Versão
Estas linhas traduzem um poema
de autor desconhecido.
Uma música antiga, ouvida um dia
no carro, a caminho do trabalho,
ou a conversa em que falavam
de noivos umas raparigas tão jovens
que espiei sem querer, transido de nostalgia.
Ou talvez traduzam o sorriso
que salva uma manhã, ou as vozes
que nos ferem nos sonhos, ou uma paisagem,
ou uma história esquecida... É um poema
incerto de autor desconhecido este que estas linhas
traduzem desajeitadamente com recurso
a um dicionário obscuro.
A sua língua original foi a do fogo
e nunca ninguém alcançou uma versão exacta.
(Versão minha; original reproduzido em Con el tiempo; Renacimiento, Sevilha, 2010, p. 41).
sábado, 15 de junho de 2019
segunda-feira, 27 de maio de 2019
Juan Manuel Bonet
Janelas sobre o Vltava
O vento arrasta o céu. A chuva
molha. Ao longe bate uma persiana esquecida.
O rádio dá notícias sobre as cinzas
da Europa. A água ferve sobre o fogo.
A rosa desfolha-se. O limpa-chaminés
não veio. Tenho de comprar um disco
de blues. Escreveram-me uma carta
anunciando-me que morreu, ultramarino,
Vicente Huidobro. Os meus antigos amigos
ameaçam expulsar-me desta casa fria. Oxalá
possa escrever alguns versos menos maus, que digam
todo o horror e toda a doçura
de viver nesta cidade, neste tempo
de suspeitas, de mentiras,
de forcas levantadas por aqueles
que quisemos ver no Castelo.
Oxalá um dia se editem,
nesta cidade, estes versos, e se tornem
incompreensíveis.
O vento arrasta o céu. A chuva
molha. Ao longe bate uma persiana esquecida.
O rádio dá notícias sobre as cinzas
da Europa. A água ferve sobre o fogo.
A rosa desfolha-se. O limpa-chaminés
não veio. Tenho de comprar um disco
de blues. Escreveram-me uma carta
anunciando-me que morreu, ultramarino,
Vicente Huidobro. Os meus antigos amigos
ameaçam expulsar-me desta casa fria. Oxalá
possa escrever alguns versos menos maus, que digam
todo o horror e toda a doçura
de viver nesta cidade, neste tempo
de suspeitas, de mentiras,
de forcas levantadas por aqueles
que quisemos ver no Castelo.
Oxalá um dia se editem,
nesta cidade, estes versos, e se tornem
incompreensíveis.
[por volta de 1949]
(Versão minha; original reproduzido em Via Labirinto - Poesía (1978-2015), La Veleta, Granada, 2015, p. 130).
sexta-feira, 17 de maio de 2019
Ron Padgett
Estruturas sintácticas
Foi como se
enquanto conduzia por uma estrada poeirenta de uma só faixa
com altos pinheiros dos dois lados
a paisagem tivesse uma sintaxe
idêntica à da nossa língua
e à medida que me movia
uma longa frase estivesse a ser dita
do lado direito e outra do lado esquerdo
então pensei
Talvez a paisagem
possa compreender também aquilo que eu digo.
Mais à frente havia uma casa numa quinta
com crianças a brincar à beira da estrada
pelo que abrandei
e acenei-lhes.
Elas eram ainda suficientemente pequenas
para sorrirem e devolverem o aceno.
Foi como se
enquanto conduzia por uma estrada poeirenta de uma só faixa
com altos pinheiros dos dois lados
a paisagem tivesse uma sintaxe
idêntica à da nossa língua
e à medida que me movia
uma longa frase estivesse a ser dita
do lado direito e outra do lado esquerdo
então pensei
Talvez a paisagem
possa compreender também aquilo que eu digo.
Mais à frente havia uma casa numa quinta
com crianças a brincar à beira da estrada
pelo que abrandei
e acenei-lhes.
Elas eram ainda suficientemente pequenas
para sorrirem e devolverem o aceno.
(Versão minha; original reproduzido em Alone and not alone, Coffee House Press, Minneapolis, 2015, p. 64).
sábado, 27 de abril de 2019
Ron Padgett
Os números romanos
Multiplicar deve ter sido
bem complicado para os Romanos
- não me refiro à acção de se reproduzirem
mas ao campo da computação.
Pensa num número romano
por um instante, um dos grandes
como MDCCLIX. Repara
nas colunas, nas arcadas
e nas arquitraves: não podes movê-las,
mas são tão belas e
majestosas! Tenta, no entanto, multiplicar
MDCCCLXIV por MCCLVIII.
Como é que eles faziam?
Pus esta questão há uns anos
e nunca encontrei uma resposta
pois nunca a procurei,
mas é agradável
viver com uma questão deste género.
Talvez os Romanos não fossem bons a matemática,
ao contrário dos Árabes, que chegaram
com carradas de números, suficientes
para toda a gente. Ainda hoje temos
mais do que aqueles de que precisamos.
Eu tenho um 6 e um 7 que,
postos lado a lado, formam a minha idade.
Pensando bem,
preferia ter LXVII.
Multiplicar deve ter sido
bem complicado para os Romanos
- não me refiro à acção de se reproduzirem
mas ao campo da computação.
Pensa num número romano
por um instante, um dos grandes
como MDCCLIX. Repara
nas colunas, nas arcadas
e nas arquitraves: não podes movê-las,
mas são tão belas e
majestosas! Tenta, no entanto, multiplicar
MDCCCLXIV por MCCLVIII.
Como é que eles faziam?
Pus esta questão há uns anos
e nunca encontrei uma resposta
pois nunca a procurei,
mas é agradável
viver com uma questão deste género.
Talvez os Romanos não fossem bons a matemática,
ao contrário dos Árabes, que chegaram
com carradas de números, suficientes
para toda a gente. Ainda hoje temos
mais do que aqueles de que precisamos.
Eu tenho um 6 e um 7 que,
postos lado a lado, formam a minha idade.
Pensando bem,
preferia ter LXVII.
(Versão minha a partir do original publicado em Alone and not alone, Coffee Houese Press, Minneapolis, 2015, pp. 2-3).
segunda-feira, 22 de abril de 2019
Abbas Kiarostami
(...)
XL
As flores silvestres
ninguém as cheirou
ninguém as colheu
ninguém as vendeu
ninguém as comprou
(...)
LXIII
Por negligência
cruzaram-se
duas linhas paralelas
(...)
CX
Só
o cavalo de bronze
não atira ao chão
o seu cavaleiro
(...)
CXL
Não sabia ler
nem escrever
mas dizia coisas
que eu nunca havia lido
nem ninguém havia escrito
(...)
CXLII
No dicionário
à frente da palavra "nada"
naturalmente
tem de estar escrito
"nada"
(...)
CLI
Reunião
de hortaliças
no mercado da fruta
(...)
CLVI
O glorioso dia do nascimento
o amargo dia da morte
entre ambos alguns dias
(...)
CCVI
Quando no meu bolso não tenho nada
tenho poemas
quando no frigorífico não tenho nada
tenho poemas
quando no coração não tenho nada
nada tenho
(...)
XL
As flores silvestres
ninguém as cheirou
ninguém as colheu
ninguém as vendeu
ninguém as comprou
(...)
LXIII
Por negligência
cruzaram-se
duas linhas paralelas
(...)
CX
Só
o cavalo de bronze
não atira ao chão
o seu cavaleiro
(...)
CXL
Não sabia ler
nem escrever
mas dizia coisas
que eu nunca havia lido
nem ninguém havia escrito
(...)
CXLII
No dicionário
à frente da palavra "nada"
naturalmente
tem de estar escrito
"nada"
(...)
CLI
Reunião
de hortaliças
no mercado da fruta
(...)
CLVI
O glorioso dia do nascimento
o amargo dia da morte
entre ambos alguns dias
(...)
CCVI
Quando no meu bolso não tenho nada
tenho poemas
quando no frigorífico não tenho nada
tenho poemas
quando no coração não tenho nada
nada tenho
(...)
(Tradução minha a partir de El viento y la hoja, tradução castelhana de Ahmad Taherí e de Clara Janés; prólogo de Santos Zunzunegui; Salto de Página, 2015).
sábado, 20 de abril de 2019
Víctor Botas
"A fragrância desnuda..."
A fragrância desnuda
do íntimo crepúsculo, nas tardes
dolentes do jardim (nunca o esqueças),
deve-se, mais do que tudo,
ao facto de um homem vulgar
ter aqui posto, um dia,
o esterco necessário.
A fragrância desnuda
do íntimo crepúsculo, nas tardes
dolentes do jardim (nunca o esqueças),
deve-se, mais do que tudo,
ao facto de um homem vulgar
ter aqui posto, um dia,
o esterco necessário.
(Versão minha a partir do original castelhano incluído em Poesía completa, La Isla de Siltolá, Sevilha, 2012, p. 38).
sábado, 19 de janeiro de 2019
Mary Oliver
Cavalos azuis, de Franz Marc
Passo para dentro do quadro dos quatro cavalos azuis.
Não chego a espantar-me por conseguir fazê-lo.
Um dos cavalos avança na minha direção.
O seu nariz azul fareja-me levemente. Ponho o meu braço
em volta da sua crina azul, não para o prender, apenas para nos ligarmos.
Ele permite-me esse prazer.
Franz Marc morreu jovem, o cérebro rebentado pela metralha.
Eu havia de preferir morrer a ter de explicar o que é a guerra aos cavalos azuis.
Eles tombariam desfalecidos, tomados pelo horror, ou simplesmente não acreditariam nas minhas palavras.
Não sei como posso agradecer-lhe, Franz Marc.
Talvez o nosso mundo possa tornar-se um dia mais bondoso.
Talvez o desejo de criar algo de maravilhoso seja a semente de Deus que existe em cada um de nós.
Agora os quatro cavalos aproximam-se ainda mais, inclinam as cabeças sobre mim como se tivessem segredos a revelar.
Não espero que me falem, e eles não o fazem.
Se serem belos como são não é suficiente, o que poderiam eles dizer?
(versão minha; original reproduzido em Devotions, Peguin Press, Nova Iorque, 2017, p.21).
Passo para dentro do quadro dos quatro cavalos azuis.
Não chego a espantar-me por conseguir fazê-lo.
Um dos cavalos avança na minha direção.
O seu nariz azul fareja-me levemente. Ponho o meu braço
em volta da sua crina azul, não para o prender, apenas para nos ligarmos.
Ele permite-me esse prazer.
Franz Marc morreu jovem, o cérebro rebentado pela metralha.
Eu havia de preferir morrer a ter de explicar o que é a guerra aos cavalos azuis.
Eles tombariam desfalecidos, tomados pelo horror, ou simplesmente não acreditariam nas minhas palavras.
Não sei como posso agradecer-lhe, Franz Marc.
Talvez o nosso mundo possa tornar-se um dia mais bondoso.
Talvez o desejo de criar algo de maravilhoso seja a semente de Deus que existe em cada um de nós.
Agora os quatro cavalos aproximam-se ainda mais, inclinam as cabeças sobre mim como se tivessem segredos a revelar.
Não espero que me falem, e eles não o fazem.
Se serem belos como são não é suficiente, o que poderiam eles dizer?
(versão minha; original reproduzido em Devotions, Peguin Press, Nova Iorque, 2017, p.21).
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Ron Padgett
O poeta como pássaro imortal
Há coisa de segundos o meu coração foi-se abaixo
e eu pensei, "Eis uma péssima altura
para se ter um ataque cardíaco e morrer, a
meio de um poema", depois senti-me confortado
pensando que nunca ninguém a quem eu tenha dado ouvidos
alguma vez morreu a meio da escrita
de um poema, tal como os pássaros nunca morrem em pleno voo.
Acho eu.
(Versão minha; original aqui).
Há coisa de segundos o meu coração foi-se abaixo
e eu pensei, "Eis uma péssima altura
para se ter um ataque cardíaco e morrer, a
meio de um poema", depois senti-me confortado
pensando que nunca ninguém a quem eu tenha dado ouvidos
alguma vez morreu a meio da escrita
de um poema, tal como os pássaros nunca morrem em pleno voo.
Acho eu.
(Versão minha; original aqui).
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
Terri Kirby Erickson
Milton, o meu primo
Milton, o meu primo, trabalhou numa empresa de telecomunicações.
O rapaz que eu conheci quando éramos crianças
mostrava muitas vezes os punhos cerrados, o rosto com o aspecto
de um homem velho cuja vida foi tão dura
que o endureceu. Mas as mãos do homem abriram-se para acolher
mais mundo dentro de si. Ele enviava os cartões de Natal
mais divertidos para a família e os amigos, estendendo
cabos para que outros pudessem conectar-se. Porém,
viveu sozinho, isolando-se na maior parte do tempo, de tal forma
que, quando a sua irmã encontrou o seu corpo, já ele tinha
partido há muito. Morreu novo, aos cinquenta e sete, sem
espalhafato nem incómodo. Ninguém junto ao seu leito
ou dando-lhe sopa à boca. Limitou-se a ficar estendido como
um cabo que deixa o sinal passar através dele.
(Versão minha; original aqui).
Milton, o meu primo, trabalhou numa empresa de telecomunicações.
O rapaz que eu conheci quando éramos crianças
mostrava muitas vezes os punhos cerrados, o rosto com o aspecto
de um homem velho cuja vida foi tão dura
que o endureceu. Mas as mãos do homem abriram-se para acolher
mais mundo dentro de si. Ele enviava os cartões de Natal
mais divertidos para a família e os amigos, estendendo
cabos para que outros pudessem conectar-se. Porém,
viveu sozinho, isolando-se na maior parte do tempo, de tal forma
que, quando a sua irmã encontrou o seu corpo, já ele tinha
partido há muito. Morreu novo, aos cinquenta e sete, sem
espalhafato nem incómodo. Ninguém junto ao seu leito
ou dando-lhe sopa à boca. Limitou-se a ficar estendido como
um cabo que deixa o sinal passar através dele.
(Versão minha; original aqui).
terça-feira, 31 de julho de 2018
Elmer Diktonius
Aforismos
(...)
Num homem a nacionalidade não é mais do que os restos de merda que pisou.
Homens, lavai os pés!
Aquele que não sente o odor da podridão hedionda desta sociedade já tem a podridão instalada no seu próprio nariz.
Não vêem que este neste mundo a verdade se converteu em luz artificial e a mentira em obscuridade natural.
Atirar borda fora tudo o que é velho não é ainda criar algo de novo. Mas significa estar no bom caminho.
Para que os críticos não esqueçam:
todas as verdades são verdades temporais: nascem, vivem e morrem.
Mas, apesar de tudo, há uma verdade eterna, uma lei eterna.
E diz assim: é a juventude que cria as verdades temporais.
Agarrei a força na minha mão.
Amei a força.
Nasceram aforismos.
Não sou um pensador, muito menos um filósofo (não quero apodos para um cavalo selvagem!).
Um homem: um coração e um cérebro.
Vivi e vi.
(...)
Num homem a nacionalidade não é mais do que os restos de merda que pisou.
Homens, lavai os pés!
Aquele que não sente o odor da podridão hedionda desta sociedade já tem a podridão instalada no seu próprio nariz.
Não vêem que este neste mundo a verdade se converteu em luz artificial e a mentira em obscuridade natural.
Atirar borda fora tudo o que é velho não é ainda criar algo de novo. Mas significa estar no bom caminho.
Para que os críticos não esqueçam:
todas as verdades são verdades temporais: nascem, vivem e morrem.
Mas, apesar de tudo, há uma verdade eterna, uma lei eterna.
E diz assim: é a juventude que cria as verdades temporais.
Agarrei a força na minha mão.
Amei a força.
Nasceram aforismos.
Não sou um pensador, muito menos um filósofo (não quero apodos para um cavalo selvagem!).
Um homem: um coração e um cérebro.
Vivi e vi.
(Versão minha a partir da tradução castelhana Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses, Libros del Innombrable, Saragoça, 2014, pp. 60-64).
sábado, 21 de julho de 2018
Elmer Diktonius
Aforismos
(...)
A vós, artistas futuros, desejo-vos que tenhais um certo tipo de audácia: a revolucionária.
Aquela que vos faça preferir o salto mortal em busca de um sistema de valores desconhecido em vez de ficarem sentados na terra num lodo que fede a velho.
Não sei se é uma vergonha ou uma glória imperecível, mas é assim: são os escravos que criam as maiores canções de libertação.
Uma ferida que arde:
que a maioria dos artistas revolucionários em matéria de arte seja em relação às grandes questões do seu tempo conservadora; e que a maioria dos revolucionários nas questões do seu tempo seja conservadora na sua relação com a arte.
O mundo quer dormir.
Os artistas, os investigadores e os trabalhadores mantêm-no desperto.
Para que serve a filosofia se tudo gira em volta do estômago ou da parte inferior do ventre feminino!
Para os pequenos tudo é delírio de grandeza.
Só os pássaros domésticos têm ânsias. Os selvagens voam.
Escrevo porque sou débil.
Melhor seria arranjar um machado e avançar pelo mundo às cutiladas.
(...)
(...)
A vós, artistas futuros, desejo-vos que tenhais um certo tipo de audácia: a revolucionária.
Aquela que vos faça preferir o salto mortal em busca de um sistema de valores desconhecido em vez de ficarem sentados na terra num lodo que fede a velho.
Não sei se é uma vergonha ou uma glória imperecível, mas é assim: são os escravos que criam as maiores canções de libertação.
Uma ferida que arde:
que a maioria dos artistas revolucionários em matéria de arte seja em relação às grandes questões do seu tempo conservadora; e que a maioria dos revolucionários nas questões do seu tempo seja conservadora na sua relação com a arte.
O mundo quer dormir.
Os artistas, os investigadores e os trabalhadores mantêm-no desperto.
Para que serve a filosofia se tudo gira em volta do estômago ou da parte inferior do ventre feminino!
Para os pequenos tudo é delírio de grandeza.
Só os pássaros domésticos têm ânsias. Os selvagens voam.
Escrevo porque sou débil.
Melhor seria arranjar um machado e avançar pelo mundo às cutiladas.
(...)
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses, Libros del Innombrable, 2014, Saragoça, pp. 60-63).
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Elmer Diktonius
Aforismos
(…)
Eu não responsabilizo unicamente a sociedade actual pela humilhante situação em que se encontra a arte.
São os próprios artistas que têm a maior parte da culpa de todos os males da arte.
Por não derrubarem este manicómio.
Por não morderem - ainda que tenham dentes.
O público não entende bem a arte - e diz disparates ou sente-se mal.
Os estetas não a entendem - e escrevem livros sobre ela.
Portanto: muito mais perigosos.
Exigir a um artista que faça uma arte nacional é como exigir-lhe uma arte dourada ou acastanhada de acordo com a cor do seu cabelo.
Estilo, técnica - asas para voar.
Muitos dos que voam nas alturas são só asas.
Vós, artistas do futuro - vendei as asas e comprai antes umas boas botas, assim podereis caminhar com passo firme pela escabrosa superfície da terra.
Sede mais terrenos, assim os vossos cantos soarão mais celestiais!
Não é a arte que se deve popularizar.
É a necessidade da arte que se deve tornar popular.
(…)
(…)
Eu não responsabilizo unicamente a sociedade actual pela humilhante situação em que se encontra a arte.
São os próprios artistas que têm a maior parte da culpa de todos os males da arte.
Por não derrubarem este manicómio.
Por não morderem - ainda que tenham dentes.
O público não entende bem a arte - e diz disparates ou sente-se mal.
Os estetas não a entendem - e escrevem livros sobre ela.
Portanto: muito mais perigosos.
Exigir a um artista que faça uma arte nacional é como exigir-lhe uma arte dourada ou acastanhada de acordo com a cor do seu cabelo.
Estilo, técnica - asas para voar.
Muitos dos que voam nas alturas são só asas.
Vós, artistas do futuro - vendei as asas e comprai antes umas boas botas, assim podereis caminhar com passo firme pela escabrosa superfície da terra.
Sede mais terrenos, assim os vossos cantos soarão mais celestiais!
Não é a arte que se deve popularizar.
É a necessidade da arte que se deve tornar popular.
(…)
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses; Libros del Innombrable, 2014, saragoça, pp. 60-63).
terça-feira, 17 de julho de 2018
Elmer Diktonius
Aforismos
Não se deve procurar um substituto da vida na arte.
A arte não é um sucedâneo: é a vida viva.
Uma parte da vida.
Talvez a maior, a mais esplendorosa.
De qualquer modo: só uma parte.
Se o sentido da arte fosse o de nos adormecer, de nos fazer olvidar a vida, então a melhor obra de arte, a mais simples, seria uma martelada na cabeça.
Para estar viva, uma obra de arte não precisa de beleza; nem de fealdade.
Precisa de vida.
Chegar à arte pelo caminho dos estetas é contentar-se com ossos roídos. (E até que ponto roídos!)
Tu, homem, se tens dentes, morde!
(O grande não é para os desdentados.)
A única forma de falar de arte é falar com arte - criar.
Por que tem de vender o artista a sua arte?
Para poder viver.
Por que tem o público de comprá-la?
Para poder viver.
(...)
Não se deve procurar um substituto da vida na arte.
A arte não é um sucedâneo: é a vida viva.
Uma parte da vida.
Talvez a maior, a mais esplendorosa.
De qualquer modo: só uma parte.
Se o sentido da arte fosse o de nos adormecer, de nos fazer olvidar a vida, então a melhor obra de arte, a mais simples, seria uma martelada na cabeça.
Para estar viva, uma obra de arte não precisa de beleza; nem de fealdade.
Precisa de vida.
Chegar à arte pelo caminho dos estetas é contentar-se com ossos roídos. (E até que ponto roídos!)
Tu, homem, se tens dentes, morde!
(O grande não é para os desdentados.)
A única forma de falar de arte é falar com arte - criar.
Por que tem de vender o artista a sua arte?
Para poder viver.
Por que tem o público de comprá-la?
Para poder viver.
(...)
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses, Libros del Innombrable, 2014, Saragoça, pp. 60-63).
domingo, 15 de julho de 2018
Henry Parland
"Tenho o costume de comer..."
Tenho o costume de comer.
Contra ele talvez
alguém objecte que todos os homens.
Mas é isso uma objecção?
Tenho o costume de comer.
Contra ele talvez
alguém objecte que todos os homens.
Mas é isso uma objecção?
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz inckuída em Cinco poetas finlandeses; Libros del Innombrable, 2014, Saragoça, p. 208).
terça-feira, 29 de maio de 2018
Gloria Fuertes
"... e em Castela vejo uma árvore"
... e em Castela vejo uma árvore
e parece que vejo alguém da minha família.
(Versão minha; poema incluído em Obras incompletas, Catedra, Madrid, 24ª edição, 2017, p. 295).
... e em Castela vejo uma árvore
e parece que vejo alguém da minha família.
(Versão minha; poema incluído em Obras incompletas, Catedra, Madrid, 24ª edição, 2017, p. 295).
sábado, 28 de abril de 2018
Eduardo Chirinos
8
Uma formiga carrega com esforço
uma folha.
A folha é enorme
e multiplica o seu tamanho. Trata-se
de um dever inevitável, de uma
obediência atávica.
Atrás dela
formigas idênticas carregam folhas
idênticas. Amanhã repetirão o ritual,
a sua razão de ser que ignoro.
Em breve cumprirei cinquenta anos.
Penso na formiga.
Na sua dança cega até à morte.
Uma formiga carrega com esforço
uma folha.
A folha é enorme
e multiplica o seu tamanho. Trata-se
de um dever inevitável, de uma
obediência atávica.
Atrás dela
formigas idênticas carregam folhas
idênticas. Amanhã repetirão o ritual,
a sua razão de ser que ignoro.
Em breve cumprirei cinquenta anos.
Penso na formiga.
Na sua dança cega até à morte.
(Versão minha; original reproduzido em Antología - La poesia del siglo XX en Perú; seleção de José Miguel Oviedo; Visor, Madrid, 2008, p. 678.)
domingo, 22 de abril de 2018
Miguel d' Ors
"À une passante"
Vê como é gorda e vulgar! E que saia!
De certeza que se chama Beta ou Xana
(não serás baço ao ponto de a imaginares Jénnifer).
De certeza que segue todas as novelas.
De certeza que diz tipo - e com a pastilha elástica
a assomar por entre cada parvoíce.
Cabeleireira ou caixa, muito sincera,
moderna com o seu piercing,
coscuvilheira, devota de Nossa Senhora de Fátima
e doida por "sair": todos os requisitos
da mulher com que sempre sonhaste
nos teus pesadelos mais negros.
E,
no entanto - confessa - por um instante, só
o tempo de um clarão,
algo dentro de ti sente inveja: essa
mão apoiada no seu ombro,
a mão desse namorado de bairro social,
também rasa e grosseira, habituada ao tijolo
e ao maçarico, essa mão que, apesar de tudo, tu
sabes que, à sua maneira, é o Amor.
28-IV-06
(Versão minha; poema do livro Sociedad limitada, Renacimiento, Sevilha, 2010, p. 55).
Vê como é gorda e vulgar! E que saia!
De certeza que se chama Beta ou Xana
(não serás baço ao ponto de a imaginares Jénnifer).
De certeza que segue todas as novelas.
De certeza que diz tipo - e com a pastilha elástica
a assomar por entre cada parvoíce.
Cabeleireira ou caixa, muito sincera,
moderna com o seu piercing,
coscuvilheira, devota de Nossa Senhora de Fátima
e doida por "sair": todos os requisitos
da mulher com que sempre sonhaste
nos teus pesadelos mais negros.
E,
no entanto - confessa - por um instante, só
o tempo de um clarão,
algo dentro de ti sente inveja: essa
mão apoiada no seu ombro,
a mão desse namorado de bairro social,
também rasa e grosseira, habituada ao tijolo
e ao maçarico, essa mão que, apesar de tudo, tu
sabes que, à sua maneira, é o Amor.
28-IV-06
(Versão minha; poema do livro Sociedad limitada, Renacimiento, Sevilha, 2010, p. 55).
domingo, 18 de fevereiro de 2018
Huseyín Ferad
A minha amante é uma loba da estepe (o nascimento da poesia)
A poesia é uma folha de erva
Eu sou um pastor.
O sopro da escuridão é Poesia
O inaudível grito de um morcego.
Uma estrela encostada ao meu coração
Chora quando desperta
Goteja resina oferecida pelas suas pestanas a arder.
A poesia é navegar pelos céus azuis
Eu sou um perdigão sinistro.
Impossível conhecer a cor das palavras
E a da minha língua.
A minha amante é um cisne
Cruzando o lago
Arrulha
E eu consumo-me com cio.
A poesia é a frescura do centeio
A rebeldia das formigas.
Desconheço a cor do meu rosto
A cor da minha língua.
A minha amante é uma loba da estepe.
Sou um corço
Os guarda-florestais perseguem-me
Quando ela uiva.
O sussurro da vida é poesia
O lamento da morte.
A poesia é uma folha de erva
Eu sou um pastor.
O sopro da escuridão é Poesia
O inaudível grito de um morcego.
Uma estrela encostada ao meu coração
Chora quando desperta
Goteja resina oferecida pelas suas pestanas a arder.
A poesia é navegar pelos céus azuis
Eu sou um perdigão sinistro.
Impossível conhecer a cor das palavras
E a da minha língua.
A minha amante é um cisne
Cruzando o lago
Arrulha
E eu consumo-me com cio.
A poesia é a frescura do centeio
A rebeldia das formigas.
Desconheço a cor do meu rosto
A cor da minha língua.
A minha amante é uma loba da estepe.
Sou um corço
Os guarda-florestais perseguem-me
Quando ela uiva.
O sussurro da vida é poesia
O lamento da morte.
(versão minha a partir da tradução catelhana publicada em Poesía Contemporánea de la República de Turquía, tradução de Jaime B. Rosa e Metin Cengiz, Vision Libros, Madrid, 2013, pp. 61-62)
domingo, 14 de janeiro de 2018
Margherita Guidacci
Não quero
Todos os vossos instrumentos têm nomes estranhos
e difíceis, mas eu vejo claramente
e sei que, no fundo, são só
fitas métricas e giz com os quais medis
e marcais - marcais e medis
sem vos cansardes.
Tirais alfinetes de entre os lábios, como os alfaiates:
espetais-mos na alma
e dizeis: "Aqui faremos uma bela bainha.
Assim vai ficar muito melhor."
Eu não quero que me corteis um bocado da alma!
Se tenho demasiada para entrar no vosso mundo,
pois bem, não quero entrar.
Sou uma poetisa:
uma borboleta, um ser
delicado, com asas.
Se mas arrancarem, vou retorcer-me na terra,
mas não será por isso que me converterei
numa alegre e disciplinada formiga.
Todos os vossos instrumentos têm nomes estranhos
e difíceis, mas eu vejo claramente
e sei que, no fundo, são só
fitas métricas e giz com os quais medis
e marcais - marcais e medis
sem vos cansardes.
Tirais alfinetes de entre os lábios, como os alfaiates:
espetais-mos na alma
e dizeis: "Aqui faremos uma bela bainha.
Assim vai ficar muito melhor."
Eu não quero que me corteis um bocado da alma!
Se tenho demasiada para entrar no vosso mundo,
pois bem, não quero entrar.
Sou uma poetisa:
uma borboleta, um ser
delicado, com asas.
Se mas arrancarem, vou retorcer-me na terra,
mas não será por isso que me converterei
numa alegre e disciplinada formiga.
(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia; seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid, 2017, p. 93)
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Vivian Lamarque
"Caro doutor..."
Caro doutor
sem o seu amor
estou como na água de um dedal
um peixe do mar.
Caro doutor
sem o seu amor
estou como na água de um dedal
um peixe do mar.
(versão minha a partir do original e da tradução castelhana apresentada em La Poesía del Siglo XX en Italia; seleção de Emilio Coco, Visor, Madrid,, 2017, p. 463).
sábado, 23 de dezembro de 2017
Miren Agur Meabe
O código
Reivindico outro código:
um código diferente da palavra,
um idioma não verbal,
uma linguagem impossível de condenar na memória,
um dizer que desminta juramentos,
um falar mudo
sem livro de reclamações nem tabela de preços,
um fluir permanente de mensagens ambíguas,
a expressão daquilo que não se quer expressar.
(versão minha a partir da tradução castelhana apresentada em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco, Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 141).
Reivindico outro código:
um código diferente da palavra,
um idioma não verbal,
uma linguagem impossível de condenar na memória,
um dizer que desminta juramentos,
um falar mudo
sem livro de reclamações nem tabela de preços,
um fluir permanente de mensagens ambíguas,
a expressão daquilo que não se quer expressar.
(versão minha a partir da tradução castelhana apresentada em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco, Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 141).
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
Harkaitz Cano
Súplicas atendidas
Deus ajuda os inconscientes.
Lamentavelmente, eles não se apercebem.
(versão minha a partir da tradução castelhana apresentada em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco, Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 249).
Deus ajuda os inconscientes.
Lamentavelmente, eles não se apercebem.
(versão minha a partir da tradução castelhana apresentada em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco, Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 249).
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Rikardo Arregi Diaz de Heredia
Fotografia de guerra
Essas bombas mataram gente. Falo de pessoas.
Prova irrefutável da fragilidade da carne,
rebentaram olhos, sangue foi derramado,
destroçaram-se fígados e demais vísceras
como se se tratasse de obra de nouvelle cuisine.
Revela-se, porém, surpreendente a integridade dos objetos:
os sapatos estão inteiros, não têm mais que pó,
e também se acham intactos os armários e as camas,
os lençóis tingidos de vermelho, quase sem rasgões,
e nem todos os vidros se partiram, só alguns,
e o espelho parece que acaba de ser comprado,
e os tapetes impecáveis, só pó, e de novo
sangue coagulado sobre a superfície de todas as coisas.
É verdade que as paredes foram deitadas abaixo
e que há um buraco no teto, por onde entrou
a bomba. O resto dos objetos potencialmente frágeis
continua de pé. Pó e sangue por todo o lado,
obviamente, não podia ser de outro modo, mas
os pedreiros poderiam reconstruir sem grande problemas
aquilo que já não podem reparar os médicos.
Essas bombas mataram gente. Falo de pessoas.
Prova irrefutável da fragilidade da carne,
rebentaram olhos, sangue foi derramado,
destroçaram-se fígados e demais vísceras
como se se tratasse de obra de nouvelle cuisine.
Revela-se, porém, surpreendente a integridade dos objetos:
os sapatos estão inteiros, não têm mais que pó,
e também se acham intactos os armários e as camas,
os lençóis tingidos de vermelho, quase sem rasgões,
e nem todos os vidros se partiram, só alguns,
e o espelho parece que acaba de ser comprado,
e os tapetes impecáveis, só pó, e de novo
sangue coagulado sobre a superfície de todas as coisas.
É verdade que as paredes foram deitadas abaixo
e que há um buraco no teto, por onde entrou
a bomba. O resto dos objetos potencialmente frágeis
continua de pé. Pó e sangue por todo o lado,
obviamente, não podia ser de outro modo, mas
os pedreiros poderiam reconstruir sem grande problemas
aquilo que já não podem reparar os médicos.
(versão minha a partir da tradução castelhana de Ángel Erro incluída em Las Aguas Tranquilas - Ocho poetas vascos actuales; seleção de Aitor Franco: Renacimiento, Sevilha, 2017, p. 43).
quarta-feira, 13 de maio de 2015
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Rajatendra Mukhopadhyay
Sobre a visita ao tigre
Os tigres gostam muito de se olhar a si próprios. Vêm à margem do rio ao entardecer. As suas sombras saltam na água brilhante. Para ver o rosto do tigre temos de agarrar o tigre por trás tocando no ombro do animal e pondo o rosto do visitante ao lado dele. Mas creio que ninguém o conseguiu fazer, à excepção de Tarzan.
Existem mais ou menos três formas de nos aproximarmos, na nossa vida selvática.
São:
1 Quando o tigre está dentro da jaula, tu estás fora (por exemplo no zoo)
2 Quando o tigre está fora da jaula, tu estás dentro (por exemplo na reserva natural)
3 Quando o tigre e tu estão fora (por exemplo o tigre no chão e tu no alto de uma grande árvore)
Mas nada importa a não ser o desejo de ver o tigre. Se este desejo não viajar no interior da cabeça como os cânticos místicos, não se pode tirar prazer da visita.Existe ainda uma forma de ver o tigre involuntariamente: comer 24 pães fritos de Bengala que se chamam Luchi com um prato de cordeiro com muitas especiarias que se chama Kalia.
Os tigres gostam muito de se olhar a si próprios. Vêm à margem do rio ao entardecer. As suas sombras saltam na água brilhante. Para ver o rosto do tigre temos de agarrar o tigre por trás tocando no ombro do animal e pondo o rosto do visitante ao lado dele. Mas creio que ninguém o conseguiu fazer, à excepção de Tarzan.
Existem mais ou menos três formas de nos aproximarmos, na nossa vida selvática.
São:
1 Quando o tigre está dentro da jaula, tu estás fora (por exemplo no zoo)
2 Quando o tigre está fora da jaula, tu estás dentro (por exemplo na reserva natural)
3 Quando o tigre e tu estão fora (por exemplo o tigre no chão e tu no alto de uma grande árvore)
Mas nada importa a não ser o desejo de ver o tigre. Se este desejo não viajar no interior da cabeça como os cânticos místicos, não se pode tirar prazer da visita.Existe ainda uma forma de ver o tigre involuntariamente: comer 24 pães fritos de Bengala que se chamam Luchi com um prato de cordeiro com muitas especiarias que se chama Kalia.
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Subhro Bandopadhyay, com adaptação de Violeta Medina, reproduzida em La pared de agua -Antología de poesía bengali contemporánea; Olifante, Saragoça, 2011, p. 223).
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Desanka Maksimovic
Cobra
Sob a erva segada e seca
rastejava uma cobra.
À sua volta o prado vazio
(apenas uma flor).
Sobre ela duas, três nuvens,
o voo de um pássaro,
o sol que brilha.
Na curva da estrada, à distância,
alguém canta.
A melodia solitária emaranha-se
na erva.
Ela põe-se à escuta, atenta, a cabeça erguida
em pleno ar.
O sol brilha.
Este é o sítio onde mataram a sua mãe
com a lâmina de uma gadanha.
Ela terá a mesma sorte
quando rastejar para fora do matagal.
A sua roupagem apodrecerá
com os seus bordados
e a incandescência do orvalho.
Mesmo na eternidade
nunca mais esta cobra se aquecerá assim ao sol,
nem estes pássaros voarão assim,
nem esta flor germinará assim.
E o sol brilha.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic, incluída em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização e introdução do tradutor; Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 43).
Sob a erva segada e seca
rastejava uma cobra.
À sua volta o prado vazio
(apenas uma flor).
Sobre ela duas, três nuvens,
o voo de um pássaro,
o sol que brilha.
Na curva da estrada, à distância,
alguém canta.
A melodia solitária emaranha-se
na erva.
Ela põe-se à escuta, atenta, a cabeça erguida
em pleno ar.
O sol brilha.
Este é o sítio onde mataram a sua mãe
com a lâmina de uma gadanha.
Ela terá a mesma sorte
quando rastejar para fora do matagal.
A sua roupagem apodrecerá
com os seus bordados
e a incandescência do orvalho.
Mesmo na eternidade
nunca mais esta cobra se aquecerá assim ao sol,
nem estes pássaros voarão assim,
nem esta flor germinará assim.
E o sol brilha.
(Versão minha a partir da tradução inglesa de Charles Simic, incluída em The horse has six legs - An anthology of serbian poetry; organização e introdução do tradutor; Graywolf Press, Saint Paul, 1992, p. 43).
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Manuel Martínez de Navarrete (1768-1809)
Do amor
Que é prisão e enfermidade,
dizem, o amor; eu digo
que não quero, Fábio amigo,
nem saúde nem liberdade.
Que é prisão e enfermidade,
dizem, o amor; eu digo
que não quero, Fábio amigo,
nem saúde nem liberdade.
(Versão minha; original reproduzido em Dos siglos de poesía mexicana - Del XIX al fin del milenio: uma antología; seleção e prólogo de Juan Domingo Argüelles, Oceano, 2001, p. 26),
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Roberto Fernández Retamar
O outro
Nós, os sobreviventes,
A quem devemos a sobrevivência?
Quem morreu por mim na masmorra,
Quem recebeu a minha bala,
A que me foi destinada, no coração?
Sobre que morto estou eu vivo,
Os seus ossos tornando-se os meus,
Os olhos que lhe arrancaram vendo
Pelo olhar da minha cara,
E a mão que não é a sua mão,
E que também não é a minha,
Escrevendo palavras apodrecidas
Onde ele não está, na vida que sobrevive?
Nós, os sobreviventes,
A quem devemos a sobrevivência?
Quem morreu por mim na masmorra,
Quem recebeu a minha bala,
A que me foi destinada, no coração?
Sobre que morto estou eu vivo,
Os seus ossos tornando-se os meus,
Os olhos que lhe arrancaram vendo
Pelo olhar da minha cara,
E a mão que não é a sua mão,
E que também não é a minha,
Escrevendo palavras apodrecidas
Onde ele não está, na vida que sobrevive?
(Versão minha; original reproduzido em Juegos de Manos - Antología de la poesía hispanoamericana de mitad del siglo XX; organização de Ángel Esteban e Ana Gallego Cuiñas, Visor, Madrid, 2008, p. 701).
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