segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Manuel Arana

Naufrágios



Ontem quis ser náufrago
e adormecer assim na minha cabana de palmeiras,
fazer com dois cocos um sutiã para a minha mulher.

Quis ser náufrago
e andei pelas bibliotecas e pelas ruas,
questionei inclusivamente a experiência.

E no fim aprendi
que, para o ser,
só tinha de recordar
o que parecia não ter importância,
e varrer um pouco a praia
antes de me instalar,
não se desse o caso do último inquilino
se ter esquecido de o fazer.



(Versão minha; original reproduzido em Poesía por venir - Antologia de jóvenes poetas andaluces, Junta de Andalucía / Editorial Renacimiento, 2004, p. 14).

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Fleur Adcock

Para alguém com cinco anos



Um caracol sobe pelo peitoril da janela
e introduz-se no teu quarto, depois de uma noite de chuva.
Chamas-me para o ver, e eu explico-te
que seria pouco simpático deixá-lo ali:
poderia arrastar-se pelo soalho, temos de evitar
que alguém o esmague. Compreendes-me
e, com mão cuidadosa, leva-lo lá para fora
para que coma um narciso.

Vejo, depois, como uma espécie de confiança subsiste:
a tua gentileza é ainda moldada pelas palavras
que eu digo, eu - que apanhei ratos com ratoeiras e disparei contra aves selvagens,
eu - que afoguei os teus gatinhos, que traí
os teus familiares mais póximos
e distribuí as mais duras verdades por muitos outros.
Mas é assim que as coisas são: eu sou a tua mãe
e nós somos gentis com caracóis.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems for hard times, selecção e introdução de Garrison Keillor, Viking, Nova Iorque, 2005, p. 12).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Grace Cavalieri

Tartes de tomate, 25 cêntimos



Tartes de tomate era o que lhe chamávamos, naquele tempo,
antes das pizzas terem aparecido,
no restaurante da minha avó,
em Trenton, Nova Jersey.
O meu avô enrola almôndegas
lá atrás. Estudou para padre na Sicília mas
livrou a sua irmã Maggie de casar com um tipo bera
vindo para a América.
O tio Joey está a estender a massa e a espalhar o molho.
O tio Joey, sempre impecavelmente limpo,
sóbrio, de camisa branca e engomada, depois
dos polícias o terem deixado em casa apenas há algumas horas.
As empregadas servem-se
à grande tirando dinheiro das caixas
e fazendo apostas com o Moon Mullin
e o Shad, vindos da Broad Street. 1942,
tartes de tomate com queijo, 25 cêntimos.
Com anchovas, tamanho grande, 50 cêntimos.
Um jantar completo custa 60 cêntimos (antes das 6 da tarde).
O modo como os soldados, transportados de Fort Dix,
ficavam lá fora, ao longo de toda a Warren Street,
à espera de experimentar este novo prazer,
rapazes de uniforme,
em fila e a rir, a aprender italiano
antes de embarcarem para combaterem na última grande guerra.



(Versão minha; o original pode ser lido aqui).

domingo, 23 de janeiro de 2011

Manuel Arana

O filho do Colosso de Rodes visita Ankara no Dia do Orgulho Turco



Há homens
que só são capazes de andar de bicicleta
quando os seus pais os obrigam,
que sobem sempre à torre de neón
com o desânimo
de não terem recebido nunca
a sua parte da terra prometida.

Depois dizem
que só viram placas de gelo
e chamas azuis palpáveis,
que depois de seis
ou sete vezes
todas as coisas passam a ser iguais,
ainda que delas precisem.

Porque esses homens cruzam a vida
de bicicleta
e só recebem
palmadinhas nas costas.



(Versão minha; original reproduzido em Poesía por venir - Antología de jóvenes poetas andaluces, Renacimiento / Junta de Andalucía, 2004, pp. 13-14).

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Muriel Rukeyser

No nosso tempo



Na nossa época dizem que há liberdade de expressão.
Dizem que não há castigo para os poetas,
não há castigo por se escrever poemas.
Isto é o que dizem. Este é o castigo.




(Versão minha a partir do original e da tradução castelhana de Jorge Ordaz, publicada algures por aqui)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Erica Jong

Parábola da cama com dossel



Porque quer tocá-lo,
ela distancia-se.
Porque quer falar-lhe,
ela fica em silêncio.
Porque quer beijá-lo,
ela afasta-se
& beija um homem que não quer beijar.


Ele observa
pensando que ela não o quer.
Ele escuta
ouvindo o silêncio dela.
Ele afasta-se
pensando que ela é distante
& beija uma rapariga que não quer beijar.

Cada um casa com o seu -
um erro com quatro vias.
Ele vai para a cama com a sua mulher
pensando nela.
Ela vai para a cama com o seu marido
pensando nele.
- & tudo isto numa verdadeira cama com dossel, à maneira antiga.

Viveram infelizes para sempre?
Claro.
Alguma vez reparam os seus erros?
Nunca.
Quem é a vítima?
O amor é a vítima.
Quem é o vilão?
O amor que nunca morre.


(Versão minha; original reproduzido em Good poems, seleccão e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, pp. 347-348).

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Tushar Chowdhury

As palavras sem luz



A poesia ameaça o sonho envenenado, o sonho ligeiro do pub.
A pele verde das palavras oculta o fogo eterno.
A magia do corpo convoca a alma desmaiada.
Diz-lhe: levanta-te, diz-lhe: vem dançar no fogo azulado.

As palavras, como a sabedoria, serão oceânicas,
segundo alguns. Eu penso antes
que estão todas desprovidas de espírito.
As palavras devoram o vento como o acto o desejo.
As palavras são manadas de tartarugas
como o caçador que regressa a casa
depois de matar cento e um patos
e cento e um cavalos voltam ao estábulo
para comer aveia.



(Versão minha a partir das traduções castelhana e francesa de Sumana Sinha, Lionel Ray e F. Torres Monreal reproduzidas em 12 poetas bengalíes - Antologia de poesía india contemporánea, Lancelot, Murcia, 2005, p. 149).

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Richard Jones

Depois do trabalho



Emergindo do metro
para a noite fria de Manhattan,
sinto mãos ásperas no meu coração -
mulheres a gritar no mercado
sobre caixas de tomates e pimentos,
velhos sentados nos degraus a jogar às cartas,
taxistas insultando-se uns aos outros de punho no ar
enquanto os sons dos sinos da igreja
deslizam pela rua
e o pai, exausto e esfomeado
depois de um longo dia de trabalho,
abraça a sua pequena filha,
beija-a,
mi vida, mi corazón,
e desvia-lhe o cabelo dos olhos
para que ela possa ver.




(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keillor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 183).

domingo, 9 de janeiro de 2011

Stephen Dunn

Do Manifesto dos Egoístas



Porque os altruístas são as pessoas
menos sexy da terra, incapazes
de dizer sem vergonha "Eu quero",

precisamos de lhes tirar tudo
o que eles dão,
e pedir mais,

este é o modo de os estimular, e porque
é excitante
vê-los um bocado menos excitados

estaremos uma vez mais a fazer algo
por nós,
que não temos problemas em ter prazer,

sempre cheios de desejo e satisfeitos
por sermos satisfeitos, nós que acima de tudo
somos de confiança por garantirmos o equilíbrio.



(Versão minha; original reproduzido em Good poems, selecção e introdução de Garrison Keilor, Peguin Books, Nova Iorque, 2002, p. 223).

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Sunil Gangopadhyay

Unicamente para a poesia



Unicamente para a poesia esta vida, unicamente
para a poesia certos jogos, para a poesia uma tarde de inverno e só
atravesso o mundo inteiro, a paz de um instante,
de um rosto imóvel;
unicamente para a poesia, tu, a mulher,
unicamente para a poesia tantos crimes,
o aguaceiro do Ganges nas nuvens,
unicamente para a poesia desejo viver por largo tempo,
viver como um homem, viver imperfeito,
unicamente para a poesia
rejeitei a eternidade.



(Versão minha a partir das traduções castelhana e francesa reproduzidas em 12 poetas bengalíes - Antologia de poesía india contemporánea, selecção e tradução de Sumana Sinha e Lionel Ray para francês e de F. Torres Monreal para castelhano, Lancelot, Murcia, 2005, p. 87).

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Walid Khaznadar

Casa, casas



Coroei-me a mim próprio
e proclamei-te rainha
Fiz-te uma trança com erva e calcei
- espreitando-os -
os teus pequenos pés
com sapatos feitos de rosas
Com ramos verdes fiz um arco
para que passasses
Fomos assaltados por rebentos
e pelos primeiros arrepios
E enquanto nos separávamos:
- Deixei-me vê-la
- Deixei-me ser o primeiro a vê-la
o horizonte incendiava-se
os homens preparavam os seus fuzis
e as mulheres estendiam distraidamente
panos brancos
sobre cordas intermináveis



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em La poésie palestinienne contemporaine, selecção e tradução de Addellatif Laâbi, Le Temps des Cerises / Maison de la Poésie Rhône-Alpes, 2002, p. 169).

domingo, 2 de janeiro de 2011

Azeddine al-Manacirah

A cirrose de Ícaro



Entre Ícaro e mim, anos-luz
E no entanto reencontramo-nos
num só ponto do mundo
nocturnamente, sem ninguém nos ver
mesmo se a noite, por exemplo em Beirute,
não chega para esconder os segredos
É um homem estranho
O seu acto é um erro que não se repete como a dinamite
disse-nos o instrutor
Antes de realizar esse acto
ele foi atacado por uma cirrose
segredo que só os que lhe eram próximos conheciam
Ele é o filho do mar, ela a descendente do fogo
Ele é o filho do pássaro, ela descende da árvore das dissidências
E no entanto eu continuo à espera
que a História se repita
Sim, senhor, ela repete-se por vezes
Ele arderá no seu sol
eu: o exílio derreter-me-á
Ele há-de unir-se à capa da erva celeste
eu: serei corroído na terra pedregosa dos exílios
Eis o resultado da ausência de planificação, ó Ícaro!
Acreditas agora em mim, caro defunto?



(Versão minha a partir da tradução francesa reproduzida em La poésie palestinienne contemporaine, selecção e tradução de Abdellatif Laâbi, Le Temps des Cerises / Maison de la Poésie Rhône-Alpes, 2002, pp. 74-75).