subir devagar
e a fundar-se de novo, vi-o
toda a noite a respirar.



(Versão minha; o original reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, pp. 129-130.
Nota: o título deste poema é "The race", palavra que tanto pode significar "corrida" como "prole", "descendência" ou "linhagem"; esta dupla significação alude claramente à relação filha/pai, bem como à corrida contra o tempo que todo o poema descreve).

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Begoña Paz

Extrasístoles



O meu coração
teima em
lembrar-me
que ainda
está
aí.



(versão minha; original reproduzido em 23 Pandoras - Poesia alternativa española, selecção e prólogo de Vicente Muñoz Álvarez, Ediciones Baile del Sol, Tenerife, 2ª edição, p. 226).

domingo, 18 de outubro de 2009

Anna Swir

Ele teve sorte


Para o Prof. Wladyslaw Tatarkiewicz



O homem velho
deixa a sua casa, traz os seus livros.
Um soldado alemão agarra os livros
atira-os para a lama.

O homem velho apanha-os,
o soldado bate-lhe na cara.
O homem velho cai,
o soldado pontapeia-o e vai-se embora.

O homem velho
fica estendido na lama, a sangrar.
Sente debaixo de si
os livros.



(versão minha a partir da tradução inglesa do polaco de Magnus J. Krynski e Robert A. Maguire reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin Books, Londres, 2ª (?) edição, 1993, pp. 67-68).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Roger McGough

Um poema sério



Este é um poema sério
Com uma aparência séria
Não desperdiça uma só palavra
Conhece bem o seu lugar.

Perfeitamente equilibrado
Nem longo nem curto
Olha solenemente os céus
Como um verdadeiro poema deve fazer.
`
Conhecedor dos clássicos
Dispõe nomes à vontade.
Aqui vem Platão com Lycidas
E, reparem, eis Demóstenes!

Um poema sério há-de findar muitas vezes
Com dois versos que rimam.
Mas nem sempre.



(versão minha; original reproduzido em Collected poems, Peguin Books, 2ª edição, Londres, 2004, p. 297).

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Rolf Jacobsen

Torres melancólicas



Os escravos tinham mãos imensas e construíram torres melancólicas.
Tinham coração de chumbo, costas como montanhas e construíram torres melancólicas
Tinham mãos como martelos de pedra e construíram montanhas
de silêncio
Estão na Borgonha e Balbek e em Jerez de la Frontera.
Muros de um cinzento envelhecido sobre os bosques, frentes de pedra
e olhos melancólicos,
em muitos lugares da terra
de onde as andorinhas saem em grandes cachos pelo ar
como chicotadas silenciosas.




(versão minha, a partir da tradução espanhola de Francisco J. Uriz, reproduzida em Tres poetas noruegos, tradução e selecção de F.J. Uriz, Libros del Innombrable, 2002, p. 23).

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Danila Stoyanova

O rapaz matou um pato...



O rapaz matou um pato
com uma pedra
mas não se apercebeu.
O pato não deu conta de nada
porque ficou morto.
Os outros patos nadaram
debaixo de água
os pecoços esticados para baixo.

Isto aconteceu mesmo?
Ninguém sabe
porque ninguém viu.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Belin Tonchev, reproduzida em Young poets of a new Bulgaria - an anthology, selecção e tradução de Belin Tonchev, introdução de Sebastian Barker, Forest Books, Londres, 1990, p. 135).

sábado, 10 de outubro de 2009

Nikki Giovanni

O mundo não é um lugar agradável para se estar



o mundo não é um lugar agradável
para se estar sem
alguém para defendermos ou que nos defenda

um rio só deterá
o seu fluir se
uma corrente lá estiver
para o receber

um oceano nunca escarnecerá
se as nuvens não estiverem lá
para lhe beijarem as lágrimas

o mundo não é
um lugar agradável para se estar sem
alguém


[17 fev 72]



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, p. 72).

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Jack Agüeros

Salmo pela distribuição



Senhor,
na Rua nº 8
entre a 6ª Avenida e a Broadway
em Greenwich Village
há tantas sapatarias
com tantos sapatos
que me pergunto
por que há tanta gente descalça
na terra.

Senhor,
tens que despedir o Anjo
que tem a tarefa da distribuição.



(versão minha; original reproduzido algures por aqui).

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Nicolai Kolev-Bosiya

Posição



Estou a pintar
uma pequena cruz preta
na testa
para que
o inimigo
possa apontar melhor.
Não torno pública
a minha falta de medo.
Sei
que o assassino
não compreenderia.
Ele desenharia
apenas um ponto
no centro do alvo
e o seu indicador
premiria o gatilho.
Um buraco abrir-se-ia
na testa despedaçada,
no meio dessa
nobre Cruz da Bíblia.
Então eu extrairia
da polpa espessa
alguns pensamentos e sangue,
miolos e um grito
e com isso pintaria
a terrível tela da vida,
com isso escreveria
o meu mais terno poema.



(versão minha, a partir da tradução inglesa de Belin Tonchev reproduzida em Young poets of a new Bulgaria, selecção e tradução de B. Tonchev, introdução de Sebastian Barker, Forest Books, Londres, 1990, p. 38).

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Jack Agüeros

Salmo pelo bacalhau



Senhor,
agradecemos-te pelo bacalhau,
agradecemos-te pelo bacalhau salgado
e agradecemos-te pelo bacalhau sem espinhas
e agradecemos-te pelo bacalhau
que é tão dócil que
nada em molho de tomate tão ditosamente
como nada em azeite.

Senhor,
agradecemos-te especialmente porque o bacalhau
não nada perto das costas
de Porto Rico.
Agradecemos-te por ele ir tão bem
com banana verde
rodelas de cebola e ovos mexidos.

E, Senhor,
porque é um peixe
agradecemos-te por o deixares vir a voar
até Porto Rico, agradecemos-te
por o deixares vir de barco
até aos nossos portos, agradecemos-te
por o deixares vir a nado até às nossas bocas tão felizes.



(versão minha; original reproduzido em El coro - a chorus of latino and latina poetry, selecção e organização de Martín Espada, 1997, University of Massachusets Press, Amherst, p. 8).