Sinais de agradecimento
A Luis García Montero
Não tenho carro
nem casa própria. Vivo só
e a minha conta corrente
está no vermelho.
Habito num frigorífico,
num frio promontório
varrido pelas turvas
ventanias do outono.
Passei a quarentena,
dobrei o meu Cabo Horn,
perdi todos os mastros
da alma nos escolhos.
Vivi em países
não especialmente exóticos,
mas do triste mundo
sei mais do que os geógrafos.
Nasci sob Saturno,
deus nocturno do chumbo.
Coube-me um tempo
inclinado para a tormenta.
A minha juventude entretém-se
com jogos perigosos.
Sigo sendo das esquerdas
embora pouco se note.
Não me lembro das vezes
que bati no fundo
por causa do despenhadeiro
das boas intenções,
nem quero publicitar
os meus lances mais gloriosos:
virar-me para trás
deixa-me melancólico.
Dê-se só um conselho
aos mais paranóicos:
a amnésia, se oportuna,
afasta o mal da vista.
No que respeita à memória,
melhor pecar por sóbrio:
a minha infância são recordações
de algum jardim zoológico
e deslizes pueris
de vate vaidoso
e megalomania
de calça curta.
Receio hoje os truques
dos poetas moços
e ponho-me a distinguir
as vozes dos buços.
Amo o meu povo basco,
um povo nobre e tosco
metido num atolamento
que assinaria El Bosch(o).
Deixar-lhe-ei em herança
o meu pó e os meus ossos
e quatro ou cinco livros
de versos rancorosos.
E se a poesia
me deu quase tudo
(ou seja, o belo punhado
de amigos que guardo),
brigar e apaixonar-me
são artes que melhor
conheço que a poesia:
agora julgai vós.
(Versão minha; poema incluído em Hacia da democracia. La nueva poesía (1968-2000); organização de Araceli Iravedra, Visor, 2016, pp. 446-448).
domingo, 7 de junho de 2020
quinta-feira, 4 de junho de 2020
Manuel Vilas
Hölderlin
O grande poeta, linhagem das enfermidades mentais,
cuja palavra, segundo os doutos e cabais académicos,
falou da Grécia e da Alemanha, que propôs aos mortais
um reino superior, lá nas alturas onde os deuses vivem,
foi no tempo da sua vida um pobre tonto que esqueceu
até o seu próprio nome. Teve razão Goethe, que viu nele
o que era na realidade: primeiro, um jovem exaltado,
com pouca experiência do mundo e demasiada filosofia,
depois mais um louco entre os que adubam os campos da terra.
(Versão minha; poema incluído em Hacia la democracia. La nueva poesía (1968-2000); organização de Araceli Iravedra; Visor, 2016, p. 694).
O grande poeta, linhagem das enfermidades mentais,
cuja palavra, segundo os doutos e cabais académicos,
falou da Grécia e da Alemanha, que propôs aos mortais
um reino superior, lá nas alturas onde os deuses vivem,
foi no tempo da sua vida um pobre tonto que esqueceu
até o seu próprio nome. Teve razão Goethe, que viu nele
o que era na realidade: primeiro, um jovem exaltado,
com pouca experiência do mundo e demasiada filosofia,
depois mais um louco entre os que adubam os campos da terra.
(Versão minha; poema incluído em Hacia la democracia. La nueva poesía (1968-2000); organização de Araceli Iravedra; Visor, 2016, p. 694).
segunda-feira, 20 de abril de 2020
Barry Gifford
Final de setembro em Toronto e o tempo ainda está bom
Adoro estas
miúdas
orgulhosas
dos
seus seios
Quando passamos
na rua
confessam
tudo
sabendo como
é fácil
para mim
perdoar-
-lhes
Adoro estas
miúdas
orgulhosas
dos
seus seios
Quando passamos
na rua
confessam
tudo
sabendo como
é fácil
para mim
perdoar-
-lhes
(Versão minha, a partir do original e da tradução de Blanca Tortajada, incluídos em Back in America, Renacimiento, Sevilha, edição bilingue,, 2011, p. 67.
segunda-feira, 13 de abril de 2020
Pedro Sevilla
Burros na Medina de Fez
Quando pensava que já não voltaria a ver-vos,
que seríeis somente uma paisagem remota da infância,
haveis regressado aos meus olhos, sensatos carregadores
dum mundo fabuloso que pensava extinto.
Burros meus, confrades, sábios de olhos escuros,
julgava-vos mortos e era eu que faltava,
eu que, nos braços do tempo, saí do eterno.
Na velha Medina de uma cidade de um dia
voltei a ser o menino solitário de então,
que vos olhava com lágrimas vendo os vossos joelhos
dobrarem-se sob o peso de duras cargas.
Brutos irmãos meus, inocentes burricos,
hoje vi de novo o almocreve ruço
com o seu pregão cansado de cal branca,
o padeiro alegre e a sua burrinha elegante,
a dos laçarotes vermelhos gingando à sua frente
enquanto deixava um rasto de cheiro a pão e a mãe.
Nem sequer senti medo quando vos vi
carregados de peles mortas para os curtidores,
porque já sei de um sítio onde posso esconder-me
e ser, como vós, inocente de novo.
Quando pensava que já não voltaria a ver-vos,
que seríeis somente uma paisagem remota da infância,
haveis regressado aos meus olhos, sensatos carregadores
dum mundo fabuloso que pensava extinto.
Burros meus, confrades, sábios de olhos escuros,
julgava-vos mortos e era eu que faltava,
eu que, nos braços do tempo, saí do eterno.
Na velha Medina de uma cidade de um dia
voltei a ser o menino solitário de então,
que vos olhava com lágrimas vendo os vossos joelhos
dobrarem-se sob o peso de duras cargas.
Brutos irmãos meus, inocentes burricos,
hoje vi de novo o almocreve ruço
com o seu pregão cansado de cal branca,
o padeiro alegre e a sua burrinha elegante,
a dos laçarotes vermelhos gingando à sua frente
enquanto deixava um rasto de cheiro a pão e a mãe.
Nem sequer senti medo quando vos vi
carregados de peles mortas para os curtidores,
porque já sei de um sítio onde posso esconder-me
e ser, como vós, inocente de novo.
(Versão minha; Para cuando volvamos (Poesía completa, 1992-2018); Renacimiento, Sevilla, 2018, p. 149).
domingo, 12 de abril de 2020
Pedro Sevilla
Para José Mateos
Uma imagem antiga, da minha infância,
acompanha-me sempre como um símbolo
da amizade: o meu avô, numa feira
de São Miguel, bêbedo e abraçado a outro velho,
chora feliz, ri-se e pede mais meia garrafa.
Com os abraços, com a bebedeira,
têm os fatos sujos e as boinas torcidas,
as botas enlameadas por causa
da primeira chuva de setembro.
Esta imagem, José, não é nada edificante,
no entanto sempre que penso
neste sentimento que nos une,
diferente das tristes
misérias do amor e das suas crueldades,
recrio na minha memória aqueles velhos
aturdidos de vinho e de alegria
- há charcos de água azul
no barro pisado pelos animais -:
a amizade é um par homens
que volta da feira, ou da vida
(que volta da feira que é a vida),
irmanados, rindo-se, chorando
com os braços ao ombro
e os fatos sujos.
Uma imagem antiga, da minha infância,
acompanha-me sempre como um símbolo
da amizade: o meu avô, numa feira
de São Miguel, bêbedo e abraçado a outro velho,
chora feliz, ri-se e pede mais meia garrafa.
Com os abraços, com a bebedeira,
têm os fatos sujos e as boinas torcidas,
as botas enlameadas por causa
da primeira chuva de setembro.
Esta imagem, José, não é nada edificante,
no entanto sempre que penso
neste sentimento que nos une,
diferente das tristes
misérias do amor e das suas crueldades,
recrio na minha memória aqueles velhos
aturdidos de vinho e de alegria
- há charcos de água azul
no barro pisado pelos animais -:
a amizade é um par homens
que volta da feira, ou da vida
(que volta da feira que é a vida),
irmanados, rindo-se, chorando
com os braços ao ombro
e os fatos sujos.
(Versão minha; poema incluído em Para cuando volvamos (Poesía completa, 1992-2018), Renacimiento, Sevilha, 2018, p. 112).
sábado, 11 de abril de 2020
Pedro Sevilla
Propósito
Portar-me, perante a dor, como essa amendoeira
que, ferida pelo machado, sente cair os ramos,
aos quais não voltarão mais os gorjeios.
Ser, como ela, taça de luz,
espera fecunda,
paciência milenar
que sabe que o sol de março há-de regressar
e florir-lhe a alma,
e encher de perfume as suas feridas.
Portar-me, perante a dor, como essa amendoeira
que, ferida pelo machado, sente cair os ramos,
aos quais não voltarão mais os gorjeios.
Ser, como ela, taça de luz,
espera fecunda,
paciência milenar
que sabe que o sol de março há-de regressar
e florir-lhe a alma,
e encher de perfume as suas feridas.
(Versão minha; poema incluído em Para cuando volvamos (Poesía completa, 1992-2018); Renacimiento, Sevilha, 2018, p. 156).
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Barry Gifford
O dia em que morreu Allen Ginsberg
Levantei-me cedo
olhei pela janela
as mercadorias que cruzavam
o Hudson
o sol a aparecer
recalcitrante, um dia mais frio
que o esperado
Na noite anterior ouvira dizer
que o Allen estava doente, moribundo
davam-lhe só uns
poucos meses de vida
Era estranho estar
em Nova Iorque, a sua cidade
no momento
da sua desaparição
O jornal dizia
que ele tinha terminado
recentemente
um livro novo chamado
Morte e fama
Esta tarde visitei
um dos meus melhores
e mais antigos amigos
que há poucos dias
me dissera que
não se esperava que o seu pai
vivesse mais do que
duas semanas
O pai do meu amigo era
um tipo duro
sempre gostei dele
um tipo da classe operária
de Chicago
onde ainda vivia
O filho telefonou-lhe
quando eu estava
com ele
e passou-me o telefone
O velho parecia
tão rijo como sempre
- era difícil acreditar
que ele partiria
em breve
Ao falar comigo
tratou-me por um nome
da minha infância
e de repente
fui-me abaixo
Não há maneira de impedir
isto,
pensei.
Agora Allen G. morreu
e foi saudar
o Jack e o Neal
quase trinta anos depois
Imagino o Jack
no céu budista
a dizer, Obrigado
por vires, Al
Esta manhã é o seu funeral
decidi não ir
imagino que haverá
uma multidão
e eu não gosto de funerais
de qualquer modo
qual é a ideia
Às nove da manhã
quando está agendado o início
da cerimónia budista
uma cerimónia de quatro horas
que culmina com a cremação
a campainha toca
Tenho uma visão de Allen
de pé à porta
a dizer, Eu não morri,
mas não quero perder
isto. Vem comigo!
Mas em vez dele
é o canalizador
Conheci o Allen
há trinta e um anos
em Londres
Tinha lá ido com o seu
pai Louis para fazer
um recital de poesia
Alguns anos depois
trabalhámos juntos
organizando um livro
de cartas suas e do Neal
Vi-o a última vez
faz agora dois anos
em Paris
Encontrámo-nos na
rua de Sèvres
mostrou-me uma medalha
que o ministro francês
da Cultura
lhe tinha concedido
Disse-me
que eu estava com muito bom ar
deu-me beijos húmidos
nas bochechas
Allen escreveu
Que a morte sustenha os seus fantasmas!
e ele chegou
aos setenta anos
Ele e Kerouac
foram duas
das minhas maiores inspirações
quando eu era puto
Deram-me a esperança
de que a beleza e o sentido
podiam ser encontrados
no meio do caos
Disse-lho uma vez
e o Allen respondeu
Mantém essa esperança!
Ao caminharmos juntos
num trilho do kitkidizze
do Gary Snyder em 1976
demos com
um monte de cinzas
e contornámo-lo com cuidado
As cinzas de Allen
serão enterradas
ao pé do túmulo de Louis
Na morte regressamos
ao pai
Adeus, Allen
agora estás
com os fantasmas.
Levantei-me cedo
olhei pela janela
as mercadorias que cruzavam
o Hudson
o sol a aparecer
recalcitrante, um dia mais frio
que o esperado
Na noite anterior ouvira dizer
que o Allen estava doente, moribundo
davam-lhe só uns
poucos meses de vida
Era estranho estar
em Nova Iorque, a sua cidade
no momento
da sua desaparição
O jornal dizia
que ele tinha terminado
recentemente
um livro novo chamado
Morte e fama
Esta tarde visitei
um dos meus melhores
e mais antigos amigos
que há poucos dias
me dissera que
não se esperava que o seu pai
vivesse mais do que
duas semanas
O pai do meu amigo era
um tipo duro
sempre gostei dele
um tipo da classe operária
de Chicago
onde ainda vivia
O filho telefonou-lhe
quando eu estava
com ele
e passou-me o telefone
O velho parecia
tão rijo como sempre
- era difícil acreditar
que ele partiria
em breve
Ao falar comigo
tratou-me por um nome
da minha infância
e de repente
fui-me abaixo
Não há maneira de impedir
isto,
pensei.
Agora Allen G. morreu
e foi saudar
o Jack e o Neal
quase trinta anos depois
Imagino o Jack
no céu budista
a dizer, Obrigado
por vires, Al
Esta manhã é o seu funeral
decidi não ir
imagino que haverá
uma multidão
e eu não gosto de funerais
de qualquer modo
qual é a ideia
Às nove da manhã
quando está agendado o início
da cerimónia budista
uma cerimónia de quatro horas
que culmina com a cremação
a campainha toca
Tenho uma visão de Allen
de pé à porta
a dizer, Eu não morri,
mas não quero perder
isto. Vem comigo!
Mas em vez dele
é o canalizador
Conheci o Allen
há trinta e um anos
em Londres
Tinha lá ido com o seu
pai Louis para fazer
um recital de poesia
Alguns anos depois
trabalhámos juntos
organizando um livro
de cartas suas e do Neal
Vi-o a última vez
faz agora dois anos
em Paris
Encontrámo-nos na
rua de Sèvres
mostrou-me uma medalha
que o ministro francês
da Cultura
lhe tinha concedido
Disse-me
que eu estava com muito bom ar
deu-me beijos húmidos
nas bochechas
Allen escreveu
Que a morte sustenha os seus fantasmas!
e ele chegou
aos setenta anos
Ele e Kerouac
foram duas
das minhas maiores inspirações
quando eu era puto
Deram-me a esperança
de que a beleza e o sentido
podiam ser encontrados
no meio do caos
Disse-lho uma vez
e o Allen respondeu
Mantém essa esperança!
Ao caminharmos juntos
num trilho do kitkidizze
do Gary Snyder em 1976
demos com
um monte de cinzas
e contornámo-lo com cuidado
As cinzas de Allen
serão enterradas
ao pé do túmulo de Louis
Na morte regressamos
ao pai
Adeus, Allen
agora estás
com os fantasmas.
(Versão minha a partir do original e da tradução espanhola de Blanca Tortajada reproduzidos em Back in America, Renacimiento, Sevilha, edição bilingue, 2011, p. 25-33).
quinta-feira, 9 de abril de 2020
Barry Gifford
Poema
Que o pensamento
de ficar sem ti
me passe pela cabeça
deixa-me passado
Nunca me preocupei
com ninguém
assim até agora
nunca pensei
que poderia cometer
tamanho erro
apaixonar-me
pela verdadeira rapariga
dos meus sonhos
Agora é demasiado tarde
o caçador foi apanhado
na armadilha
Dormes
com a minha alma
na tua boca
Quando nos beijamos
consigo sentir-lhe o sabor
Que o pensamento
de ficar sem ti
me passe pela cabeça
deixa-me passado
Nunca me preocupei
com ninguém
assim até agora
nunca pensei
que poderia cometer
tamanho erro
apaixonar-me
pela verdadeira rapariga
dos meus sonhos
Agora é demasiado tarde
o caçador foi apanhado
na armadilha
Dormes
com a minha alma
na tua boca
Quando nos beijamos
consigo sentir-lhe o sabor
(Versão minha a partir do original e da tradução espanhola de Blanca Tortajada reproduzidos em Back in America, Renacimiento, Sevilha, edição bilingue, 2011, p. 83).
quarta-feira, 8 de abril de 2020
Barry Gifford
O meu último soneto
Não sei se te lembras de mim,
sou o rapaz com quem dançaste
naquele piquenique comunista em Albarese
Estávamos tão apaixonados que não nos importámos nada
com a música foleira, nem com o tempo ou a roupa colada
aos nossos corpos pelo suor enquanto girávamos
Os teus irmãos, as suas mulheres e filhos
pareciam extasiados connosco, com o modo como dançávamos,
como éramos felizes -
O que aconteceu, meu amor?
Como nos despenhámos?
Sinto-me como Ícaro, sem asas
afundando-se no mar debaixo do peso terrível
do coração do seu pai
Não sei se te lembras de mim,
sou o rapaz com quem dançaste
naquele piquenique comunista em Albarese
Estávamos tão apaixonados que não nos importámos nada
com a música foleira, nem com o tempo ou a roupa colada
aos nossos corpos pelo suor enquanto girávamos
Os teus irmãos, as suas mulheres e filhos
pareciam extasiados connosco, com o modo como dançávamos,
como éramos felizes -
O que aconteceu, meu amor?
Como nos despenhámos?
Sinto-me como Ícaro, sem asas
afundando-se no mar debaixo do peso terrível
do coração do seu pai
(Versão minha a partir do original e da tradução de Blanca Tortajada reproduzidos em Back in America, Renacimiento, Sevilha, edição bilingue, 2011, p. 89).
quinta-feira, 14 de novembro de 2019
Jordi Llané-Lligé
O martelo
Golpeias-me o dedo com um martelo.
Por que me golpeias com um martelo?
Dás-me marteladas nos dentes.
Por que me dá marteladas nos dentes?
Dás-me uma pancada com um martelo na cabeça.
Por que me dás uma pancada com um martelo na cabeça?
Não me golpeies os olhos com um martelo.
Por que me golpeias os olhos com um martelo?
Golpeias-me o dedo com um martelo.
Por que me golpeias com um martelo?
Dás-me marteladas nos dentes.
Por que me dá marteladas nos dentes?
Dás-me uma pancada com um martelo na cabeça.
Por que me dás uma pancada com um martelo na cabeça?
Não me golpeies os olhos com um martelo.
Por que me golpeias os olhos com um martelo?
(Versão minha a partir da versão espanhola incluída em La escritura plural - Antología actual de poesía española; selecção, notas e apresentação de Fulgencio Martínez, Ars Poetica, Oviedo, 2019, p. 92).
sábado, 7 de setembro de 2019
Francisco Díaz de Castro
Os cachimbos
Com o passar do tempo a experiência impõe
a crescente e estranha sensação
de que só existe aquilo que desejas.
Não alimentes ilusões, que assustam qualquer mudança
ou novidade que o futuro proponha.
Basta ter o controlo das situações.
Até deixas de ser coleccionador.
Para dar um exemplo convincente,
dás por terminada a colecção de cachimbos.
Todo aquele que fuma com cachimbo,
ainda que vá ampliando o repertório,
torna-se assíduo dos mais batidos.
Os cachimbos de verniz intacto
são sempre imprevisíveis
na hora de os atacar:
nem a dimensão, nem a forma, nem o desenho
permitem saber como vão reagir.
Por isso o costume recomenda,
para que não te amargue o seu sabor,
que não te esforces em demasia,
concentra-te nuns poucos que sejam suficientes,
prepara-os como deve ser, ajeita-os à tua boca.
Em silêncio fez-se um pacto com eles.
Deixam-te pensar enquanto vão consumindo
a mistura que se conjuga com cada um.
Sabes como respiram, conheces os seus caprichos
e o aroma que emanam enquanto os usas.
Para a intimidade prefiro os de urze:
os de espuma do mar deslumbram-nos
mas são mais frios e tendem a apagar-se.
Os cachimbos bem tratados permitem-te
uma promiscuidade que não os danifica
se souberes alterná-los na medida certa.
Acaricias tranquilo as suas curvas conhecidas,
respondem às tuas mãos com calor,
olham-te com os seus olhos
queimados pelo fogo que alimentas,
e entregam-te em cânticos as suas almas que crepitam.
Estão todos marcados pelos teus dentes.
Ao acendê-los cada um pede-te
a força de sucção de que necessita
para ser feliz. E quando morreres
ninguém te substitui:
os cachimbos dos mortos não se fumam.
Com o passar do tempo a experiência impõe
a crescente e estranha sensação
de que só existe aquilo que desejas.
Não alimentes ilusões, que assustam qualquer mudança
ou novidade que o futuro proponha.
Basta ter o controlo das situações.
Até deixas de ser coleccionador.
Para dar um exemplo convincente,
dás por terminada a colecção de cachimbos.
Todo aquele que fuma com cachimbo,
ainda que vá ampliando o repertório,
torna-se assíduo dos mais batidos.
Os cachimbos de verniz intacto
são sempre imprevisíveis
na hora de os atacar:
nem a dimensão, nem a forma, nem o desenho
permitem saber como vão reagir.
Por isso o costume recomenda,
para que não te amargue o seu sabor,
que não te esforces em demasia,
concentra-te nuns poucos que sejam suficientes,
prepara-os como deve ser, ajeita-os à tua boca.
Em silêncio fez-se um pacto com eles.
Deixam-te pensar enquanto vão consumindo
a mistura que se conjuga com cada um.
Sabes como respiram, conheces os seus caprichos
e o aroma que emanam enquanto os usas.
Para a intimidade prefiro os de urze:
os de espuma do mar deslumbram-nos
mas são mais frios e tendem a apagar-se.
Os cachimbos bem tratados permitem-te
uma promiscuidade que não os danifica
se souberes alterná-los na medida certa.
Acaricias tranquilo as suas curvas conhecidas,
respondem às tuas mãos com calor,
olham-te com os seus olhos
queimados pelo fogo que alimentas,
e entregam-te em cânticos as suas almas que crepitam.
Estão todos marcados pelos teus dentes.
Ao acendê-los cada um pede-te
a força de sucção de que necessita
para ser feliz. E quando morreres
ninguém te substitui:
os cachimbos dos mortos não se fumam.
(Versão minha, dedicada a Miguel Martins; poema incluído no volume antológico Centuria. Cien años de poesía en español; A.A.V.V., 3ª edição, Visor, Madrid, pp. 112-113).
sábado, 24 de agosto de 2019
Aurora Luque
Data de validade
Em trajes de junho
a vida mostrava-se quase dócil
entre toalhas verdes e amarelas,
a licra luminosa partilhando
fronteiras com a pele. O odor a mar sereno
e a preguiça cúmplice
de ondas e banhistas, um convite para nos afundarmos
nessas lantejoulas brilhantes da água
ou nas selvas pintadas nos fatos de banho,
para desfazermos o véu finíssimo do sal
duns ombros próximos
e adiarmos a noite e a sua aventura.
Parecia a vida um puro litoral
mas uma sombra avançou:
ao apagar com saliva o sal da manhã
pude ver a inscrição junto à omoplata:
FRUTA PERECÍVEL. Consumir
de preferência agora. O produto altera-se facilmente,
antes dos desejos. Não se admitem
reclamações.
Em trajes de junho
a vida mostrava-se quase dócil
entre toalhas verdes e amarelas,
a licra luminosa partilhando
fronteiras com a pele. O odor a mar sereno
e a preguiça cúmplice
de ondas e banhistas, um convite para nos afundarmos
nessas lantejoulas brilhantes da água
ou nas selvas pintadas nos fatos de banho,
para desfazermos o véu finíssimo do sal
duns ombros próximos
e adiarmos a noite e a sua aventura.
Parecia a vida um puro litoral
mas uma sombra avançou:
ao apagar com saliva o sal da manhã
pude ver a inscrição junto à omoplata:
FRUTA PERECÍVEL. Consumir
de preferência agora. O produto altera-se facilmente,
antes dos desejos. Não se admitem
reclamações.
(Versão minha; poema incluído em Fugitivos. Antología de la poesía española contemporánea, seleção e prólogo de Jesús Aguado, Fondo de Cultura Económica, Madrid, 2016, p. 72.)
sábado, 15 de junho de 2019
Enrique García-Maíquez
Versão
Estas linhas traduzem um poema
de autor desconhecido.
Uma música antiga, ouvida um dia
no carro, a caminho do trabalho,
ou a conversa em que falavam
de noivos umas raparigas tão jovens
que espiei sem querer, transido de nostalgia.
Ou talvez traduzam o sorriso
que salva uma manhã, ou as vozes
que nos ferem nos sonhos, ou uma paisagem,
ou uma história esquecida... É um poema
incerto de autor desconhecido este que estas linhas
traduzem desajeitadamente com recurso
a um dicionário obscuro.
A sua língua original foi a do fogo
e nunca ninguém alcançou uma versão exacta.
(Versão minha; original reproduzido em Con el tiempo; Renacimiento, Sevilha, 2010, p. 41).
Estas linhas traduzem um poema
de autor desconhecido.
Uma música antiga, ouvida um dia
no carro, a caminho do trabalho,
ou a conversa em que falavam
de noivos umas raparigas tão jovens
que espiei sem querer, transido de nostalgia.
Ou talvez traduzam o sorriso
que salva uma manhã, ou as vozes
que nos ferem nos sonhos, ou uma paisagem,
ou uma história esquecida... É um poema
incerto de autor desconhecido este que estas linhas
traduzem desajeitadamente com recurso
a um dicionário obscuro.
A sua língua original foi a do fogo
e nunca ninguém alcançou uma versão exacta.
(Versão minha; original reproduzido em Con el tiempo; Renacimiento, Sevilha, 2010, p. 41).
segunda-feira, 27 de maio de 2019
Juan Manuel Bonet
Janelas sobre o Vltava
O vento arrasta o céu. A chuva
molha. Ao longe bate uma persiana esquecida.
O rádio dá notícias sobre as cinzas
da Europa. A água ferve sobre o fogo.
A rosa desfolha-se. O limpa-chaminés
não veio. Tenho de comprar um disco
de blues. Escreveram-me uma carta
anunciando-me que morreu, ultramarino,
Vicente Huidobro. Os meus antigos amigos
ameaçam expulsar-me desta casa fria. Oxalá
possa escrever alguns versos menos maus, que digam
todo o horror e toda a doçura
de viver nesta cidade, neste tempo
de suspeitas, de mentiras,
de forcas levantadas por aqueles
que quisemos ver no Castelo.
Oxalá um dia se editem,
nesta cidade, estes versos, e se tornem
incompreensíveis.
O vento arrasta o céu. A chuva
molha. Ao longe bate uma persiana esquecida.
O rádio dá notícias sobre as cinzas
da Europa. A água ferve sobre o fogo.
A rosa desfolha-se. O limpa-chaminés
não veio. Tenho de comprar um disco
de blues. Escreveram-me uma carta
anunciando-me que morreu, ultramarino,
Vicente Huidobro. Os meus antigos amigos
ameaçam expulsar-me desta casa fria. Oxalá
possa escrever alguns versos menos maus, que digam
todo o horror e toda a doçura
de viver nesta cidade, neste tempo
de suspeitas, de mentiras,
de forcas levantadas por aqueles
que quisemos ver no Castelo.
Oxalá um dia se editem,
nesta cidade, estes versos, e se tornem
incompreensíveis.
[por volta de 1949]
(Versão minha; original reproduzido em Via Labirinto - Poesía (1978-2015), La Veleta, Granada, 2015, p. 130).
sexta-feira, 17 de maio de 2019
Ron Padgett
Estruturas sintácticas
Foi como se
enquanto conduzia por uma estrada poeirenta de uma só faixa
com altos pinheiros dos dois lados
a paisagem tivesse uma sintaxe
idêntica à da nossa língua
e à medida que me movia
uma longa frase estivesse a ser dita
do lado direito e outra do lado esquerdo
então pensei
Talvez a paisagem
possa compreender também aquilo que eu digo.
Mais à frente havia uma casa numa quinta
com crianças a brincar à beira da estrada
pelo que abrandei
e acenei-lhes.
Elas eram ainda suficientemente pequenas
para sorrirem e devolverem o aceno.
Foi como se
enquanto conduzia por uma estrada poeirenta de uma só faixa
com altos pinheiros dos dois lados
a paisagem tivesse uma sintaxe
idêntica à da nossa língua
e à medida que me movia
uma longa frase estivesse a ser dita
do lado direito e outra do lado esquerdo
então pensei
Talvez a paisagem
possa compreender também aquilo que eu digo.
Mais à frente havia uma casa numa quinta
com crianças a brincar à beira da estrada
pelo que abrandei
e acenei-lhes.
Elas eram ainda suficientemente pequenas
para sorrirem e devolverem o aceno.
(Versão minha; original reproduzido em Alone and not alone, Coffee House Press, Minneapolis, 2015, p. 64).
sábado, 27 de abril de 2019
Ron Padgett
Os números romanos
Multiplicar deve ter sido
bem complicado para os Romanos
- não me refiro à acção de se reproduzirem
mas ao campo da computação.
Pensa num número romano
por um instante, um dos grandes
como MDCCLIX. Repara
nas colunas, nas arcadas
e nas arquitraves: não podes movê-las,
mas são tão belas e
majestosas! Tenta, no entanto, multiplicar
MDCCCLXIV por MCCLVIII.
Como é que eles faziam?
Pus esta questão há uns anos
e nunca encontrei uma resposta
pois nunca a procurei,
mas é agradável
viver com uma questão deste género.
Talvez os Romanos não fossem bons a matemática,
ao contrário dos Árabes, que chegaram
com carradas de números, suficientes
para toda a gente. Ainda hoje temos
mais do que aqueles de que precisamos.
Eu tenho um 6 e um 7 que,
postos lado a lado, formam a minha idade.
Pensando bem,
preferia ter LXVII.
Multiplicar deve ter sido
bem complicado para os Romanos
- não me refiro à acção de se reproduzirem
mas ao campo da computação.
Pensa num número romano
por um instante, um dos grandes
como MDCCLIX. Repara
nas colunas, nas arcadas
e nas arquitraves: não podes movê-las,
mas são tão belas e
majestosas! Tenta, no entanto, multiplicar
MDCCCLXIV por MCCLVIII.
Como é que eles faziam?
Pus esta questão há uns anos
e nunca encontrei uma resposta
pois nunca a procurei,
mas é agradável
viver com uma questão deste género.
Talvez os Romanos não fossem bons a matemática,
ao contrário dos Árabes, que chegaram
com carradas de números, suficientes
para toda a gente. Ainda hoje temos
mais do que aqueles de que precisamos.
Eu tenho um 6 e um 7 que,
postos lado a lado, formam a minha idade.
Pensando bem,
preferia ter LXVII.
(Versão minha a partir do original publicado em Alone and not alone, Coffee Houese Press, Minneapolis, 2015, pp. 2-3).
segunda-feira, 22 de abril de 2019
Abbas Kiarostami
(...)
XL
As flores silvestres
ninguém as cheirou
ninguém as colheu
ninguém as vendeu
ninguém as comprou
(...)
LXIII
Por negligência
cruzaram-se
duas linhas paralelas
(...)
CX
Só
o cavalo de bronze
não atira ao chão
o seu cavaleiro
(...)
CXL
Não sabia ler
nem escrever
mas dizia coisas
que eu nunca havia lido
nem ninguém havia escrito
(...)
CXLII
No dicionário
à frente da palavra "nada"
naturalmente
tem de estar escrito
"nada"
(...)
CLI
Reunião
de hortaliças
no mercado da fruta
(...)
CLVI
O glorioso dia do nascimento
o amargo dia da morte
entre ambos alguns dias
(...)
CCVI
Quando no meu bolso não tenho nada
tenho poemas
quando no frigorífico não tenho nada
tenho poemas
quando no coração não tenho nada
nada tenho
(...)
XL
As flores silvestres
ninguém as cheirou
ninguém as colheu
ninguém as vendeu
ninguém as comprou
(...)
LXIII
Por negligência
cruzaram-se
duas linhas paralelas
(...)
CX
Só
o cavalo de bronze
não atira ao chão
o seu cavaleiro
(...)
CXL
Não sabia ler
nem escrever
mas dizia coisas
que eu nunca havia lido
nem ninguém havia escrito
(...)
CXLII
No dicionário
à frente da palavra "nada"
naturalmente
tem de estar escrito
"nada"
(...)
CLI
Reunião
de hortaliças
no mercado da fruta
(...)
CLVI
O glorioso dia do nascimento
o amargo dia da morte
entre ambos alguns dias
(...)
CCVI
Quando no meu bolso não tenho nada
tenho poemas
quando no frigorífico não tenho nada
tenho poemas
quando no coração não tenho nada
nada tenho
(...)
(Tradução minha a partir de El viento y la hoja, tradução castelhana de Ahmad Taherí e de Clara Janés; prólogo de Santos Zunzunegui; Salto de Página, 2015).
sábado, 20 de abril de 2019
Víctor Botas
"A fragrância desnuda..."
A fragrância desnuda
do íntimo crepúsculo, nas tardes
dolentes do jardim (nunca o esqueças),
deve-se, mais do que tudo,
ao facto de um homem vulgar
ter aqui posto, um dia,
o esterco necessário.
A fragrância desnuda
do íntimo crepúsculo, nas tardes
dolentes do jardim (nunca o esqueças),
deve-se, mais do que tudo,
ao facto de um homem vulgar
ter aqui posto, um dia,
o esterco necessário.
(Versão minha a partir do original castelhano incluído em Poesía completa, La Isla de Siltolá, Sevilha, 2012, p. 38).
sábado, 19 de janeiro de 2019
Mary Oliver
Cavalos azuis, de Franz Marc
Passo para dentro do quadro dos quatro cavalos azuis.
Não chego a espantar-me por conseguir fazê-lo.
Um dos cavalos avança na minha direção.
O seu nariz azul fareja-me levemente. Ponho o meu braço
em volta da sua crina azul, não para o prender, apenas para nos ligarmos.
Ele permite-me esse prazer.
Franz Marc morreu jovem, o cérebro rebentado pela metralha.
Eu havia de preferir morrer a ter de explicar o que é a guerra aos cavalos azuis.
Eles tombariam desfalecidos, tomados pelo horror, ou simplesmente não acreditariam nas minhas palavras.
Não sei como posso agradecer-lhe, Franz Marc.
Talvez o nosso mundo possa tornar-se um dia mais bondoso.
Talvez o desejo de criar algo de maravilhoso seja a semente de Deus que existe em cada um de nós.
Agora os quatro cavalos aproximam-se ainda mais, inclinam as cabeças sobre mim como se tivessem segredos a revelar.
Não espero que me falem, e eles não o fazem.
Se serem belos como são não é suficiente, o que poderiam eles dizer?
(versão minha; original reproduzido em Devotions, Peguin Press, Nova Iorque, 2017, p.21).
Passo para dentro do quadro dos quatro cavalos azuis.
Não chego a espantar-me por conseguir fazê-lo.
Um dos cavalos avança na minha direção.
O seu nariz azul fareja-me levemente. Ponho o meu braço
em volta da sua crina azul, não para o prender, apenas para nos ligarmos.
Ele permite-me esse prazer.
Franz Marc morreu jovem, o cérebro rebentado pela metralha.
Eu havia de preferir morrer a ter de explicar o que é a guerra aos cavalos azuis.
Eles tombariam desfalecidos, tomados pelo horror, ou simplesmente não acreditariam nas minhas palavras.
Não sei como posso agradecer-lhe, Franz Marc.
Talvez o nosso mundo possa tornar-se um dia mais bondoso.
Talvez o desejo de criar algo de maravilhoso seja a semente de Deus que existe em cada um de nós.
Agora os quatro cavalos aproximam-se ainda mais, inclinam as cabeças sobre mim como se tivessem segredos a revelar.
Não espero que me falem, e eles não o fazem.
Se serem belos como são não é suficiente, o que poderiam eles dizer?
(versão minha; original reproduzido em Devotions, Peguin Press, Nova Iorque, 2017, p.21).
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Ron Padgett
O poeta como pássaro imortal
Há coisa de segundos o meu coração foi-se abaixo
e eu pensei, "Eis uma péssima altura
para se ter um ataque cardíaco e morrer, a
meio de um poema", depois senti-me confortado
pensando que nunca ninguém a quem eu tenha dado ouvidos
alguma vez morreu a meio da escrita
de um poema, tal como os pássaros nunca morrem em pleno voo.
Acho eu.
(Versão minha; original aqui).
Há coisa de segundos o meu coração foi-se abaixo
e eu pensei, "Eis uma péssima altura
para se ter um ataque cardíaco e morrer, a
meio de um poema", depois senti-me confortado
pensando que nunca ninguém a quem eu tenha dado ouvidos
alguma vez morreu a meio da escrita
de um poema, tal como os pássaros nunca morrem em pleno voo.
Acho eu.
(Versão minha; original aqui).
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
Terri Kirby Erickson
Milton, o meu primo
Milton, o meu primo, trabalhou numa empresa de telecomunicações.
O rapaz que eu conheci quando éramos crianças
mostrava muitas vezes os punhos cerrados, o rosto com o aspecto
de um homem velho cuja vida foi tão dura
que o endureceu. Mas as mãos do homem abriram-se para acolher
mais mundo dentro de si. Ele enviava os cartões de Natal
mais divertidos para a família e os amigos, estendendo
cabos para que outros pudessem conectar-se. Porém,
viveu sozinho, isolando-se na maior parte do tempo, de tal forma
que, quando a sua irmã encontrou o seu corpo, já ele tinha
partido há muito. Morreu novo, aos cinquenta e sete, sem
espalhafato nem incómodo. Ninguém junto ao seu leito
ou dando-lhe sopa à boca. Limitou-se a ficar estendido como
um cabo que deixa o sinal passar através dele.
(Versão minha; original aqui).
Milton, o meu primo, trabalhou numa empresa de telecomunicações.
O rapaz que eu conheci quando éramos crianças
mostrava muitas vezes os punhos cerrados, o rosto com o aspecto
de um homem velho cuja vida foi tão dura
que o endureceu. Mas as mãos do homem abriram-se para acolher
mais mundo dentro de si. Ele enviava os cartões de Natal
mais divertidos para a família e os amigos, estendendo
cabos para que outros pudessem conectar-se. Porém,
viveu sozinho, isolando-se na maior parte do tempo, de tal forma
que, quando a sua irmã encontrou o seu corpo, já ele tinha
partido há muito. Morreu novo, aos cinquenta e sete, sem
espalhafato nem incómodo. Ninguém junto ao seu leito
ou dando-lhe sopa à boca. Limitou-se a ficar estendido como
um cabo que deixa o sinal passar através dele.
(Versão minha; original aqui).
terça-feira, 31 de julho de 2018
Elmer Diktonius
Aforismos
(...)
Num homem a nacionalidade não é mais do que os restos de merda que pisou.
Homens, lavai os pés!
Aquele que não sente o odor da podridão hedionda desta sociedade já tem a podridão instalada no seu próprio nariz.
Não vêem que este neste mundo a verdade se converteu em luz artificial e a mentira em obscuridade natural.
Atirar borda fora tudo o que é velho não é ainda criar algo de novo. Mas significa estar no bom caminho.
Para que os críticos não esqueçam:
todas as verdades são verdades temporais: nascem, vivem e morrem.
Mas, apesar de tudo, há uma verdade eterna, uma lei eterna.
E diz assim: é a juventude que cria as verdades temporais.
Agarrei a força na minha mão.
Amei a força.
Nasceram aforismos.
Não sou um pensador, muito menos um filósofo (não quero apodos para um cavalo selvagem!).
Um homem: um coração e um cérebro.
Vivi e vi.
(...)
Num homem a nacionalidade não é mais do que os restos de merda que pisou.
Homens, lavai os pés!
Aquele que não sente o odor da podridão hedionda desta sociedade já tem a podridão instalada no seu próprio nariz.
Não vêem que este neste mundo a verdade se converteu em luz artificial e a mentira em obscuridade natural.
Atirar borda fora tudo o que é velho não é ainda criar algo de novo. Mas significa estar no bom caminho.
Para que os críticos não esqueçam:
todas as verdades são verdades temporais: nascem, vivem e morrem.
Mas, apesar de tudo, há uma verdade eterna, uma lei eterna.
E diz assim: é a juventude que cria as verdades temporais.
Agarrei a força na minha mão.
Amei a força.
Nasceram aforismos.
Não sou um pensador, muito menos um filósofo (não quero apodos para um cavalo selvagem!).
Um homem: um coração e um cérebro.
Vivi e vi.
(Versão minha a partir da tradução castelhana Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses, Libros del Innombrable, Saragoça, 2014, pp. 60-64).
sábado, 21 de julho de 2018
Elmer Diktonius
Aforismos
(...)
A vós, artistas futuros, desejo-vos que tenhais um certo tipo de audácia: a revolucionária.
Aquela que vos faça preferir o salto mortal em busca de um sistema de valores desconhecido em vez de ficarem sentados na terra num lodo que fede a velho.
Não sei se é uma vergonha ou uma glória imperecível, mas é assim: são os escravos que criam as maiores canções de libertação.
Uma ferida que arde:
que a maioria dos artistas revolucionários em matéria de arte seja em relação às grandes questões do seu tempo conservadora; e que a maioria dos revolucionários nas questões do seu tempo seja conservadora na sua relação com a arte.
O mundo quer dormir.
Os artistas, os investigadores e os trabalhadores mantêm-no desperto.
Para que serve a filosofia se tudo gira em volta do estômago ou da parte inferior do ventre feminino!
Para os pequenos tudo é delírio de grandeza.
Só os pássaros domésticos têm ânsias. Os selvagens voam.
Escrevo porque sou débil.
Melhor seria arranjar um machado e avançar pelo mundo às cutiladas.
(...)
(...)
A vós, artistas futuros, desejo-vos que tenhais um certo tipo de audácia: a revolucionária.
Aquela que vos faça preferir o salto mortal em busca de um sistema de valores desconhecido em vez de ficarem sentados na terra num lodo que fede a velho.
Não sei se é uma vergonha ou uma glória imperecível, mas é assim: são os escravos que criam as maiores canções de libertação.
Uma ferida que arde:
que a maioria dos artistas revolucionários em matéria de arte seja em relação às grandes questões do seu tempo conservadora; e que a maioria dos revolucionários nas questões do seu tempo seja conservadora na sua relação com a arte.
O mundo quer dormir.
Os artistas, os investigadores e os trabalhadores mantêm-no desperto.
Para que serve a filosofia se tudo gira em volta do estômago ou da parte inferior do ventre feminino!
Para os pequenos tudo é delírio de grandeza.
Só os pássaros domésticos têm ânsias. Os selvagens voam.
Escrevo porque sou débil.
Melhor seria arranjar um machado e avançar pelo mundo às cutiladas.
(...)
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses, Libros del Innombrable, 2014, Saragoça, pp. 60-63).
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Elmer Diktonius
Aforismos
(…)
Eu não responsabilizo unicamente a sociedade actual pela humilhante situação em que se encontra a arte.
São os próprios artistas que têm a maior parte da culpa de todos os males da arte.
Por não derrubarem este manicómio.
Por não morderem - ainda que tenham dentes.
O público não entende bem a arte - e diz disparates ou sente-se mal.
Os estetas não a entendem - e escrevem livros sobre ela.
Portanto: muito mais perigosos.
Exigir a um artista que faça uma arte nacional é como exigir-lhe uma arte dourada ou acastanhada de acordo com a cor do seu cabelo.
Estilo, técnica - asas para voar.
Muitos dos que voam nas alturas são só asas.
Vós, artistas do futuro - vendei as asas e comprai antes umas boas botas, assim podereis caminhar com passo firme pela escabrosa superfície da terra.
Sede mais terrenos, assim os vossos cantos soarão mais celestiais!
Não é a arte que se deve popularizar.
É a necessidade da arte que se deve tornar popular.
(…)
(…)
Eu não responsabilizo unicamente a sociedade actual pela humilhante situação em que se encontra a arte.
São os próprios artistas que têm a maior parte da culpa de todos os males da arte.
Por não derrubarem este manicómio.
Por não morderem - ainda que tenham dentes.
O público não entende bem a arte - e diz disparates ou sente-se mal.
Os estetas não a entendem - e escrevem livros sobre ela.
Portanto: muito mais perigosos.
Exigir a um artista que faça uma arte nacional é como exigir-lhe uma arte dourada ou acastanhada de acordo com a cor do seu cabelo.
Estilo, técnica - asas para voar.
Muitos dos que voam nas alturas são só asas.
Vós, artistas do futuro - vendei as asas e comprai antes umas boas botas, assim podereis caminhar com passo firme pela escabrosa superfície da terra.
Sede mais terrenos, assim os vossos cantos soarão mais celestiais!
Não é a arte que se deve popularizar.
É a necessidade da arte que se deve tornar popular.
(…)
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses; Libros del Innombrable, 2014, saragoça, pp. 60-63).
terça-feira, 17 de julho de 2018
Elmer Diktonius
Aforismos
Não se deve procurar um substituto da vida na arte.
A arte não é um sucedâneo: é a vida viva.
Uma parte da vida.
Talvez a maior, a mais esplendorosa.
De qualquer modo: só uma parte.
Se o sentido da arte fosse o de nos adormecer, de nos fazer olvidar a vida, então a melhor obra de arte, a mais simples, seria uma martelada na cabeça.
Para estar viva, uma obra de arte não precisa de beleza; nem de fealdade.
Precisa de vida.
Chegar à arte pelo caminho dos estetas é contentar-se com ossos roídos. (E até que ponto roídos!)
Tu, homem, se tens dentes, morde!
(O grande não é para os desdentados.)
A única forma de falar de arte é falar com arte - criar.
Por que tem de vender o artista a sua arte?
Para poder viver.
Por que tem o público de comprá-la?
Para poder viver.
(...)
Não se deve procurar um substituto da vida na arte.
A arte não é um sucedâneo: é a vida viva.
Uma parte da vida.
Talvez a maior, a mais esplendorosa.
De qualquer modo: só uma parte.
Se o sentido da arte fosse o de nos adormecer, de nos fazer olvidar a vida, então a melhor obra de arte, a mais simples, seria uma martelada na cabeça.
Para estar viva, uma obra de arte não precisa de beleza; nem de fealdade.
Precisa de vida.
Chegar à arte pelo caminho dos estetas é contentar-se com ossos roídos. (E até que ponto roídos!)
Tu, homem, se tens dentes, morde!
(O grande não é para os desdentados.)
A única forma de falar de arte é falar com arte - criar.
Por que tem de vender o artista a sua arte?
Para poder viver.
Por que tem o público de comprá-la?
Para poder viver.
(...)
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz, incluída em Cinco poetas finlandeses, Libros del Innombrable, 2014, Saragoça, pp. 60-63).
domingo, 15 de julho de 2018
Henry Parland
"Tenho o costume de comer..."
Tenho o costume de comer.
Contra ele talvez
alguém objecte que todos os homens.
Mas é isso uma objecção?
Tenho o costume de comer.
Contra ele talvez
alguém objecte que todos os homens.
Mas é isso uma objecção?
(Versão minha a partir da tradução castelhana de Francisco J. Uriz inckuída em Cinco poetas finlandeses; Libros del Innombrable, 2014, Saragoça, p. 208).
terça-feira, 29 de maio de 2018
Gloria Fuertes
"... e em Castela vejo uma árvore"
... e em Castela vejo uma árvore
e parece que vejo alguém da minha família.
(Versão minha; poema incluído em Obras incompletas, Catedra, Madrid, 24ª edição, 2017, p. 295).
... e em Castela vejo uma árvore
e parece que vejo alguém da minha família.
(Versão minha; poema incluído em Obras incompletas, Catedra, Madrid, 24ª edição, 2017, p. 295).
sábado, 28 de abril de 2018
Eduardo Chirinos
8
Uma formiga carrega com esforço
uma folha.
A folha é enorme
e multiplica o seu tamanho. Trata-se
de um dever inevitável, de uma
obediência atávica.
Atrás dela
formigas idênticas carregam folhas
idênticas. Amanhã repetirão o ritual,
a sua razão de ser que ignoro.
Em breve cumprirei cinquenta anos.
Penso na formiga.
Na sua dança cega até à morte.
Uma formiga carrega com esforço
uma folha.
A folha é enorme
e multiplica o seu tamanho. Trata-se
de um dever inevitável, de uma
obediência atávica.
Atrás dela
formigas idênticas carregam folhas
idênticas. Amanhã repetirão o ritual,
a sua razão de ser que ignoro.
Em breve cumprirei cinquenta anos.
Penso na formiga.
Na sua dança cega até à morte.
(Versão minha; original reproduzido em Antología - La poesia del siglo XX en Perú; seleção de José Miguel Oviedo; Visor, Madrid, 2008, p. 678.)
domingo, 22 de abril de 2018
Miguel d' Ors
"À une passante"
Vê como é gorda e vulgar! E que saia!
De certeza que se chama Beta ou Xana
(não serás baço ao ponto de a imaginares Jénnifer).
De certeza que segue todas as novelas.
De certeza que diz tipo - e com a pastilha elástica
a assomar por entre cada parvoíce.
Cabeleireira ou caixa, muito sincera,
moderna com o seu piercing,
coscuvilheira, devota de Nossa Senhora de Fátima
e doida por "sair": todos os requisitos
da mulher com que sempre sonhaste
nos teus pesadelos mais negros.
E,
no entanto - confessa - por um instante, só
o tempo de um clarão,
algo dentro de ti sente inveja: essa
mão apoiada no seu ombro,
a mão desse namorado de bairro social,
também rasa e grosseira, habituada ao tijolo
e ao maçarico, essa mão que, apesar de tudo, tu
sabes que, à sua maneira, é o Amor.
28-IV-06
(Versão minha; poema do livro Sociedad limitada, Renacimiento, Sevilha, 2010, p. 55).
Vê como é gorda e vulgar! E que saia!
De certeza que se chama Beta ou Xana
(não serás baço ao ponto de a imaginares Jénnifer).
De certeza que segue todas as novelas.
De certeza que diz tipo - e com a pastilha elástica
a assomar por entre cada parvoíce.
Cabeleireira ou caixa, muito sincera,
moderna com o seu piercing,
coscuvilheira, devota de Nossa Senhora de Fátima
e doida por "sair": todos os requisitos
da mulher com que sempre sonhaste
nos teus pesadelos mais negros.
E,
no entanto - confessa - por um instante, só
o tempo de um clarão,
algo dentro de ti sente inveja: essa
mão apoiada no seu ombro,
a mão desse namorado de bairro social,
também rasa e grosseira, habituada ao tijolo
e ao maçarico, essa mão que, apesar de tudo, tu
sabes que, à sua maneira, é o Amor.
28-IV-06
(Versão minha; poema do livro Sociedad limitada, Renacimiento, Sevilha, 2010, p. 55).
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